quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Arte e artistas – A nova mina de ódios do Terceiro Reich brasileiro


Por Bajonas Teixeira, colunista de política do Cafezinho


A histeria contra a arte e os artistas, promovida por políticos de direita, tem um motivo simples: explorar uma nova mina de ódios. A classe média anti-Lula andava desmotivada. O governo Temer foi para ela uma cilada: salários congelados, reformas aterrorizantes, e oito aumentos da gasolina. A derrocada de Aécio a intimidou mais ainda. Nas ruas, ela deixou de atacar figuras ligadas ao PT. Os xingamentos de “petralha” e “esquerdopata” arrefeceram nas redes. Enfim, a velha fonte de ódios secou. Por isso, a associação de arte e pedofilia foi um achado. Com ela, emergiu da lama um límpido cristal de pura estupidez. A direita volta a urrar, xingar e ameaçar com torturas. E tudo em nome da moral e da família.
Com presteza incomum, o MP, a justiça, a polícia e  a mídia deixaram-se mobilizar e deram voz aos desqualificados vociferantes que, com a boca espumando, gritavam em “defesa da família”. Enfim, uma mina de ouro, ou melhor, de ódios, caiu em mãos do fascismo brasileiro.
A regressão  mental que acompanha as crises, devido ao medo, leva à infantilização em massa que torna aceitável qualquer acusação caluniosa, mesmo a mais infame ou idiota (“Lulinha é o dono da Friboi”). Esses adultos reduzidos à condição infantil estão  prontos a aceitar tudo, se for novo e repulsivo. O Terceiro Reich, após inventar a imagem do ‘judeu pervertido’ decidiu, em 1937, atribuir a ele a criação  de uma arte degenerada. E assim se fez em Munique a exposição que dava um novo nome à arte moderna – Arte degenerada. Entre os (mal)ditos “degenerados” estava um bom número de gênios: Max Ernst, Wassily Kandinsky, Marc Chagall, Lasar Segall, Paul Klee, Otto Dix, etc.
Hoje, todo mundo sabe que degenerados eram os nazis. Mas podemos imaginar o prazer que sentiam ao apontar no outro, no judeu, a degradação  que, em verdade era a deles. Tudo só foi possível porque, naquela época, podiam contar com a cumplicidade do MP, do judiciário, da política e da mídia.
Pois é. E no Brasil hoje, com o atraso de oitenta anos, atacam grotescamente a arte com acusações  de pedofilia, isto é, arte degenerada (entartete Kunst).
E quando entre os acusadores surpreendemos um político apontado no plenário da Câmara Federal assistindo e compartilhando pornografia, temos um índice seguro para avaliar o quilate dos acusadores. Ainda mais quando, como circulou recentemente, no cardápio pornográfico online no país, o tema mais pesquisado é “novinha”. Diz a matéria de O Globo de 28 de maio de 2015:
Enquanto o deputado assistia ao vídeo, outros colegas apareceram para ver do que se tratava. Segundo a reportagem, as imagens mostravam atos obscenos e, por isso, foram borradas. Em cima da mesa, havia um convite para um ato religioso.
As acusações de pedofilia não visam outra coisa que injetar uma dose de perversidade e maldade para gerar novas ondas de ódio e, a partir delas, auferir lucros políticos fáceis. Mas, é claro, nisso tudo há o prazer de rebaixar todas as coisas ao nível do “chão da Câmara”, digamos assim, além de perseguir o que não se compreende (a arte e os artistas), e dar livre expressão a um sadismo intenso.
Rebaixar ainda mais a cena política do país de ponta a ponta (o que parecia  impossível), pilhar qualquer forma decente de julgamento, vandalizar tudo que tenha consistência simbólica e seja difícil de alcançar, enfim, impor a perspectiva de rã, o olhar que emerge do fundo do pântano, é esse o projeto do lúmpen político brasileiro.
Esses homens, adestrados pela pornografia, só podem ver de fato o corpo nu como sexualizado – e sexualizado pornograficamente –, porque essa é a ‘arte’ que consomem diariamente, inclusive durante as sessões da Câmara e no plenário. ‘Arte’ de ‘compreensão’, e satisfação, imediatas. Miséria mental, miséria cultural e, em consequência das aulas que recebem de seus astros pornôs, miséria sexual. Como são miseráveis esses pobres coitados, não?
Foi noticiado por esses dias a campanha publicitária do Musée d’Orsay, lançada em 2015 e retomada recentemente, Tragam seus filhos para ver gente nua (Emmenez vos enfants voir des gens tout nus). Uma tradução mais literal seria “Tragam suas crianças para ver gente toda nua”. Imaginem se nas garras do Terceiro Reich brasileiro caísse o acervo de arte dos museus franceses! Certamente, o estrago deixaria no chinelo a grande queima de livros promovida pelos nazis em maio de 1933.
Bajonas Teixeira de Brito Junior, filósofo e professor.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A direita mostra os dentes. Como (re)agir?


   
   
   Defesa da intervenção militar é, também, um sinal de que o golpe parlamentar esgotou-se. Resta saber quem dará resposta à frustração e raiva da maioria
Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite | Imagem: Rubem Grilo
O fantasma da intervenção militar esvoaçou sobre o Brasil esta semana. O general Martins Mourão, da ativa, prometeu na sexta-feira passada “derrubar este troço todo”, se o Congresso e o Judiciário não retirarem de cena “esses elementos envolvidos em todos os ilícitos”. Seus superiores – o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas e o ministro da Defesa, Raul Jungmann – recusaram-se a puni-lo. Em São Paulo, a Rota, tropa mais brutal da PM, fez exercícios de repressão política, simulando uso de munição real, em plena Avenida Paulista. Uma nova sondagem pré-eleições presidenciais mostrou Jair Bolsonaro consolidado em segundo lugar, abaixo apenas de Lula e à frente de todos os conservadores tradicionais. Como tem sido comum há meses, muitos, entre a esquerda, reforçaram sua convicção fatalista de que “o pior está por vir” e de que “não haverá 2018”.
Os motivos para alarme são reais: os grupos de direita estão claramente testando limites, para ver até onde podem chegar. Mas o derrotismo, como de costume, expressa não apenas um estado melancólico. Revela também uma incapacidade de ver a conjuntura – ou seja, o conjunto dos elementos que compõem o cenário político.
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O fator mais óbvio, que muitos preferem não enxergar, é: se a direita militarista se alvoroça, é principalmente porque o golpe parlamentar de 2016 fracassou. Milhões de pessoas que encheram as ruas, há um ano e meio, estão perplexas e frustradas. Um sonho pueril, segundo o qual bastaria sanear o país dos “petralhas” para convocar de novo a felicidade, despedaçou-se. Há desemprego e gente morando e pedindo em cada esquina. Os negócios da classe média naufragam, as dívidas bancárias espreitam. A Rede Globo, que almeja ser o eleitor maior nas eleições do ano que vem, afastou-se há meses de Temer – que agora terá de lidar com um novo processo. A casta política entende-se apenas quando se trata de aprovar as missões encomendadas pelo grande poder econômico.  O fracasso da contra-reforma política revela: não há nenhum projeto comum de futuro. A quadrilha já não se entende. São todos contra todos, na disputa pelo butim do golpe.
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Neste contexto de fracasso, uma parte dos golpistas, busca livrar-se de suas responsabilidades por meio de um clássico: a fuga para frente. Se o remédio agravou a doença, diz o “médico” charlatão, é porque o paciente precisa de uma dose a mais. Por que este expediente primitivo parece funcionar?
Provavelmente porque a população desiludida não encontra, à esquerda, nada que dialogue com seu desamparo. Tente encontrar, no discurso de pré-candidatos como Lula e Ciro Gomes, alguma resposta à agenda de horrores que assombra a Brasil. Os serviços públicos estão sendo devastados. O Pré-Sal pode ser entregue às petroleiras internacionais. O governo ameaça devastar até os santuários da Amazônia. Lula caravaneia pelo Nordeste, seu reduto eleitoral, onde encontra-se com o povo pobre mas evita posicionar-se sobre tudo o que aflige a maioria. Ciro tenta construir um discurso ambíguo de “competência”– no qual caberiam, ele mesmo assegura, personagens como Kassab. Ambos evitam o essencial: como lidarão, se eleitos, com a herança maldita do golpe? Terão coragem de convocar a sociedade para revogar, via referendos, medidas como o congelamento dos gastos sociais por vinte anos, a doação da riqueza petrolífera e o ataque aos direitos indígenas e quilombolas?
Em certas condições, dizem a política e a psicanálise, destruir pode ser uma força positiva. A cólera contra o opressor foi o impulso que construiu as revoluções dos três séculos passados e que moldou, em oposição a um mundo limitado por Deus eu pelos senhores, a ideia de que somos responsáveis por nosso futuro social.
Mas o que a esquerda institucional oferece hoje a quem nutre, com razão, ódio à desigualdade, aos falsos “representantes”, vendidos ao poder econômico, ou aos privilégios? Um discurso surdo e insensível, em defesa de uma democracia que já não existe? O ataque cego à Operação Lava Jato? O delírio de que um dia todas as ondas moralistas cessarão, graças a um acordo por cima? A aposta em que, por uma espécie de milagre laico, Lula ou Ciro poderão ser candidatos, vencerão e nos reconduzirão a um passado virtuoso?
Este estranho sebastianismo, pós-moderno e bizarro, só conduz à paralisia. É graças a ele, a seu saudosismo melancólico e impotente, que se despreza a cólera das maiorias; que se defende a volta de um lulismo conciliatório com as elites – portanto fora de tempo e de lugar; que se abre espaço ao general Mourão e a seu parceiro Bolsonaro.
Claro que há alternativa. Significa impedir que a ultradireita aproprie-se do discurso anti-establishment. Implica uma autocrítica não retórica nem passadista – mas prática e voltada para frente.
Dificimente os partidos sustentarão este projeto. Eles estão capturados demais por uma lógica que os convida a mergulhar nas instituições e no poder sobre. A questão é: aqueles que enxergamos esta debilidade nos atreveremos a ir adiante? Seremos capazes, por exemplo, de propor os referendos revogatórios e de criar um movimento que leve os candidatos à esquerda a defendê-los?
Ou nos limitaremos, em meio à crise, a criticar aqueles que, como sabemos, não darão um passo adiante?

domingo, 24 de setembro de 2017

Estamos já em plena ditadura civil?



Leonardo Boff - 24/09/2017 às 00h01

O que vivemos atualmente no Brasil não pode sequer ser chamado de democracia de baixíssima intensidade. Se tomarmos como referência mínima de uma democracia sua relação para com o povo, o portador originário do poder, então ela se nega a si mesma e se mostra como farsa.

Para as decisões que afetam profundamente a todos, não se discutiu com a sociedade civil, sequer se ouviram movimentos sociais e os corpos de saber especializado: o salário mínimo, a legislação trabalhista, a previdência social, as novas regras para a saúde e a educação, as privatizações de bens públicos fundamentais como é, por exemplo, a Eletrobrás e campos importantes de petróleo do pré-sal, bem como as leis de definem a demarcação das terras indígenas e, o que é um verdadeiro atentado à soberania nacional, a permissão de venda de terras amazônicas a estrangeiros e a entrega de vasta região da Amazônia para a exploração de variados minérios a empresas estrangeiras.

Tudo está sendo feito ou por PECs, decretos ou por medidas provisórias propostas por um presidente, acusado de chefiar uma organização criminosa e com baixíssimo apoio popular que não alcança a 5%, propostas estas enviadas, a um parlamento com 40% de membros acusados ou suspeitos de  corrupção.

Que significa tal situação senão a vigência de um Estado de exceção, mais, de uma verdadeira ditadura civil? Um governo que governa sem o povo e contra o povo, abandonou o estatuto da democracia e claramente instaurou uma ditadura civil. É o que estamos vivendo neste momento no Brasil. Na perspectiva de quem vê a realidade política a partir de baixo, das vítimas deste tipo novo de violência,o país assemelha-se a um voo cego de um avião sem piloto. Para onde vamos? Nós não sabemos. Mas os golpistas o sabem: criar as condições políticas para o repasse de grande parte da riqueza nacional para um pequeno grupo de rapina que segundo o IPEA não passa de 0,05 de população brasileira, (um pouco mais de 70 mil milhardários) que constituem as elites endinheiradas, insaciáveis e representantes da Casa Grande, associadas a outros grupos de poder anti-povo, especialmente a uma mídia que sempre apoiou os golpes e não preza a democracia.

Transcrevo um artigo de um atento observador de realidade brasileira, vivendo no semi-árido e participando da paixão das vítimas de uma das maiores estiagens de nossa história: Roberto Malvezzi. Seu artigo é uma denúncia e um alarme:
Da ditadura civil para a militar.

“Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma “ditadura civil”, sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.
Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.  
Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil que funcione apenas para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangues, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de “especialistas”, nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que “quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares”.

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general”. 

Que Deus e o povo organizado nos salvem.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Os desafios cruciais da era Uber

 

Como evitar que sejamos todos obrigados a leiloar nosso trabalho, por preços e condições cada vez rebaixadas? Criando plataformas alternativas? Ou exigindo ação do Estado?

Por Frank Pascuale, no Boston Review of Books | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Hieronymus Bosch, Inferno, 1490 (detalhe)

Resenha de dois livros:

Platform Capitalism

Nick Srnicek

Polity Books, $49.95 (cloth), $12.95 (paper)

Ours to Hack and to Own

Trebor Scholz and Nathan Schneider

OR Books, $17 (paper)

Imagine acordar todo dia aflito por ver se venceu o leilão pra fazer seu trabalho. Na noite anterior, você se inscreveu numa plataforma de trabalho – um site tipo TaskRabbit [em que profissionais oferecem serviços eventuais, sem nenhum direito ou vínculo empregatício] – e por precaução pediu uma remuneração relativamente modesta, ao mesmo tempo em que concordava com uma lista de regras impostas pelos patrões. Qualquer pessoa ao redor do mundo pode concorrer ao emprego. Você espera que seu desempenho no passado lhe dê vantagens suficientes sobre concorrentes menores para justificar a continuidade do seu emprego. Mas você nunca sabe.

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Para profissionais estabelecidos, esse cenário soará um pesadelo: a série distópica Black Mirror encontra-se o evangelismo do “direito ao trabalho”. Mas muitos trabalhadores já enfrentam alguma coisa desse tipo. A falsa presunção do “emprego à vontade” – que permite a demissão de trabalhadores “por qualquer razão, ou sem razão nenhuma”, como estabeleceram diversos tribunais – deixa um vasto número de assalariados vulneráveis à súbita rescisão do emprego. Globalmente, a precariedade laboral é muito comum, especialmente para os 60% da população mundial que vivem com menos de 5 dólares por dia.

É claro que há gestores e trabalhadores muito bem avaliados, a quem as empresas tendem a tratar bem. Os sindicatos também barganharam para proteger seus membros de exploração e tratamento arbitrário, e até para exercer algum controle sobre o ritmo enatureza do trabalho. Contudo, plataformas de trabalho como a Uber, a TaskRabbit e a Mechanical Turk, da Amazon tornaram-se sinônimos de trabalhos atomizados em pequenas tarefas. Elas podem muito bem ser o futuro de “recursos humanos”, prometendo a pessoa certa para o emprego certo pelo tempo certo – e não mais. O excelente What’s Yours Is Mine (2015) (Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, a ser lançado em outubro, pela Editora Elefante) mostra em detalhes como essas plataformas usaram uma combinação de relações públicas, lobby e táticas agressivas de negócios para abrir seu caminho para o trabalho organizado parecer como o próximo passo na evolução dos negócios. Eles agora estão inspirando outras empresas a desenvolver plataformas internas para organizar o trabalho, inclusive deixando para os algorítmos a admissão de novos empregados e a avaliação dos atuais.

Tanto ativistas como acadêmicos criticaram a “plataformização” como um avanço a mais do poder empresarial sobre os trabalhadores. Mas haverá aqui algum potencial emancipatório, seja para os trabalhadores demandarem melhor pagamento e condições, ou para tomarem as plataformas para si mesmos”? Dois livros recentes jogam luz sobre essa questão e tratam da sustentabilidade da “economia dos bicos” [“gig economy”]. Em Platform Capitalism (“Capitalismo de plataforma”, em tradução livre), o pensador social Nick Srnicek detalha as tendências econômicas que aceleraram o crescimento das plataformas e prevê para onde elas devem ir a partir daqui. Ours to Hack and to Own (“Para hackear e Possuir”, em tradução livre), uma coleção, convida dezenas de pensadores e ativistas a refletir sobre como a forma de cooperativa – que capacita os trabalhadores a governar seus locais de trabalho – poderia humanizar o trabalho organizado digitalmente. Ambos os livros destacam como a tecnologia torna viáveis as plataformas e por que elas promovem a exploração. Também indagam e se o ativismo trabalhista poderia melhorar esses novos empreiteiros digitais.

Uma florescente literatura de negócios utiliza o termo “plataforma” genericamente, designando assim um amplo conjunto de empresas bem sucedidas. A teoria crítica de Srnicek foca no papel das plataformas como intermediárias, que abocanham parte das transações de terceiros e usam os dados coletados a partir dessas interações para antecipar as tendências de negócios. “Ao proporcionar um espaço digital para outros interagirem”, explica Srnicek, “as plataformas posicionam-se de modo a extrair dados”. Dando consistência a essa definição abstrata, Srnicek examina as características particulares de cinco tipos de plataformas:

Tipo de Platforma

Exemplos

Função Princial

Plataformas de Publicidade        Google, Facebook  Anúncios

Platformas de Nuvem        Amazon Web Services; SalesForce        Programas e Computadores usados para negócios digitais

Plataformas Industriais   GE, Siemens            Programas e Computadores para acelerar a racionalização e monitoramento da atividade industrial

Platformas de Produtos   Spotify           Transformam bens tradicionais em serviços e captam dinheiro de assinaturas

Plataformas de Bicos        Uber, Airbnb           Evitam possuir ativos críticos e transferem riscos a compradores e vendedores

As plataformas agem como o governo de um certo mercado, e suas taxas podem ser vistas como impostos sobre os participantes, para os quais elas providenciam pedidos, divulgação e outros serviços. Como os Estados, cuja meta é o monopólio do uso legítimo da força, as plataformas aspiram a um monopólio comercial no “espaço” que consideram próprio. Graças a economias de escopo e escala, um grande fornecedor de bens expõe-se a muito menos riscos de ser prejudicado por outros fornecedores, a partir do momento em que atinge uma certa massa crítica. Uma nova plataforma de vendas de varejo, por exemplo, pode cobrar dos comerciantes uma comissão menor do que a da Amazon. Mas por que um vendedor perderia tempo montando uma loja na plataforma iniciate, quando não tem a menor garantia de que os clientes aparecerão?

Conscientes da impossibilidade, muitas start-ups potenciais nem mesmo tentam destruir gigantes digitais. Quem o faz podem aprender do modo mais difícil que tentar capturar até mesmo um pequeno nicho do império das megaplataformas pode provocar uma retaliação esmagadora. Por exemplo, o varejista online Diapers.com, de cuidados com o bebê, entrou na mira da Amazon logo que se tornou moderadamente bem sucedido. Embora tenha tentado competir no início, mais tarde cedeu, tornando-se mais uma parte do império empresarial de Jeff Bezos.

Esse padrão tende a se repetir, à medida em que a economia digital se consolidar. Os investidores estão tratando o “Stories”, do Facebook, como um matador do Snapchat. Bastou que a Amazon registrasse uma marca para entrega de kit-refeições para provocar a queda das ações da rival Blue Apron. A concentração na indústria financeira acelera essas tendências: investidores institucionais possuem 80% de todas as ações das 500 corporações que compõem o índice Standard & Poors. Significa que basta o pânico de alguns gestores de fundos para provocar uma fuga de capitais das pequenas empresas, em direção às gigantes que, é previsível, vão se tornar seus predadores.

Esse comportamento cria mais uma vantagem para grandes plataformas. Ele reduz o custo do capital usado para investir em capital ou assumir o controle de outras firmas. As megaplataformas adquirem rivais em ritmo veloz. Usam seu domínio de dados como alavanca para gerar grandes lucros; e estes ganhos transformam-se em maior dominação dos mercados publicitários. É a dinâmica do autorreforço: mais dados significam melhores resultados e mais serviços direcionados, que por sua vez atraem uma base maior de clientes — o que oferece oportunidades ainda melhores de coletar dados. Uma vez que uma massa crítica de usuários está capturada, a plataforma dominante pode abocanhar uma fatia maior dos ganhos tanto do consumidor como do produtor. Por exemplo, sob pressão de investidores, interessados em reduzir suas perdas operacionais, a Uber aumentou a porcentagem que cobra dos motoristas e reduziu a remuneração de parte deles, com base em avaliações algorítmicas sobre suas habilidades. O mesmo modelo está agora afetando os serviços do Google (à medida em que os anúncios escondem outras informações), e as políticas de privacidade do Facebook (que se tornam mais notoriamente parciais à medida que se expande a dominação desta rede social).

 

Mas embora o Facebook saiba muito bem o que a maioria de seus usuários não está a ponto de deixá-lo, passando a postar fotos de bebês e convites para festas de aniversário no LinkedIn, Srnicek prevê alguns problemas no caminho das grandes plataformas. Ele acredita que elas irão lutar cada vez mais no território umas das outras, tentando roubar clientes em busca do santo graal do captador de dados: perfis perfeitos de qualquer pessoa ou entidade, o que possibilita previsões precisas de quanto exatamente ele/ela está querendo pagar por um bem ou serviço. As batalhas sobre dados e propriedade de algorítimos também se intensificarão. As acusações da Google de que a Uber roubou tecnologias altamente secretas carros sem motorista mostra quão feroz pode tornar-se essa competição.

A grande questão relacionada às “guerras de plataforma” é se elas irão enfraquecer suficientemente essas megacorporações para que novas se infiltrem – ou apenas acelerar o desenvolvimento, no Ocidente, de algo como a megaplataforma da China, WeChat. Como explica Connie Chan, o WeChat possibilita aos usuários “chamar um taxi, pedir entrega de comida, comprar ingressos de cinema, jogar games, fazer o check in de um voo, mandar dinheiro para amigos, acessar monitores de atividade física, agendar consulta com médico, acessar dados bancários, pagar a conta d’água, reconhecer músicas, buscar um livro na livraria local, encontrar estrangeiros perto de você, acompanhar notícias de celebridades, ler artigos de revistas e ainda doar para obras de caridade” — tudo em um aplicativo. Imagine, digamos, a fusão da Microsof, Apple, Google e Amazon em uma enorme empresa (MAGA), pronta a eliminar os últimos reminiscentes da economia compartilhada, em uma “economia da ocupação”. Tal empresa poderia exercer um poder enorme: com acesso sem precedentes aos consumidores, seria um ator indispensável e poderia usar essa posição de poder para forçar grandes barganhas com outras empresas. Por outro lado, se esses Golias não se fundirem ou cooperarem, acabarão perdendo muito tempo lutando entre si; Então os Davis, ainda que almejem uma pequena fatia de participação no mercado, poderão alcançá-los.

Mas seriam as pequenas plataformas de alguma forma melhores que as gigantes — que agora sugam dados, oportunidades e lucros para o último titã pantagruélico do capitalismo? Em trabalho anterior com Alex Williams, Srnicek duvidou da eficácia de intervenções locais, de pequena escala, para mudar para melhor a política ou a economia. Eram de opinião de que a “política das bases” horizontalista, do tipo Occupy, faz pouco para humanizar padrões globais de exploração e subordinação. Srnicek e William também não tinham muita fé na força das moedas locais ou da produção em pequena escala para disputar com conglomerados multinacionais.

Em Platform Capitalism, Srnicek acredita que a plataformatização é um bom presságio para o localismo. Ele argumenta que, ao invés de tentar construir mais alternativas cooperativas às plataformas, a esquerda deveria tentar regular os gigantes (e até mesmo considerar sua nacionalização):

Alguns argumentam que precisamos lutar contra essas tendências monopolísticas construindo plataformas cooperativas. No entanto, todos os problemas tradicionais das cooperativas agravaram-se devido à natureza monopolista das plataformas… O Estado, em contraste, tem o poder de controlar plataformas. Decisões antitruste podem romper os monopólios, os regulamentos locais podem prevenir ou mesmo proibir as plataformas exploradoras, as agências governamentais podem impor novos controles de privacidade e ações coordenadas contra a evasão fiscal podem devolver às mãos públicas o controle sobre o capital. Ao invés de apenas regular plataformas corporativas, deveriam ser feitos esforços para criar plataformas públicas – plataformas cuja propriedade e controle são da sociedade. (E, ressalte-se, independentes do aparato de vigilância do Estado.)… Talvez hoje devamos coletivizar as plataformas.

Mas enquato Srnicek acredita que as plataformas cooperativas estão condenadas de saída, Ours to Hack and to Own apresenta várias cooperativas de consumo, produção, trabalho e mistas que se tornaram estáveis e bem sucedidas. A relação inclui o Stocksy (um banco de dados coletivo de fotógrafos, que vende permissão para o uso das imagens) e o Fairmondo (um mercado online alemão de propriedade de seus usuários, com um conselho de administração eleito por seus empregados).

Ainda assim, a escala é uma vantagem poderosa. O Fairmondo oferece mais de 2 milhões de itens para venda, muito menos que os 480 milhões disponíveis na Amaon. Como podem os cooperativistas de plataforma esperar que a população rompa seus hábitos de consumo, em favor de empresas que podem, ao menos em seu início, ser mais lentas e mais custosas?

Trebor Scholz e Nathan Schneider oferecem uma perspectiva prática e realista em Ours to Hack and to Own. Eles reconhecem que as “grandes companhias que reinam na internet não estão dominando apenas devido a uma boa ideia e um fundador carismático; elas crescem em ecossistemas que lhes dão suporte, incluindo investidores, advogados, governos simpáticos e escolas de tecnologia”. Com esse insight, as visões de Srnicek e as plaformas cooperativistas convergem. Se os governos tivessem, por exemplo, forçado megaempresas como Apple e Uber a pagar impostos, elas não teriam sua enorme vantagem sobre as novatas. A regulação ocupa um espaço entre o liberalismo total e a nacionalização; ambos os livros reconhecem seu valor.

O ensaio da socióloga digital Karen Gregory sobre escolas de produção de códigos, em Ours to Hack and to Own, oferece também uma avaliação realista sobre a relação entre os padrões de vida dos trabalhadores e seu poder. Karen argumenta: ainda que a capacidade de codificação seja democratizada por plataformas cooperativas, os trabalhadores ainda precisarão organizar-se para demandar uma parcela mais justa da receita da empresa. Além disso, a história do trabalho mostra o quão rapidamente experimentos nobres em governança trabalhista podem ficar deformados – pense, por exemplo, em como o capital assumiu controle sobre os fundos de pensão dos sindicatos, com ajuda de leis do Estado.

Claro: o que o Estado tira, ele também pode dar. Novas combinações de regulação e desregulação podem tornar o mundo de negócios mais seguro para plataformas de cooperação. Por exemplo, o SELC, Centro Legal de Economias Sustentáveis (Sustainable Economies Law Center, cuja fundadora Janelle Orsi é colaboradora de Ours to Hack and to Own) interveio numa batalha na Califórnia sobre a desregulamentação dos restaurantes. Chefes queriam servir refeições em suas próprias casas; decretos locais sobre serviços de alimentação frequentemente os impediam de fazê-lo. Se o Estado simplesmente oferecesse tal possibilidade, empresas como a OpenTable ou TaskRabbit poderiam tirar vantagem do repentino de mão de obra para tornar-se a plataforma para refeições feitas em casa. Mas o SELC está, ao contrário, pressionando por “uma legislação exigindo que qualquer web, no mercado da comida feita em casa, seja ou uma cooperativa, ou uma organização sem fins lucrativos“. Isso ajudaria a assegurar uma governança mais democrática sobre as plataformas de restaurantes domésticos, ou uma margem maior de rendimentos para cozinheiros e garçons (ao invés de capitalistas de risco, comerciantes e outros estrategistas generosamente pagos para ajudar as plataformas com fins de lucro).

Uma questão, contudo, continua aberta para os cooperativistas de plataforma, especialmente se elas passam a controlar um alto percentual de um dado mercado (seja local ou nacional). Quando terminam os direitos dos trabalhadores e começam as prerrogativas da comunidade? Por exemplo, imagine uma cooperativa de táxi bem sucedida, que desbanque o Uber e decida definir um piso para motoristas (com base, digamos, no custo do seguro, combustível e pagamento do carro para o motorista típico). As autoridades antitruste interviriam para forçar os motoristas a competir um com o outro? A própria ideia de motoristas independentes cooperativando-se para concordar em não trabalhar em certas condições, ou não aceitar salário abaixo de certo nível, conspira para manter altos os preços. Os cooperativistas da plataforma precisarão planejar cuidadosamente para evitar intervenções aqui.

Um precedente positivo para plataformas de cooperação podem ser os conselhos profissionais que definem as pessoas aptas a exercer profissões como Direito e Medicina. Os fundamentalistas de livre mercado há muito irritam-se com os padrões mínimos definidos por entidades quase-governamentais para a licença de médicos ou exigências de educação contínua para enfermeiras. Usaram a lei antitruste para tentar desmantelar políticas de autorização para exercício da profissão, argumentando que os médicos conspiram para excluir competidores. Para o ultraliberal fundamentalista, os pacientes merecem a liberdade de contratar charlatões, e o licenciamento médico é uma conspiração contra a liberdade. Felizmente, a Suprema Corte dos EUA não adotou essa abordagem e defendeu, ao contrário, que os regimes de licenciamento profissional são imunes de ataques de antitruste enquanto foram autorizados por governos do Estado e sujeitos a controle governamental ativo. Cortes e agências de regulação sensíveis poderiam ajudar a equilibrar os direitos e responsabilidades de ambos — trabalhadores e consumidores — quando as plataformas cooperativistas tornarem-se mais populares.

A regulação e jurisprudência resultantes podem tornar-se bem complexas. Mas obras como Platform Capitalism e Ours to Hack and to Own poderiam convencer os leitores atentos de que atual economia digital, precariamente regulada, não é sustentável. Sujeitar os assalariados a um leilão nacional (ou mesmo global) de salários e condições de trabalho, para ver quem oferece trabalho mais eficiente e barato, é uma receita de exaustão e pobreza. É também um prelúdio para a deflação e o colapso econômico, uma vez que o trabalho precário provoca um revival, no século 21, do paradoxo da poupança destrutiva, de Keynes. Por que deveríamos nos sujeitar ao risco de salários em constante declínio, insuficientes até para o consumo essencial? E à medida em que essa penúria se generalize, como evitar o encolhimento de economias inteiras?

Não sei como responder a essas questões – e suspeito que os paladinos da economia digital nem sequer começaram a lidar com elas. Mas as perspectivas sinistras que se esboçam no horizonte ressaltam a importância desses dois livros, que evidenciam os aspectos políticos do trabalho. Nem o capitalismo de plataforma nem o cooperativismo de plataforma são consequência inevitável de forças econômicas naturais. O equilíbrio relativo de cada depende de como aplicamos (ou mudamos) leis sobre impostos, trabalho, regulação, ação antitruste e outras. Um trabalho melhor é possível – mas apenas se o exigirmos coletivamente.



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Somos todos Espártaco

Um livro recente revela: globalização tornou a riqueza e o poder tão concentrados como nos tempos de Roma antiga. Mas há gente — inclusive entre a esquerda — empenhada em dizer que o problema são os “populismos”
Por Nuno Ramos de Almeida
No ano 73 antes do nascimento de Cristo, e 106 anos antes da sua crucificação, o gladiador Espártaco liderou uma revolta de escravos que fez tremer Roma. Quase um terço da população da bota italiana era constituída por escravos. A insurreição aguentou dois anos e foi afogada num banho de sangue pelas tropas dirigidas pelo cônsul romano Marco Licínio Crasso. Foram crucificados seis mil escravos para servirem de exemplo de que qualquer veleidade de liberdade seria esmagada com sangue.
170821-BlankoNo seu livro Global Inequality: A New Approach for the Age of Globalization, tal como na sua obra Ter ou Não Ter, o economista norte-americano de origem sérvia Branko Milanovic faz uma espécie de apanhado da riqueza comparativa de Crasso com os plutocratas de hoje, para que se perceba quais as suas reais capacidades e de onde lhe vinha o seu poder. Ao contrário do que defendia Adam Smith, a capacidade que o cônsul teve de esmagar a insurreição de Espártaco não se devia sobretudo à sua grande habilidade na guerra e na política, mas ao fato de ser riquíssimo e de essa riqueza lhe permitir colocar a política romana a seu soldo, como observou Max Weber. Crasso dominava a política e recebia de Júlio César, em troca do seu apoio, concessões, negócios e monopólios. Quanto mais dinheiro ganhava, mais desigual se tornava a sociedade romana, mais razões de revolta existiam entre os escravos e os mais pobres, mas maior capacidade de repressão tinha. Crasso pagou com o seu dinheiro os mercenários para derrotar Espártaco. Quadruplicou, com ele, as tropas que Roma lhe tinha entregado para o efeito.
Segundo Branko Milanovic, estima-se que a riqueza de Crasso lhe rendesse 12 milhões de sestércios por ano, o equivalente a um bilhão de dólares. Um romano médio necessitaria de trabalhar 32 mil anos seguidos e sem descanso para conseguir obter o rendimento anual de Crasso.
As desigualdades na altura, expressas na imensa riqueza do cônsul, político e general romano equivalem às das nossa época. Nos EUA, apenas quatro homens têm uma riqueza comparável à de Crasso. Bill Gates está à frente, com um rendimento duas vezes e meia maior que o seu antecessor de Roma.
O que os trabalhos de Branko Milanovic mostram é que, no mundo, o lugar mais desigual é o mundo. O processo de globalização tornou a desigualdade maior a nível global do que ela é em qualquer país. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial.
Os grandes vencedores deste processo de globalização não são uma mirífica “classe média global” ou uma fantasmática “classe criativa”, mas os 1% dos mais ricos do planeta, que controlavam 46% de toda a riqueza mundial em 2010.
TEXTO-MEIO
Não há democracia possível numa economia em que haja tal desigualdade de poder. Tal como Crasso comprou tropas para esmagar a revolta dos escravos, a plutocracia global tem o poder de comprar mentes, gerar consensos e amplificar a sua ideologia nos seus meios de comunicação social, para garantir que “um homem, um voto” passe a “quem tem mais ações, ganha”.
A atual global governance não fez parte dos mecanismos para tentar minorar as desigualdades, mas foi parte do instrumento da guerra de classes para as tornar exponenciais. Como defende Wolfgang Streeck, “a tão promissora sociedade de serviços e conhecimentos revelou ser muito menor que a decadente sociedade industrializada”. Aumentaram a miséria e o número de excluídos. “A global governance em nada ajudou, como também não ajudou a suspensão da soberania nacional”, garante o sociólogo alemão. Este processo de globalização econômica transformou, aos olhos da ideologia dominante, a luta de classes em luta e divisão “cultural” nas sociedades democrático-capitalistas. Nelas reside um mal-estar crescente em relação à globalização, com o aumento do número de “derrotados da globalização”. Este processo atingiu o seu ponto de rutura a partir da crise de 2008, quando o número de pessoas afetadas tornou esta rutura visível. “Que este processo tenha demorado tanto tempo a realizar-se também se prende com o fato de aqueles que outrora falavam pelos prejudicados terem entrado, no final dos anos 90, para o clube de fãs da globalização. Quem sentiu a ‘globalização’ como um problema, e não como uma solução, viu-se antes de mais sem representantes”, observa o sociólogo. Observou-se uma fusão ideológica dos neoliberais com a dita esquerda cosmopolita. O poeta francês Baudelaire afirmava que “o truque mais inteligente do Diabo é convencer-nos de que não existe”. Atualmente, os mais ricos e a esquerda cosmopolita concorrem em coro para dizer que o neoliberalismo é uma invenção e que quem contesta a globalização capitalista é um racista e um xenófobo.
Na prática, o que estes autodenominados setores de “esquerda” fazem é tentar reforçar a legitimidade da globalização capitalista, demonizando qualquer veleidade de contestação. “O pensamento único do neoliberalismo fundiu-se com o “centro virtuoso” moral de uma comunidade discursiva internacionalista. A soberania serve hoje como base de operações numa luta cultural especial, na qual a moralização do capitalismo globalmente expandido se associa a uma desmoralização de interesses daqueles que são prejudicados pelo mesmo capitalismo”, faz notar Streeck.
Para falar claro, se vivessem no tempo do Império Romano e de Crasso, estes setores políticos condenariam a revolta dos escravos por ser tribalista e contra a “globalização positiva” de Roma.
Vivemos um momento de “interregno”, como de alguma forma viu Gramsci quando falou nesse particular momento. O crescimento das desigualdades e das incertezas faz com que as nossas sociedades vivam um momento de transição. Gramsci — o homem de quem Mussolini dizia “Temos de impedir essa cabeça de pensar durante 20 anos” — escreveu nos seus Cadernos do Cárcere a seguinte frase: “O velho mundo está morrendo. O novo tarda em aparecer. E neste lusco-fusco nascem os monstros.” O crescimento dos radicalismos de direita, no qual a eleição de Trump se enquadra, expressa este momento. Mas não se deve confundir o aparecimento dos monstros com a necessidade de manter a globalização capitalista e as desigualdades que os produzem.
No filme de Stanley Kubrick, aos escravos derrotados é-lhes dito para identificarem Espártaco, a fim de ser exemplarmente castigado, em troca de perdão. Um a um, os escravos levantam-se dizendo que são Espártaco. Mortos na cruz, não têm a frase de Jesus “que Deus lhes perdoe porque não sabem o que fazem”. A sua promessa é prometeica e tem outra inspiração: “Voltaremos e seremos milhões.”
Reza a história que Crasso não teve um fim feliz. A lenda diz que, derrotado pelos partos, acabou morto com ouro derretido enfiado pela boca abaixo, para assinalar a sua cobiça.

Nuno Ramos de Almeida

Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

Redação Outras Palavras

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A discreta emergência dos Bancos de Tempo



– ON 11/08/2017
 
   
 
   
 
   
   
   
   
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Em meio a um capitalismo que produz cada vez mais desigualdade e dominação, surge um sistema, não mercantil e igualitário, para trocar serviços e desalienar parcialmente o trabalho
Por Valerie Vande Panne | Tradução: Inês Castilho | Imagem:Vanessa Van Gasselt
Vivemos numa sociedade capitalista. Os bancos estão por toda parte, e frequentemente parece que não pode haver vida sem dinheiro e crédito. O abismo entre os que têm e os que não têm aumenta. E a desigualdade econômica explode em toda parte.
Mas surgem, aos poucos, alternativas. Em muitos lugares, as pessoas estão usando um sistema de trocas que requer algo que todos, de alguma maneira, têm igualmente, e sempre: o Tempo.
Como oferecer ou trocar tempo? Por meio de um banco de tempo. A essência é: você gasta uma hora fazendo algo para alguém no banco de tempo de sua comunidade, e recebe um crédito de uma hora para gastar em alguma coisa que precisa. Por exemplo, se levou uma hora limpando o quintal do vizinho, tem uma hora para gastar, por exemplo, com alguém que cuidará de suas crianças ou consertará seu carro. É uma hora por uma hora. A ideia é simples, e está se espalhando.
Veja, por exemplo, o Banco de Tempo Rushey Green, localizado na região sudeste de Londres. É um grupo de 535 pessoas, com projetos que incluem uma comunidade de jardinagem, compostas por mais 400 pessoas, e um projeto de refeições comunitárias, com mais 100. [Veja, também, os primeiros Bancos de Tempo brasileiros].
O Banco Rushey Green Time era muito pequeno quando começou, há quase 20 anos,  explica seu diretor, Philippe Granger. Um médico quis oferecer algo mais, além de prescrever medicamentos – em especial para os pacientes  que sofriam com isolamento, situações de perda ou desemprego. “Normalmente, um médico prescreve comprimidos” nesses casos, diz Granger. “Mas ele achou que seria melhor integrar os pacientes na comunidade.” O banco começou em um centro de saúde, numa parte da cidade bem mais cinza que verde. É uma área de alto desemprego, mães solteiras e aposentados.
TEXTO-MEIO
“Nos últimos seis ou sete anos tivemos um aumento dos casos de doença mental. Penso que, se elas avançam no mundo todo porque, é porque a vida está se tornando muito estressante”, diz Granger. Segundo ele, as pessoas com 30 a 40 anos dizem com frequência que estão com depressão, mas isso é usado como “palavra guarda-chuva”.
“Não somos curadores; não somos médicos”, diz ele: “Não prometemos que podemos consertar seu corpo se ele está rompido. Mas podemos ajudar a administrar sua condição física. Você tem uma comunidade em torno de si e recebe apoio. Se quebrou uma perna e está sozinho, fica difícil. Mas se está num grupo, pode ter suporte. Nesse sentido, os efeitos da doença são reduzidos”. Ele acrescenta: “Adoro ver pessoas caídas se levantando”.
No caso de uma perna quebrada, a comunidade do banco de tempo pode ajudar com coisas como fazer entregas, passear cachorros ou limar a casa. O convalescente, em troca, pode fazer telefonemas para uma organização local ou ensinar alguém a ler.
Mashi Blech, diretor do Banco de Tempo ArchCare, em Nova York, concorda. O banco é parte da Arquidiocese de Nova Iorque, patrocinado pelo setor de saúde da igreja — o ArchCare. Mashi trabalha nisso há 30 anos, e o o banco de tempo tem agora mais de 1.500 membros individuais e mais de 80 organizações, que falam 40 idiomas.
“Aqui em Nova Iorque a vida pode ser bem estressante”, diz Mashi. “As pessoas podem sentir-se muito isoladas e solitárias. Isolamento social é um indicador de morte precoce maior do que ser fumante”, diz Kim Hodge, fundador da Aliança de Bancos de Tempo de Michigan e do Banco de Tempo Pontiac.  As pessoas precisam sentir-se necessárias, diz ela, e o banco de tempo permite que deem e recebam de modo saudável.
A Arquidioce de Nova York lançou seu banco de tempo ao perceber que, embora muitos usuários do ArchCare recebessem bons cuidados médicos, estavam deprimidos e perdiam o sentido de pertencimento a uma comunidade — em geral devido ao fato de estar envelhecendo. Mashi conta que, de acordo com suas próprias avaliações, as pessoas na faixa dos 70 a 90 anos que usam o banco de tempo relatam melhoras na saúde física e mental. “Isso é muito bom”, diz ela, pois conseguir melhoras nessa idade é excepcional.
Philippe Granger lembra que o banco de tempo é visto de formas diferentes, em diversas partes do mundo. Na Grécia, por exemplo, as pessoas criaram bancos de tempo e redes de troca em função da necessidade. Há um banco de tempo com 2.500 membros na Rússia, que “não é político, mas de cuidado com idosos”. Na Espanha, bancos de tempo são grupos menores de pessoas trabalhando para ser mais resilientes. E na Finlândia, o Banco de Tempo de Helsinki cobra de seus participantes um pequeno imposto em créditos de tempo — que são transferidos para um “ator econômico ético” –  uma cooperativa de alimentos, por exemplo. Já nos EUA, ela diz, há bancos de tempo “mais artísticos” e “cheios de pessoas que desejam virar o sistema de cabeça pra baixo”. Philippe analisa: “Você faz o trabalho de acordo com o contexto. Rodos válidos, não se trata apenas de pobreza financeira. É mais pobreza emocional, social.”
No Banco de Tempo Rushey Green não se trocam créditos de tempo por bens. Ao contrário, insiste-se na troca de tempo e no contato com pessoas. “Trata-se de resiliência comunitária. Ajudar-se mutuamente não tem equivalência financeira. Não é somente uma questão de sobrevivência. Falar em sobrevivência é de certa forma negativo, significa que a vida é sem esperanças. Os bancos de tempo trazem vida e felicidade e divertimento. Não é sobrevivência, mas vida”, pensa Philippe.
“Estamos todos tentando encontrar saídas ao sistema capitalista. O banco de tempo é outra maneira de fazer as coisas”, acrescenta ele. Mas conseguir que uma empresa de energia, por exemplo, aceitasse créditos de banco de tempo já seria uma revolução. Até lá, Philippe recomenda que as pessoas administrem os dois sistemas. Você pode viver em vários sistemas, diz, “sem ser um riquinho detestável”.
Ele é cauteloso ao falar sobe o banco de tempo como solução para todos os males do capitalismo. Ressalta também que muitos dos membros idosos do Rushey Green “não dão a mínima para o sistema. Eles têm poucos anos à frente. Querem apenas se divertir.”
O Banco de Tempo Rushey Green também está envolvido em oferecer cartões de desconto para a vizinhança. Cerca de 3.000 membros da iniciativa e outras pessoas recebem cartões que lhes permitem receber descontos em 160 lojas locais. Isso encoraja as pessoas a comprar no comércio do bairro e resulta em apoio à comunidade. “Estamos tentando revigorar os pequenos negócios e ajudá-los a se manter.”
Há problemas, também. Segundo Kim Hodge, da Aliança de Michigan, 75% dos bancos de tempo iniciados deixam de existir depois de alguns anos: o trabalho é muito cansativo para os organizadores, quando são voluntários. “É preciso um tipo de organizador experiente para conseguir recursos”, contratar e pagar uma equipe e manter as coisas funcionando. “É algo que não acontece por si só”, diz ela.
Kim sustenta que os bancos de tempo são parte de uma grande mudança global. “São um pedaço do rico mosaico dos diferentes modos de viver e promover ajuda mútua. Alcançam um certo número de pessoas e desempenham um papel na transformação do nosso mundo — algo certamente necessário.”