sábado, 23 de março de 2013

Papa Francisco



É significativo que o novo papa tenha falado tanto em perdão. Essa insistência coloca em dúvida a defesa que dele fazem diante das acusações de que teria colaborado com o regime militar argentino e com o sequestro de filhos dos militantes de esquerda, feitos prisioneiros uns e assassinados outros. Essas crianças, das quais roubaram a identidade, foram entregues a casais ligados ao sistema. Esse mesmo crime, com a hipócrita justificativa da caridade, foi também praticado pelos bispos espanhóis da Opus dei, durante o franquismo. Ao não conhecerem sua verdadeira origem, as vítimas dos sequestros se tornam filhos de si mesmos. Renegam, e com razão, os que os adotaram, e não têm onde ancorar o seu afeto. 
Qualquer seja a verdade, o papa foi eleito conforme as regras tradicionais, e não há poder na Terra que o destitua. As leis canônicas não prevêem o impeachment do bispo de Roma. Resta esperar que o novo pontífice – título vindo do sincretismo do catolicismo com o paganismo romano – erga realmente uma ponte entre o cristianismo primitivo, que era dos pobres, e o mundo moderno. Se isso ocorrer, os seus pecados, se os houve, esmaecerão, e ele cumprirá o seu dever de católico e de cristão. O perdão, ele só poderá obter de sua própria consciência, onde Deus costuma habitar, se nela houver lugar para essa presença.
O mais importante não é o passado do papa. Depois de Pio XII, Wojtyla e Ratzinger, de nítidos laços com os poderosos deste mundo, o que os verdadeiros cristãos esperam do papa é que ele seja fiel ao Evangelho e conduza a Igreja ao reencontro com o homem de Nazaré que, em sua vida, martírio e morte, encarnou toda a fragilidade da espécie humana. A grande lição de Cristo,  que a Igreja nunca assumiu, é a de que a vida só é alegria e paz na solidariedade para com os nossos semelhantes.
Quando dividimos as dores do sofrimento alheio, as nossas próprias dores se aliviam, e o trânsito por este “vale de lágrimas” se faz mais suportável.  A Igreja se associou aos poderosos de cada tempo e, como lhe era conveniente, manteve instituições de caridade. Como alguns ricos, ela consolou sua consciência com a esmola. Os primeiros a receber o título de santos foram homens poderosos, que compraram a santidade com as sobras de suas riquezas.
Ao escolher o nome de Francisco, e de confirmar que buscava no poverello de Assis a inspiração de seu pontificado, Bergoglio dá um sinal importante de seu propósito, ou de sua astúcia. Não sabemos se, sendo sincero, ele será capaz de escapar ao acosso conservador e oportunista da Cúria Romana. Cabe-lhe, na hipótese da sinceridade - como chefe de uma instituição política - por mais herege pareça o conselho, seguir a orientação de Maquiavel, e agir com maior energia logo no início, a fim de preservar o principado conquistado. Isso significa reformar, de alto abaixo, a administração do Vaticano, com a convocação de prelados do mundo inteiro, de forma a conter o apetite de poder do clero italiano,  identificado com a história peninsular, construída nas conhecidas intrigas políticas europeias.   
Os grandes líderes se legitimam na ação. Forma-se, até mesmo alimentado de esperança, o consenso de que a Igreja terá que demolir seus alicerces milaneses e retornar às catacumbas romanas, para que possa sobreviver. Seus pecados repetidos, da simonia à luxúria,  não a levaram ao Inferno, ainda que muitos de seus dirigentes tenham lá chegado, na visão profética de Dante. É da teologia prática que a contrição absolve os pecadores. Se Francisco conduzi-la ao caminho de Damasco, é possível que, como Paulo, ela se desfaça da cegueira voluntária e atenda ao chamado de Cristo. É possível, mas pouco provável.
 Mauro Santayana – 19/03/2013

domingo, 17 de março de 2013

Quando a anestesia passar, pode ser tarde demais...


Entrevista do Professor Ildo Sauer (*)
Data: 15/03/2013
Fonte: Correio da Cidadania
Autor: Valéria Nader e Gabriel Brito
http://www.aepet.org.br/site/uploads/noticias/thumbs/thumb_ILDO_SAUER.jpeg

Crédito: Francisco Emolo-Jornal da USP
ENTREVISTA DO PROFESSOR ILDO SAUER AO CORREIO DA CIDADANIA



Iniciado o terceiro ano de Dilma Rousseff à frente da República, o país encontra-se em uma considerável sinuca econômica. As reiteradas tentativas de fazer a economia decolar, referendando a ideia de que o Brasil não seria atingido pela crise mundial, seguem dando no muro, apesar dos cada vez mais robustos subsídios oferecidos pelo governo ao empresariado, nacional e internacional.
Para debater o atual cenário, o Correio da Cidadania entrevistou o engenheiro e professor da USP Ildo Sauer, ex-diretor de petróleo e gás da Petrobras e implacável crítico dos governos tucanos e petistas. com a respectiva metamorfose política do segundo grupo. Para ele, o atual momento retrata uma disputa “intercapitalista” entre os diversos grupos de apoio ao governo, subsidiada por bilhões de reais do BNDES, ávidos em conquistarem espaços nos mais diversos segmentos econômicos. “Os pacotes de subsídios certamente vão completar o processo que FHC não conseguiu terminar”, afirma.
Em uma análise mais estrutural, Sauer constata que os anos petistas no governo central promoveram a fusão de dois projetos nacionais colocados à mesa no século 20. Preservando a “bem vinda herança maldita de FHC”, de associação capitalista subordinada, Lula tentou também aplicar parte da visão cepalina, isto é, criar atores privados nacionais portentosos, a disputarem mercados e se tornarem hegemônicos em seu setor. Já a ideia de uma sociedade com “traços nitidamente socialistas”, um terceiro projeto que desde o século passado ronda a esquerda e que ajudou a embasar o Partido dos Trabalhadores, caiu no esquecimento.
Desse modo, aliado a um “complô midiático contra a inteligência nacional”, o governo tenta de todas as formas criar incentivos para que o atual projeto econômico mantenha seu fôlego e evite a crise social que está à espreita. Na visão de Sauer, o governo Dilma prossegue fiel aos paradigmas neoliberais e trata de “destruir tudo que ainda resta de capacidade de planejamento público”, o que se comprova numa desastrosa gestão do setor elétrico e na campanha de desmoralização da Petrobras. Tudo em nome dos interesses da enorme base de sua sustentação do governo.
Quanto aos sempre polêmicos debates energéticos, Sauer reafirma a ineficiência no planejamento. Sempre pautado pelos grupos privados que o patrocinam, o governo faz “populismo” no setor com dinheiro do Tesouro Nacional, sem tocar na enorme lucratividade privada. As estatais estão sendo levadas ao abismo sem gerar qualquer excedente econômico com destinação social. “Sob a ótica capitalista, o país vive em crise. Sob a ótica socialista, é um desastre”.
A entrevista completa com Ildo Luís Sauer pode ser conferida na íntegra a seguir.

Correio da Cidadania: Aqueles leitores que acompanham a conjuntura política, econômica e social têm se deparado com um cenário de muitas ambiguidades: por um lado, está uma grande parte dos interlocutores da grande mídia, acusando o atual governo Dilma de um aprofundamento inoportuno do ‘dirigismo’ estatal; de outra parte, há os defensores do atual acirramento daquela que seria uma visão e atuação mais ‘desenvolvimentista’ deste governo; e há ainda os que criticam esta que conformaria uma falsa dicotomia, vez que o atual governo pratica novas e mais sorrateiras formas de privatismo na economia. Como você, que participou do governo Lula e já trabalhou com Dilma, se posiciona neste debate?

Ildo Sauer: A pergunta é bastante arguta no sentido de posicionar o debate público e os conflitos que aparentemente estão na mídia. E posicionar outro debate, que não aparece. Em certa ocasião, afirmei que a grande questão do governo Lula foi que, ao acordarmos no meio de seu mandato, descobrimos que na verdade foi um governo de consolidação da hegemonia das relações sociais capitalistas, como forma de organizar a sociedade brasileira. Foi isso. Um partido que começou se proclamando socialista se converteu em fio condutor da consolidação definitiva, ou ao menos aprofundada, do capitalismo como relação social hegemônica para organizar a produção e a vida do país. No entanto, há um conflito intercapitalista neste processo. Num artigo recente, usei tal referência, pois discutia desenvolvimento, energia e recursos naturais. Discutindo o que seria desenvolvimento, usamos três referências teóricas de anos anteriores, muitas delas vinculadas à visão de mundo de Andre Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, Florestan Fernandes etc., em debates que vêm dos anos 50 e 60.
Vou tentar colocar nessa perspectiva: de um lado, a teoria inspirada em Gunder Frank, da dependência associada, também assinada por Fernando Henrique Cardoso, proclamando que nesses países, como o Brasil e os demais da América Latina, não haveria burguesia e estrutura produtiva organizada dentro dos moldes capitalistas, de modo que não haveria solução a não ser a associação ao capitalismo internacional. Simplificando, nada mais errado que proclamar a frase de FHC “esqueçam o que escrevi”. Ele fez o que escreveu. De fato, ele internacionalizou grandes setores da economia brasileira e promoveu privatizações selvagens. Não conseguiu completar o processo porque houve uma resistência popular, como no caso da Petrobras, e alguns fracassos rotundos, como o racionamento de energia de 2001. Mas começou pelo sistema bancário e financeiro, que não precisava ser privatizado por já estar entranhado – apenas mudaram as taxas de transferência de valor, a taxa de câmbio e os juros, a partir das quais se estrutura o sistema financeiro.

Na infraestrutura, as telecomunicações foram privatizadas no tapa, com o processo altamente contestado da Embratel; bancos estaduais foram privatizados; a Petrobras virou Petrobrax por um tempo, e também sofreu privatização. E tinha uma cunha. Até então, a Petrobras tinha sido criada para servir aos consumidores e também à criação da estrutura produtiva capitalista do Brasil. Porque fornecendo derivados para a circulação de pessoas e mercadorias, levando essa circulação de mercadorias por todos os cantos do país – conforme se permitiu com a indústria do petróleo e automotiva -, com integração ao sistema produtivo, a tendência era de que esse capitalismo comercial se desenvolvesse de modo cada vez mais subordinado à lógica financeira.
O sentido era a criação de um outro capitalismo no Brasil. O que se cria, no entanto, quando FHC tenta privatizar a Petrobras e não consegue (apesar de ter vendido boa parte das ações) é, de certa forma, um conflito intercapitalista. De um lado, os capitalistas nacionais, aqueles que se beneficiaram da ação do Estado, ou do fundo público, como dizia Chico de Oliveira, pra reduzir a reprodução da força de trabalho, com gasolina, transporte de alimentos e urbano mais baratos, além do insumo material, no que foram ajudados. Porém, de outro lado, ao vender as ações da Petrobras na bolsa de Nova York, o capital financeiro que comprou tais ações passou a cobrar cada vez mais lucro, de modo que exige uma Petrobras puramente capitalista, voltada ao interesse dos acionistas, não mais como um instrumento do Estado.
A visão Fernandiana, de tentar criar aqui uma burguesia e hegemonia capitalistas, caminhava nessa direção, dando ênfase ao capital financeiro internacional. Nem tanto no caso da Petrobras, que tem muitas nuances. Mas nas telecomunicações, em muitas áreas do saneamento, em bancos estaduais como Banespa e BANERJ... Tudo isso foi internacionalizado. Uma terra arrasada pra privatizar tudo, estradas, rodovias, hidrelétricas. Não conseguiram privatizar todas as elétricas por conta do racionamento de 2001 e da resistência dos movimentos sociais.
Correio da Cidadania: Ou seja, a era FHC mais que corroborou os estudos e inferências teóricas do presidente sociólogo, certo?
Ildo Sauer: Certíssimo. E é ao lado de tal constatação que está a primeira visão, que acabo de relatar. A segunda visão é a cepalina, que também entendia que um dos primeiros caminhos para a produção e desenvolvimento seria a criação de uma espécie de burguesia nas cadeias produtivas da América Latina e, especialmente, no Brasil. Porém, criando atores nacionais. Pautava-se na substituição de importações, pra gerar mercado e cadeias produtivas. Tal visão foi derrubada por Collor e Fernando Henrique imediatamente. Mas também se trata de uma visão que enxergava um desenvolvimento que, em sua primeira etapa, passaria necessariamente por uma estrutura capitalista de produção. Essas eram as duas visões hegemônicas.
Já a terceira visão, que se embasava na análise de Ruy Mauro Marini, mas teve muita expressão com Milton Santos e Florestan Fernandes, é a que deu origem a grande parte da inspiração ideológica que, pelo menos no discurso, estava por trás do PT. Significava o seguinte: não há estrutura capitalista consolidada no país, e desenvolvê-la não é necessário. Poderíamos ir direto a outras formas de construção de estruturas sociais, baseadas em outros valores e princípios, como a solidariedade, a fraternidade, a igualdade, algo cooperativo. Ou seja, uma estrutura nitidamente socialista. Era isso que estava na base de grande parte das tendências e grupos do partido, até pouco antes de chegarem ao poder. Embora já se vissem prefeituras, como a de Ribeirão Preto, São Paulo e outras, com exceção de Porto Alegre, onde essa visão já não era presente na prática. O Orçamento Participativo também fazia parte de tal visão. Assim, o PT era um misto em 2000 – quando, por exemplo, Marta chegou ao poder em São Paulo, Palocci já tinha ocupado o poder em Ribeirão Preto, e por lá já havia feito privatizações... Enfim, o PT já se encontrava em metamorfose.
A pá de cal sobre tal visão se deu com a Carta aos Brasileiros, de 2002, com o teatro de aparente contragosto do candidato Lula, pedindo ao líder Mercadante que a lesse. Um teatro ao qual assisti pessoalmente, quando também estava à mesa um Chico de Oliveira assombrado com o que se dizia, assim como muitos de nós. De qualquer maneira, com o entusiasmo da vitória eleitoral, parecia que se deixaria a Carta de lado, que tudo não passava de algo pra marcar uma relação garantidora de governabilidade, com o posterior retorno do velho discurso, que se tornaria prática. Porém, o tempo foi passando e viu-se, definitivamente, que a grande missão de Lula, no discurso e na prática, era abandonar essa terceira visão aqui mencionada.
E a metamorfose que Lula incorporou foi dupla. Assumiu e absorveu toda a herança de FHC da dependência associada, da hegemonia financeira no país, de setores privatizados, cujos objetivos são obviamente a acumulação mais rápida, na escala mais veloz possível, vinculada ao sistema financeiro internacional. Com os grupos econômicos presentes aqui e lá fora, através dessa rede de grandes empresas, variadas cadeias produtivas, da abertura no setor petróleo e em outros mais.
Tanto no governo FHC como no governo Lula, o debate privatizar empresas versus abertura do espaço econômico parece colocar posições diferentes. E existem mesmo diferentes posições. Porém, não privatizar a Petrobras e, ao mesmo tempo, entregar os campos onde é possível encontrar petróleo ao sistema financeiro internacional é tão grave quanto privatizá-la. Não privatizar a Eletrobras, mas deixá-la eunuca, incapaz, tornando-a praticamente inoperante, pra manter o velho discurso, tem o mesmo efeito econômico que entregar todas as hidrelétricas e o espaço das eólicas. O governo Lula fez esse hibridismo, de manter a herança que no discurso era maldita, mas bem-vinda na prática, agora aprofundada em todas as formas de organizar e gerir empresas estatais, num modelo de subordinação, deixando-as associadas a grandes empresas multinacionais. E também brasileiras – a grande novidade do Lula.
Correio da Cidadania: E quem são, a seu ver, estas ‘brasileiras, a grande novidade de Lula’?

Ildo Sauer: A Petrobras, por pressão interna, foi obrigada a se associar aos grupos internacionais na exploração do petróleo, o que foi mantido nos anos Lula. Houve uma tentativa de vários grupos, de dentro da Petrobras, de reverter o processo. Mas a pressão de Brasília, comandada pela então ministra de Minas e Energia, era na direção contrária. O que Lula e seu governo, em síntese, fizeram? Mantiveram esse sistema, de interesses claros e definidos, ainda que em contradição, e incorporaram os conflitos ao governo. De outro lado, resolveu recuperar parte do discurso cepalino, e criar atores nacionais. E aí aparece algo interessante, notável, sutil: o discurso (de Lula em 2003) era fortalecer e criar tais atores, pois “se há multinacionais no Brasil, temos de criar as nossas”. E quem seriam as candidatas? Havia a Petrobras, mas o grosso eram as empreiteiras contratistas, que são as grandes patrocinadoras dos quatro ou cinco grandes partidos do país. Não só pra fazer obras e exercer certo subimperialismo na África e América Latina, financiadas pelo BNDES, mas também, como ocorrido na Coréia e Japão pós-guerra, crescendo e se tornando grandes conglomerados.
Assim, a Camargo Correa se expandiu para as redes elétricas, em associação com Bradesco e CPFL, tendo cada vez mais distribuidoras elétricas, e caminhando para as rodovias e infraestruturas. A Odebrecht foi beneficiada pelo longo processo de consolidação da petroquímica no país, custeado pela Petrobras, tendo, ao final, a hegemonia na Braskem. A maior beneficiária deste processo nas telecomunicações, a partir de relações próximas e de longa data com a presidente da República, foi a Andrade Gutierrez. Todo o grande imbróglio e luta intestina no governo, com italianos, o grupo TIM, Daniel Dantas, ministros em lados opostos da disputa, e Lula nos dois lados, acabou consolidando a hegemonia de um grande monopólio nas telecomunicações, na telefonia celular.
Essa é uma síntese possível do governo Lula, mantendo o espaço do sistema internacional e também criando grandes atores privados nacionais. O mesmo se vê na siderurgia, que já vinha de vento em popa, com os grupos de FHC na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), com Steinbruch, depois Gerdau e outros, chegando até a tentar as redes de atacado e varejo no supermercado. No setor frigorífico, usou dinheiro do BNDES, sabe-se lá sob qual justificativa estratégica, para um grupo econômico monopolizar todas as redes brasileiras e comprar as mais importantes dos EUA e Austrália e se proclamar grande e hegemônico. O mesmo se viu nas bebidas. Tudo isso sempre apoiado por dinheiro do BNDES. Eis a lógica do que aconteceu em vários segmentos no governo Lula. Com a sutileza de que foi apoiado, em grande parte, por movimentos sindicais atrelados ao PT e aos dirigentes partidários que, em geral, vinham de estratos do trabalho, não do capital.
Além do mais, há os fundos de pensão, outra muleta importante. Podem atuar pela regra da agilidade privada, mas podem ser comandados de forma paraestatal desde o Palácio do Planalto, onde se escolhem seus dirigentes, delegados, prepostos do governo central, utilizando-se toda a poupança gerada pelos salários dos trabalhadores das estatais e pelas contribuições das empresas públicas. Essa é a estrutura híbrida que foi criada.
Correio da Cidadania: Como você pode, então, associar toda esta retomada, destacando o hibridismo a que foi conduzido o governo Lula, ao debate que está colocado hoje na imprensa, conforme já citado?
Ildo Sauer: O debate colocado hoje é que, dentro e fora do governo, vemos o embate intercapitalista, de grupos se enfrentando e tentando monopolizar cada vez mais segmentos com apoio do governo e suas frações, de tão ampla base. Desde o começo, o governo Lula trouxe os conflitos de fora da sociedade pra si, pairando sobre todos. Basta citar o movimento ambientalista comandado por Marina Silva e os conflitos com o setor de Minas e Energia. Pareciam dois governos diferentes, mas era um só, sob a arbitragem suprema de Lula, que depois delegou a coroa, parcialmente, à princesa sucessora, nomeada e ungida ao Palácio.

De modo que, das três vertentes e concepções citadas de desenvolvimento, a que deu origem ao ideário do partido foi abandonada, em nome de um hibridismo das outras duas, subordinadas agora ao capital internacional e ao emergente capitalismo brasileiro, que atua aqui dentro e lá fora também, sempre ancorado no BNDES e outros recursos públicos.
Assim, o conflito que vemos na mídia são manifestações desse processo. Há grupos que vêm sendo mais ou menos favorecidos. Com mais apoio, ou não, dentro da estrutura de sustentação ao governo. De modo que não sobrou oposição. Por quê? Porque o projeto da chamada socialdemocracia, que na verdade era neoliberalismo, foi incorporado e plenamente mantido dentro do atual governo.
Portanto, temos aí a concorrência intercapitalista, disputando, por exemplo, a Petrobras. Os acionistas querem preços mais elevados pra terem mais lucros; o governo usa a empresa pra tentar reduzir a inflação, o custo da reprodução da força de trabalho, da mobilidade. Em favor de quem? De aumentar a taxa de lucratividade da economia brasileira. Não em favor dos trabalhadores, mas dos grupos que estão aí, todos com seus representantes e delegados instalados dentro dos vários órgãos de governo e poder, os chamados crachás de aluguel. Que muitas vezes são funcionários de carreira, de longa trajetória, de currículo até respeitável, mas que não estão lá pra cumprir uma função de Estado, de governo, ou de um programa político transparente; são delegados que estão lá pra defender seus patrocinadores. Por isso tantos conflitos, trata-se de um espaço em disputa.
Disputa pela capacidade produtiva brasileira de gerar excedente econômico no agronegócio, na cadente indústria e na área de serviços, que em parte se reduz, após sustentar o surto de crescimento econômico dos anos Lula – visto que os últimos dois anos parecem mais a era FHC. Crescimento que teve tudo a ver com a explosão dos preços do petróleo, dos produtos agroindustriais, os minerais, enfim, as commodities do mercado internacional, em função do processo de expansão produtiva na China, que por sua vez também está em risco.
Tudo isso passou a gerar uma renda econômica (diferença entre custos de produção e renda do capital e trabalho diretamente aplicada); o preço internacional de tais commodities (soja, arroz, milho, carne, frango, minério de ferro, além da autossuficiência em petróleo) proporcionou uma diferença grande entre o custo e o preço, permitindo que tamanha renda fosse reciclada aqui dentro. A taxa de câmbio mantida naquele período ajudou a reduzir a inflação e o custo da reprodução da força de trabalho, pois grande parte dos produtos da cesta básica está vinculada ao câmbio, ao dólar, guardando relação com o mercado internacional. Como consequência paralela, tivemos a redução da capacidade produtiva da indústria e agora o Brasil corre o risco de se tornar um país primário, desindustrializado e ausente de várias cadeias produtivas. Se essa relação de preços das commodities for ameaçada - o que pode ocorrer, especialmente em função da expansão da China em muitos países da América Latina e da África, a fim de acessar esses produtos primários a partir de termos de troca mais favoráveis -, o país poderá passar por uma crise profunda no futuro. É algo que está no horizonte.
Correio da Cidadania: Em face deste cenário, como situa o pacote de infraestrutura que o governo lançou no ano passado, prevendo investimentos de mais de 100 bilhões de reais nas grandes áreas estratégicas, como rodovias, ferrovias, portos e aeroportos?
Ildo Sauer: O governo tem feito muita propaganda em termos de infraestrutura, com poucos resultados. Basta olhar para a transposição do São Francisco, os planos de expansão de rodovias, ferrovias e portos deste pacote... Ao invés de organizar a máquina pública, criar universidades de treinamento para gestão pública - como se fez no serviço público francês, a exemplo também da Petrobras e algumas outras empresas no Brasil, que formam seus quadros para tentar fazer seus gestores -, o governo declara que as empresas públicas são incapazes de gerir qualquer investimento e que a saída só pode ser privatizar, organizando pacotes de grande incentivo. Pacotes que certamente vão completar o processo que FHC não conseguiu terminar.
O governo, surpreendentemente, segue esta lógica mantendo em sua base de apoio setores dos trabalhadores até de segmentos diretamente afetados pelo pacote. No setor elétrico, isto já ocorreu. E o mesmo se vê na atual tentativa de desmoralização da Petrobras. A empresa está com problemas realmente sérios. Mas tais problemas vêm da forma como o governo conduz a empresa, reduzindo o preço da gasolina a um patamar impeditivo de prover um excedente de magnitude para a Petrobras. De outro lado, os crachás de aluguel e delegados de interesses dentro da empresa, vinculados a vários segmentos do governo, têm feito vários investimentos inaceitáveis, como na refinaria de Pernambuco, que está saindo por 20 bilhões de dólares. Certamente, não poderia custar mais do que 7 bilhões, pra não causar prejuízo, porque o máximo que se consegue no mercado, em média, é um excedente de 7 ou 8 dólares por barril refinado. E lá, só pra recuperar o investimento, o custo do refino será de 25 ou 30 dólares. Inviável. Vai perder, não vai recuperar. O Comperj no RJ é a mesma coisa. No caso do gasoduto Urucu, em Manaus, previsto em 2 ou 3 bilhões de reais, chegou-se a 5 bilhões. Todos estes investimentos ocorrem em função de uma estrutura de gestão subordinada aos interesses externos, o que só pode gerar problemas.
O que o governo está promovendo é a destruição da Petrobras, quando deveria fortalecê-la e usá-la como instrumento de geração de excedente econômico. Deveria fazê-la produzir todo o petróleo brasileiro, com pagamento pelos serviços, por 15 a 25 dólares pelo barril, sem impostos, gerando um excedente de 65 a 75 dólares por barril, já que o barril vale hoje entre 90 e 100 dólares. O excedente poderia ir direto para um fundo público, para financiar educação e saúde públicas. Algo semelhante ao que deveria ser feito na área elétrica, através das hidrelétricas, onde se poderia produzir um excedente econômico da ordem de 10 bilhões de reais por ano, vendendo energia próxima ao custo médio, pagando o custo de produção.

O que fez o governo? Está doando essa energia toda, além dos subsídios que tem concedido, que virão do dinheiro que ele tem em Itaipu. A Eletrobrás tinha um crédito junto a Itaipu que o Tesouro Nacional assumiu. Antes, o Tesouro já tinha assumido os créditos da Eletrobrás em Itaipu. Hoje, Itaipu deve uns 35 bilhões de reais ao Tesouro, que serão pagos em cerca de 10 anos. São 3,5 bilhões por ano. O que o governo fará com tal dinheiro? Tentará reduzir custos do sistema elétrico que foi mal gerido, pra tentar reduzir a tarifa e dar um presente socialmente regressivo aos grandes consumidores elétricos residenciais, industriais e comerciais. Há um exemplo flagrante: sei de um empresário maranhense que tem uma mansão que consome energia por 5 mil reais por mês. Se cumprida a promessa de redução de 20% nas tarifas, ele terá um benefício mensal de mil reais. Um empregado dele, por sua vez, que ganha pouco mais de um salário mínimo e paga um pouco mais de 60 reais por mês na conta, terá um subsídio de 12 reais. Algo semelhante acontece no setor industrial. As maiores beneficiárias serão as grandes empresas, que não necessariamente irão empregar mais, inovar tecnologicamente e produzir mais. Apenas aumentarão seus lucros. De modo que esse populismo com o patrimônio público na área elétrica também vai nessa direção.
O governo Dilma está tentando desmoralizar o resto que há de possibilidade de gestão pública em setores estratégicos para, no limite, destroçá-los, como conseguiram os tucanos, tudo à mercê desta disputa intercapitalista que está colocada. E o BNDES é o grande instrumento. O que é o BNDES? Um banco 100% público. O governo está com quase 2 trilhões de reais de dívida pública. Apesar da redução dos juros, ainda paga juros altos sobre a dívida, que vem aumentando em grande parte para capitalizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e, principalmente, o BNDES – no caso do BNDES, de modo a ser o baluarte dessa ação de tentar desesperadamente gerar investimentos em vários segmentos, sempre sob a égide privada.
Com o aporte indiscriminado a grupos nacionais e internacionais, temos aqui uma versão acabada do mencionado hibridismo entre a dependência associada e a visão cepalina da economia, embora todas metamorfoseadas e já subordinadas, sem abrir mão de nenhum dos princípios mais fundamentais e queridos ao neoliberalismo. Lógica que aportou aqui nos anos 90 e não está com jeito nenhum de que sairá. Pelo contrário, está se aprofundando.

É assim que vejo todos esses anúncios, na área elétrica, do petróleo, especialmente no caso dos novos leilões de campos de petróleo. Trata-se de áreas onde não se sabe quanto há de petróleo, cuja exploração não foi terminada ou nem começou, mas que já se encontram subordinadas à pressão desses que querem açodadamente arrancar toda e qualquer gota de petróleo, convertê-lo em dinheiro e distribuir esse dinheiro, embora ainda existam disputas a serem definidas, de modo a se saber quem serão os beneficiários. E nada garante que a renda resultante desse processo será revertida socialmente. Estamos arrancando bens naturais únicos, não reprodutíveis, que pertencem às gerações futuras, e convertendo-os em riquezas para alguns, deixando uma herança negativa através da poluição, rejeitos e resíduos, além de cidades inviáveis e uma estrutura produtiva degradada.
De forma que o cenário não me parece favorável, sob qualquer ótica. Sob a ótica capitalista, o país vive em crise. Sob a ótica socialista, é um desastre.
Correio da Cidadania: Pensando agora no setor de sua atuação mais específica, o energético, uma das medidas que mais polêmica causou nos últimos tempos foi a MP 579, para renovação antecipada das concessões de geradoras, em sua maioria estatais, sob a prerrogativa de uma necessária e justa redução das tarifas elétricas. Como vê a medida, os resultados que dela já emergiram até agora e o seu impacto para as estatais?
Ildo Sauer: Evidentemente, é um ataque contra as empresas públicas, que já encontram problemas de gestão no presente. Deveriam fortalecer Furnas, Eletronorte, Chesf, mas estão ‘arrancando’ projetos de usinas a rodo. No passado, propusemos a criação da estatal Hidrobrás, mediante operação cooperativa dessas três citadas, mantendo-as íntegras em suas operações e capacitação, gerando excedente econômico para o país. Agora, reduziram o custo de 22 mil megawatts de energia, pois Chesf, Cemig e Copel vão entrar inteiramente na jogada. Mas o governo liquidou a RGE (Rio Grande Energia) por cerca de 20 bilhões de reais, fora aquilo que já disse de Itaipu, para indenizar e não deixar morrer a Eletrobrás e suas subsidiárias, especialmente as três maiores (Furnas, Eletronorte e Chesf).
No entanto, a tarifa que o governo irá pagar (por ele arbitrada) não custeia nem a operação, quanto mais a manutenção. Portanto, temos riscos nesse sentido, estamos destruindo a capacidade de engenharia, estamos destruindo os últimos bastiões que havia de capacidade de planejamento público, de implementar, produzir e operar sistemas complexos, como eram os casos de Furnas, Chesf, Eletronorte...
Há críticas às empresas públicas, mas elas deveriam ser melhoradas, não destruídas. De um lado, trata-se disso, de destruir o resto das empresas de enorme capacidade, como já revelaram alguns atores do sistema hidrelétrico brasileiro que estão aí, alvo de tamanha disputa. E de outro lado, o governo antecipou o fim das concessões usando para isso a RGE, o fundo produzido por tarifas públicas, entre 18 e 20 bilhões de reais, utilizados pra dar um fôlego a tais empresas e fazer populismo. O governo vai entregar energia dessas empresas, antes dos impostos, a cerca de 8 a 10 reais o megawatt/hora (mW/h). Com impostos, vai chegar a algo próximo de 30 reais o mW/h. No entanto, esse é o excedente de 10 bilhões de reais por ano que será doado aos grandes consumidores.
Ou seja, o governo age dessa forma sem mexer na enorme lucratividade da participação privada no setor elétrico. Há empresas vendendo energia gerada nas pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), que antes também eram públicas e foram privatizadas. A energia delas entrava no sistema por 20 a 30 reais o mW/h. Depois da decisão do governo, foram privatizadas e sua energia recomprada a 200 reais o mW/h, vendida como energia renovável e incentivada. E o governo tem muitos contratos ainda, desde FHC e nos leilões da própria Dilma, de energia térmica, que custa hoje entre 180 e 200 reais o mW/h.
Pra manter isso, a estrutura de contratos mal feitos, com muitos riscos embutidos (que na verdade não existem, tudo pra justificar a permanência desse tipo de contratos), o governo está esterilizando patrimônio público – para, ainda assim, manter o Brasil com a terceira tarifa mais cara do mundo. Caindo talvez pra décimo lugar, mas, de toda forma, sem ter um grande impacto.
E além do mais, observa-se o mau planejamento. A expansão do sistema elétrico sob os governos Lula e Dilma fez com que não tivéssemos suficiente número de usinas hidrelétricas e eólicas operando desde 2011, 2012. O que fez com que agora, mesmo com período chuvoso, usemos todo o parque termelétrico, com muitas usinas com o mW/h sendo vendido por até 800 reais. Também usinas a óleo diesel com GNL (gás natural liquefeito) importado entraram em operação, acumulando prejuízos. E agora o governo anuncia pela imprensa que o custo será absorvido pelo Tesouro Nacional, à custa de mais impostos ou mais endividamento público. O mesmo Tesouro que financia a expansão e os benefícios que o BNDES vem outorgando a vários grupos escolhidos.
Note bem: de um lado, o governo reduziu receitas públicas, a partir da conta de consumo de combustíveis. Um exemplo é o que ocorre no Amazonas, onde o processo de acabar com as usinas que queimam óleo diesel demorou anos e ainda nem se completou, mesmo com o gasoduto Urucu/Manaus disponível desde 2009. E essa conta é distribuída entre todos, chegando agora ao Tesouro. Vários outros custos que estavam sendo levados ao consumidor agora vão simplesmente migrar rumo ao Tesouro Nacional. Só que o Tesouro também é do consumidor, e a diferença é que ele tem de ter um papel mais amplo. Jogar essa conta sobre os consumidores elétricos apenas alivia a conta daqueles que têm mais renda e consomem mais energia, as empresas. Portanto, estamos diante de uma redução tarifária socialmente regressiva.
Ao mesmo tempo, é importante ressaltar, 9 das 12 empresas que mais tiveram lucratividade nos últimos anos no Brasil são da área de energia. O que indica uma enorme assimetria. Muitas empresas privadas continuam vendendo energia térmica para o sistema por 180, 200 reais o mW/h. Agora, pra reduzir o risco de racionamento, o governo está queimando de 800 milhões a 1 bilhão de reais por mês em combustíveis. Uma conta enorme que ou será rateada entre os consumidores ou, pior ainda, será repassada ao Tesouro Nacional. O que significa que ou ele se endividará mais ou não haverá dinheiro pra fazer saúde e educação públicas - os únicos dois caminhos para alterar as relações sociais dentro do país. Se for mantida a redução tarifária, será à custa do Tesouro. A máquina de fazer custos está de pé. O governo não fez mudança estrutural, fez só uma mudança contábil, transferiu o nome de quem paga a conta. E, claro, tirou das estatais a receita que teriam.
De modo que é assombroso ver o governo que veio do partido concebido nos anos 80 – a partir das visões de Marini e Florestan, e com a noção de que poderíamos migrar diretamente de um país ainda não industrializado e sem base capitalista solidificada para um sistema socialista – adentrar nesse sistema. Uma lógica onde o Tesouro Nacional e os recursos públicos são usados pra atender toda gama de interesses incrustados e encastelados dentro de uma base de governo tão ampla, onde cada um busca seu naco numa disputa que se manifesta em todos os espaços.
Correio da Cidadania: Mau planejamento à parte, apagão tem sido palavra-chave no setor, e vêm acontecendo, de fato e com frequência, notórios cortes de energia em distintas regiões, inclusive nesta capital. O risco de apagão é real?
Ildo Sauer: Nenhum risco de racionamento pode ser descartado. Mas só poderemos ter uma impressão mais forte entre abril e maio, olhando os reservatórios. O “problemaço” do planejamento criou outro grande problema e uma desgraça criou um alívio. O fato de o país não ter crescido tanto em 2011 e 2012 fez com que a demanda elétrica não fosse aquela prevista. Mesmo assim, os reservatórios estão num nível preocupante, não se pode ter certeza de como estarão até o dia 1º de maio, quando as chuvas de março já terão encerrado o verão há muito tempo e poderemos fazer um balanço pra saber se, mesmo com essas térmicas operando a um custo de quase R$ 1 bilhão por mês em termos de combustível, e com todo esse fiasco energético do governo Dilma, não teremos a catástrofe ainda maior de ter de cortar o consumo. Mas o fato de a economia periclitar ajuda a evitar tal quadro.

Assim, ainda que seja baixo o risco de racionamento, a ameaça está no horizonte. Mesmo que as probabilidades não sejam elevadas, não se pode descartá-las. Ao mesmo tempo em que a presidente anunciava que não há risco algum (uma mentira, porque sempre há risco), na reunião do começo do ano com especialistas do setor elétrico e da climatologia foi dito que, “se não chover, cabeças vão rolar”. É a frase pronunciada por ela e que saiu dos bastidores. Fica claro o espírito e o ânimo em relação ao assunto. É evidente que, no momento, temos de aguardar o fim do período de chuvas, fazer o balanço em abril e ver em maio qual o nível de conforto, pra seguir operando normalmente ou pra começar a fazer gestão de carga, dependendo do nível dos reservatórios.
Outro escândalo é que há usinas eólicas na Bahia e Rio Grande do Norte, com quase 600 Megawatts de potencial, que estão prontas e não foram interligadas ao sistema elétrico por falta de transmissão. Algo semelhante se repete agora. Os escândalos ambientais e agressões sociais que acompanharam a construção de Santo Antonio e Jirau estão chegando a termo, com algumas turbinas entrando em operação. E agora faltam linhas de transmissão pra levar a energia aos centros de consumo. A energia está sendo escoada para o Acre e Rondônia, liberando a produção de energia térmica. Mas dado o nível de risco das demais regiões do país, essa energia disponível seria extremamente bem vinda pra reduzir custos. O que mostra que a capacidade de gestão do governo, e de quem se proclama grande gerentona, mãe do PAC, na verdade é uma grande farsa.
Correio da Cidadania: A construção de grandes hidrelétricas na Amazônia tem como uma de suas justificativas justamente a necessidade de o país se adequar a uma demanda maior e crescente de energia elétrica, e de forma sustentável. Você acredita nessa necessidade e argumentação? O medo de desabastecimento justifica a construção de barragens na região, com todos os seus conhecidos descalabros sociais, ambientais etc.?
Ildo Sauer: Esse argumento do desabastecimento pode ser usado, sim. É evidente que, desde 2002, 2003, o programa de governo da Frente Popular previa que se fizesse um inventário total de todos os recursos energéticos do país. Hidrelétricas, eólicas, co-geração com bagaço de cana, com gás natural, PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), racionalização do uso de energia... Tudo isso posto numa avaliação técnica, ambiental e social, descartando-se aqueles projetos que fossem inviáveis social e ambientalmente, orientando os demais pelo critério técnico-econômico. E sequencialmente, por ordem de mérito, os projetos seriam postos em prática. Até agora nada disso foi feito.
O que o governo fez, a partir da expansão da demanda em 2005, foi começar a lançar um monte de projetos. Belo Monte era um deles, que vinha desde a ditadura militar, ressuscitado com os mesmos problemas sociais e ambientais, apesar de uma pequena redução do reservatório. O complexo de Santo Antonio e Jirau, por sua vez, foi herdado da era FHC, um consórcio privado, com Furnas e Odebrecht no projeto, unicamente. Depois, o governo repartiu as duas usinas entre seus sócios Odebrecht e Camargo Correa, dando a cada uma delas um sócio estatal pra servir de muleta na administração dessas duas hidrelétricas do Rio Madeira. Assim foi feito. O governo certamente vai usar essa ameaça de risco em seu complô midiático contra a consciência social e tentar enfiar goela abaixo outros projetos que favoreçam seus sócios, e não a sociedade e seu todo. Estão aí projetos como São Luiz dos Tapajós e outros mais na linha de tiro.
Temos condição de atender a toda demanda do país, com os menores custos possíveis, a partir de uma associação entre projetos hidreletricamente viáveis com projetos eólicos igualmente viáveis, com a complementação térmica apenas de longo prazo, operando com combustíveis flexíveis. Mas considerando a fragmentação das instituições que operam, planejam e dirigem o sistema elétrico e o conjunto de interesses presentes nesses espaços, a decisão nunca é do interesse público. É aquela que os grupos de plantão, com mais força de lobby, desejam. Exemplo disso é o lobby nuclear, que conseguiu enfiar goela abaixo Angra 3, que custará mais de 10 bilhões de reais só pra ser concluída, quando a energia que gerará poderia ser providenciada com metade desse dinheiro em eólicas ou hidrelétricas ambiental e socialmente viáveis. Com o que não restaria como herança às gerações futuras, sem necessidade e pagando por isso, 1000 toneladas de combustíveis altamente radioativos, a exigirem cuidado por 300 anos se forem reprocessados. Está bem que o governo postergou a ideia das quatro usinas nucleares que tinha proposto pra 2020. Mas há um lobby muito forte no seio do governo para que tais projetos voltem à agenda. Fato é que o governo central serve pra arbitrar os interesses expressos em sua base de apoio – econômica, política e sindical. Mas sempre tem um vencedor aqui e outro acolá nessa trajetória de implantação quase caótica de projetos energéticos, dentro da lógica do próprio capitalismo e suas condições inerentes.
Vejo, portanto, o que ocorre no governo do seguinte modo: disputa por espaço econômico e pela consolidação de interesses patrocinados por alguns grupos. Porque o interesse público e a ideia de uma sociedade mais justa, solidária e igualitária– o que exigiria investimentos planejados em educação e saúde públicas, em infraestrutura, reformas agrária e urbana, mobilidade, proteção ambiental, ciência, tecnologia – ficou completamente em segundo plano. O governo se tornou mero árbitro dos interesses aqui descritos pra tentar manter uma taxa de crescimento minimamente viável e evitar a crise social, em razão da escassa renda distribuída.

É fato que continuar crescendo a 2%, ou menos, por ano deixará todo esse projeto ameaçado, certamente. E o que vem depois ainda é uma grande incógnita, em face da debilidade, lamentável, das propostas genuinamente de esquerda. Acho que é necessário ressuscitar os princípios de esquerda – não necessariamente com um partido específico, mas com vários que tenham inserção nessa visão – para criar uma frente nacional, a exemplo do que foi visto na Bolívia, Equador, Venezuela. Um processo que teria suas nuances, mas que retomaria o debate político em novas bases, a fim de produzir outra proposta a confrontar os grupos reconhecidos hoje: o governo, como centro-direita, e a oposição, nitidamente neoliberais de direita também. Ambos muito parecidos em vários aspectos.

O que falta mesmo para o país é um maior debate e mobilização de esquerda, que está anestesiada. Uma fração significativa das forças sociais que potencialmente poderiam ser atores principais de tal mobilização – movimentos sociais, sindicais e trabalhistas – continua subordinada a um projeto de governo que, na verdade, nada mais foi que uma traição permanente e contínua aos interesses mais fundamentais desses mesmos grupos sociais.
Valéria Nader, economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Google afasta chefe do Google Maps


Depois de Andy Rubin ser afastado da divisão Android do Google, surge a notícia de que Jeff Huber não vai mais liderar o Google Maps

Reprodução
Google Maps no Android
Além do Google Maps, Jef Huber dirigia a área de pagamentos, onde foi criada a Google Wallet
São Paulo — Um dia depois de divulgada a notícia de que Andy Rubin, o pai do Android,não vai mais liderar o desenvolvimento desse sistema operacional, surge a outra mudança no comando do Google. Jeff Huber, que chefiava a área responsável pelo Google Maps e a de pagamentos, esta deixando o posto. Ao que parece, a notícia foi dada primeiro peloWall Street Journal.
A área comandada por Huber incluía dois departamentos do Google: Geo, voltado para mapas e localização; e Commerce, com foco em meios de pagamento como o Google Wallet e busca de produtos e estabelecimentos comerciais. Agora, esses dois departamentos serão dirigidos por executivos diferentes.
Alan Eustace, um veterano do Google, fica responsável pela área Geo. Susan Wojkicki, uma das mais antigas funcionárias da empresa (o escritório do Google chegou a funcionar na garagem dela por algum tempo) assume o departamento Commerce. Susan também dirige o negócio de venda de anúncios gerais do Google.
Analisando as mudanças, o site Business Insider observa que a área dirigida por Huber era grande demais (2.500 pessoas) e andava meio caótica. Alguns executivos que se reportavam a Huber deixaram a empresa, incluindo Marissa Mayer, agora CEO do Yahoo! 
Além disso, a área de mapas já tinha um bom grau de maturidade, enquanto a de pagamentos estava muito mais imatura. Considerando tudo isso, a nova organização parece fazer mais sentido que a anterior. 
Quanto a Huber, o Wall Street Journal diz que ele vai para o Google X, o laboratório secreto onde nasceram os óculos de realidade aumentada e o carro sem motorista do Google. Especula-se que esse pode ser, também, o destino de Andy Rubin, o ex-chefe da divisão Android. 
O Google enviou, a vários noticiários americanos, esta declaração oficial sobre Huber: “Jeff é um executivo extraordinário. Ele acaba de completar sua primeira década no Google. Trabalhou em algumas das nossas questões mais complicadas, como anúncios, apps, pagamentos e localização. Agora, ele está ávido para trabalhar num ambiente mais no estilo de uma startup.”

Amar...

Posted: 11 Mar 2013 05:51 PM PDT
Flor cresce em meio a tábuas

C. S. Lewis dividiu o amor nestes dois tipos: “amor-necessidade” e “amor-dádiva”. Abraham Maslow também divide o amor em dois tipos. O primeiro ele chama de “amor-deficiência” e o segundo de “amor-ser”. A distinção é significativa e precisa ser entendida.

O “amor-necessidade” ou o “amor-deficiência” depende do outro; é o amor imaturo. Na realidade, não é verdadeiro amor - é uma necessidade. Você usa o outro, você usa o outro como um meio. Você explora, manipula, domina. Mas o outro é limitado, o outro é quase destruído. E exatamente o mesmo está sendo feito pelo outro. Ele está tentando manipular você, dominá-lo, possuí-lo, usá-lo.

Usar outro ser humano implica desamor. Assim, só parece amor; é uma moeda falsa. Mas isso é o que acontece a quase 99 por cento das pessoas porque a primeira lição de amor que você aprende é na sua infância.

Uma criança nasce, ela depende da mãe. Seu amor para com a mãe é um “amor-deficiência” — ela precisa da mãe, não pode sobreviver sem a mãe. Ela ama a mãe porque ela é a sua vida. De fato, não é realmente amor — ela amará qualquer mulher, quem quer que a proteja, quem quer que a ajude a sobreviver, quem quer que satisfaça suas necessidades. A mãe é um tipo de alimento de que ela se serve. Não é apenas leite que ela obtém da mãe; é amor também — e isso também é uma necessidade.

Milhões de pessoas continuam crianças por toda a vida; elas jamais crescem. Crescem em idade mas nunca em mentalidade; a psicologia delas permanece pueril, imatura. Estão sempre precisando de amor, estão sempre ansiando por ele como por comida.

O homem amadurece no momento em que começa a amar em vez de necessitar. Ele começa a transbordar, a partilhar; ele começa a dar.

A ênfase é totalmente diferente. Com o primeiro, a ênfase está em como adquirir mais. Com o segundo, a ênfase está em como dar, em como dar mais, em como dar incondicionalmente. Trata-se do crescimento, da maturidade, chegando até você.

Uma pessoa madura dá. Só uma pessoa madura pode dar, porque só uma pessoa madura tem. Então, o amor não é dependente. Você pode estar amando quer o outro esteja ou não amando. O amor não é uma relação, é um estado.

O que acontece quando uma flor floresce numa floresta densa sem ninguém para apreciar isso, ninguém para tomar conhecimento de sua fragrância, ninguém para passar e dizer “que bela!”, ninguém para sentir-lhe a beleza, a alegria, ninguém para partilhar — o que acontece à flor? Morre? Sofre? Fica apavorada? Comete suicídio?

Ela continua a florescer, simplesmente continua a florescer. Não faz nenhuma diferença se alguém passa ou não; isso é irrelevante. Ela continua espalhando sua fragrância aos ventos. Continua a oferecer sua alegria a Deus, ao todo.

Se eu estiver sozinho, então também eu serei tão amável quanto sou quando estou com você. Não é você que está criando o meu amor. Se você estivesse criando o meu amor, então, naturalmente, quando você se fosse, meu amor também haveria de ir-se.

Você não está tirando o meu amor de mim; eu é que estou derramando amor sobre você — esse é o “amor-dádiva”, é o “amor-ser”.

E eu realmente não concordo com C. S. Lewis nem com Abraham Maslow. O primeiro tipo que eles chamam de “amor” não é nenhum amor, é uma necessidade. Como pode uma necessidade ser amor? O amor é um luxo. E abundância. E ter tanta vida, que você não sabe o que fazer com ela; assim, você a partilha.

É ter tantas canções no coração que você tem de cantá-las - se alguém ouve, não importa. Se ninguém ouve, então você também terá de cantar a sua canção, você terá de dançar a sua dança. O outro pode ter isso, o outro pode perder isso — mas, no que diz respeito a você, ela está fluindo; está transbordando.

Os rios não fluem para você; eles estão fluindo quer você esteja lá ou não. Eles não fluem para a sua sede, para os seus campos secos; eles simplesmente estão fluindo. Você pode matar a sua sede e pode não conseguir isso — tudo cabe a você.

O rio realmente não estava fluindo para você, o rio estava só fluindo. É um acidente você não conseguir água para o seu campo, é acidental você conseguir água para as suas necessidades.

Quando você depende do outro, sempre há infelicidade. No momento em que você depende, você começa a se sentir infeliz porque a dependência é escravidão.

Então você começa a se vingar de modos sutis, porque a pessoa de quem você depender ganha poder sobre você. Ninguém gosta que alguém tenha poder sobre os outros, ninguém gosta de ser dependente porque a dependência mata a liberdade. E o amor não pode florescer na dependência — o amor é uma flor de liberdade; precisa de espaço, precisa de espaço absoluto. O outro não tem de interferir com ele. Isso é muito delicado.

Quando você é dependente, o outro decerto o dominará, e você tentará dominar o outro. Essa é a batalha que prossegue entre os assim chamados apaixonados. Eles são inimigos íntimos, lutando continuamente. Os maridos e as mulheres — o que estão fazendo? O amor é muito raro; a luta é a regra; o amor, uma exceção.

E de todo modo eles tentam dominar — até mesmo por meio do amor eles tentam dominar. Se o marido pede à mulher, esta recusa, ela está relutante. Ela é muito avarenta: ela dá mas muito relutantemente, ela quer que você a adule. E esse é o caso com o marido. Quando a esposa está em necessidade e lhe pede, o marido diz que está cansado. No escritório, havia muito trabalho, ele realmente está esfalfado e gostaria de ir dormir.

Essas são maneiras de manipular, de subjugar o outro, de deixá-lo cada vez mais necessitado, de modo que ele fique mais dependente. Naturalmente, as mulheres são mais diplomáticas sobre isso do que os homens, porque o homem já é poderoso. Ele não precisa achar modos sutis e astuciosos para ser poderoso; ele é poderoso.

Ele administra o dinheiro - esse é o seu poder. Em termos de músculos, ele é mais forte. Durante séculos, ele condicionou a mente da mulher quanto a ele ser mais poderoso e ela não ter poder. O homem sempre tentou achar uma mulher que, em todos os sentidos, fosse inferior a ele.

Um homem não quer se casar com uma mulher mais educada do que ele, porque então o poder está em jogo. Ele não quer se casar com uma mulher que seja mais alta do que ele, porque uma mulher mais alta parece superior. Ele não quer se casar com uma mulher que seja muito intelectualizada, porque nesse caso ela questiona, e o questionamento pode destruir o poder.

Um homem não quer uma mulher que seja muito famosa, porque então ele se torna secundário. E por séculos o homem exigiu uma mulher que fosse mais jovem do que ele. Por que a mulher não pode ser mais velha do que você? O que está errado? Mas uma mulher mais velha é mais experiente - isso destrói o poder.

Assim, o homem sempre exigiu uma mulher menor — eis por que as mulheres diminuíram sua estatura. Não há nenhuma razão para elas terem uma estatura menor do que a dos homens; nenhuma razão; elas diminuíram sua estatura porque a mulher menor sempre era escolhida.

Aos poucos, isso penetrou-lhes na mente de uma maneira tão profunda, que aconteceu o que aconteceu. Perderam a inteligência, porque uma mulher inteligente não era necessária; uma mulher inteligente era uma extravagância.

Você ficará surpreso ao saber que só neste século a altura delas voltou a aumentar. Até mesmo os ossos da mulher estão ficando maiores, o esqueleto está ficando maior. Em apenas cinqüenta anos... particularmente na América. E o cérebro delas também está crescendo, ficando maior do que era; o crânio está ficando maior.

Com a ideia de liberdade para as mulheres, destruiu-se um pouco desse condicionamento. O homem já tinha o poder, de modo que ele não precisava ser muito inteligente, não precisava ser muito indireto. As mulheres não tinham poder.

Quando você não tem poder, você tem de ser mais diplomático — isso é um sucedâneo. O único modo de elas se sentirem poderosas era tornando-se necessárias, que o homem necessitasse delas continuamente. Isso não é amor, isso é um negócio, e eles estão continuamente barganhando o preço. É uma luta constante.

C. S. Lewis e Abraham Maslow dividem o amor em dois. Eu não o divido em dois. Eu afirmo que o primeiro tipo de amor é só um nome, uma moeda falsa; não é verdadeiro. Só o segundo tipo de amor é amor.

O amor só acontece quando você está maduro. Você só se torna capaz de amar quando é adulto. Quando você sabe que o amor não é uma necessidade mas um transbordamento — “amor-ser” ou “amor-dádiva” — então você dá sem quaisquer condições.

O primeiro tipo, o assim chamado amor, deriva da necessidade profunda de uma pessoa em relação à outra, enquanto o “amor-dádiva” ou “amor-ser” transborda de uma pessoa madura para outra em função da abundância.

A pessoa é inundada com esse amor. Você o possui e ele começa a rodeá-lo, assim como quando você acende um abajur e os raios da luz começam a se propagar na escuridão.

O amor é um subproduto do ser. Quando você é, você tem a aura do amor em torno de você. Quando você não é, você não tem essa aura ao seu redor. E quando você não tem essa aura ao seu redor, você pede ao outro que lhe dê amor.

Repetindo: quando você não tem amor, você pede ao outro que lho dê; você é um mendigo. E o outro está lhe pedindo para dá-lo. Ora, dois mendigos estendendo as mãos um diante do outro, e ambos esperando que o outro tenha algo... Naturalmente, ambos se sentem derrotados e ambos se sentem enganados.

Você pode perguntar para qualquer marido e para qualquer mulher; você pode perguntar para qualquer namorado — eles se sentem enganados. Era uma projeção pensar que o outro o amava - se a sua projeção era errada, o que o outro pode fazer? Sua projeção se desfez; o outro não se mostrou de acordo com a sua projeção, isso é tudo; mas o outro não tem nenhuma obrigação de se mostrar de acordo com as suas expectativas.

E você enganou o outro — esse é o sentimento do outro, porque ele estava esperando que o amor fluísse de você. Ambos estavamesperando que o amor fluísse do outro, e ambos estavam vazios — como o amor pode acontecer?

No melhor dos casos, vocês podem ser infelizes juntos. Antes, vocês costumavam ser infelizes sozinhos, separados; agora vocês podem ser infelizes juntos. E lembre-se, sempre que duas pessoas são infelizes juntas, isso não é uma simples adição, é uma multiplicação.

Sozinhos, vocês estavam se sentindo frustrados; agora, juntos, vocês se sentem frustrados. Há algo bom nisso, no sentido de que agora você pode atribuir a responsabilidade ao outro — o outro o está fazendo infeliz; esse é o ponto positivo.

Você pode se sentir à vontade. “Nada está errado comigo, mas o outro... O que fazer com essa mulher — detestável, rabugenta? A gente tem que ser infeliz. O que fazer com um marido desses — feio, avarento?” Agora você pode pôr a culpa no outro; você achou um bode expiatório. Mas a infelicidade continua, se multiplica.

Ora, esse é o paradoxo: os que se apaixonam não têm nenhum amor, e por isso se apaixonam. E porque não têm amor, não podem dar amor. E mais — uma pessoa imatura sempre se apaixona por outra pessoa imatura, porque só elas podem entender a linguagem uma da outra. Uma pessoa madura ama uma pessoa madura. Uma pessoa imatura ama uma pessoa imatura.

Você pode continuar trocando de marido ou mulher mil e uma vezes, você achará de novo o mesmo tipo de pessoa e a mesma infelicidade se repetirá — de maneiras diferentes, mas a mesma infelicidade, quase a mesma. Você pode trocar de mulher, mas você não muda — ora, quem vai escolher a nova parceira? Você vai escolher. A escolha advirá novamente da sua imaturidade. Você vai escolher um tipo semelhante de mulher.

O problema básico do amor é, primeiro, amadurecer. Então, você achará um parceiro maduro; as pessoas imaturas não o atrairão. É bem assim. Se você tem 25 anos, você não se apaixona por um bebê de dois anos.

Exatamente da mesma maneira, quando você é uma pessoa madura, psicologicamente, espiritualmente, você não se apaixona por um bebê. Isso não acontece. Não pode acontecer; você pode perceber que isso não terá sentido.

Na realidade, a pessoa madura não “cai de amores”; amando ela “se ergue”. A palavra cai não é correta. Só pessoas imaturas caem; elas tropeçam e caem apaixonadas. De alguma forma, estavam controlando as coisas e se mantendo de pé. Agora não podem controlar nada nem ficar de pé — acham uma mulher e eles se vão, acham um homem e se vão. Elas sempre estiveram prontas para cair por terra e rastejar. Não têm a coluna vertebral, a espinha; não têm integridade para ficar sozinhas.

A pessoa madura tem integridade para ficar sozinha. E quando uma pessoa madura dá amor, faz isso sem nenhuma amarra que a ate— ela simplesmente dá. Quando a pessoa madura dá amor, ela se sente grata pelo fato de você ter aceitado o amor dela, não vice-versa. Ela não espera que você seja grato por ele — não, de forma alguma; ela nem sequer precisa dos seus agradecimentos. Ela é grata a você por você ter aceitado o seu amor.

E quando duas pessoas maduras estão apaixonadas, um dos maiores paradoxos da vida acontece, um dos fenômenos mais belos: elas estão juntas e ainda se sentem imensamente sós. Estão de tal modo juntas que são quase uma única pessoa; mas sua unidade não destrói a sua individualidade — na realidade, aumenta-a, elas se tornam mais individuais.

Duas pessoas maduras e apaixonadas se ajudam uma à outra para se tornarem mais livres. Não há nenhuma política envolvida, nenhuma diplomacia, nenhum esforço para dominar.

Como você pode dominar a pessoa que você ama? Reflita sobre isso — a dominação é um tipo de ódio, de raiva, de inimizade. Como você pode pensar em dominar a pessoa que você ama? Você adoraria ver essa pessoa totalmente livre, independente; você lhe daria mais individualidade.

Eis por que eu chamo a isso de o maior paradoxo: elas se sentem tão unidas, que são quase uma pessoa, mas ainda nessa unidade elas são indivíduos. A individualidade delas não é desfeita - aumentou. O outro a enriqueceu no que concerne à liberdade.

As pessoas imaturas que se apaixonam destroem a liberdade uma da outra, criam uma forma de servidão, uma prisão.Pessoas maduras e apaixonadas se ajudam a ser livres; se ajudam mutuamente a destruir todos os tipos de escravidão. E quando o amor flui com liberdade, há beleza. Quando o amor flui com dependência, há feiúra.

Lembre-se: a liberdade é um valor superior ao amor. Eis por que na índia chamamos ao valor máximo mokshamoksha significa “liberdade”. A liberdade é um valor superior ao amor. Assim, se o amor está destruindo a liberdade, ele não é digno. O amor pode ser descartado, a liberdade tem de ser salva — a liberdade é um valor superior.

sem liberdade você nunca pode ser feliz, não é possível. A liberdade é o desejo intrínseco de cada homem, de cada mulher - a liberdade absoluta, a liberdade total. Assim, qualquer coisa que se torne nociva à liberdade é alvo de ódio para a pessoa.

Você não odeia o homem que você ama? Não odeia a mulher que você ama? Você odeia! Esse é um mal necessário, você tem de tolerá-lo. Pelo fato de você não poder estar sozinho, você tem de achar um jeito de ficar com alguém, e tem de se adaptar às exigências do outro. Tem de tolerar, tem de suportá-las.

O amor, para ser realmente amor, tem de ser “amor-ser”, “amor-dádiva”. O “amor-ser” significa um estado de amor — quando você chegou em casa, quando você soube quem você é, então o amor aflora no seu ser. A fragrância se espalha e você pode dá-la aos outros.

Como você pode dar algo que não tem? Para dar amor, a primeira exigência básica é ter amor.

Osho, em "Maturidade: A Responsabilidade de Ser Você Mesmo"
Imagem por wonderferret
Publicado no blog palavras de Osho
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