terça-feira, 30 de agosto de 2016

No pódio da desfaçatez: o ouro vai para...?

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28 de ago (Há 2 dias)
para mim

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José Alfredo Bião Oberg
Nesta semana, a Carta Maior traz para você a reportagem
‘No pódio da desfaçatez: o ouro vai para...?’,
um garimpo consolidado sobre o enredo que enlaça os grandes figurões da política nacional citados na Lava Jato, entre eles o presidente interino - e ilegítimo - Michel Temer.
A memória destes dias conturbados é um pedaço do futuro que vamos enfrentar. Por isso é imperioso não esquecer, como tenta  induzir  frequentemente  a mídia conservadora, na grosseira rotina de apagar rastros. Quando se trata de tucanos ou pemedebistas, por exemplo, o escândalo surge no noticiário um dia, desaparece no outro, numa espécie de jornalismo relâmpago, à moda Bolt. O truque encobre a determinação de capturar o futuro a qualquer  custo, credenciando-se ao pódio da desfaçatez, lado a lado com o judiciário.
Nossa campanha de doação, com adesões crescentes que têm permitido produzir reportagens como essa, é um capítulo desse braço de ferro entre o golpe, a informação e a resistência democrática.
O dispositivo midiático conservador manipula, sonega e interdita o debate dos grandes temas que importam à repactuação da sociedade e do desenvolvimento brasileiro. Essa se transformou em uma arma decisiva do atentado à democracia, travestido de legalidade, assistido por uma sociedade entre anestesiada e perplexa. Romper essa muralha de manipulação, com reportagens que reconstituem o que é deformado, ‘esquecido’, suprimido ou mitigado, é o nosso papel.
Nossa permanência no ar neste momento de afronta à legalidade e aos direitos constitucionais, ademais de um desafio jornalístico é uma obrigação histórica. Só teremos êxito se isso for endossado com igual determinação pela parceria engajada dos nossos leitores. A novidade é que esse pacto está crescendo. E esse certamente é um dado novo na correlação de forças que vai marcar a disputa política no país no ciclo turbulento que se inicia.
Temos orgulho de pertencer a esse levante da cidadania. Obrigado por estamos juntos nessa caminhada.

Com menos de 1 real por dia,

você pode construir a mídia de esquerda


No pódio da desfaçatez: o ouro vai para...?

Com tantos escândalos de corrupção aparecendo e desaparecendo da mídia, parece que as principais figuras da direita estão disputando o pódio da desfaçatez

Redação

reprodução
A crise aberta no Judiciário brasileiro, com as acusações do ministro Gilmar Mendes ao Ministério Público, de abuso de autoridade, vazamentos e apologia de métodos ilegais na obtenção de provas da Lava Jato –  respondida com dura nota da AMB, a Associação de Magistrados Brasileiros (confira a íntegra) - adicionou nitroglicerina pura ao ambiente já tenso da política nacional, na semana decisiva do processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff.

Uma capa leviana – mais uma – da revista Veja, lançando injustificável sombra de suspeita sobre o ministro do STF, José Antonio Dias Toffoli, motivou o bombardeio de Gilmar Mendes. A toga mais falante do país morde o próprio rabo, porém, ao criticar – corretamente – o abuso do método e do poder ilimitado do juiz e dos procuradores da Lava Jato.

‘São cretinos os que defendem o uso de meios ilícitos na obtenção de provas; no limite vamos admitir a tortura de boa fé?’, fuzilou o ministro do STF. Aplausos merecidos. Exceto por um detalhe: a condenação se aplica a boa parte do que tem sido as ações cometidas pelo aparato de Curitiba contra integrantes do PT e do governo, incluindo-se o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma.

O fato de Gilmar sentir-se confortável no convívio com ilegalidades dessa natureza, ou piores, enquanto a vítima eram os ‘vermelhos, os bolivarianos’, escancara os fios esgarçados do Estado de Direito na antessala de se cometer a maior de todas as transgressões dessa série: a cassação de uma Presidenta honesta, vítima de uma aliança da mídia com a escória, o dinheiro e o judiciário partidarizado.





O golpe em marcha, que se pretende uma ‘rotina constitucional’, assume contornos uma verdadeira olimpíada da desfaçatez nos seus critérios, truculência e seletividade.

Nela, há atletas condenados, sem provas, enquanto outros podem queimar na largada, derrubar o sarrafo, ingerir estimulantes, sabotar o adversário e tomar atalhos para se instalar no pódio, mesmo sob vaias do público, sem que sejam punidos, nem desclassificados. Pior de tudo: agasalhados em uníssono pelo jornalismo uniformizado.

Esse escárnio em relação ao espírito olímpico imaginado pelo Barão de Coubertin é uma prática em franca expansão no ambiente político brasileiro. Com a cumplicidade de uma parte do aparelho judiciário, inclua-se aí o próprio Ministro Gilmar, o revezamento da mídia com a escória e as togas acumula sucessivos recordes no abuso de vazamentos e prejulgamentos para uns, seguido de indulgência e a tolerância para outros.

A competição pelo pódio da desfaçatez tem assumido ritmo vertiginoso na reta final do golpe.

Na última sexta-feira (26/08), a PF indiciou o ex-presidente Lula, sua esposa Dona Marisa, Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula (IL) e Léo Pinheiro da OAS no inquérito (IPL 1048/2016) que investiga o triplex do Condomínio Solares, no Guarujá (confira a íntegra). Acusação: crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica (UOL, 26.08.2016). 

O presidente e a esposa teriam sido beneficiários de obras num imóvel que não lhes pertence.

Neste domingo 28 de agosto de 2016, o vazamento da delação de Léo Pinheiro, pelo panfleto VEJA, não gerou manchetes dominicais, mas chamadas de capa nos impressos e nos onlines. No título dessas reportagens, todo destaque às delações envolvendo petistas; as acusações contra os tucanos permanecem no meio das reportagens. 

É preciso ler o texto para saber o que o ex-presidente da OAS mencionou sobre o Rodoanel, envolvendo José Serra; ou sobre as obras da Cidade Administrativa em Minas Gerais, durante o governo Aécio Neves (FSP, 27.08.2016) e (OGLOBO, 28.08.2016). Durante o sábado, inclusive, a chamada da Folha: “Triplex de Lula era parte de propina ao PT, diz Léo Pinheiro” permaneceu em destaque no UOL. 

No domingo, no impresso de O Globo, a chamada “Lava-Jato denunciará Lula” e no online “Procuradores preparam denúncia contra Lula por tríplex e sítio” (online). Citando uma “fonte que acompanha o caso”, o jornalão da família Marinho antecipa que os procuradores da Lava Jato “estão preparando denúncia” contra o ex-presidente Lula.

“Para investigadores, as provas são suficientes para apresentar acusação formal contra o ex-presidente à Justiça Federal, mesmo sem a propalada delação do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro", diz a reportagem do jornalão da família Mesquita (OGLOBO, 28.08.2016).

Mais sóbrio, o Estadão optou por “OAS implica Lula, Dilma e tucanos”, em seu impresso, e “OAS implica Lula, Dilma, Aécio, Serra em tratativas de delação, diz revista” no online (OESP27.08.2016).

Não ficou nisso o rally dos últimos dias.

À frente da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro negou o pedido de transferência para a Justiça Estadual Paulista das investigações sobre o ex-presidente Lula (OESP, 16.08.2016). O pedido se justifica, segundo a defesa, porque o triplex e o sítio de Atibaia localizam-se em São Paulo, onde a jurisdição deve ser prestada. 

Abraçando a acusação do MPF, Moro afirmou em seu despacho: 

“A hipótese investigatória que levou à instauração dos inquéritos, de que o ex-Presidente seria oarquiteto do esquema criminoso que vitimou a Petrobrás e que, nessa condição, teria recebido, dissimuladamente, vantagem indevida, define a competência deste Juízo, sendo a correção ou incorreção desta hipótese dependente das provas ainda em apuração nos inquéritos.” (confira a íntegra).

Ou seja, recusa-se o pedido, enquanto se buscam as provas.

Ponto no placar.

O cerco ostensivo à figura do ex-presidente, noticiado com tambores de uma campanha política pela mídia, emenda-se ao abuso da condução coercitiva de que foi vítima em março de 2016. Os pedidos do MP-SP de prisão provisória do ex-presidente, também. O vale tudo dos interesses determinados a destruir a liderança popular mais importante da história brasileira teve no grampo ilegal do telefonema entre Lula e Dilma – vazado arbitrariamente por Moro — uma síntese da marcha da desfaçatez. 

As palavras de Geoffrey Robertson, advogado do ex-presidente Lula que também defendeu Julian Assange, são precisas:  “Lula está recorrendo à ONU porque ele não conseguirá Justiça no Brasil sob o sistema inquisitório em vigor” (El País, 29.07.2016). 

No mesmo dia em que o juiz Moro bradava sua competência, o STF determinava abertura de um inquérito contra a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, por tentativa de obstrução das investigações da Lava Jato. O requerimento originava-se de um aplicado atleta do pódio em disputa: Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República (EBC, 16.08.2016). 

Completando a arrancada, o ministro Gilmar Mendes (STF), hors concours e proeminente detentor de uma coleção de medalhas no gênero, determinava a abertura de uma representação contra o PT que pode, ainda, resultar na cassação do registro do partido (G1,06.08.2016). Confira no The Intercept Brasil excelente reportagem sobre o ministro (TI, 21/08/2016).

Façamos justiça: é difícil escolher entre titãs que se superam a cada curva da pista.

A abertura do processo contra o PT, aliás, aconteceu na mesma semana em que os delatores da Odebrecht citaram o pagamento de R$ 10 milhões, a pedido de Temer, em favor do ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e Paulo Skaf (FIESP), em 2014 --e de R$ 34,5 milhões da construtora ao caixa dois da campanha de José Serra, em 2010 (OESP, 06.08.2016). 

O escândalo surgiu no noticiário em um dia, desapareceu no outro. Feito característico do jornalismo relâmpago, que também disputa o ranking da desfaçatez. 

Confira abaixo alguns desempenhos que confirmam o renhido confronto de credenciais da mídia e do judiciário ao ouro nessa modalidade: 

Michel Temer

O presidente interino e golpista já foi citado por cinco delatores na Lava Jato e aparece em planilhas sob investigação da PF. A última acusação partiu do empresário Marcelo Odebrecht, repetimos: R$ 10 milhões ao PMDB, em 2014, a pedido de Temer (OESP, 06.08.2016). 

Dois meses antes, delação homologada pelo STF, de Sérgio Machado ex-presidente da Transpetro, mencionava o envolvimento do então vice-presidente decorativo com a doação de 1,5 milhão, pagos pela Queiroz Galvão, ao diretório do PMDB. A soma, sustentava o delator, saía de contratos que a construtora possuía junto a Transpetro (G1, 15.06.2016). 

Temer apareceu já no início da Lava Jato, em 2014, em planilhas apreendidas pela PF na casa de um executivo da Camargo Corrêa (OESP, 08.12.2014). Em agosto de 2015, seu nome surgia na delação de Júlio Camargo, ex-consultor da Toyo Setal, que mencionou um suposto envolvimento entre ele e o lobista Fernando Soares (OESP, 22.08.2015). 

Em dezembro, também surgiram indícios, reunidos por Janot, de que Temer teria recebido R$ 5 milhões de Léo Pinheiro, presidente da OAS (FSP, 19.12.2015). O mesmo Léo Pinheiro que agora tem a delação anulada por conta de  “vazamentos ” (confira adiante).

Em março de 2016, o senador cassado Delcídio do Amaral chegou a afirmar que Temer era “padrinho” de João Augusto Henriques, ex-diretor da BR Distribuidora, operador do escândalo envolvendo a empresa, entre 1997 e 2001 (OESP, 15.03.2016). Frise-se, governo FHC.

Em junho deste ano, após a posse em 12 de maio, Rodrigo Janot (PGR) afirmava que todas essas referências eram indiretas, portanto, insuficientes para abertura de um inquérito (OGLOBO,03.06.2016). 

Como veremos a seguir, um tratamento diferenciado ao recebido pelo senador Aécio Neves que, pelo menos, teve de prestar esclarecimentos.

As delações que se sucederam receberam especial apagão na mídia golpista. Temer nega todas as acusações.

José Serra 

O nome do chanceler comprador de votos surgiu, nesta semana, na delação de Leo Pinheiro, ex-presidente da OAE, à Lava Jato. Ele cita um esquema de propina nas obras do Rodoanel Sul durante a gestão Serra (2007-2010), em São Paulo: “na licitação, com contrato assinado em 2007, havia um convite de 5% de vantagens indevidas para Dario Rais Lopes [ secretário de Transportes de Serra ] e Mário Rodrigues [ diretor de engenharia ]”, afirma. 

Em resposta, a assessoria de Serra questiona a data de assinatura do contrato e aponta que os diretores mencionados não continuaram em seus cargos na nova administração. Em suma: Serra joga a bomba para Alckmin, governador de São Paulo entre 2001 a 2006 (FSP, 27.08.2016)

Há dois meses, os executivos da OAS anunciavam que a presença do tucano em meio a lista de quase cem políticos, sobre os quais eles dariam informações detalhadas (FSP, 14.06.2016). Mas, não só na lista da OAS surge o nome de Serra. Seu nome estava, também, na famosa lista da Odebrecht (Congresso em Foco, 24.03.2016). 

No começo do mês, Serra foi citado por funcionários da Odebrecht que apontaram o pagamento de R$ 34,5 milhões pela construtora para o caixa dois de sua campanha de 2010 (FSP, 07.08.2016). O jornalismo isento declina da pauta.

Vale recordar, ainda: Gregório Preciado, ex-sócio e familiar do tucano que surgiu em duas delações: uma do doleiro Fernando Baiano, operador do PMDB; e outra do ex-senador Delcídio do Amaral (CC, 26.11.2015). A suposição é a de que ele estaria envolvido em pagamento de propinas. Tema desinteressante na ótica dos pauteiros dominantes.

Atual ministro das Relações Exteriores, Serra nega as acusações.

Eliseu Padilha

Ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha também surgiu em delações na Lava Jato. Delcídio do Amaral afirmou que Padilha e Moreira Franco deram apoio à sua indicação para a Petrobras em 1999, ainda no governo FHC. O ministro nega a indicação; Moreira Franco confirma, mas nega ter recebido favorecimentos. (OGLOBO, 25.04.2016). 

Padilha também aparece na delação de Marcelo Odebrecht. Dos R$ 10 milhões repassados a pedido de Temer ã construtora, R$ 4 milhões teriam como destino o bolso de Padilha e R$ 6 milhões a Paulo Skaf, o homem do pato (OESP, 06.08.2016)

Vale destacar que Eliseu Padilha é réu em uma ação civil de improbidade administrativa, acusado de ordenar o pagamento superfaturado de R$ 2 milhões a uma empresa, no escândalo conhecido como Máfia dos Precatórios, durante o governo FHC. Na época, Padilha chefiava o Ministério dos Transportes (FSP, 17.05.2016). 

Destacamos, ainda, duas reportagens recentes na Carta Capital sobre a atuação do ministro de Temer: uma sobre a disputa bilionária do PMDB no porto de Santos (confira aqui); a outra sobre a Geap Autogestão em Saúde (confira aqui). 

Romero Jucá

domingo, 21 de agosto de 2016

Verdade Absoluta...

... apenas um conceito filosófico platônico/socrático.

 Segundo a tradição taoista não existe uma verdade absoluta que possa transformar alguém de forma compulsória, pois, tudo depende da qualidade de quem a recebe. Ou seja: “Se o sujeito errado usar o método certo, ainda assim o método certo dará errado”.
 
Nos mosteiros taoistas chineses os monges residentes recebem todas as noites monges peregrinos que não possuem uma morada fixa, nem a garantia de uma cabaça com alimento antes de adormecerem. Entretanto, para que possam usufruir destes benefícios terão que vencer um debate sobre o Caminho do Tao com os donos dos mosteiros. Caso consigam vencê-los terão direito ao pernoite e a uma cabaça com alimentos, porém, dia seguinte terão que continuar o seu caminho. O motivo dessa norma, é que o vencedor pode ser um ser dotado de um poder de articular bem as palavras, exprimir suas idéias com desenvoltura e, assim vencer na argumentação por ter o dom da retórica. Porém, não é o detentor da verdade! Essa verdade pode estar mais próxima do monge vencido, por não ter ele a facilidade de se expressar por sua modéstia. Sendo assim, não justifica a permanência do vencedor no mosteiro, dia seguinte.

Certa vez num mosteiro taoista, no período de Chou (722-481 a.c), dois irmãos, donos do mosteiro estavam se preparando para receberem a visita do monge peregrino Hui-Shi, simpático ancião, conhecido por sua grande sabedoria e conhecedor profundo do Caminho para um debate que provavelmente seria ele vencedor.

O monge mais velho do mosteiro era o não menos sábio Shang Yang, conhecido e famoso por não perder nenhum debate filosófico e místico-espiritual com os monges peregrinos que buscavam abrigo e alimento em seu mosteiro. Tinha como caçula, um irmão chamado T’ang. Esse, entretanto, era conhecido por sua arrogância, presunção e falsa modéstia. Acreditava-se que era assim, porque na sua infância fora ferido por um espinho de roseira em uma das vistas e, por isso, tornara-se caolho. A sua deficiência não podia ser escondida, estava “na cara”, literalmente. Sua vaidade fora invadida e o destino se impôs.
Shang Yang, ao contrário, estava sempre de bom humor, não havia criticas em suas palavras. Sabia ouvir sem ficar construindo internamente respostas que por certo abalariam os conceitos dos seus interlocutores. Era um homem gentil e sábio. Ao saber da visita do ilustre colega, pensou logo em fazer uma cortesia ao sábio monge que fora seu mestre no passado. Evitaria debater com ele, não era cortês, sabia. Desejava ter a oportunidade de conversar com ele sobre os “velhos tempos”, quando ele era apenas um jovem interessado e sonhador.

Hoje, pensara quem haveria de atender à porta do mosteiro seria o seu irmão mais novo, T’ang. Passaria prá ele essa responsabilidade, sabendo que ele de antemão ficaria eufórico com essa oportunidade de mostrar-se para o visitante. Ele, era um esforçado estudioso, conhecia o darma budista, assim como, o Hua Hu Ching, últimos ensinamentos de Lao Tzü; estudava o Caminho da Natureza – o Tao, através de Chuang Tzü, um pensador de vanguarda, representante da corrente taoísta do pensamento chinês, que era pródigo em divulgar as suas idéias através de parábolas, alegorias e paradoxos; sentia-se por isso, seguro e capaz através da sua erudição de enfrentar qualquer um, apesar de saber intimamente que a sua pretenciosa iluminação era como uma rã escorregadia, em suas mãos. Isso, o incomodava muito e contribuía de forma negativa em suas atitudes.

Seu irmão Shang Yang sabia que o mano não possuía as qualidades inerentes aos iluminados para debater com Hui Shi, porém, era a única saída que tinha para receber o ilustre sábio sem ter que enfrentá-lo.

Pensou longamente a respeito do tema que passaria para T’ang; era necessário evitar que o seu irmão cometesse através do debate alguma crítica leviana, destituída de mérito, que fosse indelicado ao questionar o saber do seu mestre Hui-Shi, porém, não podia dizê-lo. Sabia que o irmão não receberia bem a uma orientação baseada nessas premissas.

Depois de meditar a respeito, concluiu que o tema poderia ser expresso através de imagens, - uma metáfora de sinais, pensou! Tratou logo de procurar o seu irmão e passar o tema com as suas características. Teria que debater com o peregrino visitante com as mãos, através de gestos e vencê-lo, se possível.
T’ang, após ser notificado por seu irmão mais velho, ficou eufórico, sorriu com a certeza que sairia vitorioso, antecipadamente. A partir desse momento, uma “multidão” passou a fazer companhia dos pensamentos de T’ang, sua inquietação era grande, não havia mais espaço na sua mente para o “novo”. Numa visão analítica junguiana, o ser está “tomado pela anima”, perdeu o “feeling”, estava agora inquieto com a demora do peregrino.

Ao cair da tarde, bate à porta do mosteiro o velho monge Hui Shih, com um sorriso que revelava paz e sabedoria, sendo prontamente recebido por T’ang que foi logo dizendo: - Olha hoje o debate é comigo, meu irmão não se sente em condições de enfrentá-lo. - O nosso tema para o debate tem que ser desenvolvido através de gestos, com as nossas mãos, estamos de acordo?

O velho monge curvou-se com as mãos postas, em sinal de reverência, consideração e respeito pelo jovem monge.

- Pode começar, avisou T’ang!

 Mestre Hui Shih fitou-o demoradamente, o suficiente para deixar T’ang incomodado com essa atitude, depois, levantou a sua mão direita e mostrou o dedo indicador prá ele. T’ang inquietou-se ainda mais, porém, depois de uma breve pausa, mostrou os seus dois dedos da sua mão para o velho monge. Mestre Hui Shih, com um sorriso discreto, levantou novamente a sua mão direita e mostrou os seus três dedos prá T’ang.

Essa nova atitude do velho monge foi tomada por T’ang com surpresa e certa irritação, pois, de imediato e de forma agressiva levantou e mostrou para o sábio monge o seu punho fechado em riste. Hui Shih olhou admirado para o jovem monge e, inclinando-se com suas mãos postas, reverenciou mais uma vez o jovem monge, saindo em direção aos jardins do mosteiro, onde se encontrava o seu antigo discípulo Shang Yang, que ao vê-lo saindo, não se conteve em interpelá-lo: - Não consigo entender o que possa ter acontecido com o meu mestre para que esteja indo embora do nosso mosteiro? - O senhor foi molestado pelo meu irmão? – Não, de maneira alguma, Shang!  - Seu irmão é um jovem muito sábio, não consegui derrotá-lo através do debate com as mãos.

- Como? Arguiu Shang pro seu mestre. – Vou te contar como foi belo esse enfrentamento filosófico místico-espiritual, ainda mais, por ter ele usado uma técnica apurada de interpretação metafórica de imagens e sinais. Isso requer uma qualidade espiritual muito sutil, fora do comum, é a abordagem mais próxima da verdade absoluta. Lembra-te quando eu te instruía a respeito do Caminho Perfeito, que sempre estamos processando nossas experiências de acordo com os nossos pontos de vista, que você sempre se transforma na interpretação quando a internaliza, logo amigo, somos feitos da mesma essência dos nossos pensamentos, assim, não devemos julgar de forma crítica e severa as imagens externas. – Por isso, quando apontei o dedo indicador quis dizer que só havia um Buda, o que seu irmão sabiamente devolveu, mostrando-me dois dedos da sua mão, - Buda e o seu Dharma; alegrei-me por saber que era um ser que manifestava o Tao com muita sabedoria; tive então que acrescentar mais um dedo, mostrando os três dedos da minha mão direita para concluir que além de Buda e o seu Dharma, faltavam os seus discípulos, pois sem eles, de nada adiantariam os dois. Aí, para surpresa minha, seu irmão fecha o seu punho e mostra-me sua mão fechada à minha frente, vibrando com o entusiasmo dos jovens dotados de luz. Confesso, não tive mais argumentos para retrucar o que ele acabara de me mostrar. Aquela imagem dizia o que todos precisam saber: - Todos tres argumentos são na verdade, uma só coisa! Que gesto poderia eu apresentar para dar continuidade ao debate? Ele acabara de sintetizar o tema, não havia mais o que se discutir.

-Parabéns! Você tem um jovem irmão que é uma grande promessa para as gerações vindouras, aquelas que buscam o despertar búdico do ser espiritual.
Shang Yang, não acreditava no que ouvia do velho mestre, pois, para ele, seu irmão ainda engatinhava em sabedoria, apesar de deter uma vasta cultura sobre a filosofia místico-espiritual oriental, daquele “poço” não se podia beber água límpida, pois, de tão revolto e inquieto suas águas estavam cheias da lama do fundo; era um ser que discriminava quem vinha “beber” da sua água, precisava saber antes se era nobre e sábio ou ignorante e pobre. Sua vaidade pessoal cristalizava seus conhecimentos, tirando de si a sutileza e a modéstia inerentes. Como então poderia ter derrotado o seu mestre?  “Não procures onde tem Buda e onde não tem”. Lembrou-se do conselho do seu mestre e aquietou-se. “O Trilhar, é mais importante no caminho da iluminação, pois não possui uma chegada como meta, à única permanência é a mutação.”
Essa dinâmica do Caminho diz que não são necessários os “12 passos” para se alcançar a iluminação, assim, quem sabe se ela não se deu ao ter como seu interlocutor o sábio monge a sua frente? Como o Caminho é o Seguir, não olhou mais para traz, o momento presente era único.

Shang Yang dirigiu-se então para uma ala do mosteiro com a finalidade de meditar, já tinha cuidado do jardim e aprendido algo significativo com o seu antigo mestre; interiorizar era necessário para integralizar o seu ser.

Passados algumas horas, apareceu seu irmão T’ang batendo fortes os seus pés no chão do velho mosteiro, interrompendo a meditação de Shang com uma indagação: - Onde está aquele velho idiota que você considera mestre e iluminado? Shang olhou indagativo para seu irmão e perguntou: - Por quê? - Ele já se foi. - Soube que você o venceu, parabéns!

- Aquele velho é muito estúpido e indelicado! - Passei as informações que você  me deu para o nosso debate, e ele as usou para me afrontar. – Não foi essa a impressão que você causou para ele, em contra partida, - disse Shang Yang.

- Ele o considerou sábio! – Que nada! – Ele saiu daqui foi com medo de apanhar, pois, se fica mais tempo era o que ia acontecer. – Porque essa agressividade toda com um ancião respeitoso como ele?

- Bom, disse T’ang, se você não acredita, sou obrigado a contar para você o que aconteceu, pois, só assim você me dará razão. – O debate começou com ele, depois de passar longo tempo me olhando, mostrou-me um dedo bem na minha cara, dizendo que eu apenas possuía um olho, ou seja, que eu era caolho! –Apesar da indelicadeza inicial, tentei reverter aquele quadro, mostrando dois dedos, para ele saber que apesar da minha deficiência física ainda jovem, ele, um ancião, ainda possuía os dois olhos intactos! – Tentei ser cortês, apesar da atitude dele comigo. – Qual não foi a minha surpresa, quando ele demonstrou desconsiderar a minha polidez sorrindo na minha cara, mostrou-me os três dedos dele, para que eu tomasse conhecimento da sua opinião: Ele possuía dois, e, eu um, totalizando assim, três. – Não aguentei com tanta falta de respeito! –Mostrei o meu punho fechado, bem no meio da sua cara, ameaçando agredi-lo por este motivo. – Ele, Shang, percebeu que eu não estava brincando e levantou-se apressadamente, saindo por aí. – Com essas atitudes, não sei quem poderá dar um pernoite e alimentos para um velho como esse! – O que você acha disso, Shang?

Shang Yang, ao ouvir aquelas críticas do seu irmão, emudeceu, preferindo o eloquente silêncio dos sábios. Certos argumentos não merecem resposta alguma, nem reparos argumentativos. É melhor calar-se e jamais responder, pois não há a menor possibilidade de se passar informações esclarecedoras para quem não possui um espírito receptivo para a beleza milenar das mensagens deixadas há tanto tempo pelos mestres iluminados.

Sempre nos deparamos com essas projeções nos outros, pois muitas vezes ao tentarmos ajudar mostrando o quanto alguém está certo nas suas conclusões, somos interpretados como se tivéssemos concluído algo contrário ao que ele disse, ou que estivéssemos proibidos de opinar, mesmo que a favor...

Quem tem a dificuldade de entender o contexto, critica o texto, como pretexto... 

José Alfredo Bião Oberg










A vida depois do golpe


11 de Agosto de 2016 -Tereza Cruvinel

Com a vitória da coalizão golpista na votação da pronúncia de Dilma como ré, só falta o juiz apitar:  fim de jogo, tudo dominado, o golpe prevaleceu. O que será feito até o final de agosto são jogos ilusórios: a carta de Dilma aos senadores e ao povo, apelos ao Supremo e a cortes internacionais, manifestações Fora Temer ignoradas e reprimidas. Tirar Dilma do cargo foi fácil como tomar doce de criança. Depois vem o pior, a restauração conservadora e autoritária. É para a vida depois do golpe que as forças democráticas e progressistas devem se preparar. No horizonte, dois cenários. No de hegemonia conservadora absoluta, Temer consegue unificar a coalizão golpista (parlamentar, empresarial, judiciária e midiática) para lhe dar sustentação e viabilizar sua agenda, usando ferro e fogo contra as forças que resistirem. Seria o pior dos mundos. Em outro, crescerá o Fora Temer nas ruas e tomarão forma as dissensões na coalizão vitoriosa, vindas sobretudo do PSDB e de setores empresariais, que já estão no ar. Chamemos de Brasil conflagrado a este cenário. Temer poderá contornar as defecções na coalizão golpista descartando sua candidatura à reeleição e implementando com rigor a agenda neoliberal, o que leva ao primeiro cenário.  Visitemos o horizonte.
O pior dos mundos
Neste cenário, farão parte da vida depois do golpe:
1) Escalada autoritária – Tanto por sua natureza ilegítima como pela agenda que se propõe a implementar – com retirada de direitos, sucateamento dos serviços públicos como educação e saúde e  entrega do patrimônio nacional – o governo Temer adotará conduta autoritária na relação com os segmentos sociais que tentarão resistir. O ensaio da repressão já veio com a proibição de protestos políticos nas arenas olímpicas. Não será surpresa se as Forças Armadas forem empregadas, depois de terem sido utilizadas em Natal (RN) para combater o crime organizado.
2) A grande pizza – A estratégia de Romero Jucá, apresentada na conversa com Sergio Machado, vai tomando forma: tirar Dilma para “estancar a sangria”, para que todos se salvem. Maria Cristina Fernandes publica, no Valor, as primeiras informações sobre um projeto que anistiará  todos os beneficiários dos esquemas de corrupção, no bojo de um projeto de reforma política a ser votada depois do golpe. Algo assim: daqui para a frente, doações eleitorais ilegais passam a ser crime de corrupção, e não mais apenas crime eleitoral. Todas as doações nebulosas apuradas pela Lava Jato (caixa dois ou propina?)  ficam caracterizadas como crime eleitoral e não serão punidas. Exceto as do  PT. Daqui para a frente, tudo será diferente, com a aprovação (e prévia desidratação) das medidas anti-corrupção propostas pelo Ministério Público.
3) Censura e supressão do contraditório – Efetivado, e unificando a coalizão, Temer continuará contando com o beneplácito das grandes mídias e retomará a ofensiva para controlar a EBC, reduzindo a empresa de comunicação pública a mero aparelho governamental.  As mídias alternativas na Internet, que já tiveram os patrocínios cortados, resistirão a duras penas mas o espaço para o contraditório será cada vez mais exíguo. De preferência, desaparecerá.
4) Criminalização das oposições – O ministro Gilmar Mendes já deu o sinal (depois amenizado) de que o PT pode ter seu registro cassado. Só o PT, embora outros partidos também tenham recebido doações ilegais que se situam na zona hoje indistinguível entre propina e caixa dois. Mas as do PT serão classificadas como propinas derivadas do Petrolão. Os movimentos sociais serão reprimidos e criminalizados.
5) Delenda Lula – Na escalada contra a esquerda, Lula pode até não ser preso mas responderá a processo, poderá ser condenado sem crime e sem prova, como Dilma. O importante será torná-lo  inelegível em 2018. Já as denúncias que envolvem Temer, Serra, Aécio e toda a turma do PMDB entrarão na “anistia” ampla e quase irrestrita.
6) Regressão social – Na interinidade, jogando para a plateia e o Senado, Temer sustentou que manterá os programas sociais da era petista. Efetivado, o jogo será outro. O INSS já está mexendo por portaria nas aposentadorias por invalidez e auxílios-saúde do INSS. Pressionado pelo empresariado e pelos tucanos, como já está sendo, o governo deflagrará a reforma previdenciária, impondo a idade mínima mesmo para os que já estão no sistema (e nele entraram sob outras regras). O abono do PIS-Pasep já acabou mas os que ganham até cinco salário-mínimos só perceberão isso quando não o receberem, no ano que vem.  Na reforma trabalhista, fará prevalecer os acordos sobre as leis, o que pode envolver garantias que vêm do trabalhismo e da Constituição de 1988, como as férias, o adicional de férias e o 13º. Salário. A terceirização será autorizada em todas as atividades produtivas, precarizando o trabalho e reduzindo a renda de milhões de trabalhadores. As universidades federais já estão tendo investimentos cortados. E se for aprovado o congelamento do gasto público por 20 anos, o SUS e o Plano Nacional de Educação irão para o espaço das utopias descartadas. Encerrado o ciclo de conciliação de classes do lulismo, em que os ricos ganharam muito e os pobres ganharam alguma coisa, voltaremos ao modelo concentrador e ao aumento da mais valia, enquanto o setor financeiro engorda com o pagamento dos juros da dívida publica. Pois superávit, pelo visto, com a gastança do governo, não haverá tão cedo. E, é claro, por alguns anos o déficit será posto na conta de Dilma Rousseff, embora o rombo fiscal venha sendo todos os dias alargados pela gestão “austera” de Temer-Meirelles.
7) Entrega do patrimônio nacional – A Petrobrás já entregou, por metade de seu valor, o campo de Carcará ao capital estrangeiro. A mudança no pré-sal será aprovada, novas privatizações vão entrar em pauta e o capital internacional vai tornar-se sócio majoritário, através do programa PPI, de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Estrangeiros poderão comprar terras e explorar a radiodifusão.
8) Política externa subserviente – O Mercosul já está tendo suas pernas quebradas  com o veto brasileiro à posse da Venezuela na presidência pro-tempore. A integração sul-americana, depois do primeiro avanço efetivo em séculos, voltará a ser uma miragem.  Em lugar da ênfase no multilateralismo, o alinhamento ao mundo unipolar sob o tacão dos Estados Unidos. Brics? Para quê isso? As boas relações serão com o Banco Mundial e o FMI.
O Brasil conflagrado
Nas redes sociais, no campo derrotado, há um espanto com a  consumação do golpe. Há certa revolta com o PT, por não ter sido capaz de defender-se com vigor, denunciando sua própria capturação por um sistema de financiamento  ilícito da política e das eleições pelo velho conluio entre as empresas e o Estado. O PT não inventou o velho conluio mas acreditou que seria aceito no jogo, e agora paga o preço sofrendo o golpe e correndo o risco de sua própria extinção.  Há certa revolta com as ilusões,  alimentadas ao longo dos últimos meses, sobre a possibilidade de derrotar as forças poderosas que se uniram para desfechá-lo. Esta perplexidade  que se nota nas redes parece acompanhada, entretanto, pela disposição de resistir a Temer pedindo eleições diretas para presidente.  Se isso se confirmar, vamos ter um Brasil conflagrado pelos próximos dois anos e meio.
No cenário de Brasil conflagrado fará parte da vida depois do golpe:
1) Manifestações crescentes “Fora Temer”, através de manifestações, greves, invasões de terras e ocupações urbanas.
2) Repressão aos movimentos sociais e forças da resistência.
3) Tentações populistas de Temer, de tornar-se menos rejeitado, o que comprometerá a agenda neoliberal da “austeridade” e fomentará as dissensões dentro da coalizão golpista.
4) Em busca de uma saída, a elite que está acima do instrumento Temer buscará saídas legais. Uma delas poderá ser a condenação da chapa Dilma-Temer pelo TSE. Há cinco ações neste sentido no tribunal, e são claros os sinais de que, só com um casuísmo descarado, haverá separação entre Dilma e Temer no julgamento. Nunca um governador cassado por crime eleitoral deixou de ter seu vice também condenado.
5) Acontecendo no ano que vem a cassação da chapa, que já estará reduzida a Temer, com a condenação de Dilma, haveria a eleição presidencial indireta, como prevê a Constituição. Pior dos mundos. Mas a Constituição, que vive sendo alterada para atender a tantos interesses, poderá ter esta cláusula (que não é pétrea) modificada para  atender a um clamor da ruas pela eleição direta de nova chapa presidencial.  
Teríamos assim, ao final da conflagração, de duração imprevisível, o desfecho para a crise e alguma pacificação. 
Pensemos na vida depois do golpe. Ela é que nos espera.