terça-feira, 17 de abril de 2018

Facebook: adeus à ingenuidade

Facebook: adeus à ingenuidade

Agora está claro que a rede pratica, permanentemente, vigilância maciça; e que a psicometria eleitoral afronta a democracia. Mas como enfrentar as ameaças?
Por Rafael Zanatta
O escândalo envolvendo a maior rede social do mundo e a mais polêmica consultoria política do ocidente virou a mesa do jogo sobre proteção de dados pessoais e regulação das grandes empresas de tecnologia.
Trata-se de caso tão impactante, e de repercussões midiáticas e políticas tão intensas, que não há alinda elementos para fazer uma avaliação completa sobre todos os desdobramentos possíveis. Como afirmou Giovanni Buttarelli, supervisor de proteção de dados pessoais da União Europeia, trata-se “do escândalo do século”, sendo que nós “só enxergamos a ponta do iceberg”.
The Guardian tem reportado intensivamente sobre o caso. Vale lembrar que eles foram os responsáveis por “soltar a bomba” do caso Facebook-Cambridge Analytica em um brilhante trabalho de jornalismo investigativo – um trabalho à altura das históricas reportagens sobre Edward Snowden e a NSA em 2013. Sem o trabalho jornalístico liderado pelo jornal e as confissões de Christopher Wylie, não teríamos clara consciência sobre a coleta indevida de dados pessoais e as táticas sujas de manipulação eleitoral realizadas pela Cambridge Analytica.
Com relação às consequências, podemos elencar cinco aprendizados coletivos nesses últimos doze dias, após a tempestade inicial que o caso provocou.
Primeiro: o abalo à confiança do Facebook resultará em perdas de receita por investidores e anunciantes. As ações do Facebook já diminuíram 18%, em retração de 80 bilhões do seu valor de mercado. Nada indica que a recuperação será rápida. Além disso, há uma movimentação de saída de grandes anunciantes, como Unilever.
TEXTO-MEIO
Segundo: a confiança do usuário não será a mesma. Por mais que o Facebook insista em “criar novas ferramentas” e tornar o controle dos dados pessoais mais acessível para as pessoas, há um sentimento generalizado de que a rede só opera com base na vigilância maciça. Além do movimento #DeleteFacebook – considerado ingênuo, por alguns –, há artistas como Jeremy Darrel espalhando cartazes sobre “como sair da rede”.
Terceiro: o problema está na estrutura de compartilhamento de dados e não na Cambridge Analytica. O anúncio da empresa de Mark Zuckerberg de que o Facebook está rompendo contrato com o grupo Experian – um dos maiores birôs de crédito do mundo, que controla a Serasa no Brasil – mostra que o problema é muito maior. O “caso Cambridge Analytica” abriu a porteira para uma discussão sobre o modo como o Facebook permite o acesso aos dados de seus usuários e o descontrole a que isso chegou.
Quarto: as atuais regras do jogo não dão conta do recado. Pesquisadores importantes como Nicholas Economides e Siva Vaidhyanathan já alertaram que não é possível confiar no Facebook para se autorregular (essa mesma opinião é mantida por especialistas no Brasil). É preciso repensar a regulação aplicável a essas empresas. Começar pela proteção de dados pessoais e avançar para a regulação concorrencial. Quem sabe, forçar WhassApp e Instagram a serem desmembrados do Facebook pelo direito antitruste.
Quinto aprendizado: é preciso limitar a modulação eleitoral operada pela coleta ilegal de dados. Esse alerta já havia sido feito por Tim Berners Lee em 2017: o modelo de negócios da Cambridge Analytica representa o fim da democracia. É inadmissível que nossas opiniões sejam manipuladas pela coleta de dados que desconhecemos, brincando com nossos sentimentos e vontades políticas. No Brasil, o Ministério Público abriu inquérito civil para averiguar quem havia contratado os serviços da Cambridge Analytica. A investigação lança luz para um problema maior: o modo como consultorias políticas contratam “data brokers” para operar modelos de psicometria.
Há, ainda, muito o que ocorrer. Estamos no meio de uma movimentação tectônica na interface entre direito, tecnologia e política.

domingo, 15 de abril de 2018

Carta de Berlim: A hora e a vez de Luiz Inácio

O Brasil é um país que tem tradição de tratar muito mal seus fundadores e refundadores. Listo quatro deles e um projeto de refundador, sem que isto signifique necessariamente concordância com suas ideias e desempenho, no todo ou em parte, mas sim avaliação do seu papel histórico

 
12/04/2018 08:10
 
 
Flávio Aguiar
O Brasil é um país que tem tradição de tratar muito mal seus fundadores e refundadores. Listo quatro deles e um projeto de refundador, sem que isto signifique necessariamente concordância com suas ideias e desempenho, no todo ou em parte, mas sim avaliação do seu papel histórico.
Ao contrário do que quer um pensamento neo-conservador, quem fundou o Brasil não foi D. João VI e sua temerosa e temerária transferencia da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro. D. João VI fundou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Quem fundou mesmo o Império do Brasil, bem ou mal, foi D. Pedro I.
Terminou expulso do país, comprimido entre a insatisfação liberal, a desconfiança dos latifundiários que temiam que ele se voltasse contra a instituição da escravidão devido aos acordos internacionais com os ingleses e, para variar, a falta de apoio da Tropa, como se denominavam então os militares. Deixou de ser Pedro I, um déspota no Brasil, e foi tornar-se um campeão da liberdade em Portugal, com o nome de D. Pedro IV. 
Quem consolidou mesmo o Brasil interna e externamente foi D. Pedro II, que tergiversou com a escravidão até que sua filha católica ao ponto de ser carola, a Princesa Isabel, terminou com uma penada o que ele não terminara durante os 48 anos de seu reinado até então. Cristã ferrenha que era, não reconheceu o direito dos proprietários de escravos à pretendida indenização por suas “perdas”, a monarquia perdeu o apoio dos latifundiários. Perdendo também o apoio dos militares (de novo!), foi deposto e seguiu para o exílio no ano seguinte. Morto dois anos depois, em Paris, foi saudado pelo New York Times como “o mais republicano dos monarcas mundiais”.
Vargas foi o seguinte, o fundador do Brasil “moderno” e da Consolidação das Leis do Trabalho, coisa pela qual as esquerdas não o perdoaram por muito tempo e a direita até hoje e para todo o sempre. Ungido e deposto por duas vezes, na última, em 1954, deixou a vida para entrar na história quando, premido por uma campanha da direita que até hoje fede na história do Brasil, perdeu (de novo!) a sustentação militar.
Há muita festa em torno de Juscelino, que talvez mereça o título de presidente mais simpático da nossa História, mas o projeto de refundador seguinte foi mesmo João Goulart, com suas reformas de base que não foram implementadas, embora hoje se saiba que tinham o apoio da maioria da população. Deposto diretamente pelos militares, foi o único presidente da República até hoje a morrer no exílio.
É verdade que o penúltimo ditador do regime civil e militar de 64, Ernesto Geisel, consolidou o abandono da política de apoio ao colonialismo na África e ensaiou uma política externa independente (como fizera antes, canhestramente, Jânio Quadros, e também a seu modo, Goulart). Mas o seguinte refundador do Brasil foi mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que mostrou-nos e ao mundo, durante seus dois mandatos, o Brasil que poderia e pode existir, fora dos grilhões da Casa Grande e da dependência doentia e crônica em relação aos EUA. Para resumir seus feitos, foi o líder de uma ascensão social, em todos os sentidos, sem precedentes. Paga hoje o preço por isto, numa cela solitária em Curitiba, mas povoada por milhões e milhões de corações brasileiros. Qual a força do legado de seus dois passados mandatos e qual seu novo destino político, a História dirá e quem viver, verá. Os que hoje estão mortos ou se afogando nas dobras do fascismo que promovem ou aplaudem não verão nada, porque jamais darão o braço a torcer. Estivessem no Inferno de Dante, estariam com as pálpebras e os lábios costurados com linhas de couro cru e os ouvidos tapados com cera incandescente.
Tenho lido algumas comparações entre Lula e Getúlio. A mais ousada de todas diz que ao contrário do último, Lula não precisou deixar a vida para entrar na História. A comparação procede e não procede. Procede, porque Lula se agigantou de tal modo que chega a fazer sombra para a figura também gigante de Vargas. Não procede por duas razões. A primeira é que Lula ainda está na História, no seu bojo, na cela mas também, de certo modo, na nau capitânia, como a figura política mais importante do país, em meio à tempestade que se abate. A segunda é que, se Lula tem a idade com que Vargas deu seu passo definitivo, 72 anos, há muita diferença entre tê-la em 1954 e hoje em dia. Vargas era um ancião deprimido e até algo entediado num país cuja expectativa média de vida era menor do que 48 anos, embora ela se distribuísse desigualmente por classe e região. Em 2018, embora ela continue mal distribuída, a expectativa média de vida é de mais de 73 anos. Além disto Lula pode estar indignado, e com justiça (a que lhe falta graças a seus algozes), mas está longe de estar entediado ou envelhecido espiritualmente. Ao contrário, está em pleno vigor de seu fôlego político, mais combatente e combativo do que nunca, para desespero dos fascistas de plantão.
Também tenho lido diferentes avaliações de seu gesto de enfrentar desde dentro sua sentença à prisão. Num extremo estão os que o veem seu gesto com desespero e desânimo, achando que ele deveria ter escolhido o caminho do asilo em alguma embaixada e do exílio. Na outra ponta os que veem em sua escolha um gesto de extraordinária coragem pessoal e política, inaugurando uma nova fase de combate a longo prazo na História do Brasil, seja qual for seu destino imediato e o das (incertas) eleições de 2018.
Em meio aos extremos, campeia toda a sorte de avaliaçõs, todas elas manifestas com veemência e sinceridade - pondo-se à margem aqui, embora também possam eventualmente ser sinceras - aquelas emanadas da degradação moral a que chegaram os fascistas ativos ou passivos no país, cujo exemplo maior foi o das frases sinistras emanadas de alguma torre de controle aéreo.
No momento, vejo as coisas assim: 
1- Lula tornou-se uma pulga na camisola, uma batata quente nas mãos, um ferro em brasa atravessado na garganta de seus algozes, togados ou não. Lula está jogando alto no tabuleiro. De há muito tornou-se uma figura de grande projeção internacional positiva, o que lhe dá uma envergadura que seus adversários, de toga, farda, paletó ou coluna na mídia, não têm. O que aumenta o poder do verme da inveja que visivelmente lhes rói as entranhas. 
2- Na prisão, se morre (toc, toc, toc na madeira, vade retro) na prisão ou em decorrência dela, vai para o céu, vira mártir, e seus algozes descem aos infernos de onde não sairão nunca mais, apesar da momentânea e estulta alegria de alguns deles. Vira um espectro no panteão brasileiro, como Vargas. E como foi D. Pedro II, depois de morto, a tal ponto que a República Velha só revogou o banimento da família imperial depois da morte da Princesa Isabel, ocorrida em 1921. 
3- Se vive, continua a principal figura da política brasileira, engrandecido aos olhos de seus correligionários e admiradores e é mesmo capaz de comandar as eleições, se elas se realizarem, assim como Getúlio o fez em 1945, desde seu “exílio” em São Borja.
4- Quanto mais viver, mais e mais seus algozes irão perdendo a falsa aureola de “combatentes da corrupção”, na qual ainda há quem acredite, e mais e mais assumirão a condição de carrascos de um homem corajoso que, em muitos casos, é bom não esquecer, e isto pesa no Brasil, tem a idade para ser-lhes o pai.
5- O “governo” brasileiro e as instituições jurídicas brasileiras vão se desmoralizando cada vez mais. Cada nova cambalhota que Rosa Weber dê na sua argumentação no STF, cada nova determinação absolutista da pauta que Carmem Lúcia faça, cada nova proibição de visita que Moro imponha a Lula (para dar apenas alguns exemplos) farão a imagem do edifício jurídico brasileiro ruir mais um pouco. Internacionalmente a mídia mainstream do Brasil já está bastante desmoralizada.
6- A situação internacional de Lula evolui em seu favor, ainda que lenta e gradualmente, mas com segurança. Atualmente o estado da arte é o seguinte: as esquerdas internacionais finalmente despertaram integralmente para a gravidade da sua situação e do estado exangue da democracia no Brasil. Podemos na Espanha, Melénchon na França, Mark Weisbrot nos EUA, entre cada vez mais outros, vieram a público vigorosamente em defesa de Lula. Outros já vinham se manifestando, como Noam Chomsky, a Linke na Alemanha, e blocos de ou à esquerda em diferentes países. Parlamentares ou grupos dos partidos mais ao centro também vêm se manifestando. Resta saber quando isto chegará às decisões institucionais, como no caso do Labour britânico, do SPD alemão (e dos Verdes), do PSOE espanhol, do PS francês e assim por diante. Dos de direita não há muito o que esperar, pelo menos de momento.
7- A campanha para atribuir-lhe o prêmio Nobel da Paz, liderada por Adolfo Perez Esquivel, chegou a mais de 200 mil assinaturas e vai progredir. É verdade que o Brasil é especialista em sabotar candidatos seus ao Nobel, como aconteceu no passado com Carlos Chagas na Medicina e D. Helder Câmara na Paz. Mas assim mesmo esta candidatura também vai pressionar as combalidas (em termos de prestígio) instituições brasileiras.
8- Lula preso põe a faca no pescoço da proteção institucional que vem sendo dispensada a Aécio, Serra, Alckmim, o próprio Temer, etc. Marina perdeu mais uma oportunidade de praticar o silêncio obsequioso. Alckmim de sair do seu, em defesa da democracia. FHC não sabe para que lado vire a sua biruta.
9- A prisão de Lula foi também o Rubicão dos golpistas de 2016, tanto os ativos quanto os passivos. Eles fecharam o caminho de volta. Para onde irão? Bater às portas da caserna? Fechar o caminho das eleições de 2018? Enviar Lula para Fernando de Noronha? Todas estas alternativas e ainda outras piores? Seja qual for seu caminho, ele é cada vez mais tormentoso e perigoso. E aberto à chusma da tigrada clandestina, como atesta a tragédia de Marielle.
10- Passamos em revista as alternativas e considerações com Lula preso. Solto, em qualquer circunstância, em qualquer momento, de qualquer modo, ele desmoraliza de vez seus algozes.
Não dá para saber o que acontecerá a seguir. Lula, com seu gesto desabrido de enfrentar a prisão, conseguiu o milagre de reunir as esquerdas debaixo da mesma bandeira, com Boulos e Manuela como exemplos, que têm apelo maior junto à juventude. Conseguiu revigorar o PT, que não tem mais este apelo, mas pode recupera-lo. Resta o enigma Ciro Gomes que, dos candidatos alternativos aos da seara golpista e assemelhados, ainda é o que tem mais chance, de momento, de chegar a um segundo turno.
Tudo também vai depender do que Lula fizer e disser, mesmo que permaneça submerso na solitária de Curitiba.



terça-feira, 27 de março de 2018

O mito da caverna de Platão se aplica à hipnose midiática atual e a sua influência manipuladora nas massas carentes de uma temática própria.

O mito da caverna, de Platão

O mito da caverna conta que alguns prisioneiros vivem, desde o nascimento, acorrentados numa caverna, passando todo o tempo a olhar para a parede do fundo da caverna, que é iluminada pela luz duma fogueira. Nesta parede aparecem as sombras de estátuas de pessoas, de animais, de plantas e de objetos, mostrando cenas e situações do dia-a-dia. Os prisioneiros dão nomes a essas sombras e ficam analisando e julgando as situações.

Se um desses prisioneiros se desvencilhasse das correntes para explorar a caverna por dentro e o mundo por fora, conheceria a realidade e perceberia que passou a vida analisando e julgando apenas sombras, imagens projetadas por estátuas. Quando saísse da caverna e entrasse em contato com o mundo real, se encantaria com os seres de verdade, com a natureza real. Ao voltar para a caverna, ansioso pra passar o seu conhecimento adquirido fora da caverna para os outros prisioneiros, seria ridicularizado. Os prisioneiros que não conheciam a realidade não acreditariam no que ele viu e sentiu, pois só eram capazes de acreditar na realidade que enxergavam na parede iluminada da caverna, só acreditavam nas sombras. Iriam chamá-lo de louco, iriam ameaçá-lo de morte se ele não parasse de falar daquelas ideias que pareciam tão absurdas.

A maior parte dos seres é como os prisioneiros da caverna. Tem uma visão completamente distorcida da realidade. Como os prisioneiros da caverna, eles só enxergam e só acreditam nas imagens que a grande mídia lhes oferece, aceitam a palavra de revistinhas comprometidas que lhes falam sobre “os últimos avanços da ciência”, sem levar em conta que tecnologia de entretenimento e pesquisas com ratos de laboratório estão longe, muito longe de resumir o que seja Ciência. Aceitam de boca aberta conceitos baratos de pseudointelectuais travestidos de “jornalistas” ou apresentadores de programas de massa. Acatam informações que julgam importantes e que no entanto não afetam em nada suas individualidades, não alteram em nada suas existências, não atingem a sua esquecida consciência. O mundo que a grande mídia vende não representa a realidade. A única maneira de conhecer a realidade é se libertando da influência da caverna midiática de entretenimento barato e cultura de supermercado.


A grande mídia e você

Para uma criança no útero materno, a barriga da sua mãe é a realidade. Calor, segurança, conforto. Não imagina que terá que sair. Não acreditaria que existe algo além do útero, algo mais que o interior da barriga da mãe. Quando se aproxima a hora do nascimento, de vir à luz, de sair para o mundo, estranha, fica confusa, não gostaria de interromper aquilo que estava indo tão bem. Tão logo é trazida para fora, começa a perceber a claridade, as cores, outros sons, e logo uma infinidade de coisas e formas desconhecidas e inimagináveis se lhe apresentam aos olhos.  Carregamos a tendência inconsciente de sermos carregados e protegidos por alguém, o que nos impede de questionarmos nossa dependência e crescermos como adultos libertos dos Personal Training midiáticos, que dizem a você o que você deve achar e defender.

Problemas são oportunidades de crescimento

Num regime democrático, os problemas não são para serem desconsiderados ou substituídos, existem para serem aperfeiçoados, ampliando o benefício de forma mais homogênica possível para as diversas classes sociais existententes. Essa vivência gera uma experiência, que como consequência, geram um conhecimento de causa. Ao possuírmos esse conhecimento criamos uma temática própria que contraria aqueles que são os pré formadores de opinião, comprometidos com as versões oficiais.

“O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão da verdade” – Stephen William Hagwkin


quarta-feira, 14 de março de 2018

THE ECONOMIST América Latina precisa de uma atualização em infraestrutura

THE ECONOMIST

América Latina precisa de uma atualização em infraestrutura

Os governos arriscam perder uma oportunidade de ouro para melhorar os
sistemas de transporte, saneamento e energia da região

Edição impressa | As Americas

8 de março de 2018| BOGOTÁ, BUENOS AIRES, LIMA, CIDADE DO MÉXICO E SANTIAGO

A ferrovia Transnordestina deve transportar grãos de soja, minério de ferro
e outras commodities de fazendas e minas no nordeste brasileiro para portos
no Ceará e Pernambuco, e depois para mercados na China. O Brasil gastou mais
de 6 bilhões de reais (US $ 1,8 bilhão) no projeto desde que o trabalho
começou há uma década. Mas as vacas ainda continuam ao longo de suas trilhas
inacabadas. Em Lima e Bogotá, os trabalhadores podem gastar metade do tempo
viajando como no escritório. Em Brito, uma aldeia na costa do Pacífico da
Nicarágua, não há estradas pavimentadas, eletricidade ou água corrente. "É
como se ainda estivéssemos vivendo na era de Colombo", lamenta um pescador.

A América Latina é prejudicada pela infraestrutura inadequada. Mais de 60%
das estradas da região não são pavimentadas, contra 46% nas economias
emergentes da Ásia e 17% na Europa. Dois terços dos esgotos não são
tratados. A falta de saneamento e de água limpa são a segunda maior causa de
mortes de crianças menores de cinco anos, de acordo com a Organização
Mundial da Saúde. As perdas de eletricidade das redes de transmissão e
distribuição estão entre as mais altas do mundo. A América Latina gasta uma
parcela menor do PIB em infraestrutura do que qualquer outra região, exceto
a África subsaariana (ver gráfico).

Há alguns pontos brilhantes. As estradas do Chile são melhores do que as da
Bélgica, Nova Zelândia e China, de acordo com o Fórum Econômico Mundial. A
energia elétrica e as telecomunicações do Uruguai superam os Estados Unidos
e o Canadá. Mas, em geral, a qualidade da infraestrutura é mais que um
impulso para as economias latino-americanas. Se a infraestrutura dos países
de renda média da região fosse tão boa quanto a Turquia e a Bulgária, suas
taxas de crescimento seriam duas pontos percentuais maiores do que são,
segundo McKinsey, uma consultoria.

Recentemente, uma janela de oportunidade para atualizá-lo abriu. As taxas de
juros globais têm sido invulgarmente baixas, o que torna mais barato para
arrecadar dinheiro para reparar infraestrutura antiga ou iniciar novos
projetos. Presidentes amigáveis ao mercado tomaram posse em vários países,
incluindo Brasil, Argentina e Peru. Eles tornaram a melhoria da
infraestrutura uma prioridade. Pedro Pablo Kuczynski, presidente do Peru
desde julho de 2016, prometeu transformar o país em um "campo de
construção". Mauricio Macri, eleito presidente da Argentina em 2015, lançou
um plano de infraestrutura chamado Plano Belgrano para o norte mal conectado
do país. Seu chefe de gabinete, Marcos Peña, o chama de "o mais ambicioso da
história da Argentina". Na Colômbia, a promessa de construir infra-estrutura
rural faz parte do acordo de paz entre o governo e as FARC.

Uma janela se fecha

Mas os governos da região não aproveitaram a oportunidade. Um grande revés
foi a investigação Lava Jato (Car Wash), que começou como um caso de lavagem
de dinheiro no Brasil e engoliu os governos de uma dúzia de países da
América Latina. A Odebrecht, uma empresa brasileira que construiu estradas,
barragens, usinas e instalações sanitárias em toda a região, admitiu pagar
US$ 788 milhões em subornos. Seu dinheiro financiou campanhas políticas,
inclusive as do presidente colombiano, Juan Manuel Santos e Juan Carlos
Varela, agora presidente do Panamá. O Sr. Kuczynski admitiu que as empresas
ligadas a ele tomaram pagamentos (legais) da Odebrecht.

O escândalo deixou um rastro de projetos inacabados, políticos e burocratas
assustados e banqueiros cautelosos. Um contrato de US$ 7 bilhões com a
Odebrecht para construir um gasoduto para o transporte de gás natural da
bacia amazônica nos Andes para a costa do Peru foi anulado e o trabalho foi
suspenso. A Ruta del Sol 2, um trecho de 500 km (300 milhas) de rodovia para
ajudar a conectar Bogotá à costa do Caribe da Colômbia, está paralisado. O
governo do Panamá cancelou um contrato com a Odebrecht para um projeto
hidrelétrico de US$ 1 bilhão. O maior esquema do México, um novo aeroporto
perto da capital, tem sido atormentado por alegações de corrupção. Andrés
Manuel López Obrador, o corredor na eleição presidencial do México, agendada
para 1º de julho, ameaçou dinamitá-lo.

Os governos também se preocupam que o aumento das taxas de juros aumentará o
custo dos empréstimos para construir infraestrutura e que uma redução no
imposto corporativo nos Estados Unidos, assinada em lei por Donald Trump em
dezembro, tirará o capital da América Latina. Eles estão correndo para
recuperar seus planos de infraestrutura no caminho certo antes da
oportunidade passar.

A maior necessidade, dizem os economistas, é para estradas, ferrovias,
portos e transportes urbanos para acelerar as exportações e as viagens dos
trabalhadores. Para transferir o açúcar de Jujuy, no norte da Argentina,
para Buenos Aires, por via férrea, uma viagem de 1.675 km, leva 22 dias,
desde que seja necessário para embarcar para Hamburgo. A carga pode levar
dois dias para viajar de Bogotá a Santa Marta na costa do Caribe; então pode
esperar tanto tempo para passar pela alfândega.

Uma grande dificuldade em alargar tais estrangulamentos é por causa dos
pesados procedimentos, obstáculos legais e burocracia. Um novo aeroporto
perto de Cusco, o destino turístico mais popular de Peru, foi proposto na
década de 1970; um contrato para construir foi assinado em 2014, mas foi
suspenso no ano passado. Os projetos frequentemente interferem em terras
indígenas, o que pode retardar ainda mais as coisas. Conflitos em projetos
causam atrasos médios de cinco anos, de acordo com um estudo do Banco
Interamericano de Desenvolvimento.

Apesar das baixas taxas de juros, os governos não podem pedir muito para
pagar as infraestruturas. A dívida não financeira do setor público passou de
30,6% do PIB em 2008, em média, na América Latina para 40,4% em 2016. No
Brasil, atingiu um recorde de 74,4% no ano passado. Brasil, Chile, Colômbia
e Peru possuem regras que limitam a despesa pública ou o empréstimo.

Privados, por favor

Portanto, os governos devem formar parcerias com empresas privadas, diz José
Fernández, ex-secretário assistente do Departamento de Estado dos Estados
Unidos. Não são panacéia. Parcerias público-privadas (PPPs) estão abertas a
abusos por empresas de construção como a Odebrecht, que fazem baixa oferta
para garantir contratos e, em seguida, renegociá-los para aumentar o custo,
muitas vezes subornando um político ou dois. Mais de três quartos dos
contratos PPP latino-americanos nos transportes foram renegociados em cerca
de três anos após a assinatura, de acordo com José Luis Guasch, professor de
economia da Universidade da Califórnia.

As PPPs exigem agências competentes e, muitas vezes, garantias
governamentais, bem como sofisticados mercados financeiros domésticos. No
Chile, que possui fortes instituições e mercados financeiros, a maioria das
estradas, portos e aeroportos é operada por empresas privadas. Na maioria
dos países, a participação privada é um complemento, ao invés de um
substituto, de dinheiro público, argumenta o Banco Mundial. A política
volátil da região torna os investidores cautelosos. Michel Temer, presidente
do do Brasil, é perseguido pelo escândalo e não irá participar das eleições
presidenciais de outubro. A eleição do México pode levar o populista López
Obrador ao poder. No Congresso do Peru está ameaçando acusar o Sr.
Kuczynski, que já evitou o impeachment uma vez.

Nem todas as notícias são ruins. Um dos motivos da torção é que a
infraestrutura pode ser menos dispendiosa do que os governos pensam. Com as
políticas convencionais, a América do Sul precisa gastar US$ 23 bilhões a
US$ 24 bilhões por ano para atualizar suas redes elétricas, de acordo com o
Banco Mundial. Mas se a região gerencia melhor a demanda, introduz fontes
renováveis de energia e promove a conservação, pode reduzir esse custo para
US$ 8 bilhões a US$ 9 bilhões. O frete pode ser acelerado e mais barato,
simplificando a burocracia e melhorando a regulamentação, bem como
expandindo as estradas. A indústria de transporte rodoviário da América
Latina é agora 15 vezes mais concentrada do que a dos Estados Unidos, diz o
Banco Mundial. Promover a concorrência reduziria os custos.

Uma segunda fonte de encorajamento é a China. Seus bancos investem mais na
infraestrutura da América Latina do que o Banco Mundial e o BID combinados,
de acordo com David Dollar, da Brookings Institution, um grupo de reflexão
em Washington. No ano passado, as empresas chinesas investiram pelo menos
US$ 21 bilhões no Brasil, inclusive nas usinas e nos portos de energia. A
Bolívia tem uma linha de crédito chinesa de US$ 10 bilhões para gastar em
estradas e hidrelétricas. A China concordou em construir duas usinas de
energia nuclear na Argentina. Mas algumas ideias chinesas, como uma ferrovia
através da Amazônia e um canal através da Nicarágua para rivalizar com o
canal do Panamá, nunca se materializam.

Os países latino-americanos podem aprender com seus erros. Os escândalos
estão mudando a maneira como o negócio está feito. As empresas estão
aumentando radicalmente o número de agentes de conformidade, diz Brian
Winter, vice-presidente de política da Sociedade das Américas e do Conselho
das Américas. Novas leis procuram trazer mais transparência e encontrar um
equilíbrio entre desencorajar a corrupção e o investimento em refrigeração.
A legislação no Peru, por exemplo, isenta de penalidades as empresas que
cooperam com pesquisadores anticorrupção.

Alguns países, incluindo Colômbia e Peru, aprovaram leis que dificultam a
renegociação de PPPs. O plano do Brasil para 34 parcerias em estradas,
portos e outros projetos busca reduzir a burocracia certificando-se de ter
licenças ambientais antes de seus detalhes serem anunciados.

Tais reformas melhoram as chances de os presidente-construtores da América
Latina acabarem por realizar suas ambições. Os reparadores estão no trabalho
na linha ferroviária através do Jujuy. O governo peruano espera encontrar
novos investidores no gasoduto este ano. Com as políticas corretas,
honestamente executadas, o material circulante, e não o gado, poderia algum
dia se deslizar ao longo das trilhas da ferrovia Transnordestina.





terça-feira, 13 de fevereiro de 2018



José Alfredo Bião Oberg
13/02/2018
Estou de volta ao Facebook só através do meu blog, evitando assim que me incluam em coisas em que não participei e considerei. Agradeço desde já a compreensão dos verdadeiros amigos, aqueles com quem sempre tive e mantive afinidades. Estamos juntos aqui e no Mensenger, in box.
Trago esse elucidativo comentário do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, em memória, para ressaltar o que realmente estamos vivenciando sem nos dar conta...
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.
O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.
Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.
Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.
O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.
“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”.
  Zygmunt Bauman