terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Não ficará pedra sobre pedra"...

3/4/2019 11:39


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O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu um processo para apurar a suspeita de fraudes em negócios feitos por uma empresa do ministro da Economia, Paulo Guedes, com fundos de pensão de estatais. O processo tem como base uma representação do Ministério Público Federal (MPF) que apura suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária na captação e aplicação de R$ 1 bilhão de sete fundos de pensão a partir de 2009.



Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a investigação do TCU foi aberta em fevereiro deste ano a partir de uma representação do MPF, que já apurava a suspeita de irregularidades na Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) e na Fundação dos Economiários Federais (Funcef), fundo de pensão dos funcionários da Caixa. Também estão sob suspeita negócios feitos com a Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Postalis (Correios).



De acordo com as investigações, os recursos teriam sido alocados por meio de participações (FIPs) da BR Educacional e Brasil de Governança Corporativa, empresa que pertencia a Guedes até o final do ano passado e que foi criada para atuar como gestora de ativos. Para o MPF, as operações resultaram em ganhos excessivos para Guedes enquanto os fundos de pensão, que arcaram com o aporte financeiro, tiverem prejuízos ou ganhos menores que o esperado.

Por meio de nota, a defesa do ministro destacou a "legalidade e a correção de todas as operações dos fundos, que, diga-se de passagem, têm sido lucrativos aos cotistas, incluindo os fundos de pensão".

terça-feira, 25 de junho de 2019

O Cristianismo ajudará a Besta


Caio Fábio

Se Jesus não tivesse dito que Seu reino não é deste mundo, então teríamos que dizer que o Cristianismo venceu.
O Cristianismo se tornou uma poderosa potestade deste mundo. A mais poderosa delas.
De fato, quando se tornou religião no quarto século, o Cristianismo entrou num mundo no qual nenhuma religião, até então, havia penetrado com tanta força.
Nesses dois mil anos de dominação cristã no Ocidente vimos “uma fé”, aliás, a fé ser diluída, corrompida, deformada, e metamorfoseada em outra coisa que nega a essência original.
Não é apenas uma questão de forma, trata-se de algo muito mais visceral ainda, e que penetra o âmago daquilo que um dia foi a fé em Jesus.
Foram dois mil anos de busca desenfreada do poder, de privilégios, de controle de reis e de príncipes, de usos e abusos da máquina pública em seu próprio favor, sempre aliando-se ao lado que haveria de vencer. O Cristianismo sempre encontra um meio de abençoar o tirano—pode até reagir no início, mas sempre se rende depois.
E foram todas as intervenções que o Cristianismo fez. Desde bênçãos, aos mais macabros projetos de “conquistas”, às mais inconcebíveis perseguições dos direitos individuais, sempre em nome de sua moral cristã, supostamente superior à do resto da humanidade.
No nível individual, o sexo foi o “demônio” eleito pelo demônio da “igreja” para sofrer as punições em lugar dos demais demônios, muito mais verdadeiros, e que se fantasiaram de cardeais, arcebispos, bispos, sacerdotes e pastores a fim de se esconderem... enquanto faziam suas próprias maldades contra o próximo. “Controle” é a palavra. Controle dos homens pelo medo, pelas punições eternas e temporais; e controle pela manipulação da devoção, transformando o medo em piedade, e os terrores eternos em suposto temor a Deus.
O maior golpe de todos foi a instituição da “Igreja” como representante dos desígnios divinos na Terra. Conseguiram essa façanha no passado e continuam a conseguir até hoje.
É impressionante, mas o povo pensa que aqueles carinhas vestidos de sacerdotes, pastores, bispos, ou de qualquer outra fantasia sacerdotal... representam Deus.
O povo crê... e isso é que é trágico e engraçado.
No Brasil atual, vemos uma das mais sofisticadas formas de expressão dessa força do Cristianismo em plena manifestação. É verdade que esse Poder Maior gerou — até pela inveja e pelo desejo de obter parte de seu poder — uma legião de filhotes da mesma natureza. Todavia, para quem gosta de ver e admitir a força dos fenômenos históricos, não há como negar que a Igreja Universal do Reino de Deus é a maior e mais sofisticada forma de adaptação do Cristianismo aos poderes deste mundo. Está vencendo a Igreja Católica. Também já deixou pra trás todos os concorrentes americanos.
É uma máquina. Máquina como nunca antes se havia criado. Máquina de comunicação, de manipulação do sagrado, de venda de favores divinos, de acorrentamento das pessoas ao poder que reside no “Lugar”, e de transformação do rebanho num “rebanho”.
Se as coisas continuarem assim...
Bem, o Cristianismo crescerá apenas nos lugares onde ele já está presente, pois seu atrelamento aos poderes políticos é tão profundo que já não lhe resta a isenção que é filha da sinceridade para com o Evangelho — e só pra com o Evangelho — a fim de compartilhar o Evangelho do Reino com as nações da Terra.
Também nesse sentido, devemos dizer que os evangélicos conseguiram o que sempre desejaram: ser mais poderosos.
Hoje pode-se dizer que os evangélicos têm poder. E aqui eu não estou preocupado em separar nada dentro desse pacote. Não há mais porque separar uma coisa da outra, dividindo o grupo em subgrupos, etc. De fato, é tudo a mesma coisa, e o que os une é a fixação pelo poder.
Sei que um monte de gente fica irritada com tais generalizações... mas não vou mais fazê-las: na hora do “vamos ver”, todos tocam e dançam a mesma música. São iguais.
Poder nos Estados Unidos e poder na Inglaterra... E muito poder no Brasil.
Hoje em dia os Estados Unidos e o Brasil são das duas máquinas políticas dentro das quais o Cristianismo tem seu maior poder.
O problema é que Jesus disse “...o meu reino não é deste mundo...”
Então, assim estamos, cheios de influências, próximos do poder, usufruindo dele, fazendo barganhas, levando vantagem, enriquecendo, assustando o mundo com a nossa falta de caráter, e nos tornando parte da Grande Babilônia.
O que acabei de dizer o fiz com responsabilidade. Quem desejar, que me julgue em alguns anos. Estou dando a cara para apanhar.
Repito: o Cristianismo é parte da Grande Babilônia, ajudará a Besta, e se unirá em voz ao Falso Profeta.
A Igreja que sobreviverá a tais tempos é a mesma que sobreviveu em todos os tempos: aquela que é salva pela terra quando a fúria do Dragão se manifesta:
“...então a terra salvou a mulher que estava para dar a luz...” diz o Apocalipse.
A verdadeira Igreja é salva porque ela não está tão disponível assim aos sentidos históricos, como fenômeno. Sabe-se dela, mas ela não sucumbiu à fixidez das forças do poder. Daí ela estar presente, porém com grande capacidade de se espalhar pela Terra.
A verdadeira Igreja é hebréia... está sempre em movimento... não se deixa prender por nenhuma estrutura. A verdadeira Igreja usa circunstancialmente essas “coisas”, mas não se deixa usar por elas. De fato, ela não as usa... ela as sobrevive.
A verdadeira Igreja sabe que quanto mais poder tiver entre os homens, menos poder terá no Espírito.
A verdadeira Igreja sabe que o poder fica perfeito na fraqueza.
A verdadeira Igreja quer se parecer com Jesus, e não sonha para si nenhum futuro de conquista da Terra e de seus poderes.
O Cristianismo venceu... É um “case” de total sucesso. Seu patrono deveria ser Maquiavel.
Quem quiser ser discípulo, siga a Jesus de Nazaré. O único problema é que com Ele a gente não aprende as maldades tão necessárias para que se possa ser um líder cristão bem-sucedido.
Quem sabe o ideal seja o nome de Jesus para enganar e Maquiavel para ser o mentor.

Um abraço,
Caio

P.S: Fique atento, pois, amanhã, Quarta-feira, você terá uma grande oportunidade de entender melhor o que é fazer parte da verdadeira igreja e ser verdadeiro discípulo de Jesus.

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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Pilger: é hora de salvar o jornalismo


Há uma guerra global pelo controle de informações. Divulgá-las provoca fissuras no sistema, como já fizeram Assange e Greenwald. O direito a saber é a batalha do século. É por isso que governos autocráticos declaram cruzada contra dissidentes


OUTRASPALAVRAS
Publicado 18/06/2019 às 21:09 - Atualizado 18/06/2019 às 21:16
John Pilger entrevistado por Dennis J Bernstein Randy Credico | Tradução: Gabriela Leite Simone Paz
O cineasta John Pilger, cujo trabalho é afiado e digno de prêmios como o Oscar e o Emmy, é reverenciado e celebrado por jornalistas e editores em todo o mundo. Quando ainda estava em seus vinte anos, Pilger se tornou o jornalista mais jovem a receber o principal prêmio britânico da categoria, o “Jornalista do Ano”, o qual também foi o primeiro a ganhá-lo duas vezes. Após se mudar para os Estados Unidos, relatou as revoltas do final dos anos 1960 e dos 1970. Pilger estava na sala no momento em que Robert Kennedy, então candidato presidencial, foi assassinado em junho de 1968.
Sua reportagem sobre o sudeste asiático e o documentário que veio depois, Ano Zero: A Morte Silenciosa do Camboja, levantou quase 50 milhões de dólares (193 mil reais) para as pessoas daquele país atingido. De maneira semelhante, seu documentário de 1994 e o relatório de despachos do Timor Leste, para onde viajou secretamente, ajudou a estimular apoio aos timorenses, cujo território estava então ocupado pela Indonésia. Na Grã-Bretanha, sua investigação de quatro anos em nome de um grupo de crianças debilitadas ao nascer pela droga Talidomida, e deixadas de fora do acordo com a farmacêutica, teve, como resultado, um acordo especial. Em 2009, foi agraciado com o prêmio de direitos humanos da Austrália, o Sydney Peace Prize. Recebeu títulos de doutorado honorários de universidades no Reino Unido e outros países. Em 2017, a Biblioteca Britânica anunciou um Arquivo John Pilger de todos os seus trabalhos em texto e filme.
Nessa entrevista com Dennis J. Bernstein e Randy Credico, Pilger fala sobre o que está acontecendo com seu amigo e colega Julian Assange, fundador e editor do WikiLeaks, e como sua perseguição pode ser o começo do fim da reportagem investigativa moderna como a conhecemos. Desde sua alardeada encarceramento em prisão de segurança máxima, jornalistas e whistleblowers [indivíduos que denunciam más condutas de governos e instituições] têm sido perseguidos, presos e seus documentos e discos rígidos apreendidos em países como os EUA, França, Grã Bretanha e Austrália.
Bernstein: É bom falar com você de novo, John. Obrigado por conversar conosco. Isso que está acontecendo — não apenas com Julian Assange — mas com o futuro do jornalismo, é perturbador. Agora, temos visto ataques a jornalistas na Austrália, França e aqui nos EUA em São Francisco, onde a polícia algemou um repórter enquanto vasculhava sua casa e apreendia seu HD. Sabemos que Julian Assange está em uma prisão de segurança máxima e Chelsea Manning também está encarcerado. São tempos terríveis para o fluxo livre de informação.
Pilger: Bem, isso agora está acontecendo em todo o mundo, inclusive em toda a parte daquele mundo que se gaba de ser “iluminado”. Estamos presenciando a represália aos whistleblowers e jornalistas que se atrevem a dizer a verdade. Há uma guerra global contra o jornalismo. Mais do que isso, há uma guerra global contra os dissidentes. A velocidade com que esses eventos acontecem está bem acentuada desde 11 de abril, quando Julian Assange foi arrastado pela polícia para fora da embaixada equatoriana em Londres. Desde então, a polícia tem se voltado contra jornalistas nos Estados Unidas, na Austrália e, de maneira mais espetacular, na América Latina. É como se tivesse sido acionado um sinal verde para eles.
Credico: Eu achava que a essa altura Assange já estaria solto. Você também não pensou que chegaria um momento em ele estaria livre da situação terrível que estava quando o vi, há dois anos atrás?
Pilger: Estou relutante em fazer futurologia. Realmente pensei que um acordo político teria sido feito. Olhando para trás, isso era extremamente ingênuo porque o extremo oposto tinha sido planejado para Julian Assange. Há um “precedente Assange” funcionando em todo o mundo. Na Austrália, houve um ataque a uma emissora pública, a Australian Broadcasting Corporation, onde a polícia federal entrou com mandados, um dos quais os dava permissão para deletar, alterar e se apropriar do material de jornalistas. Foi um dos ataques mais estrondosos à liberdade jornalística e inclusive à liberdade de expressão de que tenho lembrança. Vimos até a News Corporation de Rupert Murdoch ser atacada.
A editora de política de um dos jornais de Murdoch, o The Sunday Telegraph, viu sua casa ser saqueada e seus pertences pessoais, íntimos, pilhados. Ela havia feito uma reportagem sobre a extensão da espionagem oficial dos australianos realizada por seu governo. Algo similar aconteceu na França, onde a polícia do [presidente Emmanuel] Macron moveu uma ação contra jornalistas da revista Disclose.
Assange previu isso enquanto estava sofrendo acusações e abusos. Ele dizia que o mundo estava mudando e que as chamadas democracias liberais estavam se tornando autocracias. Uma democracia que põe sua polícia contra jornalistas e confisca suas notas e computadores, simplesmente porque revelaram algo que o governo não queria que o povo soubesse, não é uma democracia.
Credico: Sabe, John, alguns representantes da mídia empresarial aqui nos EUA e, acredito, no Reino Unido, agora que perceberam que o tiro, possivelmente, saiu pela culatra, subitamente saíram em defesa de Assange, particularmente quanto ao uso do Ato de Espionagem e ao recolhimento de informação. Não quero denunciá-los por terem esperado tanto tempo, mas porque eles esperaram tanto e que tipo de ajuda podem oferecer a essa altura? E o que eles deveriam fazer, já que também estão na mira?
Pilger: Vamos ver quem está realmente na mira. O WikiLeaks copublicou os registros das guerras do Afeganistão e do Iraque em 2010, em colaboração com várias organizações de mídia: Der Spiegel na Alemanha, The New York Times nos EUA, The Guardian no Reino Unido e Espresso na Itália. Quem mais publicou o material do Iraque foram Al Jazeera, Le Monde, o Bureau of Investigative Journalism de Londres, o programa Dispatches do Channel 4 em Londres, o projeto britânico Iraq Body Count, o RUF (Islândia), o SVT (Suécia) e por aí vai.
Existe uma lista de jornalistas que relataram esses fatos e trabalharam com Assange. Isso fez seu trabalho ecoar; eram colaboradores no sentido literal. Estou com uma lista agora mesmo: no The New York Times tem Mark Mazzetti, Jane Perlez, Eric Schmitt, Andrew W. Lehren, C. J. Chivers, Carlotta Gall, Jacob Harris, Alan McLean. Do The Guardian são Nick Davies, David Leigh, Declan Walsh, Simon Tisdal… e a lista continua. Todos esses jornalistas estão na mira. Eu não acredito que muitos vão acabar entrando em apuros como Julian Assange porque não representam um perigo ao sistema que reagiu contra Assange e Chelsea Manning; mas eles, prima facie, cometeram os mesmos “crimes”. Em outras palavras, são tão “culpados” quanto Assange de cometer jornalismo.
Isso se aplica a centenas, se não milhares, de jornalistas ao redor do mundo. As divulgações do WikiLeaks, se não copublicadas, foram ignorados por jornais, revistas e programas investigativos de televisão em todas as partes. Isso faz com que todos os jornalistas estejam envolvidos, todos os produtores, todos os apresentadores, todos eles são cúmplices. E, é claro, a perseguição de Assange e a intimidação de alguns outros representa um escárnio à Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que diz que você tem todo o direito de publicar; você tem todo o direito de “publicar e ser amaldiçoado”. É um dos mais nobres e demonstráveis princípios da constituição norte-americana que está sendo jogado no lixo. E a ironia é que os jornalistas que olharam de forma enviesada para Assange, ainda alegando que ele não era jornalista, estão agora correndo para cobrir, não porque ele é um jornalista da mais alta grandeza, mas porque ele é um jornalista com mais consciência do que muitos deles mesmos. Ele — e os outros em sua sombra — estava fazendo um trabalho básico do jornalismo. É por isso que chamo isso de guerra global contra o jornalismo — e o precedente aberto por Julian Assange não se parece em nada com o que vimos antes.
Bernstein: John, quero pegar o ponto de onde você estava, na pergunta de Randy, e esmiuçar e aprofundar o entendimento das pessoas sobre quem exatamente é Julian Assange e, se me permite, o ritmo que ele escolheu para seu trabalho. Como você descreve esse ritmo de Julian Assange e as pessoas que escolheu para trabalhar com ele?
Pilger: Quando conheci Julian Assange, perguntei a ele: “De que se trata, afinal, o WikiLeaks, e o que você está fazendo aqui?”. Ele descreveu muito claramente o princípio da transparência. Na verdade, estava descrevendo o princípio da liberdade de expressão: que temos o direito de saber. Temos o direito de ter conhecimento sobre o que nossos governos estão fazendo em nosso nome. Ele não estava dizendo que há um direito de pôr as pessoas em perigo. Estava dizendo que no jogo normal das democracias liberais temos o direito de saber o que o governo está fazendo por nós, às vezes até conspirando contra nós e em nosso nome. Temos o direito de saber a verdade sobre o que eles dizem em privado, o que tão frequentemente é traduzido em inverdades em público. Essa transparência, ele disse, era um princípio moral. Essa é a “razão” do WikiLeaks. Ele acredita nisso fervorosamente e, claro, isso deveria tocar em todos os jornalistas autênticos, porque é isso que nós todos deveríamos acreditar.
O que o caso Assange nos mostrou é que essa guerra contra o jornalismo, essa guerra contra o dissidente, ainda tem que entrar na corrente sanguínea da política. Nenhum dos candidatos que concorre à presidência dos Estados Unidos chegou a mencionar o assunto. Nenhum dos Democratas proferiu uma palavra. Não esperamos que a gangue de Trump fale sobre princípios como esses, mas há alguns ingênuos que acreditam que talvez alguns dos democratas deva fazer. Nenhum deles fez.
Bernstein: [O que significa quando] Julian Assange e Chealsea Manning, um editor e um dos mais importantes whistleblowers militares de nosso tempo, estão na prisão e encarcerados?
Julian Assange
Pilger: Eles querem pôr suas mãos em Julian Assange porque ele protegeu sua fonte e eles querem pôr as mãos em Chelsea Manning porque ela, sendo a fonte, se recusou a mentir sobre Julian Assange. Ela recusou-se a implicá-lo. Recusou-se a dizer que há uma conspiração entre eles. Esses dois exemplificam o que é a mais pura alegação da verdade na era moderna. Fomos desprovidos de duas pessoas como Assange e Chelsea Manning.
Sim, houve excelentes reportagens investigativas e revelações, mas temos que voltar ao nível de Daniel Ellsberg [militar que, em 1971, forneceu ao The New York Times o Pentagon Papers] para apreciar o que Chelsea e Julian, essas duas figuras heroicas, o que elas nos deram, e por que estão sendo perseguidas.
Se permitimos essas perseguições, tudo está perdido… A intimidação e a supressão vão agir em toda nossa vida. Na mídia que outrora abusou de Assange, eu vejo medo. Você lê alguns desses editoriais escritos por aqueles que uma vez atacaram Julian Assange e acusaram-no, tais como o The Guardian, e você os percebe temendo ser os próximos. Você lê colunistas famosos como Katie Benner, no The New York Times, que atacou Assange e agora vê uma ameaça de seus algozes a todos os jornalistas. O mesmo é verdade para David Corn [da Mother Jones], que agora vê a ameaça para todo o jornalismo. E eles têm razão em estarem assustados.
Credico: Qual era o medo que se tinha de Assange? Que ele continuaria a trabalhar em novos métodos de exposição? Por que estão tão assustados com Assange?
A Polícia Federal australiana em sua incursão ao escritório da ABC, em Sidney
Pilger: Bem, acredito que estavam preocupados — estão preocupados — que entre os dois milhões de pessoas nos EUA que têm uma autorização de segurança nacional estejam entre aqueles que Assange chamou de “objetores conscienciosos”. Uma vez pedi a ele para descrever as pessoas que estavam usando o WikiLeaks para liberar informações importantes. Ele os comparou aos objetores conscienciosos nos tempos de guerra, pessoas de princípios e de paz, e eu acho que é uma descrição bem apropriada. As autoridades estão preocupadas com a possibilidade de que haja algumas outras Chelseas por aí. Talvez não tão corajosas ou ousadas como Chelsea, mas que podem começar a soltar informações que enfraqueçam todo o sistema da máquina de guerra.
Credico: Sim, falei com Julian sobre isso mais ou menos um ano atrás, quando estava em Londres, sobre tentar fazer uma comparação com o sul norte-americano na guerra de secessão e jornalistas como Elijah Lovejoy e David Walker, que foram assassinados por expôr a brutalidade e o destino da escravidão. Eu disse: “Sabe, nós precisamos começar a te mostrar desse ponto de vista”, ao que ele respondeu: “há uma grande diferença, Randy”. Ele disse isso: “veja, aqueles homens só tiveram que lidar com um dos lados, e foi isso; as pessoas no sul e algumas de suas colaboradoras em Nova York, que foram parte dos negócios de transporte de algodão. Mas o resto do norte estavam praticamente todo do lado dos abolicionistas. Eu expus crimes de guerra e isso fez com que os conservadores se irritassem. E então expus o mal comportamento e a prevaricação no Partido Democrata. Então, todos eram meu alvo, eu não poupo ninguém, então isso não se aplica a mim”.
E foi isso que aconteceu aqui. Você enxerga isso pelo reduzido número de protestos em seu nome. Eu fui a uma manifestação outro dia, um pequeno protesto por Assange em frente à embaixada britânica, e apenas meia dúzia de pessoas estavam lá, um pouco mais do que na semana anterior. Ele não está gerando esse tipo de interesse até agora. E você via pessoas que passavam por lá e diziam “Assange é um traidor”. Quer dizer, estão tão desinformadas, e agora tenho que usar a citação que você usou, de Vandana Shiva, em seu livro Freedom Next Time, que trata da “insurreição do conhecimento subjugado”. Você pode falar sobre isso?
Vandana Shiva
Pilger: Vandana Shiva é uma grande ambientalista e ativista política indiana, cujos livros sobre a ameaça da monocultura são referência, especialmente a ameaça de empresas multinacionais de agroenergia que se impõe em sociedades vulneráveis e rurais como a Índia. Ela descreve uma “insurreição do conhecimento subjugado”. É um ótimo truísmo. Eu por muito tempo acreditei que a verdade reside em um mundo metaforicamente subterrâneo e sobre isso está todo o ruído: o ruído dos políticos credenciados, o ruído da mídia credenciada, aqueles que parecem estar falando por quem está abaixo deles. De vez em quando, contadores de verdade emergem de baixo. Pegue, por exemplo, o correspondente de guerra australiano, Wilfred Burchett, que foi o primeiro a ir a Hiroshima depois do bombardeio atômico. Seus relatos foram capa de seu jornal The Daily Express, em Londres, nos quais dizia “eu escrevo isso como um alerta ao mundo”. Estava alertando sobre armas nucleares. Tudo foi jogado contra Burchett para acusá-lo e desacreditá-lo. O correspondente do New York Times liderava esse movimento: a mesma pessoa que negou que as pessoas estavam sofrendo efeitos da radioatividade: que pessoas tinham morrido apenas na explosão. Depois, descobriu-se que ele estava mancomunado com autoridades norte-americanas. Wilfred Burchett sofreu acusações ao longo de toda sua carreira. Todos os whistleblowers passam por isso — aqueles que são afrontados pela indecência de algo que descobrem, talvez em uma empresa para a qual trabalham ou dentro de um governo — eles acreditam que o público tem o direito de saber a verdade.

O Guardian, que atacou Julian Assange com tanta crueldade, tendo sido um dos parceiros de mídia do WikiLeaks, nos anos 1980 publicou documentos de um oficial do Ministério das Relações Exteriores que relatava planos dos EUA de instalarem mísseis de cruzeiro de médio alcance ao longo da Europa. O Guardian publicou isso e foi devidamente elogiado em um documento de divulgação e princípio. Mas quando o governo foi à justiça e um juiz exigiu que o jornal entregasse os documentos que revelariam quem era o denunciante — ao invés do editor fazer o que editores devem fazer, defender os princípios e dizer “não, não vou revelar minha fonte” — o jornal traiu sua fonte. Seu nome é Sarah Tisdall e ela acabou presa. Então, whistleblowers tem que ser pessoas extraordinariamente corajosas e heroicas. 

Quando você olha para tipos como Julian Assange e Chelsea Manning é como se toda a força da segurança de Estado nacional norte-americana, apoiada por seus chamados aliados, tenha sido imposta a eles. Julian representa um exemplo de que eles têm que fazê-lo, porque se não transformá-lo em um exemplo, jornalistas podem ser encorajados a fazer seu trabalho, e esse trabalho significa contar ao público o que ele tem direito de saber.

Credico: Muito bem dito. No prefácio ou introdução de seu livro, Freedom Next Time, você também cita Harold Pinter e seu discurso vencedor do Prêmio Nobel, no qual ele fala sobre a vasta tapeçaria de mentiras que alimentamos, e ele segue adiante e diz que os crimes norte-americanos foram superficialmente registrados, que dirá documentados, que dirá conhecidos. Julian Assange quebrou essa conduta pra valer, expôs crimes de guerra cometidos pelos EUA e todo tipo de travessuras que o Departamento de Estado tenha perpetrado. Você fala de Harold Pinter, da grande influência que ele foi.

Pilger: Sim, eu recomendo aos seus ouvintes o discurso de recebimento do Prêmio Nobel de Harold Pinter. Acredito que foi em 2015. Foi um testamento eloquente e magnífico sobre como e porque a verdade precisa ser contada e também por quê não deveríamos mais tolerar a hipocrisia dos políticos de duas caras.

Harold Pinter fez um paralelo entre nossa visão sobre a União Soviética e os crimes de Stalin, comparada com a dos crimes dos Estados Unidos; ele disse que a maior diferença é que nós temos ciência da magnitude dos crimes de Stálin, mas que sabemos muito pouco sobre os crimes de Washington. Ele comentava que o ensurdecedor silêncio que envolve nossos crimes — quando digo “nossos”, me refiro àqueles dos Estados Unidos — significam, como ele disse memoravelmente: “estes crimes nunca ocorreram, não aconteceram nem quando estavam ocorrendo, eles não são de interesse público e não têm a menor importância”.

Nos livramos desse duplo padrão, com certeza. Acabamos de ter uma celebração escorregadia do 6 de junho, o Dia-D. Essa foi uma invasão extraordinária na qual muitos soldados tomaram parte e deram suas vidas, mas isso não fez com que a guerra fosse vencida. A União Soviética na verdade ganhou a guerra, mas os russos não eram nem representados, não eram nem convidados a falar sobre isso. Isso não aconteceu, como Pinter costumava dizer. Isso não importou. Mas Donald Trump estava lá, palestrando ao mundo sobre guerra e paz. É uma sátira horrível. Esse silêncio, essas omissões, correm em todos os nossos jornais, como se fosse mesmo uma aparência de verdade, e não é.

Bernstein: Quero voltar ao ponto de Wilfred Burchett e a enorme responsabilidade que esses grandes jornalistas têm de permitir que coisas terríveis continuem acontecendo sem serem noticiadas, baseados em questões de patriotismo e alegações de segurança nacional. Estou pensando, tiveram que calar Wilfred Burchett porque aquilo poderia ter aberto a porta toda de como são perigosas as armas nucleares e o poder nuclear, detonando o mito da paz atômica.

Pilger: Isso é totalmente verdade, Dennis, e isso também mina os planos morais da “Guerra Boa”, a Segunda Guerra Mundial que acabou com esses dois grandes crimes: o bombardeio atômico de Hiroshima e de Nagasaki em um momento em que o Japão não representava nenhuma ameaça. Historiadores confiáveis agora não nos contam os contos de fadas de que essas bombas atômicas eram necessárias no fim da guerra. Então, isso destruiu em muitos aspectos a grande missão moral da guerra.

Não apenas fez isso, como declarou no bombardeio atômico que uma nova guerra estava começando, uma “Guerra Fria”, apesar da possibilidade de se tornar rapidamente uma “guerra quente” com a União Soviética. E com isso estava dizendo que “nós” — ou seja, os Estados Unidos e aliados como os britânicos — temos armas nucleares e estamos prontos para usá-las. Essa é a chave: estamos preparados para usá-las. E os Estados Unidos foram os únicos que já chegaram a usá-las contra outro país.

Claro que, depois, isto foi testado nos Territórios de Confiança da ONU. Era para ser mantido em confiança pela ONU nas Ilhas Marshall e acabou dando início a várias Hiroshimas ao longo de 12 anos. Naquele tempo, nós não sabíamos nada disso. Mas e quanto sabemos sobre as ogivas nucleares (tipo de míssil) que o Presidente Obama solicitou e que comprometeram cerca de um trilhão de dólares? — às quais, certamente, o presidente Trump deu continuidade.

E aqueles tratados que ofereciam uma defesa precária contra um holocausto nuclear, tratados com a União Soviética, como o de armas de médio alcance, que foi rasgado por esta administração? Uma coisa leva à outra. Isto é contar a verdade.

Bernstein: quero voltar e lembrar as pessoas que tipo de estrutura Julian Assange criou com o WikiLeaks para proteger whistleblowers. Esse é um ponto crucial porque temos visto agora outros jornalistas sendo mais cuidadosos e vemos fontes sendo rastreadas, presas, e enfrentando grandes tempos de cadeia. E acredito que foi assim que Julian Assange honrou os whistleblowers, protegê-los é uma parte crucial de quem ele é e o que ele fez.

Pilger: Ele inventou um sistema através do qual é impossível dizer quem foi a fonte e isso permitiu pessoas usarem algo como um buraco de caixa de correio para vazar materiais sem terem sua identidade divulgada. É provavelmente isso que enraiveceu aqueles que estão perseguindo Assange. Significa que pessoas de consciência dentro dos governos, dentro de sistemas, que ficam incomodadas como Chelsea Manning, que ficou profundamente perturbada com o que viu, tenham a oportunidade de contar ao mundo, sem temer que tenham sua identidade exposta. Infelizmente, Chelsea revelou sua identidade a alguém que a traiu. É um meio sem precedentes de descobrir a verdade.

Bernstein: John, conte-nos sobre sua visita recente a Assange no presídio de segurança máxima de Belmarch, na Grã-Bretanha. Como ele está?

Pilger: Eu gostaria de dizer uma coisa sobre Julian, pessoalmente. Eu vi Julian na prisão de Belmarsh e eu tive uma sensação vívida do que ele tem que suportar. Eu vi a resiliência e coragem que conheço há tantos anos, mas agora ele está indisposto. A pressão sobre ele é inimaginável, a maior parte de nós teria se curvado diante disso. Mas há uma questão aqui de justiça por esse homem e o que ele teve que enfrentar; não apenas as mentiras que foram contadas sobre ele na embaixada e as grandes farsas que buscavam assassinar sua reputação. A chamada mídia respeitável, do New York Times ao The Guardian, todos caíram na lama e a jogaram nele; e hoje ele está muito vulnerável e eu vou dizer isso aos ouvintes: ele precisa de nosso apoio e solidariedade. Mais importante, ele merece.

Bernstein: Fale um pouco mais sobre as condições do lugar e por que é tão significativo que o deixem por um ano numa prisão como essa.

Pilger: Bom, eu suponho que por causa da ameaça que ele significa. Mesmo com Julian preso, o WikiLeaks segue. Essa é uma prisão de segurança máxima. Qualquer um preso por infração de fiança, antes de mais nada, não teria sido condenado a 50 semanas, como ele foi. Poderiam receber uma multa ou um mês, no pior dos casos. Mas é claro que isto, agora, significou uma extradição, um caso com todos esses encargos ridículos vindos de uma acusação na Virgínia. Mas Julian, como indivíduo, o que sempre me chocou, é que ele é exatamente o oposto da imagem que seus detratores relatam. Ele tem um intelecto aguçado, então é muito inteligente, evidentemente.

Ele é muito engraçado e divertido. Sempre dou risadas com ele. Nós, inclusive, conseguimos rir da última vez em que o vi na embaixada, quando tinha um monte de câmeras na sala, e trocamos anotações em que tínhamos que cobrir o que aquilo que estávamos escrevendo.
Ele deu um jeito de rir disso. Então ali você tem um tipo de humor seco, quase humor negro, ao mesmo tempo em que ele é uma pessoa muito apaixonada; mas sua resiliência é o que sempre me deslumbrou. Já tentei me imaginar no lugar dele, e não consegui. Quando o vi na cadeia, e tivemos que nos sentar na frente um do outro, eu estava com mais um casal. Um de nós deu a volta ao redor da mesa, só para ficar mais perto dele, quando foi impedido pelos seguranças. Esse tipo de situação é o que uma pessoa que não cometeu nenhum crime — sim, ele cometeu o crime do jornalismo — tem que aturar.


domingo, 2 de junho de 2019

Hoje é dia do Festival Lula Livre




Quando a realidade se impõe, nenhuma versão resiste.

Governo em pedaços – vitória ou ameaça?



Diante das primeiras tensões, e na ausência de um projeto, a coalizão de Bolsonaro rachou em quatro grupos. Quais são eles? Que qerem? Como a divisão poderia abrir caminho para um novo projeto?

OUTRASPALAVRAS

CRISE BRASILEIRA
por Antonio Martins

No início dos anos 1990, ficou claro que a privatização do setor ferroviário, na Inglaterra, havia afundado a qualidade dos serviços. Os problemas se multiplicavam, mas o mais evidente era que os trens jamais chegavam no horário. Uma investigação revelou a causa dos transtornos. Para afastar o Estado, haviam concorrido múltiplos interesses de privatizadores. Mas, uma vez assegurado o controle do sistema, eles se degladiavam. A empresa que controlava as vias; a que operava as composições; a encarregada de limpeza e logística; as responsável por vender as passagens – cada uma estava interessada acima de tudo em seus próprios lucros – e tomava decisões que frequentemente chocavam-se com as atividades das demais. O resultado era o caos. O governo Bolsonaro vive, há duas semanas, um inferno semelhante.
Diante das primeiras tensões, revelou-se o vazio – a ausência de um projeto comum. Sem ter nada em torno de que se unir, os quatro grupos que se articularam em 2018 para viabilizar a vitória do ex-capitão dividiram-se, cada um aferrado a seus interesses particulares. Este movimento centrífugo permitiu, em primeiro lugar, um mapeamento mais preciso da coalizão governista e de seus conflitos internos. Muito mais importante: expôs um governo incapaz de caminhar, porque marcado por disputas intrincadas, que geram atritos frequentes, ruidosos e muitas vezes grosseiros
Este desentendimento amplia tanto as chances de resistir aos principais projetos do governo quanto as de provocar um curto-circuito mais amplo e neutralizar as ameaças que ele representa. Mas da possibilidade à mudança de cenário há ainda um longo caminho a percorrer. A chave é esboçar as linhas básicas de um projeto alternativo. Sem isso, é provável que a janela de oportunidade se feche ou – pior – que seja preenchida por outra articulação conservadora. Vale atentar para as ações cada vez mais desenvoltas do general Mourão…

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Cronologicamente, a primeira dissidência foi aberta pela ala do bolsonarismo representada pelo ministro Sérgio Moro e pelos procuradores da Operação Lava Jato – cujo projeto político e de poder tornou-se indisfarçável. Na madrugada de 20/3, o próprio Moro perturbou o conluio governista, ao lançar a primeira investida contra Rodrigo Maia. O presidente da Câmara havia decidido, após entendimento com o Palácio do Planalto, adiar por algum tempo a tramitação do “pacote anticrime” de Moro. Temia que, num cenário em que o governo ainda não firmou uma base mínima de apoio no Congresso, submeter simultaneamente duas propostas polêmicas – a do ministro da Justiça e a “Reforma” da Previdência – fosse desastroso.
Moro não se conformou. Cobrou o presidente da Câmara publicamente e numa série de mensagens pessoais, disparadas durante a madrugada. A impertinência foi repreendida: “Eu sou o presidente da Câmara e ele é funcionário do presidente Bolsonaro. O presidente é que tem de vir aqui conversar comigo”, retrucou Maia. Ao invés de calar-se, Moro insistiu. Irônico, sugeriu que Maia está entre os que “entendem que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente”.
O consórcio Moro-Lava Jato teve, nas duas semanas do confronto, apoio do setor representado pelo próprio presidente, seu entorno familiar e “gurus” como Olavo de Carvalho. Horas depois de Moro fustigar Rodrigo Maia, suas dores foram assumidas por Carlos Bolsonaro, o Carluxo. O filho a quem o presidente chama de “pitbull” provocava, no Instagram: “Por que o presidente da Câmara está tão nervoso”? No mesmo momento, os grupos identificados com o bolsonarismo lançavam, nas redes sociais, uma saraivada de ataques pessoais a Maia. Como é típico, foram marcados por agressividade e desinformação Algumas das postagens sugeriam, sem fundamento, que o deputado não podia exercer a presidência da Câmara, por ter nascido no Chile (onde seus pais eram exilados políticos).
Num movimento paralelo, o próprio presidente engrossava o coro das agressões – principalmente a partir do ponto em que surgiram sinais da queda de sua popularidade. Talvez tenha acreditado que, como na campanha política, poderia voltar a crescer se se mostrasse hostil ao establishment. Na sexta-feira (22/3), antes de embarcar ao Chile, comparou Rodrigo Maia a uma namorada caprichosa. Em 23/3, num café com empresários chilenos, culpou, pelos solavancos de seu governo, os “que não querem largar a velha política”. E mesmo no domingo, de volta ao Brasil, chamou à Alvorada seu líder no governo, o inexpressivo major Vitor Hugo, e orientou-o a dizer que “aos práticas do passado não nos levam ao caminho em que queremos estar.”
Este conjunto de ataques arrepiou o terceiro grupo essencial na sustentação do governo. Embora não possa ser chamada de “bolsonarista”, a “velha política” – as bancadas conservadoras vastamente majoritárias no Congresso Nacional – associou-se ao projeto do capitão ao longo do segundo semestre de 2018. Foi, de ambos os lados, um casamento de conveniência. Em janeiro, quando Rodrigo Maia elegeu-se presidente da Câmara, teve apoio explícito do presidente e de seu PSL Seu compromisso com a agenda ultraneoliberal é notório. Suas relações com Paulo Guedes, o ministro encarregado de levar adiante tal agenda, são cordiais e sintônicas.

Mas por que motivo estas bancadas conservadoras, conhecidas por sua proverbial astúcia política, aceitariam pagar sozinhas o preço de uma “Reforma” impopular e que, mesmo largamente apoiada pela mídia, foi túmulo de candidaturas em 2018? A “velha política” aceita correr riscos – mas quer compensações. De imediato, dinheiro – verbas públicas com que deputados e senadores alimentam, nos respectivos domicílios eleitorais, suas redes fisiológicas. A médio prazo (e igualmente importante), desejam um governo minimamente coerente e defensável. Ao relutar diante do primeiro quesito, e sinalizar enorme incompetência para cumprir o segundo, Bolsonaro naturalmente se desgastaria
As vociferações de Moro e do clã presidencial ampliaram este desgaste. A atitude altiva de Rodrigo Maia sinalizou o tom da resposta. Ao longo da semana, o presidente da Câmara recebeu a solidariedade não apenas de seu partido, mas de quase todas as bancadas do majoritário “Centrão” na Câmara dos Deputados. No final da semana, parecia que sequer o PSL apoiaria o Planalto. No domingo, advertência cardinalícia: Fernando Henrique Cardoso lembraria que “no Brasil, os partidos são fracos, mas o Congresso é forte (…) comprar briga com o presidente da Câmara é caminho certo para o desastre”.
Dias antes, Moro e a Lava Jato haviam tentado um contra ataque, com a prisão espetaculosa de Michel Temer. Descontentes com os reveses sofridos nas semanas anteriores – quando se desbaratou o fundo de R$ 2,88 bilhões que planejavam desviar da Petrobras e do Tesouro – os procuradores da República de Curitiba ensaiaram uma demonstração de força. Há tantas razões para condenar Temer, seguindo-se o devido processo e respeitando-se o direito de defesa, que trancafiá-lo preventivamente só pode ser visto como uma arbitrariedade tola, um espernear. Pessimamente calculado, porém.
Em especial porque amedrontou o quarto setor essencial da coalizão sem projeto que compõe o bolsonarismo: o baronato financeiro. Na quinta e sexta feiras, o real e a bolsa de S.Paulo caíram cerca de 5%. Foi um sinal de que a única ideologia dos mercados é o lucro, não importando se por meio da “velha” ou da “nova” política. Enquanto Bolsonaro prometia entregar o desmonte da Previdência e outros mimos, teve o apoio dos barões. A partir do momento em que não puder cumprir o que prometeu, perderá o que conseguiu – simples assim.
Para não deixar dúvidas, as quedas do real e das bolsas foram acompanhadas de declarações enfáticas. “Operadores de mercado” ouvidos pela Folha queixaram-se de que o presidente ignora a arte de cortejar os velhos políticos (alguns chamaram-na de “Dilma de calças”). Também notaram que as concessões feitas pelo projeto oficial aos militares foram tantas que a narrativa segundo a qual trata-se de “eliminar privilégios” pode não se sustentar…
Na segunda-feira, ensaiou-se uma trégua. Foi marcada por um nítido recuo do presidente e seu entorno mais íntimo. Em cerimônia para marcar a concessão de linhas de transmissão elétrica, Bolsonaro afirmou que sua prioridade é a “Reforma” da Previdência. Noutro evento, com prefeitos e governadores, Paulo Guedes adulou o antes atacado Rodrigo Maia, a quem considerou um aliado da proposta do governo

O incêndio, porém, pode demorar a se extinguir. Horas antes, duas figuras emblemáticas da suposta “nova política” do presidente engalfinhavam-se em público. O deputado Kim Kataguiri, líder do MBL (e filiado ao DEM-SP), atacou a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann, a quem acusou de “não fazer oposição republicana”. Para Kim, “a ‘Reforma’ da Previdência morreu – e a culpa é do governo Bolsonaro”.
As duas semanas da primeira grande crise do governo ensinam algumas lições. Primeira: a maioria conservadora formada nas eleições de novembro último é frágil e pode ser desafiada. É verdade que nunca houve, além de um presidente, um Congresso tão conservador e promíscuo diante do grande poder econômico. Mas é igualmente claro que a falta de um projeto comum torna muito vulneráveis tanto o Executivo quanto o Legislativo. Por não terem rumos, ambos temem a maioria das ruas – que conquistaram no ano passado por uma série de fatores conjunturais, mas é volátil. Ainda hoje, a Arquimedes, uma nova empresa de análise de redes sociais que trabalha para o mercado financeiro, constata, em relatório, que o apoio à proposta governamental para a Previdência caiu a um mínimo inédito.
Abrem-se, rapidamente, duas possibilidades. Primeiro, derrotar no Congresso um projeto que é essencial para a sustentação do governo e seu projeto de desmonte e rapina. Segundo, acenar com um esqueleto de medidas que apontem outro rumo, e resgatem o país da cantilena depressiva de cortes de despesas, redução de direitos, sacrifícios, punições. Os artigos sucessivos de André Lara Rezende revelam: até mesmo os economistas ligados ao mercado percebem, aos poucos, o vazio e a inconsistência desta ideia.
Porém, para que a crítica não se esgote na academia, é preciso formular, também, caminhos capazes de mobilizar a sociedade e sinalizar outro rumo. Por exemplo, a revogação da Emenda Constitucional que congela os gastos sociais por vinte anos, a retomada da valorização do salário mínimo, um plano ousado de investimentos para recuperar os serviços públicos, os direitos sociais e a infraestrutura.
Sem tal alternativa, a janela se fechará. Ou será aproveitada por outros atores, de projeto claramente conservador. No início desta semana, noticiava-se que o general Mourão fará nesta terça-feira  em São Paulo, dois encontros com a Fiesp que estão provocando frisson entre o grande empresariado. Ainda mais inusitado e preocupante: no meio da semana passada, um conjunto de deputados paulistas reuniu-se com o Comandante Militar do Sudeste, general Luiz Eduardo Ramos. O pretexto foi ouvir as opiniões de Ramos sobre a proposta do governo para as aposentadorias militares. Mas em pouco tempo, relatou a Folha, o diálogo evoluiu para queixas em relação a Bolsonaro e sua inapetência para a política. O general teria sugerido a seus interlocutores que prestem atenção ao que diz o vice-presidente – depois de frisar que se opõem de modo cabal a uma aventura militar brasileira na Venezuela…
O cenário, que há alguns meses parecia tenebroso, tornou-se incerto e instável. Surgiu, no desgaste e desorientação do governo, uma brecha clara. Não aproveitá-la implica abrir a porteira para novos perigos – e talvez menos contraditórios…
ANTONIO MARTINS



domingo, 28 de abril de 2019

LULA: A ALTERNATIVA DE LUTA EM TEMPO DE TRAGÉDIA NACIONAL