quarta-feira, 28 de agosto de 2013

REDE...

 Não é à toa que a ex-senadora Marina Silva aparece nas pesquisas de opinião como uma possível adversária direta da presidente Dilma na eleição de 2014, podendo chegar ao segundo turno e até vencer. Ao se recusar a prosseguir no jogo partidário que estava montado em 2010, mesmo depois de ter recebido quase 20 milhões de votos na eleição presidencial, ela estava antevendo esse movimento autônomo das ruas que rejeita as formas tradicionais de fazer política que dominam até mesmo o Partido Verde, que ela tentou levar para o caminho original e não conseguiu.

Também não foi um acaso ela chamar seu novo partido de REDE, foi por estar conectada com essa nova onda de movimentos sociais em rede, que o sociólogo Manuel Castells, talvez o maior estudioso desse fenômeno, chama de autocomunicação de massas, “plataforma tecnológica da cultura da autonomia”.

Em seu novo livro “Redes de Indignação e Esperança”, lançado no Brasil pela editora Zahar, Castells diz que a partir dessa autonomia, as críticas e os sonhos do movimento se estendem à maior parte da sociedade.

Marina não pretende que seu partido domine os movimentos sociais, nem ser a representante desses movimentos no Poder. Ela quer tentar mudar a maneira de fazer política, em busca de um projeto de país, e não de poder, e para tanto espera refletir na realidade política brasileira os anseios desses movimentos sociais que estão nas ruas.

Ela não acredita que somente com a fisiologia se consiga montar uma base partidária de apoio ao governo, e confrontada com a realidade política do país, ela fala em uma “imprevisibilidade positiva”, a esperar que o novo Congresso a ser eleito em 2014 também reflita os anseios dessa nova sociedade que surgiu e mostrou-se nas ruas nos últimos dias.

Sem querer se dar ares de pitonisa, ela diz que já havia aventado a hipótese de que esses movimentos aconteceriam, no Brasil, a exemplo do que acontece no mundo, e está feliz que tenha começado a montar seu partido REDE bem antes de esses movimentos se materializarem “por que poderia parecer oportunismo”.

Mas está se defrontando com a burocracia, com realidades políticas que talvez a impeçam de concretizar seu partido. Ela esclarece que o movimento de apresentar o pedido de inscrição da REDE ao TSE mesmo não tendo o número mínimo de assinaturas validadas pela Justiça Eleitoral é apenas uma maneira de chamar a atenção para as dificuldades burocráticas que vem encontrando, não um pedido de privilégios.

Os organizadores da REDE dizem que vários cartórios estão levando mais de 15 dias, prazo estipulado pela lei, para analisar as assinaturas. E milhares delas são rejeitadas sem explicações oficiais, Há também uma dificuldade para comparar assinaturas com as folhas de votação na última eleição, pois muitos jovens e idosos apóiam o novo partido mas não votaram.

Os cartórios eleitorais simplesmente estão invalidando essas assinaturas. O REDE quer que essas assinaturas impugnadas sejam divulgadas e se não houver uma contestação do eleitor envolvido, sejam aprovadas, como determina a lei nesses casos.

A ex-senadora Marina Silva se recusa a discutir um plano B, pois entende que como seu novo partido não existe apenas no papel, e não foi criado para ganhar espaço no ministério do governo do momento, mas é fruto da mobilização de cidadãos, o TSE dará a aprovação para o funcionamento.

Manuel Castells, na parte do livro dedicada à análise das manifestações de junho no Brasil, diz que “a líder ecológica e progressista Marina Silva é a exceção entre os políticos”, está conectada aos novos anseios da população. Para ele, “os movimentos sociais em rede vão continuar a lutar, debater, evoluir e, por fim, a se dissolver em suas atuais condições de existência, como aconteceu com todos os movimentos sociais na História”.

Mesmo no caso improvável de se transformarem num ator político, num partido ou em alguma forma nova de agência, deixarão, por isso mesmo, de existir, analisa Castells, para quem “é muito cedo para avaliarmos o resultado final desses movimentos, embora já possamos dizer que regimes mudaram, instituições foram desafiadas e a crença no capitalismo financeiro global triunfante foi abalada, possivelmente de maneira irreversível, na mente da maioria das pessoas”.

Nesse mundo novo que as gerações mais jovens vêem como seu, “o que é irreversível no Brasil e no mundo é o empoderamento dos cidadãos, sua autonomia comunicativa e a consciência dos jovens de que tudo o que sabemos do futuro é que eles o farão. Mobil-izados”. É essa nova forma de atuar na política que Marina persegue.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Exê ê, Babà!.. Ê epa Babà!

 Comedor-de-inhame-pilado

Oxaguiã não tinha ainda este nome. Chegou num lugar chamado Ejigbô e aí tornou-se Elejigbô (Rei de Ejigbô). Oxaguiã tinha uma grande paixão por inhame pilado, comida que os iorubás chamam iyan. Elejigbô comia deste iyan a todo momento; comia de manhã, ao meio-dia e depois da sesta; comia no jantar e até mesmo durante a noite, se sentisse vazio seu estômago! Ele recusava qualquer outra comida, era sempre iyan que devia ser-lhe servido. Chegou ao ponto de inventar o pilão para que fosse preparado seu prato predileto!

Impressionados pela sua mania, os outros orixás deram-lhe um cognome: Oxaguiã, que significa "Orixá-comedor-de-inhame-pilado", e assim passou a ser chamado. Awoledjê, seu companheiro, era babalaô, um grande advinho, que o aconselhava no que devia ou não fazer. Certa ocasião, Awoledjê aconselhou a Oxaguiã oferecer: dois ratos de tamanho médio; dois peixes, que nadassem majestosamente; duas galinhas, cujo fígado fosse bem grande; duas cabras, cujo leite fosse abundante; duas cestas de caramujos e muitos panos brancos. Disse-lhe, ainda, que se ele seguisse seus conselhos, Ejigbô, que era então um pequeno vilarejo dentro da floresta, tornar-se-ia, muito em breve, uma cidade grande e poderosa e povoada de muitos habitantes.Depois disso Awoledjê partiu em viagem a outros lugares. Ejigbô tornou-se uma grande cidade, como previra Awoledjê. Ela era rodeada de muralhas com fossos profundos, as portas fortificadas e guardas armados vigiavam suas entradas e saídas. Havia um grande mercado, em frente ao palácio, que atraía, de muito longe, compradores e vendedores de mercadorias e escravos. Elejigbô vivia com pompa entre suas mulheres e servidores. Músicos cantavam seus louvores. Quando falava-se dele, não se usava seu nome jamais, pois seria falta de respeito. Era a expressão Kabiyesi, isto é, Sua Majestade, que deveria ser empregada. Ao cabo de alguns anos, Awoledjê voltou. Ele desconhecia, ainda, o novo esplendor de seu amigo. Chegando diante dos guardas, na entrada do palácio, Awoledjê pediu, familiarmente, notícias do "Comedor-de-inhame-pilado". Chocados pela insolência do forasteiro, os guardas gritaram: "Que ultraje falar desta maneira de Kabiyesi! Que impertinência! Que falta de respeito!" E caíram sobre ele dando-lhe pauladas e cruelmente jogaram-no na cadeia.

Awoledjê, mortificado pelos maus tratos, decidiu vingar-se, utilizando sua magia. Durante sete anos a chuva não caiu sobre Ejigbô, as mulheres não tiveram mais filhos e os cavalos do rei não tinham pasto. Elejigbô, desesperado, consultou um babalaô para remediar esta triste situação. "Kabiyesi, toda esta infelicidade é consequência da injusta prisão de um dos meus confrades! É preciso soltá-lo, Kabiyesi! É preciso obter o seu perdão!" Awoledjê foi solto e, cheio de ressentimento, foi-se esconder no fundo da mata. Elejigbô, apesar de rei tão importante, teve que ir suplicar-lhe que esquecesse os maus tratos sofridos e o perdoasse. "Muito bem! - respondeu-lhe. Eu permito que a chuva caia de novo, Oxaguiã, mas tem uma condição: Cada ano, por ocasião de sua festa, será necessário que você envie muita gente à floresta, cortar trezentos feixes de varetas. Os habitantes de Ejigbô, divididos em dois campos, deverão golpear-se, uns aos outros, até que estas varetas estejam gastas ou quebrem-se". Desde então, todos os anos, no fim da sêca, os habitantes de dois bairros de Ejigbô, aqueles de Ixalê Oxolô e aqueles de Okê Mapô, batem-se todo um dia, em sinal de contrição e na esperança de verem, novamente, a chuva cair. A lembrança deste costume conservou-se através dos tempos e permanece viva, tanbém, na Bahia. Por ocasião das cerimônias em louvor a Oxaguiã, as pessoas batem-se umas nas outras, com leves golpes de vareta... e recebem, em seguida, uma porção de inhame pilado, enquanto Oxaguiã vem dançar com energia, trazendo uma mão de pilão, símbolo das preferências gastronômicas do Orixá "Comedor-de-inhame-pilado." Exê ê! Baba Exê ê!

... Oxaguian encontra Iemanjá e lhe dá uma Filho

Houve um tempo em que os orixás viviam do outro lado do oceano. Mas depois tiveram que vir para o lado de cá, para acompanhar seus filhos que foram trazidos como escravos. Assim vieram todos e assim veio Oxaguian. Oxaguian veio boiando na superfície do mar, navegando no tronco flutuante de uma árvore. A travessia durou muito tempo, mas de um ano. Foi nessa viagem que Oxaguian conheceu Iemanjá, que era dona do próprio mar em que viajava Oxaguian. Logo se conheceram e logo se gostaram. Oxaguian era moço, forte, corajoso; Iemanjá era mulher bonita destemida e sedutora. Iemanjá engravidou de Oxaguian e nove meses depois deu a luz à um menino, que já nasceu valente e forte, querendo guerrear. Mais tarde chamaram o menino de Ogunjá, porque o guerreiro gostava de comer cachorro. Sempre que ia à guerra, a mãe o acompanhava e então todos a chamavam Iemanjá Ogunté.
Oxaguian, Ogunté e Ogunjá formam uma família de guerreiros. E eles são muitos festejados no Brasil.

... Orìxà sem cabeça

Um dos mitos diz que Oxaguiã nasceu apenas de Obatalá. Não teve mãe. Nasceu dentro de uma concha de caramujo. E quando nasceu, não tinha cabeça, por isso perambulava pelo mundo, sem sentido.

Um dia encontrou Ori numa estrada e este lhe deu uma cabeça feita de inhame pilado, branca. Apesar de feliz com sua cabeça ela esquentava muito e quando esquentava Oxaguiã criava mais conflitos e sofria muito. Foi quando um dia encontrou a morte (iku), que lhe ofereceu uma cabeça fria. Apesar do medo que sentia, o calor era insuportável, e ele acabou aceitando a cabeça preta que a morte lhe deu. Mas essa cabeça era dolorida e fria demais. Oxaguiã ficou triste, porque a morte com sua frieza estava o tempo todo acompanhando o Orixá. Foi então que Ogum apareceu e deu sua espada para Oxaguiã, que espantou Iku. Ogum também tentou arrancar a cabeça preta de cima da cabeça de inhame, mas tanto apertou que as duas se fundiram e Oxaguiã ficou com a cabeça azul, agora equilibrada e sem problemas.

A partir deste dia ele e Ogum andam juntos transformando o mundo. Oxaguiã depositando o conflito de idéias e valores que mudam o mundo e Ogum fornecendo os meios para a transformação, seja a tecnologia ou a guerra.

Oxaguian - O guerreiro que não conhece a derrota! (Por Gil Bello)

Eis o Senhor do Dia, o Orixà do progresso e da cultura, o Orixà da vida e também da efervescência da vida, da discussao, da guerra e do avanço, da estratégia, da inteligência, do branco, do claro, do positivo e do masculino!!
Orixà moço, Oxalá criança, às vezes adolescente, não passando do jovem adulto Ajagunan!! Brinda o Universo com vida, com energia, com o lúdico e com a guerra e a cultura. Traz o Dia, traz o tempo, traz a evoluçao e o ritmo!

Este controvertido Orixà, apenas superado em controvérsia por Exù, já traz os paradoxos em sua criação. Pois para alguns ele é filho de Oxalà com Yemanjá, mas na grande maioria da cultura este Orixà é o próprio Oxalá, em idades mais tenras! Quando sua missao era outra que apenas a administraçao da Criação, mas sim a de lançá-la, de construí-la e de fazê-la possível! A natureza destes dois aspectos do mesmo Orixà é tao distinta e paradoxalmente semelhante, que ao mesmo tempo que o separa em dois Orixàs distintos, os une no mesmo Orixà ao final da compreensão do momento, missão e natureza deste Orixanlà (Supremo Orixà)!

Este Orixà é nascido do Odù Eji-Ogè, do primeiro alento de vida de Olorùn (Deus), com ele véio o dia primordial e consigo a vida! À ele Olorùn confiou a vida, o dia e a criaçao! Que não pôde realizar só, senão com a ajuda de sua irmã Odudua, nascida logo a seguir pelo Odù Oyekù e o surgimento da sombra emergida do brilho do dia e da vida, trazendo consigo a noite, o feminino, a morte. Ambos terminaram sob as ordens de Olorùn a Criação dos 9 mundos e do Aiyé (o mundo manifesto) e todos os seus habitantes, tendo como dinamizador desta relação o terceiro Orixà mais velho: Exù (esfera), aquele que faz girar o Axé destes dois princípios e que assim cria os caminhos possíveis para a realização do plano divino.

Conta uma lenda que, após espalhada a terra pela galinha de pata com cinco garras, desceram os Orixàs para construírem o Aiyé, vieram antes de todos Ogyan e Ogun. Trabalharam arduamente construindo o mundo, quando a espada de cristal de Ogyan se rompe sob o peso da terra e da pedra. Era o instrumento celestial de Oxalà frágil para lidar com a rude matéria. Sem saber como continuar, veio Ogun que havia presenciado o ocorrido, e ofereceu à Oxalà sua própria espada para q Oxalà continuasse a trabalhar. Enquanto Ogun continuou com as próprias mãos!! Devido a isso Ogun goza de eterno prestígio com Oxanguian, que sempre o abençoa em todo os seus empreendimentos e trabalhos!
Há uma relaçao muito íntima, sem dúvida entre Ogun e Ogyan, tanto que muitos devotos e até mesmo sacerdotes o confundem com uma “qualidade branca” de Ogun... somente o desconhecimento para levar a esta proposiçao, haja visto que o grande Ogun é um ébora, enquanto Ogyan é um Irunmonlè!...

Ogyan divide com Ogun algumas regências, como a guerra, o espírito de luta e o progresso cultural e tecnológico. No entanto são dois Orixàs absolutamente distintos, ainda q companheiros.

Ogyan é em si o Orixà da Vida, do Dia, do Masculino, da Guerra e do Progresso! Enquanto Ogun, primordialmente, era o Orixà da caça. Que deixou para seu irmão mais novo Oxóssi, enquanto foi se ocupar de “ganhar o mundo”. Com a ajuda de Ifà descobriu o FERRO e como manipulá-lo, era este o material que “ganharia o Mundo”, assim o metal seria o elemento mais necessário e mais respeitado neste plano de matéria, sempre rivalizando com o fogo sua hegemonia (donde se tira sua eterna rivalidade e contenda com seu irmao Xangô, o fogo). Quando descobriu o FERRO todos os Orixàs invejaram a descoberta de Ogun. No entanto, nem o próprio Ogun sabia exatamente o valor de tal descoberta. Foi sua parceria com Ogyan que o fez descobrir até em que extremo ele saberia explorar todo o valor desta descoberta. Pois Ogyan o estrategista efervescente, colocou Ogun para confeccionar todos os instrumentos que inventava! E assim Ogun e Oxalá produziram todos os instrumentos de labor, de cultivo, construçao e tb de guerra!! Sendo assim Ogun, o Orixà do Ferro, se tornou tb um dos patronos da construçao, do progresso, do trabalho, da agricultura e da guerra! Ainda se pode ver, em suas danças míticas, Ogun fazendo uso dos instrumentos que confeccionou, ao mesmo tempo que se pode ver, nas danças míticas, Ogyan apresentando cada instrumento criado por seu inventivo intelecto: A espada, a Lança, o Escudo, o pilao!...

Em outras lendas temos Oyà, mesmo no castelo de Xangô, sopra o fogo na forja de Ogun, para que ele possa confeccionar mais rápido a demanda de Ogyan de armas e utensílios para que este possa usar em suas batalhas! Tanto que ventos fortes e furacoes são tidos como prenúncios de guerra, pois seria o poderoso e apressado sopro de Oyà para acelerar uma enorme produção de armas para a guerra de Ogyan!

Assim sendo, Ogyan é o Orixà da Guerra, enquanto Ogun é um de seus patronos e um grande general de batalha! A distinção dos dois giraria na mesma distinção entre o Ares e a Atenas gregos, ambos deuses da guerra, tendo distinção na forma de guerrearem e da natureza do combate. Ogun e Ares (grego) são viscerais, sao furiosos, lutam corpo a corpo, brandindo sua espada com poderosa e inumana força, destroçando tudo o que estiver em seu caminho de guerreiro, sem muita distinção e discernimento, é o calor da batalha, a cegueira da fúria, o gosto pela violência e pela força, junto consigo está a companhia das forças mais obscuras do Universo, assim como Ares vem junto phobbos (medo), entre outras divindades obscuras e até mesmo demoníacas, Ogun vem acompanhado de Ikù (a morte) entre outras divindades terríveis!... Ogun furioso é uma força indomável e absolutamente terrível, contrastando com seu caráter humilde, reto e justo de trabalhador honesto e incansável quando está trabalhando diligentemente. Tanto que é um Orixà de justiça, muito severo, mas reto e verdadeiro. É um grande Orixà!!

Ogyan, assim como a Atenas grega, é um Orixà do gosto pela batalha como depuradora de verdades e otimizadora de progressos!! Possui o gosto pelo debate, pelo combate das idéias e dos conceitos em busca de uma síntese mais perfeita, é o criador da luta entre a tese e a antítese, em busca de uma superior síntese, que novamente será posta à prova, e assim incessantemente até chegar à perfeiçao que este Orixà almeja! É isto, ou NADA!! Assim configurando mais um aspecto de seu caráter dado a extremos! Ogyan gosta da luta, do confronto entre idéias e ideais, entre técnicas, entre modos, caminhos e objetivos para que assim ao final surja algo mais limpo, mais reto, mais claro, mais progredido! Não suporta em si o calor da batalha, nem a confusão em si, a violência, despreza a barbárie (é um Orixà da cultura e do progresso), a desonra, a covardia, o medo, tudo isso ele ignora. Mas se regozija da guerra quando esta consegue trazer a evolução e a depuração necessárias para que a vida cresça e ascenda a outro patamar de cultura e compreensao! A confusão e a guerra, é um instrumento que Ogyan utiliza para que faça saltar a verdade, e assim, uma vez liberta, que a justiça e o progresso se façam!! Um Orixà q busca trazer o valor à tona, utilizando de momentos de extremos, para que o vício ou a virtude se apresentem. É o brilho do dia, que com seu esplendor força os contrastres ao extremos clareando e definindo tudo! É a visão e a verdade! Nenhuma dissimulaçao ou meia-verdade resiste ao vigor de seu brilho que define as naturezas e traz à tona as verdades.

É um Orixà de estratégia, deixando o campo de batalha para seu companheiro Ogun, que se compraze com a violência do campo de batalha. Sendo assim Ogyan é o general e Ogun seu direto imediato! A Ogyan cabe os respeitos e a honra! Tanto que além da saudação digna aos Oxalàs: “Exe ê!” e “Epa Babà”, também exige o “Kabiesyi!” digno dos Reis!!

Ogyan é o inventor e Ogun seu artesão! Ambos espírito e técnica são invencíveis!! Sua parceria é algo tao íntimo que encontramos em diversas lendas a união dos dois! Em outra lenda mostra a natureza extrema de Ogyan e como foi importante a parceria com Ogun para encontrar um ponto de equilíbrio:

Ogyan sentia fortes dores de cabeça, pois seu Orì era demasiado branco! Era um excesso de vida e atividade, pediu auxílio e encontrou Ikù, que lhe disse que poderia resolver este seu problema, desta demasiada claridade, assim Ikù atirou sobre o Orì de inhame branco de Ogyan uma grande quantidade de Ossum, o que tornou a cabeça agora azul-marinha quase negra! Ogyan que sofria de imensas dores de cabeça devido à extrema claridade, agora era assombrado pelas trevas de Ikù (a morte). Uma extrema depressão e fobia tomou conta dele! Perambulando perdido pelas ruas, encontrou Ogun, que com seu Obè (espada) misturou os dois ingredientes (yan- inhame pilado e ossum) tornando a cabeça de Ogyan uma mistura das duas – branca e azul! Assim Ogyan pôde viver e prosperar, tendo sempre ao seu lado o seu fiel companheiro Ogun!

Esta lenda pode-se entrever a natureza extrema deste Orixà, às vezes muito branco, às vezes quase negro!! Ele nasceu de Eji-Ogbè (Eji-Onilé para o Merindilogun) um Odù de extremos! Às vezes os filhos de Ogyan, como é comum para os filhos de Oxàlá, devido justamente à extrema brancura, sofrem de rinites, sinusites e outras alergias naturais à uma cabeça muito branca, assim como também a fotofobia, que a lenda relata. Também sabe-se que seu comportamento é de extremos, e muitas vezes após a sua disposição extrema até quase maníaca, eles caem depois em uma grande fadiga ou até mesmo depressão... Vão ao céu e ao inferno praticamente no mesmo dia. Mais uma vez os extremos da lenda. E os fantasmas, as situações obscuras e mal-resolvidas, são os agentes de maior perturbação para seu filhos, que não suportam não discernir e resolver por completo uma situação. Necessitam sempre deixar tudo às claras!! Assim as trevas (as sombras) são o que lhes deprime e atemoriza! Assim, como é comum à todos os Oxàlá, não pode se ver manchado. Quando digo manchado me refiro ao “manchar o alà branco com dendê...”! Ou seja, manchar a reputação!!
E outro ponto muito interessante ainda a ser explorado nesta lenda é a questão do trabalho ser o ponto de equilíbrio para o Orì de Ogyan, assim como o afiado discernimento!

Quando aparece Ogun e com sua espada mistura harmoniosamente as duas tendências, na verdade Ogun e a espada são símbolo do trabalho e do progresso, assim como da batalha. Somente o trabalho pode reunir as duas tendências extremistas de Ogyan para um ponto em comum de progresso e saúde, que é o trabalho. A necessidade de Ikù participar da formação da cabeça de Ogyan é porque os filhos de Ogyan sem temores, angústias e questões a elucidar não se movem, e assim ficam se ressentindo de tanto talento armazenado e não explorado! É a união da motivação, do talento, com a necessidade e a angústia o que faz eles se moverem!! Mas apenas a espada, ou seja, o discernimento afiado, que os filhos de Ogyan possuem por excelência, é que fará com que consigam aplicar tudo isto de modo equilibrado, saudável e proveitoso!! E isto será aplicado no trabalho, ou na batalha, fazendo emergir o valor, o novo, a virtude ou o vício, tudo para limpar o caminho e trazer o progresso! E como meta última, a perfeição! Não é necessário dizer que os filhos de Ogyan são perfeccionistas natos, e não perdoam a sua obra até atingirem a perfeição... nunca estará bom para eles, até que lhes pareça perfeito... Toda a obra para eles será sempre apenas um ensaio, a próxima será melhor, e talvez, a definitiva... Para um Orìxà do progresso nunca existe a obra definitiva... e assim caminharão até à perfeição!

São, como todos os Oxalàs, altivos ao mesmo tempo que humildes. Existem muitas “qualidades” ou muitos Orixàs sob esta classificação... não pretendo aqui discorrer sobre todas que seriam um grande número... com todas as suas multifaces e idiossincrasias. Basta tentar classificar as maiores tendências.

Existe uma diferença em muitas casas que definem os Ogyans que portam pilão, e os Ogyans que portam espada. Assim os que portam o pilão seriam doces, progressistas e sociàveis, equilibrados. Enquanto os que portam espada seriam os desafiadores, os “encrenqueiros”, de humor instável e severos progressistas! No entanto ainda sabe-se que em outras casas, todos portam tanto uma quanto a outra, sendo apenas momentos do Orixà... e devendo ser acompanhado para buscar sempre estar equilibrando o Orixà.
Alguns Ogyans no entanto são mais infantis que outros, outros são mais guerreiros e dados à batalhas, e assim vai, dependendo do aspecto do Ogyan correspondente. Em comum todos possuem uma alegria inesgotável, um vigor invejável, uma mente brilhante e afiada, um discurso ainda mais reluzente e afiado! Uma mente criativa e por demais inventiva! Uma coragem de propósitos inigualável e uma rebeldia nata. A inconformidade é seu traço mais comum, para todos o bom pode ainda ficar melhor, e lutarão por isso!! Quado saciarem esta fome de perfeiçao, encontrarão a maturidade e a paz que no fundo é o que mais desejam...

Seu nome Oxanguian vem de uma lenda, em que o senhor de Ejigbô, este mesmo Orixà, gostava muito de comer inhame pilado, de tal modo que inventou o pilao, para que ficasse mais fácil de produzir sua comida predileta. Assim o chamaram, seus amigos de Oxanguian, que significa, Orixà comedor de inhame pilado!

Um dia Awoledjé, seu babalawó resolve partir em peregrinaçao após lhe dar sábios conselhos sobre como dirigir sua cidade recém conquistada. E realmente Ejigbó tornou-se a grande cidade que Awoledjé previra: Com grandes muralhas, grandes construções, luxo, exércitos, etc, etc, todo o luxo que um grande reino exigia. Awoledjé quando retornou mal reconheceu a cidade. E chegando aos porteiros da cidade pediu para ver o “comedor de inhames”, bastou para que os soldados ficassem absolutamente indignados com o tratamento desrespeitoso do forasteiro em relaçao ao seu querido Rei. E então, após surrá-lo bastante, o prenderam na masmorra mais fétida que havia. Muito triste com o tratamento recebido pela cidade que havia ajudado a fundar, Awoledjé invocou um encanto que trouxe a esterilidade e a seca para Ejigbó. Passado uns anos reinar estava impraticável... entao ogyan pediu para os adivinhos descobrirem o q se passava com seu reino. E Ifà lhes diz que um amigo foi preso injustamente em seu reino! Imediatamente Elejigbó pede para repassarem todos os veredictos do reino e é quando reencontra seu amigo Awoledjé, transfigurado pelos maus tratos recebidos. Oxanguian estava desconsolado... como ele podia ter feito isto ao amigo?? Imediatamente manda lavarem Awoledjé, o alimentarem com as melhores comidas, vesti-lo de branco (traje de honra) e após todo o tratamento convence a Awoledjé que retire o encantamento que secava o seu povo. Awoledjé aceita, mas impôs uma única condiçao: Todos os anos, no fim da seca, deverão todos os habitantes de Ejigbó dividirem-se em duas tribos que deveram golpear-se com varetas de madeira até estas se quebrarem! E é assim que até os dias atuais Ejigbó nesta época se dividem os bairros de Ixalê Oxolô e Okê Makpo para golpearem-se até quebrarem-se todas as varetas! Esperando que a chuva caia e a fertilidade retorne.

Esta lenda demonstra mais uma característica, além de Ogyan portar as armas acima referidas, também porta o Irukeré (rabo de cavalo branco) símbolo de sua realeza! E também a vareta de amoreira... demonstrando que possui também uma forte ligaçao e regència sobre os mortos... Ogyan, o Orixà da vida por excelência, também é o Orixà da vida após a vida! Sendo assim rege os mortos e sua lembrança viva...

Na natureza encontramos Ogyan no camaleão, nos primeiros raios do Dia, assim como no dia todo. Também encontramos seu axé em tudo o que é branco e puro, assim como também nas águas, sobretudo nos gêisers, fontes de águas termais e quentes! Pois ele é a água e o fogo do início dos tempos, a água vulcânica que presenciou a criação do mundo e criou a atmosfera, o ar, que gerou a vida neste planeta!!

Ogyan é tanto o Orixà da vida que é muito comum ser um Orixà favorito dos sacerdotes anciãos, pois ele é sempre o prenúncio de mais vida! Onde entra um omorixá de Ogyan, a vida se renova, o tempo de vida se prolonga, as atividades retomam força, os objetivos se redefinem ou se discernem melhor os ideais. Há um reavivamento em tudo!! E também o famoso lorogùm... aquele que limpa e define as coisas... o brilho afiado de Ogyan que define tudo, que exalta os ânimos, os vícios e as virtudes, que traz à tona à verdade, e os contrastes, colocando tudo em seu devido lugar. Nada mais se paira à sombra, o dia chegou!!
Tanto que em algumas casas, antes de se fazer um Ogyan busca-se acalmar sua cabeça de Lorogum. Existe um preceito muito simples e eficiente para isso.

Seu elemento: Ar e Água
Seu temperamento: Quente
Sua regência: Vida, criatividade, estratégia, a guerra, as invenções, a inteligência, o debate, o brilho, o dia!
Sua cor: o Branco, matizado de azul, cor que leva em honra à Ogun seu companheiro.
Seus instrumentos: a mão-de-pilao, a espada, a lança, o escudo, o irukeré (rabo de cavalo), o iruexan (vareta de amoreira).
Comida preferida: inhame pilado.
Animais consagrados: pombos brancos, cavalos brancos, camaleão, igbin.

Saudemos entao o grande senhor da vida!
Salve o grande guerreiro branco que desconhece à derrota!
Saudemos ao amanhecer do dia, quando surgirem os primeiros raios de vida e de luz!!

“Exeu ê! Epa Babà!! Kabiesy Oxanguian!!”

Axé!!
ólje olóba iluike obarainan

Embaixada não é Doi-Codi...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

No telhado é mais criativo!...

Sexo de crente: Entre quatro paredes vale tudo?


Dani Marques

Esta é uma pergunta que assombra muitos cristãos. "Isso pode? Isso não pode? É permitido por Deus?". No geral, a religião acaba limitando a vida sexual do cristão, infelizmente, mas não podemos generalizar. Existem casais cristãos que vivem uma vida sexual livre e satisfatória, sem neura alguma, assim como também existem casais não cristãos que são completamente frustrados na cama. Creio que a religião teve uma influência muito negativa no decorrer da história no que diz respeito ao sexo. Muitas verdades Bíblicas foram (e ainda são) distorcidas, "neurotizando" aquilo que era pra ser prazeroso e natural. No passado, o sexo era visto como tabu, algo sujo, inclusive entre os casados, e a igreja (instituição) foi uma das grandes responsáveis por esta visão. Infelizmente muitos ainda pensam dessa forma, especialmente dentro das denominações mais radicais. São pessoas completamente limitadas na vida sexual. Vivem atormentadas pelo medo e pela culpa. Conheço casais que pedem perdão depois do sexo, algo que não tem fundamento Bíblico algum! Uma total falta de informação, quer dizer, excesso de informação distorcida! Mas como eu disse, não dá para generalizar. Muitos cristãos que realmente entenderam a grandeza do amor de Deus por nós através da vida e dos ensinamentos de Jesus, conseguem viver uma vida sexual plena e livre de culpa.

Recebo muitos e-mails de cristãos desesperados, com graves problemas na área sexual. O motivo? Não se fala sobre sexo abertamente dentro das igrejas (com raríssimas exceções). Então, aquilo que era visto como tabu no passado, vai passando de geração em geração. As pessoas não conseguem se libertar de questões muito simples, por medo de irem para o inferno. Além disso, se sofrem algum tipo de trauma ou abuso na infância (o que geralmente traz sérias consequências na vida adulta) não encontram espaço dentro da igreja para se abrir e buscar orientação, pois o medo de serem julgadas ou mal vistas é muito grande. Mas a partir do momento que você entende a mensagem de Cristo, que está focada no amor a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, tudo fica mais leve e natural.

Mas isso só acontece quando o cristão desliga o botão de automático, pára de balançar a cabeça para tudo o que é imposto como regra pela liderança da igreja e busca entender a vontade de Deus através da leitura Bíblica, especialmente dos Evangelhos (que tratam especificamente dos ensinamentos de Cristo). Os cristãos são chamados a raciocinar, isso é saudável e essencial! Infelizmente a grande massa cristã (católicos e protestantes) acaba indo na onda do movimento. Se o líder diz que fazer sexo de luz acesa é pecado, o povo grita aleluia e amém. Não se dá nem ao trabalho de conferir na Palavra se o argumento tem fundamento. Paulo fala na sua carta aos Romanos, no capítulo 13, que toda a lei de Deus se resume ao amor: "Pois estes mandamentos: "Não adulterarás", "não matarás", "não furtarás", "não cobiçarás", e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: "Ame o seu próximo como a si mesmo". O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei." Então, se houve amor sincero na sua atitude, inclusive durante o sexo, você cumpriu a lei. Simples assim.

Para os que ainda estão presos pelas amarras da religião, é muito difícil ter uma vida sexual plena e sem culpa. Vira neurose! E aí, a neura do irmãozinho acaba virando doutrina e regra para a vida da igreja. Não podemos fazer dos nossos gostos e desgostos pessoais regra para vida de ninguém. Se alguém se sente mal praticando sexo "x" com seu cônjuge, tudo bem, devemos respeitá-lo. Mas ele não deve impor isso como regra para a vida da comunidade. Por isso que existem tantos relacionamentos doentes dentro das igrejas. As dezenas de e-mails que recebo (inclusive de pastores e de esposas de pastores) não me deixam mentir! Pastores que proíbem o sexo "assim" ou "assado", mas vivem mergulhados na pornografia e masturbação, pois a vida sexual com sua esposa (que também está cheia de neuras) é uma grande frustração. Maridos que não sentem prazer algum em ver suas mulheres peludas e transam com elas pensando na vizinha depilada. Vivem apenas de aparência, uma grande hipocrisia!

O segredo para uma vida sexual saudável também está na conversa. Deve haver comunicação fluente nesta área. As vezes o que é prazeroso para o marido, não é nada prazeroso para esposa. O que causa grande prazer em uma mulher, pode causar repulsa na outra. Deve existir conversa franca e frequente, sempre em amor. A intimidade sexual é um aprendizado que dura a vida inteira. Ninguém deve se iludir pensando que vai entrar no casamento e experimentar o sexo dos sonhos. Isso só existe nos filmes! O casal deve ir se descobrindo aos poucos, e quando tiverem com 40 anos de casados, ainda vão estar se descobrindo!

Muitas denominações pregam que o prazer apenas por prazer é pecado. Não creio dessa forma. Se acreditamos que Deus nos formou por inteiro, então obviamente o clitóris, ou o ponto "G", também foram criados por Deus. O homem, ao ejacular, também sente prazer, e isso faz parte do plano de Deus na criação. Pois bem, pensando assim, podemos concluir que o sexo não foi feito somente para a procriação, mas também para o prazer. Se Deus não quisesse que o homem (a raça humana) sentisse prazer na relação sexual, teria nos criado de outra forma. Quem sabe teria programado nosso libido para funcionar uma vez ao ano, apenas na época de reprodução, rs. Então, sem sombra de dúvidas Deus se agrada do sexo entre marido e mulher e do prazer que ele proporciona.

Paulo também aconselha, primeiro aos casados e depois aos solteiros: "Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio." e "Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo" (1 Coríntios 7:5,9). Estes versículos transmitem a clara informação de que é completamente aceitável sentir prazer no sexo, pois é algo fisiológico. Se Paulo diz que o cara deve casar para não ficar ardendo em desejo, é porque ele vai satisfazer esse desejo com a esposa, correto? Sem contar o livro de Cânticos, na Bíblia, que é uma ode ao sexo! Não tem como ter dúvidas. Como eu disse anteriormente, é só questão de raciocinar.

Creio também que o grande conflito nos relacionamentos é gerado pelo egoísmo, inclusive na área sexual: "Meu marido/esposa precisa me satisfazer sexualmente!" A pessoa não se preocupa em saber o que mais dá prazer ao cônjuge, se algum tipo de carinho ou movimento realmente o agrada, não espera o tempo dele, enfim. Imagine um casal onde os dois pensam dessa forma? Pela lógica, teríamos pelo menos um dos cônjuges frustrados na cama. Mas quando utilizamos a lei do amor, citada anteriormente, o pensamento muda: "Amo tanto meu esposo(a) que desejo satisfazê-lo(a) plenamente!" Se os dois agirem dessa forma, imagine que sexo maravilhoso terão? Ninguém busca o sexo para sofrer, é obvio, todos desejam o prazer, mas a raiz do problema está em buscar a própria satisfação exclusivamente, sem se preocupar com o prazer do outro.

Existe um grande equívoco na interpretação do que Paulo escreve em sua primeira carta aos Coríntios: "O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio." Muitos homens utilizam esse texto para justificar atitudes abusivas na cama. Eles praticam um sexo egoísta, desprovido de amor, maltratam suas esposas física e emocionalmente e ainda justificam dizendo: "A Bíblia fala que seu corpo me pertence. Você tem a obrigação de me satisfazer!" Isso é uma interpretação maligna! É imprescindível analisar o contexto. Paulo está dizendo claramente sobre o perigo que há na privação sexual entre marido e mulher. Não é difícil de entender. Deixe seu marido sem sexo por muito tempo que rapidamente ele estará se deleitando em pensamentos eróticos, masturbação, pornografia e quando não, na prostituição. É algo fisiológico. Muitas mulheres também sentem dessa forma. E isso obviamente trará grandes conflitos para o relacionamento. Então, para evitar que aconteça, não se privem. Pronto, simples assim. Quando assumimos o compromisso do casamento, estamos nos comprometendo também em satisfazer nosso cônjuge na área sexual. O meu corpo será para ele e o dele para o meu, e isso não é ruim, muito pelo contrário!


"Mas afinal, o que é permitido dentro do sexo cristão?" Se formos seguir ao pé da letra o que muitas religiões ditam por aí, faremos apenas o sexo "papai e mamãe", de luz apagada e olhe lá! A partir do momento que entendemos o Evangelho, ou seja, o relato da vida e dos ensinamentos de Jesus, nos libertamos de muita coisa que a religião aprisiona. É realmente um sentimento de liberdade e vida nova! Amo meu esposo, ele me ama e dentro do nosso amor quem estabelece os limites somos nós. A única regra que obedecemos é aquela imposta por Jesus: o amor!

Jesus viveu e ensinou o amor. Se eu creio que o próprio Deus habita em mim, devo resplandecer este amor através dos meus atos e palavras, inclusive na área sexual. Sobre o sexo oral, por exemplo, não existe nenhuma passagem na Bíblia afirmando que você só pode colocar a boca há 5 centímetros de distância do órgão genital do seu cônjuge, passando disso entrou em área pecaminosa. Chega a ser cômico. Não existem órgãos mais pecaminosos que outros, pois Deus nos criou por inteiro! O único órgão do nosso corpo que tem o poder de nos fazer pecar é o coração, "pois é dele saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias. Essas coisas sim tornam o homem ‘impuro’." Mt 15:19.

Jesus falou: "O que entra pela boca não torna o homem ‘impuro’; mas o que sai de sua boca, isto o torna ‘impuro’". Mt 15:11. Então, colocar a boca em alguma parte do corpo do cônjuge, ir ao motel, fazer canguru perneta ou utilizar adereços (lingeries, óleos de massagem, velas...) para apimentar a relação, só será pecado se o que vier de dentro for ruim, ou seja, se a intenção do coração for ruim. Se for prazeroso para ambos, feito em amor e dentro da aliança do casamento, não há com que se preocupar. Muitos alegam que o sexo oral ou anal podem trazer doenças, e que devemos cuidar do nosso corpo que é templo do Espírito Santo. Concordo, mas isso não se restringe ao sexo. O que dizer de uma pessoa que não pratica sexo oral/anal, mas vez ou outra exagera no refrigerante ou fast-food? Dá na mesma. Entendo que neste caso é questão de saúde, não de pecado. O perigoso mesmo é se preocupar demais com o exterior e acabar esquecendo do principal: o coração!

Também entendo que a mulher da pornografia, o homem nu da revista ou a terceira pessoa do menáge à trois, não fazem parte da minha união com meu esposo, por isso não têm espaço no nosso relacionamento. E se houver o desejo de algo novo, o segredo é conversar, priorizando sempre a aliança do casamento e o amor que sentimos um pelo outro. Se vai machucar, desrespeitar, humilhar ou causar algum tipo de desconforto, não rola. Vale para os dois lados.

"Mas Dani, o sexo é tão importante assim?" No geral, para o homem, o sexo frequente é essencial, assim como beber água. Já para a grande maioria das mulheres, não. Mas isso não é regra. Um casamento que tem problemas na área sexual acaba tendo nas outras. Um homem sem sexo há muito tempo ou esposas frustradas na cama, acabam recorrendo há outras ferramentas para satisfazer seus desejos. E isso traz problemas para as outras áreas do relacionamento. Digo que o sexo não é prioridade, mas é uma das pernas "da mesa". Se uma delas não estiver firme, a mesa tomba.

Concluindo, como saber se o que estamos fazendo está dentro da vontade de Deus? Convivendo com Ele, não tem outro jeito. E como conhecer a Deus? Ele se mostrou ao mundo através de Jesus. Foi como se estivesse dizendo: "Se eu fosse humano, seria assim!". Por isso Jesus disse: "Quem crê em mim, não crê apenas em mim, mas naquele que me enviou. Quem me vê, vê aquele que me enviou". João 12:44-45. Não tem como dizer que conhece a Deus se não conhece a Cristo. Precisamos caminhar ao seu lado através da leitura Bíblica e oração constante. A leitura dos Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) deve ser prioridade na vida de um cristão, pois são um relato da vida de Jesus, desde o seu nascimento até sua morte. Todos os outros livros da Bíblia devem ser lidos a partir de Jesus e com base em seus ensinamentos. Ele é a chave hermenêutica da Bíblia! Fortalecendo o seu relacionamento com Deus, o Espírito Santo vai lhe dando sabedoria na caminhada para tratar de situações delicadas como o sexo. O seu entendimento vai se abrindo aos poucos e você vai se tornando uma pessoa livre em Deus! Livre de culpas, traumas e neuras.

Jesus foi um grande revolucionário! Escandalizou centenas de religiosos da época com a sua mensagem e continua escandalizando até hoje! Pois quando fala que está preocupado com o interior e não com o exterior, tira o poder das mãos humanas, e isso assusta os religiosos interessados no poder, pois eles só conseguem ter acesso ao exterior. Como sou uma seguidora de Jesus e proclamadora da sua mensagem, então é provável que esse texto escandalize muita gente. Acharia estranho é se isso não acontecesse... rs.


Dani Marques é colunista do Genizah

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"Esperando Godot"


 Como falar sobre a religião?
          "Eu gostaria de começar com a bela peça de Samnuel Beckett, 'Esperando Godot'. Ela é absurda, como absurda é a vida, mas o verdadeiro absurdo da vida, se compreendido profundamente, torna-se uma indicação para alguma coisa que está além e cheio de significado. E somente o além é cheio de significado: o que está além de você é cheio de significado, o que está além da mente é cheio de significado.

          'Esperando Godot' pode ser um grande começo para o Hassidismo, Zen ou Sufismo, uma verdadeira indicação indireta, porque dizer alguma coisa diretamente a respeito de tão íntimo e profundo fenômeno, é violentá-lo. Assim, sejamos cuidadosos, movimentemo-nos devagar, pois o terreno é sagrado.

          A cortina se levanta: dois vagabundos estão sentados e esperando Godot. Quem é esse Godot? Eles não sabem, ninguém sabe. Mesmo o Samuel Beckett, quando uma vez lhe perguntaram quem era esse Godot, disse, 'Se eu soubesse, teria dito na própria peça'.

          Ninguém sabe, isso é um gesto Zen. Mas a palavra Godot soa como Deus (God, em inglês), o que é significante. Quem conhece Deus? Quem alguma vez o conheceu? Quem pode dizer, quem pode proclamar: 'Eu conheço'? Toda informação é tolice, e aquele que proclamar que conhece Deus, é simplesmente estúpido.

          Godot soa como Deus (God), o desconhecido. Ele pode ser tudo, ele pode ser nada. Eles estão esperando Godot. Se eles não conhecem esse Deus, por que eles estão esperando? Porque se você não esperar por alguma coisa, você cairá dentro do vazio mais interno; se você não estiver esperando que alguma coisa aconteça, você terá que encarar o vácuo dentro de você, o nada dentro de você, e isso dá medo, isso é como a morte. Para evitar isso, para escapar disso, a pessoa projeta um sonho no futuro. É assim que o tempo futuro é criado.

          O futuro não é parte do tempo, ele é parte da mente. O tempo é sempre presente. Ele nunca é passado e nunca é futuro. Ele é sempre agora. A mente cria o futuro, assim a pessoa pode evitar o 'agora', a pessoa pode olhar para frente, para as nuvens, esperar alguma coisa e fingir que alguma coisa está para acontecer e nada acontece.

          Uma das verdades mais básicas a respeito da vida humana é que jamais coisa alguma acontece. Milhões de coisas parecem acontecer, mas nada jamais acontece. A pessoa segue esperando, esperando, esperando: esperando Godot. Quem é esse Godot? Ninguém sabe. Mas ainda assim, a pessoa tem que projetar um sonho... como evitar o seu próprio vazio interior?
          No Hassidismo há um ditado: 'O homem é feito de pó e ao pó retornará - do pó para o pó e no meio, uma bebida se acomoda'.

          Essa bebida é o desejo, a projeção, a ambição, o futuro, a imaginação. De outra maneira, você iria se tornar, de repente, consciente de que você é apenas pó e nada mais. Esperando pelo futuro, aguardando o futuro, o pó tem um sonho ao redor, ele faz parte da glória do sonho, ele ilumina. Através do sonho você sente que você é alguém. E sonhar não custa nada, você pode sonhar. Mendigos podem sonhar que são imperadores, não existe lei alguma contra isso. Para evitar o que é, projeta-se um sonho de tornar-se algo. Aqueles dois vagabundos estão personificando toda a humanidade.

          O homem é um vagabundo. De onde você veio? Você não é capaz de dizer. Para onde você está indo? Você não é capaz de responder. Onde você está exatamente agora, neste momento? No máximo você pode encolher os ombros. O homem é um vagabundo, um viajante, sem lar no passado, sem lar no futuro, viajante numa viagem contínua, sem fim. Beckett está certo: aqueles dois vagabundos são toda a humanidade.

          Mas para criar um sonho, um não é suficiente, dois são necessários. Porque um será menos do que é preciso, a ajuda do outro é necessária. Por isso que aqueles que querem se livrar dos sonhos tentam ficar sozinhos, começam a se tornar silenciosos, meditam, vão para o Himalaia. Eles tentam ficar só, porque quando você está só é difícil. Pouco a pouco, de novo e de novo, você vai sendo atirado de volta à sua realidade, não existe apoio, não existe desculpa, por isso o outro é necessário. É por isso que sempre que alguém se apaixona, de repente os sonhos explodem no ser. O outro está ali, agora vocês podem sonhar juntos e vocês podem ajudar um ao outro a evitar a si próprio. É por isso que há tanta necessidade de amor, é uma necessidade de sonho.

          Só, é muito difícil sonhar. Pouco a pouco o sonho é quebrado e você é atirado à realidade nua, ao vazio. Um amante é necessário, alguém para se agarrar, alguém para olhar, alguém para compartilhar, alguém que vai remendar os furos, que irá trazê-lo para fora de si mesmo, de maneira que você não tenha que encarar a sua realidade nua.

          A cortina sobe e dois vagabundos estão sentados. Eles estão esperando Godot. Eles não perguntam um ao outro: 'quem afinal é esse Godot?' porque perguntar pode ser perigoso. Eles ambos sabem, lá no fundo, que eles estão esperando ninguém. É perigoso, é arriscado perguntar 'quem é esse Godot?'. O surgimento da própria pergunta será perigoso: o sonho se despedaçará. Eles estão com medo, eles não perguntam.

          Uma pergunta eles evitam continuamente: 'quem é esse Godot?' e essa é a questão básica, a que deveria ter sido formulada no primeiro momento em que a pessoa se tornasse consciente. Você está esperando Godot. Pergunte: 'quem é esse Godot?' Mas esta questão mexe com eles. Por isso eles conversam sobre muitas outras coisas.  Eles dizem: 'quando ele vai chegar? você tem certeza de que desta vez ele vai cumprir a promessa? Ontem ele nos enganou, anteontem ele não veio e hoje também, a hora prometida já está passando e parece que ele não está vindo'.

          Eles estão olhando para a estrada repetidas vezes, e a estrada está vazia. Mas eles não formulam a questão básica. Eles nunca perguntam: 'quem é Godot?'. Eles nunca perguntam 'quando ele prometeu a você que viria? Onde você se encontrou com ele? Como você sabe que ele existe?'. Não, eles nunca tocam nessa questões.

          Essa é a maneira como vivem todas as pessoas no mundo. Elas nunca formulam a questão básica. Ela é arriscada, ela é muito perigosa. A pessoa tem que se esconder, a pessoa tem que fingir que essa questão básica já é conhecida. Lembre-se, a pessoa segue sempre perguntando as perguntas secundárias.

          Quando vocês vêm a mim, raramente acontece de alguém formular um pergunta primária.... só secundárias. E se eu tentar trazê-los para a pergunta primária, vocês ficam amedrontados. Vocês perguntam coisas fúteis que podem ser respondidas, mas que, mesmo sendo respondidas, não lhes trazem ganho algum, porque elas não são básicas. É como se a sua casa estivesse em chamas e você perguntasse 'quem plantou essas árvores?'. A pergunta pode parecer relevante, ela pode ser respondida, mas qual será o resultado disso?A casa está em chamas, você tem que fazer alguma coisa, e perguntar o que é fundamental. Mas você nunca pergunta.

          E de novo eles repetem, 'o dia está passando novamente e ele não veio'. E eles ajudam um ao outro, 'ele deve estar chegando, ele talvez esteja atrasado. Existem mil e um imprevistos. Mas ele é um homem em quem você pode confiar, ele é confiável'.  E esse 'ele' é simplesmente vazio.

          Um dia mais se passou e ele não veio e eles estão furiosos. Eles começam a dizer: 'agora é demais. É demais, e nós vamos embora'. Eles não podem esperar mais, mas eles nunca vão embora. No dia seguinte, de novo eles estão lá, sentados no mesmo lugar, esperando Godot novamente. E ontem eles haviam decidido, eles tinham decidido veementemente que agora eles iriam embora. 'Está acabado. Uma pessoa não pode esperar por alguém por toda a vida. Então, se ele estiver vindo, tudo bem; mas se ele não estiver vindo, também está tudo bem.'

          Por que eles não vão embora? Eles continuam repetindo que estão indo embora. O problema é: para onde ir? Você pode ir embora, mas, para onde ir? Para qualquer lugar que você for, você estará de novo esperando Godot, a mudança de lugar não irá ajudar. Você pode ir para a Índia, você pode ir para a Inglaterra ou para os Estados Unidos, ou você pode ir para o Japão, mas qual será o resultado? Você estará esperando Godot. Japão, Inglaterra, Índia, dá no mesmo. A mudança de geografia não irá ajudar.

          É por isso que quando a humanidade está em profundo tumulto, as pessoas se tornam viajantes. Elas vão de um país para outro. Elas estão sempre no movimento de ida, elas estão sempre indo a algum lugar. E elas não estão chegando a lugar algum, mas elas estão sempre indo a algum lugar. Na verdade elas não estão indo a algum lugar, elas estão apenas escapando dos lugares onde elas estão. Se elas estão nos Estados Unidos, elas vão para a Índia, se elas estão na Índia, elas vão para o Japão, se elas estão no Japão, elas vão para o Nepal. Elas não estão indo a lugar algum, elas estão simplesmente tentando escapar do lugar onde elas estão. E em todo lugar elas permanecem as mesmas: nada acontece, porque a geografia nada tem a ver com isso.

          Aqueles vagabundos, sob certo sentido, são mais verdadeiros e honestos. Eles decidiram com raiva. Eles xingaram e juraram. E disseram: 'Agora é demais! Amanhã cedo nós não estaremos mais aqui esperando Godot. Nós vamos embora!'

          Amanhã novamente o sol nasce e eles estão no mesmo lugar e esperando, e de novo perguntando quando ele chegará. E eles se esqueceram completamente da noite anterior quando eles tinham decidido ir embora... mas, para onde ir?

          Sem lugar para ir. Essa é a segunda verdade básica a respeito da humanidade. A primeira é que nada acontece, jamais. As coisas parecem acontecer, mas você permanece o mesmo. Olhe para o seu ser. Alguma coisa já aconteceu aí? Você era uma criança e sonhava muito, então você se tornou um jovem e você ainda sonhava muito. Então você se tornou um velho e você ainda está sonhando. Você sonhou com riquezas do mundo, agora talvez você esteja sonhando com as riquezas do outro mundo, mas alguma coisa aconteceu com você? E não fique assustado, porque se você ficar assustado, você começará a formular perguntas secundárias.

          Religião é formular a questão fundamental, a questão verdadeiramente básica. E é muito significante formular a pergunta corajosamente, porque na própria formulação você está chegando próximo ao centro.

          A segunda verdade: você tem ido, ido e ido de um lugar para outro, de um estado de humor para outro, de um plano para outro, de um nível para outro, mas você não está chegando a lugar algum. Você já chegou a algum lugar? Você pode dizer que você alcançou algum lugar? É sempre uma partida. E nunca acontece uma chegada? Os trens estão sempre partindo, os aviões estão sempre decolando, as pessoas estão prontas na sala de espera. Sempre partindo e nunca chegando a lugar algum. Tudo isso é um absurdo ... Mas você nunca pergunta.

          Essas duas perguntas são básicas e a terceira começa então a borbulhar: quem é você? Porque, realmente, não é muito significativo perguntar quem é Godot. Isso é uma criação sua, seus deuses são suas criações.... A verdadeira religião, uma religião autêntica, não pergunta quem é Deus. Ela pergunta 'quem é você?' Eu tenho que descer até a minha fonte básica, somente ali, somente ali está a revelação. Jesus, Buda, ou Baal Shem Tov - eles formulam as perguntas fundamentais.

          A segunda coisa para compreender a respeito das perguntas fundamentais é que as perguntas fundamentais não têm respostas. A pergunta é a própria resposta. Se você formular a pergunta autenticamente, no próprio perguntar, ela será respondida. Não é que você pergunta 'quem sou eu, quem sou eu, quem sou eu?' e num dia você vem a saber que você é a, b, c, d. Não, você nunca vai chegar a saber a, b, c, d. Pouco a pouco, quanto mais você perguntar, mais fundo chegará. Um dia, de repente, a pergunta desaparece. Você estará de pé, face a face com seu próprio ser, você está aberto para o seu ser. A pergunta terá desaparecido e não haverá resposta.

          Tenha isso como um critério: se a pergunta puder ser respondida, ela não é fundamental. Se por perguntar, a questão desaparece, ela é fundamental, e nesse próprio desaparecer, você terá chegado. E pela primeira vez, alguma coisa terá acontecido, pela primeira vez, você já não é mais o mesmo. Godot não veio, mas a espera desapareceu. Você não espera, você chegou. E uma vez que você tenha chegado, a qualidade de seu ser será totalmente diferente. Então você pode celebrar...

          Quando uma semente se torna uma flor, existe alegria, existe deleite. Uma vez que você compreenda quem você é, uma vez que você vá fundo em seu vazio, sem medo, uma vez que você aceite a morte interna, e você não tente escapar através de sonhos e projeções, uma vez que você aceite que você é pó e ao pó retornará e que entre esses dois acontecimentos não há nada, só um profundo vazio, você terá chegado ao que Buda chama Nirvana. E isso é o que o Hassidismo chama Deus. Isso não é o seu Godot. ...

          Uma vez que você esteja pronto para entrar no vazio, de repente o medo desaparece, a mesma energia se torna celebração. Você pode dançar porque aquilo que parecia ser vazio era uma interpretação da mente, não era vazio. Aquilo era tão cheio que a mente não podia entender aquela imensa dimensão...

          Uma vez que você entre em seu ser mais profundo, a mente não pode entender. Ela é totalmente alheia a essa nova linguagem, ao novo território. Isso é absolutamente desconhecido para ela. A mente não pode ajudar nisso. Ela segue simplesmente vazia. A coisa é demais para ela. A luz é tão brilhante e deslumbrante que a mente segue vazia e em branco. Você fica com medo e escapa, então você cria um falso deus, um Godot...

          Existem religiões de Godots, igrejas, mosteiros, templos. Elas estão organizadas em torno de um credo, organizadas por causa do medo do homem, organizada por causa da mente escapando de seu vazio interior, são doutrinas e dogmas para preencher você. Todas elas são barreiras...

          As religiões comuns são falsos fenômenos. Tenha cuidado com elas. Você pode estudar e, enquanto você estuda, você pode se sentir bem, enquanto você estuda, você pode se esquecer de si mesmo. Você pode entrar em teorias sutis e pode acontecer uma certa curtição intelectual, um deleite intelectual. Você pode participar de rituais e pode haver uma certa intoxicação nisso. Se você repetir um mantra continuamente, você ficará intoxicado, ele está criando um álcool interno através do som. Ou você pode entrar nas drogas. Você mudará a sua química e por poucos momentos você alcançará uma altura que é falsa, que não é uma altura real, porque você não tem alicerces para ela. Foi a química que empurrou você. 

          Eu encontro você na estrada e eu tenho uma lanterna. De repente, você não está mais na escuridão, mas a lanterna é minha. Em breve nós iremos partir, porque o seu caminho é o seu caminho e o meu é o meu. E cada indivíduo tem um caminho individual para alcançar seu destino. Por um momento você esquece toda a escuridão, a minha luz funciona para mim e também para você. Mas em breve o momento chega e nós teremos que partir. Eu sigo o meu caminho e você o seu. Agora, de novo, você terá que ir apalpando na escuridão e a escuridão será ainda mais forte que antes.

          Assim, não dependa da luz dos outros. É até melhor ir apalpando na escuridão, mas deixe que a escuridão seja sua. A luz de alguma outra pessoa não é boa. Mesmo a própria escuridão de uma pessoa é melhor para ela. Pelo menos é dela mesma, pelo menos ela é a sua realidade. E se você viver em sua própria escuridão, mesmo a escuridão se tornará menos e menos escura. Você será capaz de ir apalpando, você aprenderá a arte de apalpar e não irá cair.

          Pessoas cegas não caem. Se você tentar andar com os olhos fechados, enfrentará dificuldades. Nem cem passos você conseguirá dar. Mas o homem cego tem andado de toda maneira, a cegueira é dele. Com os olhos fechados você está tomando uma cegueira por empréstimo, ela não é sua.

          Mesmo a escuridão, sendo da própria pessoa, é boa. Os erros da própria pessoa são melhores que as virtudes de outras pessoas. Lembre-se disso, porque a mente está sempre tentada a imitar, a tomar emprestado. Mas o que é significante não pode ser tomado emprestado. Não, você não pode entrar no reino de Deus com dinheiro emprestado, não tem jeito. Você não pode subornar os guardas, porque não existem guardas, e você não pode entrar pela porta do ladrão, porque não existem portas. Você tem que caminhar e ao caminhar, criar o seu próprio caminho. Caminhos prontos não estão disponíveis.
          Isso é o que as falsas religiões seguem ensinando as pessoas: 'Venha! Esta é uma superestrada. Seja um cristão e não precisará mais se preocupar. Então nós iremos cuidar de todo o seu fardo. Então nós nos responsabilizaremos.' Jesus disse: 'Seja você mesmo' e o Papa do Vaticano diz: 'Siga o cristianismo'.

          Todo o cristianismo é contra Cristo, todas as igrejas são contra a religião. Elas são cidadelas de anti-religião e de anti-Cristo, porque aqueles que alcançaram o conhecimento enfatizaram que você deve ser você mesmo. Não existe outra maneira de ser. Tudo o mais é falso, desonesto, não sincero, imitação, feio. A única beleza possível é ser você mesmo, ser você mesmo em tal pureza e inocência que nada de fora, estranho, entre em você.

          Caminhe em sua própria escuridão, porque caminhando, apalpando, pouco a pouco você irá encontrar a sua própria luz também. Quando você tem a sua própria escuridão, a luz não está muito longe. Quando a noite está escura, a manhã está próxima, quase chegando. Se você se tornar dependente de luz emprestada, você estará perdido. A escuridão nunca é tão perigosa quanto uma luz emprestada. Conhecer é bom, mas o conhecimento não é bom. O conhecer é seu e o conhecimento é dos outros...

          Para você caminhar não é preciso que o mundo inteiro seja preenchido com luz, basta o seu próprio coração. Uma pequena chama e será o suficiente, porque ela irá iluminar suficientemente o caminho para você caminhar. Ninguém caminha mais do que um passo de cada vez. Uma pequena chama no coração - de consciência, de clareza, de meditação, uma pequena chama e será o bastante. Ela ilumina um pouco seu caminho. Então você dá um passo e então a luz avança mais adiante.
          Lao Tsé diz: 'caminhando um passo de cada vez, a pessoa pode caminhar dez mil milhas'. E Deus não está lá longe. O Godot está lá longe, você nunca irá alcançá-lo. Você terá que esperar, esperar e esperar. Ele é uma espera. Godot é uma espera infinita, porque ele é simplesmente uma imaginação. Ele não está lá. Ele é como o horizonte, ele aparenta estar...

          Godot é um horizonte, ele é uma espera, ele preenche o seu vazio e engana você. Esse é o único engano. Mas Deus não está longe. Deus está exatamente onde você está, exatamente agora...

          Viver é possível somente neste momento, porque não existe outro momento. E quando eu estou dizendo essas coisas, não comece a pensar a respeito delas, porque pensar é um processo e leva você para o futuro. Ouça-me e entenda - isso não é uma questão de pensar. Eu não estou falando a respeito de alguma hipótese. Eu estou simplesmente falando para vocês um fato. Eu não estou dando a vocês uma doutrina, eu só estou indicando qual é o caso. Você não precisa pensar a respeito disso. Você pode ouvir e se você tiver ouvido bem, atentamente, o entendimento é imediato.

          Comigo, você irá perder a trilha repetidas vezes, porque essa é a minha luz. Mas, uma vez que você saiba que a luz é possível, você se tornará confiante de que a sua luz também é possível. Se isso acontece com esse homem, por que não com você? Meus ossos são exatamente como os seus, meu sangue, exatamente como o seu, eu sou de carne-e-osso como você. Eu estou tão empoeirado quanto você. Se alguma coisa do além foi possível para esse homem, você pode confiar, não há necessidade de hesitar, você também pode dar o salto.

          Comigo, nesses dias, enquanto você estiver comigo, eu vou tentar caminhar com você com minha luz. Lembre-se: aproveite isso, mas não dependa disso. Leia o Torah, leia a Bíblia, aproveite pois eles são realmente lindos, mas não dependa. Curta o seu próprio impulso, o seu próprio desejo, dê uma urgência, uma intensidade para chegar, para chegar onde você já está. Isso não irá acontecer em algum outro lugar. Isso está aí, onde você está.

          A religião não é um objetivo, ela é uma revelação. Religião não é um desejo, ela é realidade. Só um pequeno sintonizar, e eu digo só um pequeno e tudo se torna possível. A vida se torna possível, de outro modo você viverá vazio e esperando. Não seja os vagabundos da peça de Samuel Beckett 'Esperando Godot'. Você já esperou muito. Ponha um fim nisso, agora, e comece a viver. Por que esperar? Quem você está esperando? Quem é afinal esse Godot?

          Neste momento, toda a existência cruza em você.

          Neste momento, tudo que está na existência, culmina em você.

          Neste momento, você é um crescendo. Curta isso.

          Se você puder entender que você é o objetivo, será muito fácil entender essa história. Ela é pequena, mas muito significante e penetrante. Você é o objetivo, você é o caminho, você é a luz, você é o todo. Esse é o significado quando nós dizemos 'você é sagrado'.

          Se você veio a mim, lembre-se: deixe-me ser simplesmente um encorajamento, um encorajamento para levar você a si mesmo. Permita-me e ajude-me de tal maneira que eu possa atirá-lo de volta ao seu ser mais profundo. Esse é o significado de um mestre: um mestre ajuda você a ser você mesmo.

          Eu não tenho qualquer padrão de comportamento para lhe dar, nenhum valor, nenhuma moralidade. Eu tenho apenas liberdade para lhe dar, de modo que você possa florescer, possa se tornar um lotus, uma luz e uma vida eterna."
                                                                                      OSHO - The True Sage - Discourse n. 1