quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A Crise de Sentido...



Há uma parábola Taoista de Chuang-Tzü, sábio chinês que ajudou a fusão do Taoísmo com o Budismo, através de Bodhidarma, fundando assim o Zen. Ele nos mostra através de um conto, a crise de sentido gerada por um ego carente em ocupar-se com algo que tenha grande importância e expresse finalidade, para poder sentir-se útil e recuperar a autoestima.
O Velho Carvalho...

Um carpinteiro ambulante chamado Stone viu ao decorrer de suas viagens, em um campo próximo de um lar rústico, um velho e gigantesco carvalho.. Comentou então com seu aprendiz que admirava o carvalho secular: Esta árvore não tem qualquer serventia, pois se quisermos fazer um barco com a sua madeira, ela apodreceria, se quiséssemos utilizá-la para construção de ferramentas e móveis de uso doméstico, elas logo se haviam de quebrar. Para nada serve esta árvore, por isso chegou a ficar assim tão velha.

Na mesma noite, numa hospedaria, o velho carvalho apareceu em sonho ao carpinteiro e disse: Por que você me compara às árvores cultivadas, como a pereira, a macieira, a laranjeira e todas as outras árvores frutíferas? Antes de amadurecerem seus frutos as pessoas já as atacam e violentam quebrando os seus galhos, arrancando os seus ramos e chamando isso de “poda”. As dádivas que trazem só lhes acarretam o mal, impedindo-as de viverem como são, integralmente, até o fim de suas existências de forma natural. É o que acontece em todos os lugares; por isso esforço-me há tantos anos em aceitar-me como sou aparentemente inútil aos interesses alheios. Pobre mortal!... Crês que se tivesse servido a algum propósito humano, teria chegado até aqui com essa altura e essa idade, vivendo tanto tempo? 

Além disso, tu e eu somos ambos criaturas, como pode , uma criatura erigir-se em juiz da outra? Mortal criatura, que sabes a respeito da inutilidade das árvores?

O carpinteiro acordou e pôs-se a meditar sobre o sonho arquetípico que tivera. Mais tarde, quando o aprendiz perguntou-lhe: porque só aquela árvore protege o altar rústico daquela aldeia, respondeu-lhe o carpinteiro: Cala-te! Não falemos mais nisso! A árvore nasceu aqui propositadamente, porque em qualquer outro lugar já teria sido derrubada. Aqui ela tem uma função junto ao altar rustico... “É um marco espiritual”.


O carpinteiro discerniu bem a respeito desse sonho, observando que realizar seu destino é o maior empreendimento do ser, e que o nosso utilitarismo deve ceder às exigências da nossa psique inconsciente.

Tentar traduzir esta parábola Zen em uma linguagem psicológica é considerar a árvore como símbolo do processo de individuação, de uma boa lição ao nosso ego, com tão curta visão.

Sob a árvore que cumpria o seu destino, havia um altar rústico, isto é, uma pedra bruta, sobre a qual eram oferecidos sacrifícios ao deus local, “proprietário” natural daquele pedaço de terra. O simbolismo desse altar significa que para realizarmos um processo de individuação e crescimento é preciso nos submeter conscientemente ao poder do inconsciente, como aconteceu com Jacó, em Gênesis 28:10, naquele inóspito deserto, ao invés de pensarmos no que “devemos fazer”, ou “o que se faz habitualmente”, ou “o que consideram melhor fazer”, etc. É preciso apenas saber ouvir-se para poder compreender o que a sua totalidade interior quer que façamos, aqui e agora, com essa qualidade-momento e determinada situação.

Nossa atitude deve ser como a do carvalho de que acima comentei: não se aborrece quando na sua germinação e crescimento depara-se com alguma pedra acima, nem faz planos para vencer os obstáculos. Tenta apenas sentir se deve crescer à direita ou à esquerda, em direção à encosta ou afastado dela. Assim, tal como a árvore, devemos nos entregar a esse impulso quase imperceptível e, no entanto, poderosamente dominador – um impulso que vem do âmago, um anseio por uma auto realização criadora e única. Talvez, você tenha a revelação que Jacó teve, que apesar das condições externas reinantes, Deus está exatamente ocupando o espaço interno, pouco considerado até aqui, onde os sentimentos e as emoções foram substituídos pela racionalidade unilateral, que apesar de terem sido colocados “para baixo do tapete”, nunca deixaram de carecer a atenção e a importância devida para que a vida tivesse um sentido e, não uma lógica, que é muito melhor ser feliz do que ter razão. Felizmente, tanto o jardineiro da parábola acima, como Jacó, consideraram conscientemente a mensagem que o inconsciente vos deu, pois Deus nos revela exatamente aí, e de forma muito pouco ortodoxa e racional os seus propósitos dentro das mais contraditórias situações aparentes... Não procure o “bem de difícil alcance” nos conceitos racionais, você é uma obra acabada, não há o que colocar e nem tirar, Ele não errou a mão... Ame-se em primeiro lugar, ame ao próximo como a si mesmo, pois isso substitui qualquer louvor ou oração que você possa fazer, pois Ele ama o seu amor, pois Ele está em você e você, n’Ele!

Quantas vezes julgamos pelo que achamos e não pelo que é? Isso se chama "projeção". O objeto julgado é apenas um espelho do que existe esquecido, escondido, desconsiderado ou reprimido em nós. Logo, quando julgamos algo ou alguém, apenas estamos nos revelando inconscientemente. Quando o ser se ama profundamente, não necessitando usar uma máscara coletiva para poder viver escondido de si próprio, ele jamais julga algo ou alguém. Revela-se neles!

José Alfredo Bião Oberg