segunda-feira, 29 de maio de 2017

ÚLTIMA HORA! Moro pede auditoria sobre Lula e empresa holandesa, a mais respeitada do mundo, diz que ele é inocente

/5/2017 18:28


Outra auditora, espanhola, também enviou laudo inocentando ex-presidente



A auditoria independente KMPG informou ao juiz Sergio Moro que não encontrou indícios de corrupção do ex-presidente Lula na Petrobras. A empresa auditou as contas da estatal entre 31.12.2006 e 31.12.2011.


“Em resposta ao ofício supra, a KPMG Auditores Independentes vem, respeitosamente, à presença de V.Exa, esclarecer que, durante a realização de auditoria das demonstrações contábeis da Petrobras, que abrangeu os exercícios sociais encerrados no período de 31.12.2006 e 31.12.2011, efetivada por meio de procedimentos e testes previstos nas normas profissionais de auditoria, não foram identificados pela equipe de auditoria atos envolvendo a participação do ex-presidente da república, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, na gestão da Petrobras que pudessem ser qualificados como representativos de corrupção ou configurar ato ilícito”, disse a KPMG.

Outra auditora, a Pricewaterhouse Coopers analisou o período entre 2012 e 2016. E também afirma não ter encontrado atos de corrupção de Lula.

sábado, 20 de maio de 2017

É só tirar o bode!...



Contam por aí, que um casal de idosos vivia no sossego da sua aposentadoria quando de repente tudo mudou ao saberem que a sua única filha recém casada estava com dificuldades de criar o seu filho, pois o esposo tinha sido despedido do trabalho.

Passaram doravante a especular se a filha fizera um bom casamento, se esse genro era um homem sério e capaz de sustentar a nova família com independência, se tinha feito algum “pé de meia” para vivenciar sosinho as dificuldades que estavam por vir, etc,etc.

Como mãe é mãe; a senhora ponderou, que eles não poderiam deixar o casal e o neto sofrerem os reveses que a qualidade momento se apresentara, tentando remover do velho marido a idéia fixa de não se comprometer em ajudar, pois não desejava modificar a sua rotineira e previsível vidinha de aposentado.  Ele, por outro lado, argumentava dizendo que não teria mais como ver a sua novela, ler o seu jornal e dormir a tarde, pois o genro iria retirar a página dos esportes do seu jornal, desmantelando-o, que a sua novela da tarde estaria prejudicada pelas resenhas esportivas de outro canal nesse mesmo horário. Comentou que o seu netinho querido estaria chorando, ao querer mamar, já que a sua filha querida era “marinheira de primeira viagem”. Um rosário de ponderações tão grande que chamou a atenção da velha empregada baiana, ao ponto dela tomar uma providência pouco usual, - falar com o patrão, aconselhando-o a safar-se dessa atribulação que tanto o afligia.

Depois de pensar como poderia abordá-lo sem gerar mais um problema, tomou coragem e partiu decidida a reverter aquela penúria. Perguntou se ele aceitava um conselho, que ela tanto titubeava em abordar para não contrareá-lo, e se poderia falar naquele momento. O velho já irritado com tantos rodeios, foi logo dizendo: -fale logo!

É o seguinte, disse ela, aqui pertinho, uma vez por mês, pai Cipriano D’angola baixa num moço que é muito conceituado nas “curimbas” da região. – Acho bão o sinhô passar lá e contar o seu causo... O velho, que era um católico fervoroso, irritou-se dizendo: - não sou homem de acreditar e frequentar macumba, Josefa! Isso é coisa de “gentinha”, pessoas sem fé em Deus. Não negocio com demônios! A moça, saiu de fininho sabendo que acabara de “deixar um furo”... Como os problemas se agravaram, conforme a previsibilidade do velho, ele já se achava tentado a procurar a alternativa que a Zefa indicara. Tomou coragem e foi procurá-la na cozinha, falando sobre a sua repentina decisão: estava disposto a fazer a tal consulta! –Me dê o endereço e o dia, eu irei ver se isso merece algum crédito. Afinal de contas, disse: - já não aguento mais essa invasão de privacidade, esse desassossego...

No dia combinado, o velho sorrateiramente foi a noite consultar-se com a referida entidade na “curimba”do pai Cipriano D’angola. Teve que ser defumado antes, coisa que já não gostou muito, pois isso iria delatá-lo com a vizinhança e a D. Rosa, devido ao cheiro que o impregnou, depois teve que entrar numa fila pra sentar num pequeno banco, local esse que o “cambono” se referiu como sendo um “apoti”, coisa que de início o deixou sem referencial algum, pois desconhecia esse linguajar esquisito. Ficou ali por quase uma hora e meia, até que chegou a sua vez... Sentou-se no tal banco com grande dificuldade devido a sua pequena altura, sendo logo  benzido com alguns galhos de arruda e guiné, molhados na água de uma cuia pelo “preto velho”.  A entidade o saudou, perguntando: Qui mi sin fio veio prosear qum esse véi aqui? O velho não entendeu bulhufas do que a tal entidade falava, até que o “cambono” vendo a dificuldade do neófito, traduziu: senhor, ele quer saber qual a demanda que o trás até aqui? O velho, agora mais seguro da situação, abriu o bico sobre a sua nefasta situação.

Contou todos os seu novos problemas em decorrência dessa adversidade familiar. Pai Cipriano deu uma mascada no seu fumo de rolo e uma cusparada no salão que deixou um lago meio marrom e catinguento de fumo. Coçou a cabeça e disse: mi sin fio, suncê caminha até uma feira, compra um bode com chifre e leva pra casa. Suncê uvio o que o preto véi disse? Atônito com essa receita, o velho quase que caiu do banco. – Um bode? – Suncê num cunhece? O velho olhou incrédulo para o “cambono” e disse: - foi isso mesmo que eu ouvi? Foi, disse o “cambono” com um ar de tradutor do google e um sorriso no canto da boca. – É fácil de achar e não custa essa grana toda não!

 Acabada a sessão, saiu o velho todo defumado novamente e com uma cara de “cachorro a cavalo”, de tão desconfiado que ficou, prá não dizer, incrédulo. Pensou: o que é que eu fui fazer num lugar desses, depois de tantos anos de vida cristã? Fui dar ouvidos a empregada e me danei. Agora, vou chegar em casa com esse cheiro, o que vou dizer para Rosa?

Zefa, já estava ansiosa e preocupada, achando-se responsável direta por qualquer coisa que tivesse dado errado. Não contendo a preocupação, foi logo dizendo: - eu acho que o patrão não está conseguindo furar a procissão de Nossa Senhora do Desterro! – Daqui estou sentido o cheiro do incenso do padre, com o seu turíblio balançando de um lado pro outro. D. Rosa, advertiu-a dizendo: - tá parecendo cachorro, menina! - Onde já se viu alguém sentir um cheiro desses, se eu não estou ouvindo nem  o povo rezar!

 – Eu, hein? Não deu outra, quando Zefa viu o sinhozinho apontar na esquina, saiu correndo pra avisar sobre a desculpa do atraso e do cheiro... O velho sentiu-se aliviado e ao mesmo tempo chateado, sabia ele que estava negociando o seu caráter de cidadão ilibado, com uma versão intencional dos fatos... Desconfortável, sentiu-se.

Depois de ter enganado a D. Rosa com aquela versão, sabia que precisava comprar o tal bode para fazer o que a tal entidade recomendara. A situação em casa era insustentável, carecia de uma atitude pouco convencional para ser resolvida, pensou ele. No sábado seguinte, comprou o tal bode com a desculpa de que um amigo precisava viajar e não tinha quem poderia alimentá-lo. D. Rosa achou estranho, apesar de não desconfiar.
Desculpem-me de dizer sobre o que se passou a partir da chegada do tal bode “macumbado”. O bicho sujou a casa toda, esfregando-se nas paredes, cagou tudo o que jamais tinha comido, baliu até ninguém aguentar, e pior, começou a dar marradas com aquela cabeça dura em todos que ousassem passar na sua frente. Um caos!

O velho pensava já em despedir a Zefa, só não o fez por que a sua consciência andava pesada e ficara preso a ela pela tal versão que contara para D. Rosa. A Zefa poderia acabar com aquela moralidade cristã em um abrir de boca, a coisa não iria prestar...

Sem saber o que poderia fazer, procurou a empregada e perguntou: - que posso fazer agora? – Zefa argumentou: - acho melhor o senhor perguntar ao pai Cipriano! – Quando será a nova consulta, perguntou. – Amanhã tem, disse a empregada sem graça. – Irei desmoralizar esse pai de santo, não estou aqui pra passar um vexame desses.
No dia seguinte, lá estava ele na fila, imaginando e remoendo nos seus pensamentos sobre que iria dizer para desmoralizar aquela farsa. Duas horas e meia depois conseguiu ser atendido, sentando-se no pequeno banco e sendo assessorado pelo “cambono” da casa.

O diálogo foi algo que nenhum de nós poderia imaginar. O pai Cipriano olhava pro velho com os olhos brilhantes e um leve sorriso no canto da boca, torta pelo uso do cachimbo. Depois de demorar alguns instantes perguntou ao velho: - suncê tava precisado de me falar, num tava? – O véi aqui tá ficano sabido, hi,hi,hi. O velho, não aguentou, contou a sua primeira consulta, e a receita que a entidade lhe passara, mostrando já exaltado o histórico do resultado... Pai Cipriano, perguntou: - mi si fio, suncê qué que o véi diga o que sucê tem qui fazê, num é? – Claro, respondeu o velho, já com a boca seca de tanto falar.  – Intão iscuti o que o véi vai dizer pro cê: - tire o bode! – Como assim? – Depois de ter piorado a minha situação com essa sua receita, o senhor me diz isso? Que palhaçada é essa? A minha casa ficou um pardieiro, um chiqueiro, imunda e fedendo. Terei que mandar pintá-la e fazer uma caríssima faxina por causa do bode que você me receitou, e agora, me manda tira o bode! – O pai Cipriano deu uma daquelas cusparadas do fumo que estava mascando e sorrindo baixinho falou: - fio, suncê tava achando ruim ficar cum sua fia, seu netinho e o perna de calça dela. Suncê veiu prucurá o véi pra acabar com o probema, num foi? Então, suncê não sabia qui pudia ficá pió, e foi isso qui aconteceu. Agora, suncê tira o bode qui tudo vai milhorar! Hi,hi,hi,hi,hi.

Qualquer semelhança com o que está acontecendo com a situação política é mera coincidência...

Tiraram a Dilma por isso e aquilo... colocaram o Temer pra melhorar...


J. Alfredo Bião

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Opinião do Nassif: O fim do governo Temer

Lucas Arcanjo, o policial morto que denunciava Aécio Neves

Por que a Globo (golpista) deu o furo que pode derrubar Temer? Entenda!

17/5/2017 


Fernando Horta: "Muitos estão perguntando o porquê da Globo fazer o que fez. Vou tentar lançar luz aqui.
Quem trabalha com publicidade em SP sabe que há anos a Globo vem no vermelho. Seus custos são muito altos e desde que surgiu google, facebook e netflix ela não recebem mais quase 80% da verba de publicidade. A verba destinada à Globo vem caindo e cada vez mais rápido toda vez que se mostra que as pessoas ficam mais tempo no computador do que vendo televisão.A JBS é a terceira maior anunciante da Globo. Sem o dinheiro da JBS a globo não paga as contas do mês. Quando da operação a "Carne é Fraca" a JBS perdeu algumas centenas de milhares de dólares e seu dono percebeu que estaria correndo risco. 


A JF Holding também está prestes a fazer uma abertura de capital bilionária na Bolsa de Nova York e os irmãos já tratam com a Justiça americana limpar o nome da empresa para seguir em frente. Os irmãos Batistas, bem orientados por advogados, decidiram pela delação premiada no Brasil e num pagamento de multa nos Estado Unidos numa estratégia para salvar o seu grupo empresarial. Em suma, governos passam, mas a empresa fica. Secretamente ele foi à procuradoria fazer delação sabendo que com Moro ele não a teria.

Percebendo que mesmo com a delação a JBS seria cobrada por mais de 700 milhões de prejuízo do BNDS (que corrigidos e com multa ia para algo dos 3 bi) e ainda seria preso (como foram Odebrecht e Eike).

O dono da JBS largou a delação para vários meios de informação. Quem desse o furo levava. A Globo poderia tentar segurar mas perderia o seu terceiro maior anunciante e quando outras emissoras ou mesmo as redes mostrassem a delação ficaria impossível (até para os mais tapados) deixar de reconhecer a globo como acobertadora de corruptos. 





A Globo internamente julgou que o menor prejuízo dela seria colocar o governo Temer abaixo e agora tentar uma coalizão política para não deixar o país afundar na crise. A Globo precisa de uma coisa urgente: uma mudança de lei. Ela está falida mas a lei brasileira não permite a venda de empresas de telecomunicações a grupos estrangeiros (os únicos com grana para comprar a globo). Então ela precisa desta mudança. Lula não precisa fazer nada para ferrar a globo, basta vetar a lei que permitiria venda a grupo estrangeiro.

Diante da sinuca de bico que a JBS colocou a globo, ela escolheu tentar sair de heroína, imaginando que poderá manobrar sua legião de zumbis para TENTAR se salvar. Com o que fez hoje, a globo entrega os anéis e espera salvar os dedos."

segunda-feira, 15 de maio de 2017

No ar, Manchetômetro revela mídia manipulada

 8 DE MAIO DE 2017

170508-Manchetômetro2Criada por pesquisadores da UERJ, ferramenta interativa permite ao público fazer suas próprias aferições. Dados demonstram: jornais são mansos com governo Temer e defender, ferozes, agenda ultraliberal
Por João Filho, no The Intercept
Em junho do ano passado, Otávio Frias Filho, diretor editorial e um dos herdeiros da Folha de S.Paulo, participou de uma conferência em Londres em que se discutiu o papel da mídia na crise política brasileira. Uma das convidadas era a jornalista britânica Sue Branford, que criticou a falta de pluralidade da imprensa e apontou o maciço apoio dos grandes veículos de comunicação ao processo de impeachment de Dilma. Irritado, Frias tentou desqualificá-la ao dizer que sua visão correspondia à da “militância do PT” e completou dizendo que a “mídia não manipula ninguém”. Em outro momento da conferência, defendeu a Folha ao dizer que a empresa tratou de forma igualmente crítica os governos FHC, Lula e Dilma – e que o mesmo aconteceria com Temer.
Quem acompanha o noticiário com um mínimo de atenção e está com as faculdades mentais em ordem, sabe que essa é uma grande falácia. A cobertura da grande mídia é tendenciosa e alinhada aos interesses das forças políticas conservadoras, do mercado financeiro e à agenda ultra neoliberal hoje representada por PMDB e PSDB.
Essa semana foi lançado o novo site do Manchetômetro – uma iniciativa do cientista político e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) João Feres Jr, da UERJ – que faz um monitoramento diário da cobertura dos principais veículos da grande mídia (Folha, Estadão, O Globo e Jornal Nacional) sobre temas como política e economia. É uma ferramenta que traz dados importantes para o debate político e ajuda a compreender o papel da mídia no processo democrático. Na nova versão do site, os visitantes podem produzir seus próprios gráficos escolhendo temas, veículos, partidos e período desejado.
É uma ferramenta fascinante para confirmar as nossas percepções. Criei alguns gráficos que demonstram a mudança de postura repentina da grande mídia em relação ao governo federal. Este aqui avalia a cobertura do jornal dos Frias em relação ao governo federal de 2015 até hoje:
Fonte: Manchetômetro
Percebam como as notícias desfavoráveis ao governo federal começam a cair a partir de abril, mês em que Michel Temer assume o poder.O gráfico do Jornal Nacional é o mais impressionante. O número de matérias contrárias ao governo federal despenca vertiginosamente logo após o impeachment.
Fonte: Manchetômetro
O próximo gráfico mostra como foi a cobertura de todos os veículos analisados (O Globo, Folha, Estadão, Jornal Nacional):
Fonte: Manchetômetro
Parece que a frase ”imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”, de Millor, tão repetida por Noblat durante o governo Dilma, foi completamente esquecida pelas principais empresas de jornalismo. A cobertura pitbull do governo federal foi abandonada para dar lugar à cobertura poodle.
Agora vejamos como a mídia se comporta em relação aos três maiores partidos do país:
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Fonte: Manchetômetro
Os números derrubam a tese de que o PT sempre teve uma cobertura mais crítica por estar no poder e, por isso, naturalmente seria o mais fiscalizado. No mês que antecede o impeachment, houve um pico de matérias contrárias ao partido. PMDB e PSDB, mesmo tendo assumido o governo federal e estando tão enrolados na Lava Jato quanto o PT, continuaram desfrutando de maior complacência da grande imprensa.
O apoio midiático à reforma da previdência proposta por Temer também foi identificado por um estudo da Repórter Brasil, que analisou os três principais impressos (Estadão, Folha, O Globo) e os dois maiores telejornais (Jornal Nacional e Jornal da Record).O levantamento chega à conclusão de que quase não há espaço para opiniões contrárias à reforma. A Globo, claro, foi a empresa que melhor estendeu o tapete para o governo Temer desfilar. 90% dos textos sobre o assunto no jornal O Globo foram favoráveis à mudança. Folha e Estadão não ficaram muito atrás: 83% e 87%.No Jornal Nacional, apenas 9% do tempo dedicado a fontes ou dados contrários à reforma. Foram 29min54s de cobertura favorável, contra apenas 2min 47s de cobertura crítica – uma reportagem que questionava a exclusão dos militares da reforma. A Rede Globo de televisão, que deveria usar a concessão pública para ampliar o debate em torno de um tema complexo que afetará profundamente a vida da maioria do povo, coloca o jornal de maior audiência do país como militante do projeto que limita os direitos previdenciários.O G1, também da Globo, compartilhou nas redes sociais essa manchete:
 Em nenhum momento da reportagem o leitor é informado que é incorreta a informação de que a “maioria da população é favorável” às reformas. Diferentes pesquisas (123)  indicam exatamente o contrário, mas nem precisaríamos delas, já que até o próprio governo federal sempre admitiu a impopularidade das reformas. O jornalismo que permite que o prefeito da maior capital do país minta sem contestá-lo com a realidade dos fatos não é jornalismo. É assessoria de imprensa. Do prefeito-presidenciável e das reformas impopulares de Temer.
O SBT não entrou na análise, mas Michel Temer foi pessoalmente falar com Sílvio Santos para pedir seu apoio. No dia seguinte ao encontro, o SBT passou a veicular em sua programação algumas mensagens pintando o apocalipse caso a reforma não seja aprovada. Aprecie o terrorismo dessas duas peças:

O apresentador Ratinho também foi escalado para ser garoto-propaganda das reformas.
Depois de conseguir aprovar a reforma trabalhista, Temer conta com o rolo compressor midiático para a reforma previdenciária, que terá mais dificuldades para ser aprovada. Os números não mentem. Diferente do que prega Frias Filho, os oligopólios de mídia têm lado claro no jogo político e não vão medir esforços para implantar a agenda neoliberal que foi rejeitada nas urnas pela maioria da população por quatro vezes seguidas.

Quem é Emmanuel Macron, novo presidente francês?


– 7 DE MAIO DE 2017 




Ex-banqueiro, candidato da grande mídia e do patronato francês, ele quer “uberizar” a França, inclusive com nova mudança nas leis trabalhistas. Por isso os jornais o trataram tão acriticamente
Por Leneide Duarte-Plon, de Paris, na Carta Maior.
Em 2002, Jacques Chirac, candidato da direita, recusou-se a debater com Jean-Marie Le Pen, do Front National (FN, de extrema-direita), segundo colocado no primeiro turno.
A chegada ao segundo turno do fundador do Front National e a exclusão do candidato do Partido Socialista Lionel Jospin foram um verdadeiro eletrochoque para os franceses. Milhões de pessoas foram às ruas das principais cidades dizer “não” à extrema-direita e a seu líder. Chirac ganhou com 82% dos votos. Apesar de ser o candidato da direita (UMP, na época), ele teve os votos de praticamente toda a esquerda francesa que se uniu à direita no Front Républicain (Frente Republicana).
Os tempos mudaram. A Frente Republicana não é uma evidência e a abstencão é defendida por muitos que acreditam que entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron é escolher entre “a peste e a cólera”, na expressão francesa.
De 2002 para cá, o Front National banalizou-se, sofreu uma maquiagem profunda, a tal ponto que muitos o consideram um partido como outro qualquer. Mas a maioria dos franceses ainda o veem como um partido fascista e xenofóbico, uma ameaça à democracia francesa.
A maior prova da banalização do FN é que Emmanuel Macron aceitou debater nesta quarta-feira, dia 3 de maio com Marine Le Pen.
Muitos intelectuais e políticos de esquerda têm martelado em artigos e entrevistas que é preciso votar Macron no segundo turno pois quanto maior for sua votação mais marcante será a prova da rejeição da França às teses extremas do FN. A pesquisa de opinião feita pelo IFOP divulgada dia 1° de maio dava 59% dos votos para Emmanuel Macron e 41% para Marine Le Pen. Em relação a semana anterior, ele perdeu um ponto e ela ganhou um.
Os mais reticentes em votar Macron são os eleitores de Jean-Luc Mélenchon (19,6% no primeiro turno). Mélenchon se recusou a estimular seus eleitores a votar por Macron por sua posição radicalmente oposta ao programa do candidato mas afirmou que os franceses não podem eleger Marine Le Pen, considerada por toda a esquerda como um perigo para a République.
A menos que todos os institutos de pesquisa cometam um enorme enorme erro, o novo presidente eleito vai ser Macron. Fato inédito na história da França, o presidente vai festejar, em dezembro, seus 40 anos no Eliseu. Sua mulher Brigitte, tem 64 anos e era professora de francês no liceu em que ele estudou, em sua cidade Natal, Amiens.
Os boatos sobre a homossexualidade de Emmanuel Macron, que lhe atribuíam até mesmo um amante (o PDG de Radio France, Mathieu Gallet) foram desmentidos com fair play pelo próprio candidato. Houve quem sugerisse que o boato veio de Moscou pois foi publicado pela primeira vez na imprensa russa.
Na atual recomposição do cenário político francês, as alianças mais improváveis  acontecem e não se pode esquecer que Marine Le Pen é próxima de Vladimir Putin.
Ambiguidade

A fulgurante carreira de Emmanuel Macron, totalmente atípica na França, já faz parte da história do país pois ele revolucionou todos os rígidos códigos do mundo político francês no qual a separação entre a direita e a esquerda, que se alternam no poder, é muito clara.
Mas quem é Emmanuel Macron? O futuro presidente francês de 39 anos nunca exerceu um mandato eletivo nem mesmo de vereador (conseiller municipal) e era desconhecido dos franceses até três anos atrás, quando François Hollande o nomeou Ministro da Economia, no governo do primeiro-ministro Manuel Valls.
Desde o ano passado, quando pediu demissão do ministério, nenhum político ocupou tanto espaço na mídia francesa como Macron, prova de que os proprietários de jornais, TV e revistas lançaram todas as suas fichas na candidatura do ex-ministro. O jornalista Marc Endeweld escreveu um livro cujo título já fala da ambiguidade do personagem : “L’ambigu monsieur Macron”.
Para ressaltar as hesitações de Macron, seus adversários o acusam de ambiguidade porque ele é capaz de defender uma posição hoje e amanhã mudar de opinião fazendo nuances em seu raciocínio. Para os mais críticos, ele encarna dois personagens : Dr. Emmanuel e Monsieur Macron.
Antes de declarar seu voto em Emmanuel Macron para o segundo turno, o economista Thomas Piketty – que assessorou o candidato do Partido Socialista Benoît Hamon no primeiro turno – havia escrito que “Macron é um banqueiro que vai governar para os banqueiros”. Não mudou de opinião, mas não quer ver Marine Le Pen no Eliseu.
O programa direitista de Macron prevê a supressão do imposto sobre a fortuna (ISF), a remodelação (que os neoliberais apresentam sempre no mundo inteiro como a “modernização”) do Code du Travail (a CLT francesa) e o exercício do poder por decretos quando não houver maioria no Parlamento. Os serviços públicos devem também ser atingidos por cortes de funcionários e orçamento. Além disso, ele vai esvaziar o papel dos sindicatos, com menos poder e menos repasse de dinheiro.
Mas os dividendos aos acionistas estão garantidos.
Formado na prestigiosa ENA (École Nationale d’Administration), ele foi inspetor de finanças e fez carreira no serviço público até 2008, quando entrou para o Banco Rothschild, onde ficou até 2012. O seu passado de banqueiro ficou colado como um estigma na pele do jovem candidato à presidência, numa França que não aprecia o “mélange de genres” entre o mundo dos negócios e a política.
Com a eleição de François Hollande e por ter tido uma rápida passagem de três anos pelo Partido Socialista, o jovem ambicioso entrou no Palácio do Eliseu como secretário-geral adjunto em 2012. Saiu em em 2014, para voltar poucos meses depois como ministro da Economia. O jovem ministro aparentemente gostou do mundo do poder e resolveu começar por onde todos terminam. Em abril de 2016, criou o partido “En Marche” (as iniciais do seu nome), em agosto pediu demissão e lançou sua candidatura à presidência da República.
Dizendo-se nem de esquerda nem de direita, para logo depois começar a se afirmar “de esquerda e de direita”, Macron foi comendo pelas beiradas eleitores dos dois campos.
Macronizar ou uberizar a sociedade francesa

Com sua biografia e seu programa neoliberal, Macron angariou a simpatia geral do mundo das finanças, do CAC 40 (as principais empresas francesas cotadas na Bolsa) e do mundo da mídia, quase 100% a seus pés, com raras exceções.
E, muito importante, começou a contribuir com a demolição do Partido Socialista ao receber o apoio de alguns dos peso-pesados do governo Hollande, antes ainda do primeiro turno, esvaziando totalmente a candidatura de Benoît Hamon, candidato PS. O ministro da Defesa, Jean-Yves Le Dryan e o ex-primeiro-ministro Manuel Valls, ambos socialistas, macronizaram antes do primeiro turno.
Nunca a França fez tantas guerras e vendeu tantas armas quanto no governo Hollande, quando o ministro Le Dryan  era um verdadeiro relações públicas da indústria bélica francesa. Os fabricantes de armas deram apoio incondicional e entusiasmado ao candidato de “En Marche”.
Como parte da ambiguidade do candidato, seu livro lançado durante a campanha se chama “Révolution”. Que ninguém espere outra coisa senão uma clara e nítida virada mais à direita do aquela realizada por seu mentor François Hollande.
“Seu partido, provavelmente rebatizado no futuro, já recebeu apoio de um grande número de deputados de direita, além de ministros de Hollande. Ele se encarregará de ‘macronizar’ ou ‘uberizar’ a sociedade”, escreveu o jornalista Denis Sieffert, diretor da revista semanal “Politis”.
Consequência do cometa Macron, Sieffer acrescenta que em breve todos vão perceber que o Partido Socialista, esvaziado por Macron, vai se transformar “em um partido de centro-esquerda, que gravará no mármore o neoliberalismo”.
No entanto, assim como numerosos socialistas e comunistas, Denis Sieffert declarou voto em Emmanuel Macron dizendo que ele encarna tudo o que sua revista combate há muitos anos mas “não se brinca com o risco fascista”. “Não é uma questão de programa, iremos combatê-lo com outras armas”, acrescentou.
Quanto à jornalista Aude Lancelin, ela foi demitida da revista  Nouvel Obs por um artigo em que demonstrava a total adesão e conivência da grande mídia ao candidato Macron, no que ela chamou de “endogamia macroniana”. Baseada em fatos e exemplos irrefutáveis, ela demonstra em seu excelente artigo como este pareceu aos grandes patrões da imprensa mais palatável e seguro que o direitista François Fillon, implicado judicialmente por empregos fictícios de sua mulher e de seus filhos.
* Leneide Duarte-Plon é autora de “A tortura como arma de guerra – Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado” (Editora Civilização Brasileira, 2016)”.

Ex-banqueiro, candidato da grande mídia e do patronato francês, ele quer “uberizar” a França, inclusive com nova mudança nas leis trabalhistas. Por isso os jornais o trataram tão acriticamente
Por Leneide Duarte-Plon, de Paris, na Carta Maior
Em 2002, Jacques Chirac, candidato da direita, recusou-se a debater com Jean-Marie Le Pen, do Front National (FN, de extrema-direita), segundo colocado no primeiro turno.
A chegada ao segundo turno do fundador do Front National e a exclusão do candidato do Partido Socialista Lionel Jospin foram um verdadeiro eletrochoque para os franceses. Milhões de pessoas foram às ruas das principais cidades dizer “não” à extrema-direita e a seu líder. Chirac ganhou com 82% dos votos. Apesar de ser o candidato da direita (UMP, na época), ele teve os votos de praticamente toda a esquerda francesa que se uniu à direita no Front Républicain (Frente Republicana).
Os tempos mudaram. A Frente Republicana não é uma evidência e a abstencão é defendida por muitos que acreditam que entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron é escolher entre “a peste e a cólera”, na expressão francesa.
De 2002 para cá, o Front National banalizou-se, sofreu uma maquiagem profunda, a tal ponto que muitos o consideram um partido como outro qualquer. Mas a maioria dos franceses ainda o veem como um partido fascista e xenofóbico, uma ameaça à democracia francesa.
A maior prova da banalização do FN é que Emmanuel Macron aceitou debater nesta quarta-feira, dia 3 de maio com Marine Le Pen.
Muitos intelectuais e políticos de esquerda têm martelado em artigos e entrevistas que é preciso votar Macron no segundo turno pois quanto maior for sua votação mais marcante será a prova da rejeição da França às teses extremas do FN. A pesquisa de opinião feita pelo IFOP divulgada dia 1° de maio dava 59% dos votos para Emmanuel Macron e 41% para Marine Le Pen. Em relação a semana anterior, ele perdeu um ponto e ela ganhou um.
Os mais reticentes em votar Macron são os eleitores de Jean-Luc Mélenchon (19,6% no primeiro turno). Mélenchon se recusou a estimular seus eleitores a votar por Macron por sua posição radicalmente oposta ao programa do candidato mas afirmou que os franceses não podem eleger Marine Le Pen, considerada por toda a esquerda como um perigo para a République.
A menos que todos os institutos de pesquisa cometam um enorme enorme erro, o novo presidente eleito vai ser Macron. Fato inédito na história da França, o presidente vai festejar, em dezembro, seus 40 anos no Eliseu. Sua mulher Brigitte, tem 64 anos e era professora de francês no liceu em que ele estudou, em sua cidade Natal, Amiens.
Os boatos sobre a homossexualidade de Emmanuel Macron, que lhe atribuíam até mesmo um amante (o PDG de Radio France, Mathieu Gallet) foram desmentidos com fair play pelo próprio candidato. Houve quem sugerisse que o boato veio de Moscou pois foi publicado pela primeira vez na imprensa russa.
Na atual recomposição do cenário político francês, as alianças mais improváveis  acontecem e não se pode esquecer que Marine Le Pen é próxima de Vladimir Putin.
Ambiguidade

A fulgurante carreira de Emmanuel Macron, totalmente atípica na França, já faz parte da história do país pois ele revolucionou todos os rígidos códigos do mundo político francês no qual a separação entre a direita e a esquerda, que se alternam no poder, é muito clara.
Mas quem é Emmanuel Macron? O futuro presidente francês de 39 anos nunca exerceu um mandato eletivo nem mesmo de vereador (conseiller municipal) e era desconhecido dos franceses até três anos atrás, quando François Hollande o nomeou Ministro da Economia, no governo do primeiro-ministro Manuel Valls.
Desde o ano passado, quando pediu demissão do ministério, nenhum político ocupou tanto espaço na mídia francesa como Macron, prova de que os proprietários de jornais, TV e revistas lançaram todas as suas fichas na candidatura do ex-ministro. O jornalista Marc Endeweld escreveu um livro cujo título já fala da ambiguidade do personagem : “L’ambigu monsieur Macron”.
Para ressaltar as hesitações de Macron, seus adversários o acusam de ambiguidade porque ele é capaz de defender uma posição hoje e amanhã mudar de opinião fazendo nuances em seu raciocínio. Para os mais críticos, ele encarna dois personagens : Dr. Emmanuel e Monsieur Macron.
Antes de declarar seu voto em Emmanuel Macron para o segundo turno, o economista Thomas Piketty – que assessorou o candidato do Partido Socialista Benoît Hamon no primeiro turno – havia escrito que “Macron é um banqueiro que vai governar para os banqueiros”. Não mudou de opinião, mas não quer ver Marine Le Pen no Eliseu.
O programa direitista de Macron prevê a supressão do imposto sobre a fortuna (ISF), a remodelação (que os neoliberais apresentam sempre no mundo inteiro como a “modernização”) do Code du Travail (a CLT francesa) e o exercício do poder por decretos quando não houver maioria no Parlamento. Os serviços públicos devem também ser atingidos por cortes de funcionários e orçamento. Além disso, ele vai esvaziar o papel dos sindicatos, com menos poder e menos repasse de dinheiro.
Mas os dividendos aos acionistas estão garantidos.
Formado na prestigiosa ENA (École Nationale d’Administration), ele foi inspetor de finanças e fez carreira no serviço público até 2008, quando entrou para o Banco Rothschild, onde ficou até 2012. O seu passado de banqueiro ficou colado como um estigma na pele do jovem candidato à presidência, numa França que não aprecia o “mélange de genres” entre o mundo dos negócios e a política.
Com a eleição de François Hollande e por ter tido uma rápida passagem de três anos pelo Partido Socialista, o jovem ambicioso entrou no Palácio do Eliseu como secretário-geral adjunto em 2012. Saiu em em 2014, para voltar poucos meses depois como ministro da Economia. O jovem ministro aparentemente gostou do mundo do poder e resolveu começar por onde todos terminam. Em abril de 2016, criou o partido “En Marche” (as iniciais do seu nome), em agosto pediu demissão e lançou sua candidatura à presidência da República.
Dizendo-se nem de esquerda nem de direita, para logo depois começar a se afirmar “de esquerda e de direita”, Macron foi comendo pelas beiradas eleitores dos dois campos.
Macronizar ou uberizar a sociedade francesa

Com sua biografia e seu programa neoliberal, Macron angariou a simpatia geral do mundo das finanças, do CAC 40 (as principais empresas francesas cotadas na Bolsa) e do mundo da mídia, quase 100% a seus pés, com raras exceções.
E, muito importante, começou a contribuir com a demolição do Partido Socialista ao receber o apoio de alguns dos peso-pesados do governo Hollande, antes ainda do primeiro turno, esvaziando totalmente a candidatura de Benoît Hamon, candidato PS. O ministro da Defesa, Jean-Yves Le Dryan e o ex-primeiro-ministro Manuel Valls, ambos socialistas, macronizaram antes do primeiro turno.
Nunca a França fez tantas guerras e vendeu tantas armas quanto no governo Hollande, quando o ministro Le Dryan  era um verdadeiro relações públicas da indústria bélica francesa. Os fabricantes de armas deram apoio incondicional e entusiasmado ao candidato de “En Marche”.
Como parte da ambiguidade do candidato, seu livro lançado durante a campanha se chama “Révolution”. Que ninguém espere outra coisa senão uma clara e nítida virada mais à direita do aquela realizada por seu mentor François Hollande.
“Seu partido, provavelmente rebatizado no futuro, já recebeu apoio de um grande número de deputados de direita, além de ministros de Hollande. Ele se encarregará de ‘macronizar’ ou ‘uberizar’ a sociedade”, escreveu o jornalista Denis Sieffert, diretor da revista semanal “Politis”.
Consequência do cometa Macron, Sieffer acrescenta que em breve todos vão perceber que o Partido Socialista, esvaziado por Macron, vai se transformar “em um partido de centro-esquerda, que gravará no mármore o neoliberalismo”.
No entanto, assim como numerosos socialistas e comunistas, Denis Sieffert declarou voto em Emmanuel Macron dizendo que ele encarna tudo o que sua revista combate há muitos anos mas “não se brinca com o risco fascista”. “Não é uma questão de programa, iremos combatê-lo com outras armas”, acrescentou.
Quanto à jornalista Aude Lancelin, ela foi demitida da revista  Nouvel Obs por um artigo em que demonstrava a total adesão e conivência da grande mídia ao candidato Macron, no que ela chamou de “endogamia macroniana”. Baseada em fatos e exemplos irrefutáveis, ela demonstra em seu excelente artigo como este pareceu aos grandes patrões da imprensa mais palatável e seguro que o direitista François Fillon, implicado judicialmente por empregos fictícios de sua mulher e de seus filhos.
* Leneide Duarte-Plon é autora de “A tortura como arma de guerra – Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado” (Editora Civilização Brasileira, 2016)”.


Trabalhar seis horas, desejo impossível?


POR 

– ON 08/05/2017



Sob a lógica capitalista, todo avanço tecnológico produz desemprego e submissão. Um novo projeto emancipatório precisa exigir o contrário: redução substantiva da jornada, sem diminuição de salários
Por Esteban Mercatante, no Ideas de Izquierda | Tradução: Inês Castilho
Os avanços da robotização e da inteligência artificial, nos últimos anos, deram novo vigor à reflexão sobre o “fim do trabalho”. Quase toda semana surgem na mídia notícias sobre os milhões (ou mesmo dezenas de milhões) de empregos que desaparecerão nos pŕoximos anos como consequência desse avanço. Os fantasmas sobre o fim do trabalho vêm de antes – em 1995 saiu o livro de Jeremy Rifkin O fim do trabalho e já nos anos 80 o teórico crítico André Gorz apontou as mutações no mundo da produção que colocavam em crise o papel do trabalho. Mas agora, tornaram-se uma perspectiva mais próxima, ou ao menos assim parecia, dados os prognósticos mais alarmistas. No ano passado, o Fórum Econômico Mundial, que se reúne todos os janeiros em Davos, apresentou estimativas que projetam uma queda dramática da quantidade de assalariados em consequência da introdução de novas tecnologias. Todos esses estudos têm muito de alarmistas; como mostra Paula Bach neste dossiê, a ameaça da robotização mostra-se exagerada à luz das tendências atuais de acumulação de capital. Michel Husson expõe conclusões semelhantes em O grande “bluff” da robotização. Por outro lado, a crise mundial desencadeada pela queda do Lehman Brothers, que teve seus efeitos mais duradouros nas economias mais ricas da Europa e dos EUA, complicou ainda mais o panorama do emprego. Mesmo nos EUA, o país capitalista onde o emprego mais se recuperou mais desde a quebra de 2008, os empregos criados são principalmente nos setores de serviços e de comércio, mal remunerados.
Nesse contexto, colocar em discussão a redução da jornada de trabalho para 6 horas pareceria mais que razoável. O volume de trabalho humano a realizar diminui, tanto por fatores estruturais de longo prazo – a crescente automação dos processos produtivos faz com que se possa produzir o mesmo com menos tempo de trabalho – como por razões mais conjunturais (o fraco crescimento que parece ter chegado para ficar nas economias mais ricas). Por que não repartir o trabalho social por todas as mãos disponíveis?
TEXTO-MEIO
Na contramão do “fim do trabalho”
Um projeto como este não é do agrado do exército de especialistas advogados da “modernização” das relações de trabalho para favorecer os lucros empresariais. Sua rejeição é lógica: a questão do tempo de trabalho na sociedade capitalista não é algo que possa ser vista de forma ligeira. Por mais empenho que a economia mainstream tenha colocado nos últimos 150 anos para refutar Karl Marx e economistas clássicos como David Ricardo e Adam Smith, que reconheciam no trabalho a única fonte de valor – e portanto de lucro – na hora da verdade os donos dos meios de produção e seus gerentes sabem que cada segundo conta. Obter mais trabalho pelo salário que se paga é uma das chaves para elevar a taxa de rentabilidade.
Não surpreende portanto que, apesar das possibilidades técnicas apresentadas pelo aumento da produtividade, trabalhe-se tanto, no século XXI – ou mais – que no século XX. Por exemplo, nos EUA a produtividade duplicou entre 1979 e 2016, segundo o Escritório de Estatísticas de Trabalho (e triplicou desde 1957). No entanto, se no começo deste período as horas semanais trabalhadas na ocupação principal nos EUA eram de 37,8, em 2016 foram de 38,6. Trabalha-se mais, e não menos, que há 40 anos.
A situação não é muito diferente em outros países. Na França, que em 2000 introduziu a semana de 35 horas de trabalho, estas já quase não se aplicam. O ataque começou cedo, em 2003, com a lei Fillon (elaborada pelo então ministro François Fillon, candidato da direita nas recentes eleições presidenciais), que ampliou as horas extras possíveis de 130 a 200 no ano, e manteve a possibilidade de que as empresas imponham horas extras. Em 2015-2016 a lei Macron (candidato “independente” eleito presidente nestas eleições) estabeleceu a obrigação de trabalhar domingo no comércio, igualou o trabalho noturno com o trabalho feito à tarde e estendeu o tempo da jornada de trabalho para 12 horas diárias e 60 semanais. A decisão posterior do Senado, de reintroduzir as 39 horas, no lugar de 35, foi mais um passo no caminho de eliminar todas as barreiras legais à liberdade dos empresários para explorar o trabalho. Segundo o Eurostat, na França trabalha-se 40,5 horas por semana. O hoje abatido ex-candidato Fillon quer mudar para 39 horas semanais, mas pagar somente 37, “para ganhar competitividade”.
Na Alemanha, apelando à chantagem da deslocalização do trabalho para o Leste, a Siemens impôs em abril de 2004 aos trabalhadores da fábrica em Bocholt um acordo considerado “uma ruptura de época na história econômica da República Federal”: a volta de 35 para 40 horas sem nenhum tipo de aumento dos salários. No mesmo ano, a Opel obrigou os trabalhadores e o sindicato a concordar com uma semana de trabalho de 47 horas em troca de uma promessa – descumprida – de não despedir. As estatísticas falam por si mesmas: na Alemanha, a proporção de trabalhadores do sexo masculino que trabalham entre 35 e 39 horas caiu de 55% em 1995 para 24,5% em 2015; a proporção dos que trabalham 40 horas ou mais aumentou no mesmo período de 41% a 64%. Considerando-se o total de trabalhadores, homens e mulheres, a primeira categoria caiu de 45% para 20,8%, enquanto o segundo aumentou de 32, 7% para 46%.
Mudar… para pior
Sem dúvida, as relações de trabalho atuais não se ajustam às necessidades das empresas que apontam para uma maior “flexibilidade”, sempre entendida como menos direitos para os trabalhadores e menos obrigações para os empregadores. Hoje, uma das principais contestações à tradicional jornada de 8 horas vem da parte das próprias empresas. E não precisamente porque busquem liberar os assalariados da pesada carga do trabalho.
Além disso, a própria relação salarial está sendo reformulada. Corporações como Uber constróem grandes redes contando com uma folha de pagamento mínima, enquanto o serviço que define a empresa é realizado por trabalhadores “independentes”. Isso, que vem sendo chamado de “economia gig”, vem acompanhado de novas técnicas de persuasão ou coerção para arrancar mais trabalho desses trabalhadores independentes. “Mostramos aos motoristas áreas de alta demanda ou os incentivamos para que dirijam mais”, admite um porta-voz do Uber [1]. No caso da Amazon, uma investigação da BBC mostrou que os motoristas encarregados de distribuir seus produtos na Grã Bretanha eram forçados a trabalhar 11 horas ou mais, e inclusive fazer suas necessidades dentro de seus veículos para poder cumprir as exigentes metas de entregas da empresa, que podiam chegar até a 200 pacotes diários. Mesmo assim, apesar disso, em muitos casos, o rendimento mal equivalia a um salário mínimo, já que era preciso arcar com os custos do aluguel do veículo (ou de sua manutenção, se próprio) e seguro [2]. Sim, é a mesma Amazon que inaugurou um local sem caixas em Seattle, mostrando aquí uma face bem menos amável e de vanguarda: o da economia “gig” como mais um salto na extensão do “precariado”. Que têm em comum uma caso e outro, e os de muitíssimas empresas semelhantes em todo o mundo? O fato de seus “colaboradores” terem contratos independentes, que carecem da maioria das proteções associadas com o emprego.
Há também outras propostas de mudanças na jornada. Carlos Slim, o magnata mexicano das telecomunicações, colocou que seu método para “repartir” o trabalho: jornadas de 3 dias por semana… 11 hors por dia! Em troca, “as pessoas se aposentadoriam aos 75”. Trabalhar menos dias, ainda que em jornadas intermináveis… e por muito mais tempo de vida. Uma proposta que, ao menos neste último aspecto, pode ser do agrado de governos como o de Mauricio Macri, na Argentina, ou Michel Temer, no Brasil, empenhados em aumentar a idade da aposentadoria, estendendo-a até 65 anos para homens e mulheres.
Sejam felizes e produzam mais
Se fosse necessários ainda mais indicadores de que algo está ocorrendo – e algo tem de mudar – com a jornada de trabalho, há os múltiplos casos de empresas que começaram a cortar a jornada, apesar de que cada minuto de trabalho que sacrificam é um “custo de oportunidade” para os empresários. Fazem-no, obviamente, não por qualquer vocação caritativa mas contando em conseguir, em troca, maior produtividade durante o tempo que seus empregados estão no trabalho. A Suécia colocou em prova uma iniciativa no setor público da assistência aos idosos, onde se reduziu a jornada para 30 horas semanais (6 horas diárias). Segundo a avaliação realizada, as enfermeiras declararam-se mais felizes, melhor remuneradas (é como se se pagasse 33 % a mais a hora de trabalho) e sua produtividade aumentou. Ainda que seu trabalho tenha custado mais caro — e isso acabou determinando no início deste ano o abandono desta experiência — o cuidado dos pacientes melhorou, já que as enfermeiras se cansavam menos.
A possibilidade de ganhar em produtividade é o que impulsiona muitas empresas a também experimentar com a redução da jornada de trabalho, embora se trate de experimentos limitados. A Toyota (em sua filial sueca) é uma das empresa que o fez, assim como várias do setor de tecnologia. Na maioria dos casos, seguindo a tendência que analisamos acima, a outra face da redução do tempo passado no trabalho é o aproveitamento da maior conectividade para fazer com que os empregados continuem realizando tarefas fora do horário de trabalho.
Embora isoladas e sem marcar nenhuma tendência geral, como vimos, essas experiências desmentem a ideia de que seja impossível avançar com direção à redução da jornada de trabalho. Mostram também que, se depender do capital, isso só poderá ocorrer em troca de maior produtividade (intensidade do trabalho) e sem permitir – ao menos não inteiramente – que os desempregados possam voltar a obter um trabalho, já que se tentará compensar qualquer redução da jornada com maior produtividade. Fazê-lo de outro modo — ou seja, reduzir a jornada assegurando que todos possam trabalhar e receber um salário digno — implica afetar os lucros,para assegurar o emprego.
Direito contra direito
Em 1930, um ano após o início da Grande Depressão, o lorde John Maynard Keynes publicou As perspectivas econômicas para nossos netos, um texto em que, apesar do presente penoso, mostrava-se confiante sobre as perspectivas futuras, que ofereceriam desenvolvimento da produtividade. “Poderia predizer que o nível de vida nos países avançados será, dentro de cem anos, de quatro a oito vezes mais alto do que é hoje”. Considerando essa perspectiva, confiava em que “turnos de três horas ou semanas de trabalho de quinze horas” seriam mais que suficientes para satisfazer as necessidades econômicas. Como já vimos, o aumento da produtividade deu razão a Keynes na maior parte dos países ricos, mas não ocorreu o mesmo com as horas trabalhadas.
As possibilidades criadas pelo desenvolvimento da técnica, nas mãos do capital, convertem-se num pesadelo para os trabalhadores. O auge das comunicações e o barateamento dos custos de transporte das últimas décadas não reduziram as horas de trabalho nos países industrializados — apenas diminuiram a quantiade de trabalhadores ocupados. Em parte, isso se deu devido à automação, e em parte porque os empregos foram relocalizados nos países onde a força de trabalho é mais barata e onde também se pode fazer com que se trabalhe mais horas. A degradação subsequente das condições de emprego operou ainda mais em favor do capital, que pode impor em todo o mundo uma “arbitragem trabalhista”, fazendo com que os trabalhadores dos diferentes países compitam entre si, cedendo em condições de trabalho e remuneração para assegurar o emprego, numa verdadeira “corrida em direção ao abismo” [3].
As forças produtivas hoje disponíveis permitiriam amplamente oferecer a toda a humanidade o acesso aos bens e serviços fundamentais, ao mesmo tempo que reduzir para milhares de milhões de homens e mulheres a carga de trabalho. Mas isso se choca com as relações de produção capitalistas, que dependem da exploração da força de trabalho, arrancando dela o sobretrabalho/ trabalho excedente para assegurar o lucro, que motor desta sociedade.
Projetar a redução da jornada de trabalho mediante a partilha das horas de trabalho entre todas as mãos disponíveis, sem afetar o salário (garantido para todos os ocupados uma renda digna), significa colocar na mesa que o aumento ou “flexibilização” da jornada não são as únicas alternativas. Elas, além disso, nunca serviram para que o emprego cresça significativamente (e em muitos casos, nem sequer para que deixe de cair); somente conseguem degradar a qualidade dos empregos existentes. Tampouco passa, como foi proposto em diversas modalidades, pela ilusão de que o Estado assegure uma renda universal tanto para os que estão empregados como para os que não estão. Trata-se de colocar em questão como se produz e como se repartem os frutos dessa produção.
Reduzir esta jornada significaria, além disso, desnaturalizar o “exército industrial de reserva”, termo com que Marx caracteriza o papel desempenhado pela força de trabalho desempregada ou semiempregada. Sua existência é o que permite que os mecanismos de mercado operem no que diz respeito aos salários, de forma favorável ao capital, limitando o crescimento dos salários nos momentos de auge e facilitando a queda dos mesmos em tempos de crise.
(…)
Não se trata aqui do choque “normal” de interesses materiais opostos. Trata-se de preservar o proletariado da decadência, da desmoralização e da ruína. Trata-se da vida e da morte da classe criadora e, por isso mesmo, do futuro da humanidade. Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem dos males engendrados por ele mesmo, só lhe resta morrer. A “possibilidade” ou a “impossibilidade” de realizar as reivindicações é, neste caso, uma questão de relação de forças que só pode ser solucionada pela luta. Sobre a base desta luta, quaisquer que sejam os êxitos práticos imediatos, os trabalhadores compreenderão, na melhor forma, a necessidade de acabar com a escravidão capitalista.
A proposta de trabalhar menos horas para que todos trabalhem, sem afetar os salários, coloca em questão a naturalização do “direito” do empresariado de dispor da força de trabalho como bem entende, em função de ampliar seus lucros, enquanto esse privilégio promove uma progressiva deterioração para uma faixa de assalariados. Trata-se de um projeto que só poderia realizar-se integralmente por um governo de trabalhadores que se proponha superar – em nível internacional – esse sistema baseado na exploração social. Se o capitalismo criou esta possibilidade – a de reduzir o tempo necessário para assegurar a reprodução dos bens socialmente necessários – mas se isso só pode ser feito questionando os mecanismo de exploração que sustentam este sistema, “só lhe resta morrer”, para abrir caminho para uma organização da produção articulada não em função do lucro privado, mas das necessidades sociais.