segunda-feira, 13 de abril de 2015

O discurso de Marco Antônio nos funerais de Cezar - Uma obra de Shakespeare.















Tão atual nos dias de hoje, que comentá-la nas ruas poderia suscitar a possibilidade de estarmos colocando carapuças nas cabecinhas de uns e outros desavisados quanto a possibilidade de terem acabado de dar um belo tiro nos pés...

Não será um déjà vu?

O que podemos tirar de útil dessa memorável obra do grande Shakespeare?



A cena é a seguinte:
                                                                    
Cezar está morto, e Brutus, o assassino, é chamado para dizer à população romana, junto ao cadáver, porque motivos matou Cezar.

Imaginem uma multidão ululante, pouco favorável a Cezar, que já acreditava que Brutus tivera um gesto nobre, matando-o.

Brutus sobe a tribuna e faz um breve e pragmático relato das razões que o levaram a suprimir Cezar. Conhecido e querido por se identificar com os anseios populares, não viu nenhum motivo para preocupar-se com o clamor das ruas, pois essas eram as mais favoráveis possíveis. Convencido que havia dito aquilo que era esperado, sentou-se sob aplausos. A sua atitude refletia aquele que julga que a sua palavra vai ser aceita sem discussão; era uma atitude altiva, de quem está acostumado com as vozes das ruas e o clamor popular.

Como era de se esperar, Marco Antônio teria que subir à tribuna, sabendo que a multidão é contra ele, por ser amigo do arrogante e reativo Cezar.
Num tom de voz humilde, baixo, porém firme, Marco Antônio começou a falar:
Povo de Roma, venho vos falar em nome de Brutus!

Alguém mais cético na multidão pergunta o que era esperado: O que dirá ele sobre Brutus?

Alguém ao lado, responde: Diz ele, que é em nome de Brutus que se encontra aqui para falar. Acho melhor que não venha falar mal de Brutus aqui.

Um cidadão comum, diz: Esse Cezar era um tirano, distante do povo.

Ao lado, um cidadão: Certamente. É uma felicidade o ocorrido, Roma assim se verá livre dele.

Alguém na multidão grita: Silêncio! Ouçamos o que Marco Antônio vai nos dizer...

Obs. Vamos observar agora como se neutraliza as mentes daqueles que estão arrebanhados por um inconsciente coletivo apaixonado...

Marco Antônio: Amáveis romanos!

Todos: Silêncio! Ouçam!

Marco Antônio: Amigos, concidadãos, romanos, prestai-me atenção: aqui estou para enterrar Cezar, não para louvá-lo.

Obs. Acabara de aliar-se ao estado de espírito dos ouvintes.

O mal que os homens praticam lhes sobrevive; o bem, porém, é sempre enterrado com seus ossos... O mesmo acontece com Cezar. O nobre Brutus vos afirmou aqui nessa tribuna que Cezar era um ambicioso, um reativo, perseguidor, um incapaz de ouvir o clamor das ruas. Se assim era, ele cometeu uma falta muito grave, mas já passou por ela...

Aqui, com a permissão de Brutus e de seus companheiros, - porque Brutus é um homem respeitável e assim, são todos os homens de bem, - venho falar-vos nos funerais de Cezar.

Era meu amigo; foi justo e leal comigo; Brutus, porém, disse que ele é um homem ambicioso, e Brutus é um homem respeitável. Todos vós vistes como nas Lupercais, por três vezes lhe apresentei uma coroa de rei e três vezes ele a recusou. Seria isso ambição? Entretanto Brutus disse que ele era ambicioso, e sem dúvida alguma Brutus é um homem respeitável. Falo aqui, não para desaprovar Brutus, mas para dizer o que sei...

Outrora, vós o elegestes e não sem um motivo justo. Agora, que motivos impedem de chorá-lo? Ó razão! Fugistes para as feras e os homens não raciocinam. Perdoai-me. O meu coração está na esfinge com Cezar. Devo parar até que ele volte para mim.

Obs. Esta é uma parada obrigatória e estratégica, para dar tempo aos ouvintes de discernir às pressas, entre si, as suas afirmativas claras.
O objetivo aqui era observar o efeito que suas palavras produziam, ajudado por alguns desconhecidos amigos infiltrados na multidão.

Um amigo na multidão disse: Parece-me que há muita coisa nas suas palavras que precisamos ouvir para saber...

Um ouvinte cético comentou assim: Se considerares devidamente o assunto, verás que César cometeu grandes erros.

Outro amigo retruca: Verdade, amigo? Temo que o seu substituto seja muito pior!

Outro amigo infiltrado diz: Prestastes bem atenção às palavras dele? Cezar não quis aceitar a coroa. Isso prova que ele não era ambicioso.

O primeiro amigo acrescenta: Se for assim, alguém pagará caro por essa possível substituição...

Outro amigo diz: coitado do Antônio! Chorou tanto que tem os olhos vermelhos.

O primeiro amigo diz: Não há em Roma homem mais nobre que Marco Antônio.

Alguém do povo: Atenção, ele vai começar a falar novamente.

Marco Antônio: Ontem, a palavra de Cezar podia dominar o  mundo; hoje ele jaz aqui e uma parte dos homens não o venera. Senhores! Se quisesse disputar, inflamar os vossos corações e as vossas mentes com a revolta e a cólera, acusaria Brutus, acusaria Cássio, que todos vós sabeis, são homens respeitáveis.

Obs. Se Marco Antônio tivesse começado seu discurso com ataques, a história teria sido outra... Observem quantas vezes Marco Antônio repete o termo “respeitável”. Vejam com que inteligência ele sugere que Brutus e Cássio não são tão respeitáveis assim, como julga a população romana. Esta sugestão é levada a efeito nas palavras “revoltas”, “cólera”, “se eu quisesse despertar” e “acusaria”...

Vai ele agora construindo sutilmente frases que gerarão um novo estado de ânimo nos ouvintes. Apelou para a curiosidade da multidão em saber que “acusações seriam essas”...

Marco Antônio: Aqui está um pergaminho com o sinete de Cezar, que encontrei no seu gabinete; é o seu testamento, aquilo que ele deixa para o povo de Roma. Se ouvísseis a leitura deste testamento, o que, - perdoai-me, não pretendo fazer aqui, tenho a certeza que todos vós beijaríeis as feridas de Cezar assassinado, molharíeis os vossos lenços no sangue sagrado, imploraríeis fios de seus cabelos como lembrança.

Obs. Agora, resolve aguçar mais ainda a curiosidade da população, pois a natureza humana sempre deseja aquilo que é difícil de conseguir ou daquilo que vai ser privado. Observe que essas coisas uma vez obtidas perdem o seu valor... Assim, Marco Antônio despertou o interesse e a cobiça pelo Testamento de Cezar, preparando-os para o escutarem com um “espírito aberto”.

Todos gritavam: O Testamento! O Testamento! Queremos ouvir o que nos deixou Cezar.

Marco Antônio: Tende paciência, generosos amigos; não o devo ler. Não é bom que saibas agora o quanto Cezar os amou e fez por Roma. Não sois feito de pedra; sois humanos! E sendo humanos, ao ouvir poderíeis ficar furiosos.

Não, não é bom saberdes nesta hora que sois herdeiros de Cezar, pois, se souberdes que poderá acontecer? É imprevisível!...

Um amigo na multidão grita: Queremos ouvir a leitura do testamento! Marco Antônio lê agora o Testamento de Cezar!

Marco Antônio: Quereis ser pacientes? Quereis esperar um pouco? Fui muito longe falando nisso... Temo ter acusado homens respeitáveis que cravaram seus punhais no coração de Cezar.

Obs.: Sugeriu aqui um assassinato, chamando-os de assassinos.

O amigo na multidão aproveita e grita acompanhado de muitos: Estes homens respeitáveis são uns traidores!

Todos: O testamento! O testamento!

O amigo na multidão volta à carga: São uns vilões, uns assassinos! O testamento!

Marco Antônio: Exigis de mim a leitura do testamento? Então formai um círculo em torno do corpo de Cezar, para que vos possa mostrar o autor do testamento. Posso descer? Permitis isso?

Obs. Nesse ponto, Brutus deveria segui o meu conselho: Pegar uma biga com uma ótima parelha de cavalos e cair fora!

Todos: Vinde!

Um cidadão: Descei!

Um desconhecido: Lugar, lugar para Antônio, o nobilíssimo Antônio.
Marco Antônio: Não fiqueis tão próximos de mim. Afastai-vos um pouco.

Obs. Ele sabia que dando essa ordem ainda os aproximaria mais, e era justamente o que desejava.

Todos: Para trás, para trás.

Marco Antônio: Se tendes lágrimas preparai-vos para derramá-las! Todos vós conheceis este manto. Lembro-me da primeira vez que Cezar o vestiu. Foi numa noite de verão, na sua tenda, no dia em que bateu os Nérvios. Olhai: aqui penetrou o punhal de Cássio. Vede o rasgão que fez o invejoso. Foi aqui também, que o bem amado Brutus cravou o seu punhal. E, ao ser retirado este, como que o sangue de Cezar seguiu a lâmina para se certificar de que era Brutus, quem o ferira tão impiedosamente, pois Brutus, como sabeis, era o anjo de Cezar. Chorais agora, pois percebo que vos sentis comovidos; derramai as lágrimas da compaixão. Olhai aqui; vede o próprio Cezar dilacerado pelos seus traidores.

Obs.: Observem que aqui, Marco Antônio emprega a palavra “traidores” porque sabe que as mesmas estão em harmonia com o que domina as mentes da população.

Um simples cidadão: Que triste espetáculo!

Outro cidadão: Que dia fatal!

Um amigo oculto: Havemos de vingá-lo!

Todos: Vingança! Vingança! Vamos buscá-los! Não deixemos vivo um só traidor!

Marco Antônio: Parai concidadãos!

Um cidadão: Calma! Ouçamos o nobre Antônio!

O amigo oculto: Escutemo-lo, sigamo-lo, morramos com ele!

Obs. Pronto!... A certeza agora era que a multidão estava com ele, Marco Antônio.

Marco Antônio: Generosos amigos! Não desejo incitá-los de maneira alguma à revolta. Os autores desse feito tinham seus motivos e eram homens respeitáveis. Que motivos os tinham para agirem assim? Acredito que diante de tal tragédia, tenham motivos justificáveis. Não vim roubar vossos corações. Não sou um orador como Brutus, mas, como sabeis um homem simples, franco; amava o meu amigo; eles sabiam disso muito bem, por isso me deram autorização para falar do meu grande amigo. Digo-vos apenas o que todos sabeis: se eu fosse Brutus e Brutus fosse eu, talvez pudesse inflamar os vossos espíritos.

Todos: Estamos revoltados!

Um amigo; Incendiaremos a casa de Brutus.

Outro: Vamos! Vamos!

Marco Antônio: Então amigos, não sabeis ainda o que fazer... Em que Cezar vos mereceu tanta dedicação nesta hora? Esquecestes o testamento...
Todos: O testamento! O testamento!

Marco Antônio: Aqui está o testamento e com o sinete de Cezar. Para cada um de vós deixa setenta e cinco dracmas.

Um cidadão romano: Nobilíssimo Cezar! Vingaremos a tua morte!

Marco Antônio: Ouvi-me com paciência.

Todos: Silêncio!

Marco Antônio: Além disso, deixou para vós todos os jardins, todo seu parque e os novos pomares que ficam deste lado do Tibre. Este era o verdadeiro Cezar! Quando surgirá outro igual?

Um cidadão: Nunca, nunca. Venham! Vamos queimar o seu corpo no lugar sagrado e com as mesmas tochas incendiaremos as casas dos traidores.

Levem o corpo!

Um dos cidadãos: Vão buscar o fogo!

E foi esse o fim de Brutus. O mais forte candidato a ser o sucessor de Cezar.

Obs.  Perdeu, apenas porque lhe faltou personalidade e bom senso para sugerir com bons argumentos e seguir de acordo com a receptividade da população romana, como fez Marco Antônio. Ao se julgar uma grande personalidade; inflacionou o seu ego, ficando obcecado e orgulhoso com seu feito. Achou que a realidade dos fatos podia falar por ele e assim bastavam para impor decisões e justificá-las...

Caso Marco Antônio tivesse subido à tribuna com a mesma empáfia e arrogância, teria dito: “Agora, povo romano, permiti que vos diga uma incontestável realidade sobre Brutus... ele é um verdadeiro assassino”!...

Decerto não teria continuado, pois a populaça o teria apupado... Hábil, usou de psicologia apresentando seu parecer e a realidade dos fatos, de tal modo, como não fosse uma ideia sua, mas da própria população de Roma. Basta observarmos como no seu discurso foi acentuado o “vós e não o “eu”“.

Toda e qualquer situação pode ser revertida... Depende unicamente da forma e do conteúdo da comunicação.





























quarta-feira, 1 de abril de 2015

"Farinha pouca, meu pirão primeiro"!

A turma do "farinha pouca, meu pirão primeiro" estava muito intocada... Soube que andaram legislando em causa própria, aproveitando-se do sofrimento de famílias que perderam seus empregos para pressionarem o governo a atender os seus próprios interesses. A piada é a pretensa auto denominação de representantes dos "interesses da população", coisa que já o são por direito e decreto, ficando em falta apenas com o de fato. O que mudou? A marca do veículo que leva alguns eleitores aos arredores para o tratamento de doenças? O único serviço que ainda não caiu em desuso, apesar da crise. Tem gente trocando voto por essa serventia, batendo no peito que quem o deu é merecedor de voto.

Numa hora dessas em que a população já tomou conhecimento através de reportagens oficiais que outras cidades importantes da região se encontram em situação idêntica, que foram tomadas medidas em conjunto para tentar contorná-las, esses ancestrais da política estão tentando travestir-se de guardiões sociais das necessidades alheias, enquanto vivem a "síndrome da hiena", ou seja, alimentam-se com o que sobrou das vítimas, negociando com o Estado uma permeabilidade conveniente. Um divórcio fica estabelecido...

Fica a pergunta: já deram a partida para a campanha de 2016?

Se eu fosse um deles, nem falaria nisso agora. Iria ficar mostrando o crescimento das flores, a lua na serra, como se nada estivesse acontecendo...

O que está acontecendo? Nada, por definição! Ou seja: ninguém fazendo nada é objeto da agenda pública. Porque? Estão se promovendo num espaço público como os guardiões do interesse geral de uma população que está atenta e consciente que não se toma medidas duras e necessárias para se reverter infortúnios, com "abracadabras"! A temática pessoal a respeito de qualquer coisa não representa nada para esses, pois eles dizem pra você que já disseram aquilo que você ainda não sabe ao certo o que dizer... Você fala como se ainda houvesse algum eco ou ressonância e é ouvido como se fosse um inocente útil. Que mico!

Assim, como nesse caso, você já percebeu que para interagir é preciso compartilhar temas que nunca foram temáticas definidas por nenhum de nós, opinião pública, mas sim por eles. Nós apenas polarizamos entre a turma que diz amém e a que desconfia. 

Dessa manobra desafortunada, o passo seguinte foi digladiar-se entre si, procurando um "boi de piranha" entre eles para segurar a rebarba daquilo que foi compartilhado conscientemente por todos, com grande expectativa, e que fosse compreendido por osmose pela populaça. Esqueceram eles que a populaça não conclui nada de per si, depende somente da agenda pública pra saber o que deve ser deduzido e discutido, logo, deduziram que nada foi deduzido. Será que eles imaginaram que esse golpe representaria uma intervenção do legislativo em favor dos demitidos? Não só trariam de volta os seus apadrinhados, como também isso se reverteria em votos nas próximas eleições. Uma jogada supimpa! Como digo: melhor do que essa turma pra fazer oposição a um governo, só essa turma mesmo, ninguém melhor!  Sem nenhuma pesquisa de opinião, saíram "dando tiro adoidado"! Como a turma do executivo das regiões prejudicadas possui um QI melhor, uniram-se, falando a mesma língua e postando entre si as mesmas soluções nas mídias. 

Uma injeção de morfina no inconsciente coletivo das massas.

Depois de um "Dóminus vobíscum", só restara um "Miserére nobis", coisa que foi respondida em uníssono pela populaça. Não havia outra saída, senão dizer: Tende piedade de nós! De calça arriada, ninguém discute destino. É ou não é?

Como se pode ver, o passo seguinte foi passar de "cavalo pra burro", pois essa turma não sabia que uma maciça campanha de esclarecimento daquilo que só pode e deve ser esclarecido estava saindo do forno quentinha e prontinha em todas as mídias nacionais para "inglês ver"...  

Se vierem com aquela conversa que suas ações decorrem das opiniões pessoais manifestas nas ruas, desconfie! Estão querendo que você pense que a opinião que está na pauta das discussões é sua. São os famosos tutores da "livre manifestação alheia", ou melhor dizendo, "Personal Training" das manifestações populares. 

Estamos todos na mesma caravela. Se alguém gritar terra a vista, não corra para o convés. Deve ser um desses devotos, que trocou a culpa neurótica de pecado pela psicose da salvação, ou pior: alguém que ao perder as suas expectativas, aumentou os seus esforços... Malucos beleza! 

Aqui é a terra onde os ETs prometeram descer! A turma está esperando até hoje...

José Alfredo Bião Oberg