quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A Mulher – Espírito Bisão Branco




A Mulher – Espírito Bisão Branco

Gostaria de mostrar como somos na realidade, como um espelho que reflete nossas atitudes, nosso comportamento, e mostrar as forças psicológicas denominadas por Jung como arquétipos, que agem em nós de forma autônoma nos deixando num dilema muitas vezes. Ela, a Mulher-Espírito nos fala daquilo que é, mas, não nos diz como devemos agir. Assim, um mito ou um sonho nos permite ver como somos na realidade e, frequentemente nos dá uma solução para o dilema.

Há um belíssimo conto mítico da nação Oglala dos Sioux, recontado pelo seu grande feiticeiro Alce Negro – a história da Mulher – Espírito Bisão Branco. Este é o relato de como uma mulher divina trouxe o primeiro cachimbo sagrado para os índios Oglalas da nação Sioux.

Há muito tempo, dizem, dois batedores índios saíram à caça de bisões; ao chegarem ao topo de uma colina, olharam para norte e viram algo surgindo de muito longe, e quando chegou mais perto exclamaram: “É uma mulher”! 

E era.

Então, um dos batedores, por ser jovem e parvo, teve maus pensamentos e os expressou em voz alta; mas, o outro que era sábio replicou: “É uma mulher sagrada; livre-se de todos os maus pensamentos”.

Quando ela chegou ainda mais perto, puderam notar que usava uma bela roupa de camurça branca, que os seus cabelos eram muito longos e que era jovem e muito bonita. Ela lia seus pensamentos, e disse numa voz que mais parecia um canto:

“Você não me conhece, mas se quer fazer o que está pensando, pode vir”. E o jovem parvo foi, mas assim que parou diante dela, uma nuvem branca os envolveu. A bela jovem saiu da nuvem branca e, quando ela se dissipou, tudo o que havia restado do jovem parvo era um esqueleto coberto de vermes. Então a mulher disse ao que não era parvo: “Volte para casa e avise ao seu povo que estou chegando, e por isso devem construir uma grande tenda para mim no centro da sua nação.” E o índio, apavorado, correu e avisou aos demais, que fizeram imediatamente o que ela mandara; e esperaram a mulher em volta da tenda.

Depois de certo tempo, ela veio muito bonita, cantando os seguintes versos, enquanto entrava na tenda:

Com hálito visível estou caminhando.
Envio minha voz enquanto caminho.
De forma sagrada estou caminhando.
Minhas pegadas são visíveis quando estou caminhando.
De forma sagrada caminho.

E enquanto cantava, de sua boca saía uma nuvem branca que exalava um suave perfume. Em seguida ela deu ao chefe da tribo um cachimbo entalhado em um dos lados com a figura de um filhote de bisão – para simbolizar a nova terra que nos sustenta e nos dá alimentos – e, pendendo do cabo, doze penas de águia branca, amarradas com uma fibra que jamais se rompe para simbolizar o céu e as doze luas.  Disse ela: “ouçam, com isto vocês se multiplicarão e será uma nação justa, e sempre terão coisas boas. Somente as mãos dos bons devem cuidar dele, e os maus sequer podem por-lhes os olhos.” Ela cantou novamente e deixou a tenda e, enquanto o povo a via partir, sua figura transformou-se num bisão branco que se afastou a galope, resfolegando, e logo desapareceu.

É isso o que contam, e se aconteceu, não sei; mas, pensando bem, pode-se ver que é verdade.

               Neihardt, John G.Black Elk Speaks. New York: William Morrow, 1932; New York: Simon & Schuster, 1972.

Aqui temos a essência do que tento dizer em um livro que escrevi sobre a Gênese Iorubá, através do Ìtàn igbà-ndá àiyé, em linguagem mítica. Na diferença de atitudes entre os dois batedores, o parvo e o sábio veem as duas abordagens do homem com relação à sua alma, - anima, e os resultados decorrentes de cada uma delas. Já que não podemos evitá-la, pois ela vem ao nosso encontro em meio à nossa atividade normal, mudando o rumo de nossa vida comum, quando menos esperamos por um “visitante do outro mundo”. Mas, a forma como a tratamos é que vai determinar a diferença entre, a bem aventurança e a desgraça. Aí, a destruição se segue como consequência.

Por que isso? Porque a anima ( alma masculina) é uma mulher sagrada, e a nossa disposição em tratá-la, ou não, como um ser sagrado é que faz toda a diferença. No ser masculino, a sua alma traz através da sua psique uma característica feminina que Carl Gustav Jung denominou anima.

Este ser sagrado feminino e interior que projetamos é a “Mulher-Espírito”, como na “Mulher-Bisão Branco é um ser do outro mundo, pois pertence ao nosso inconsciente”. Se formos como o batedor sábio, diremos: “É uma mulher sagrada; livre-se de todos os maus pensamentos.” Quando a tratamos como um ser sagrado, ela nos traz um cachimbo sagrado, trás o céu e as doze luas e, nos ajuda a conhecer o outro mundo em nós. Porém, se a tratarmos como fez o batedor parvo, tentando transformá-la num ser físico, projetando-a num ser exterior, perdemos o que ela tem de sagrado, com o agravante de perdermos o que ela tem pra nos dar.

O grande problema, é o livre arbítrio que ela nos dá, permitindo encará-la como quisermos – como parvos ou como sábios.

Ela diz: “Você não me conhece, mas se quiser fazer o que está pensando, pode vir.” Se pensares errado, pagarás um alto preço; o preço por deixar de tratá-la como um ser sagrado, como uma entidade do seu mundo interior. Perderás o outro mundo, mas também a vida humana, enquanto a estamos vivendo. O que se vê é um ser que inflacionou durante um tempo valores externos e pessoas, como se fossem sagrados à medida que não correspondem mais as expectativas que nos faziam felizes; deixam-nos um rastro de depressão e descaso por nós mesmos e pela vida e  os seus valores conquistados.

É a crise de sentido que a vida nos tira de repente, gerando a famosa depressão. É o significado do esqueleto do batedor parvo comido pelos vermes, jogado aos seus pés.

Uns, “jogam a toalha”, outros, lutam da forma equivocada, transferindo para outra pessoa ou outro bem a ser conquistado. A busca que deveria ser um encontro consigo mesmo, uma viagem ao seu interior com a seriedade de algo sagrado, passa a ser procurada fora para acalentar a sua lacuna interior.

Passamos parte de nossa vida sentindo falta de algo, procurando não sabemos o quê. Tantas das nossas “pretensas metas”, tantas das coisas que pensamos querer, acabam tempos após revelando-nos máscaras, atrás das quais ocultamos nossos verdadeiros e singelos desejos; elas são símbolos para os verdadeiros valores e qualidades que almejamos. Só que reduzimos esses valores a coisas físicas e materiais. Nem mesmo a uma pessoa, se são qualidades psicológicas: amor, verdade, zelo, honestidade, lealdade, utilidade, - algo que podemos sentir que é nobre em nós, precioso e que merece o nosso zelo e atenção. Tentamos reduzir tudo isso ao plano físico – casa, carro, um emprego melhor, um cargo mais valoroso, ou outro ser humano – mas não dá certo. Sem saber estamos em busca do sagrado, só que ele não é redutível a nada. Ele é sentimento, um sentimento que vai direto ao âmago da vida, que dá significado verdadeiro a vida mesquinha e rotineira que levamos, para colocarmos uma nova perspectiva nas nossas batalhas pessoais. É o sentimento de reverência que precisamos resgatar e considerar doravante. O que chamamos de sagrado é, em última instância, um universo de paradigmas que usamos para avaliar nossos progressos, esforços pessoais, nossa vida, nosso trabalho, pra ver se neles também existe significado.

Segundo Jung, a psique masculina, a descoberta do sagrado, essa comunhão, dá-se por meio do feminino, como no caso de Obàtálà com Odùdúwá, seu interior e contraparte, no conto mítico da Gênese Iorubá. É a Mulher-Bisão Branco deste conto, que traz o sagrado à vida, a visão do céu e as doze luas.

Parece que nunca saímos direta ou conscientemente à procura do lado sagrado da vida. Estamos carentes ainda em sermos servidos pelo sagrado e, não sabemos ainda como servir ao sagrado com a reverência necessária.  Como os dois batedores índios, vagamos por nossos velhos territórios de caça, a cata apenas do rotineiro e do conhecido. De repente, nos deparamos com uma parte desconhecida de nós mesmos: “ela vem chegando, usando roupas de camurça branca; e quando fala, sua voz assemelha-se a um canto.” A princípio ficamos confusos: sua imagem é de mulher e queremos crer que é possível nos aproximarmos dela como se fosse uma mulher. É difícil acreditar que não seja uma mulher de carne e osso, mas sim uma força metafísica tão poderosa que não ousamos tocá-la fisicamente.

Essa é a realidade que o sagrado nos apresenta, é assim que o sagrado se torna uma “pessoa” e nos fala com voz singular. Isto é a anima. Este lado de nós mesmos se manifesta em sonhos de aventuras intensamente desejadas, em tiunfos que quase podemos saborear, em seres cheios de luz que encontramos pelos corredores de nossa mente e seu reino fabuloso. Sem a interferência do raciocínio lógico e do pensamento, nossos sentimentos nos empurram para o outro lado desconhecido de nós mesmos, onde cada imagem vibra com a promessa de uma extraordinária experiência transcendental, rica de significado e plenitude.

Tudo isso se converge para um ser interior e nele se concentra; a Mulher-Bisão Branco chega aos dois batedores índios como uma visitante de um mundo maior, fora do campo da visão do ego, de suas abalizadas opiniões, de suas noções de “realidade.” A realidade aqui é tão maior, tão repleta de significados e de potencial para ampliar a nossa vida e dar-lhe significado, tirando-nos da mesmice, que o inconsciente nos diz: “Isto é sagrado; isto é o que deve ser tratado como sagrado”.

A Mulher Espírito Bisão Branco canta: “Com hálito visível estou caminhando. Envio minha voz enquanto caminho”.

Hálito, sopro, vento, são símbolos muito antigos da vida e do espírito. Para os povos antigos, o sopro – a respiração, o hálito – era uma substância de Deus; o sopro dado pelo Criador Òlorun, denominado èmì, está presente na mitologia Yorubá e representa o momento em que a vida penetra no ser recém-formado por Obátálà. É a centelha da energia divina emprestada à carne, durante o período de tempo na terra: sopro da vida.

Quando a Mulher Espírito Bisão Branco caminha com hálito “visível”, ela materializa o lado da vida a que chamamos de “espiritual”. Ela manifesta o invisível em visível, - transformando-o.

Quando tratamos a Mulher Espírito Bisão Branco como sendo a nossa alma, manifesta em nossa psique, ela tem o poder de transformar o “sagrado” num conhecimento instantâneo, direto e consciente. Isso nos propicia corrigir, criar e estabelecer caminhos criativos para o nosso cotidiano rotineiro. Ela diz: “Minhas pegadas são visíveis quando estou caminhando.” Ela, apesar de não ser física, pois ela é Psiquê, Pneuma, um ser etéreo, e, ainda assim, suas pegadas podem ser vistas; tanto na destruição como na solução de nossas vidas. O mundo do espírito se faz instantâneo e palpável através desta experiência simbólica.

Assim, ela tem o poder de nos dar a fé psicológica: ...a fé originada da psique, que se apresenta como fé na realidade da alma, que vive no inconsciente.

Como a psique é fundamentalmente imagem, e imagem é sempre psique, essa fé se manifesta pela crença em imagens... Observe que os antigos estavam absolutamente certos!

A fé psicológica começa no amor e na reverência pelas imagens, e fluem principalmente por meio das formas humanas em sonhos, fantasias, imaginação e reflexões. Sua crescente vivificação nos dá a princípio uma convicção de ter – e depois, de ser – uma realidade interior de profundo significado que não mais se identifica com posses físicas, transcendendo a vida pessoal. Nos primitivos, a fé psicológica dava crédito às imagens e, a elas recorria em sua cegueira. Assim podemos ver que a fé psicológica e a fé espiritual cruzam-se num nível mais profundo. Nos primórdios do Cristianismo Primitivo, os cristãos sabiam que “a fé é a substância das coisas que tanto esperamos. A evidência das coisas não visíveis”.
 Encontramos assim a fé nos símbolos numinosos, divinos, fluindo da alma, através da psique para o consciente, sendo então possível perceber a substância daquilo que esperamos daquilo que sonhamos daquilo que vive dentro de nós, além dos limites da esfera física.

É a anima – a Mulher Espírito Bisão Branco – que traz à consciência as provas da realidade não visível ao mundo físico. Buscamos o reino do espírito no amor romântico, no sexo, na posse física das coisas, nos seres humanos e nas drogas, mas esse reino não está lá. Ele só é encontrado por meio da alma.

O cachimbo sagrado é o poder que possibilita o contato com o “outro mundo”, pois consideramos sua imagem sagrada, e com ele nos relacionamos com a reverência que o poder do seu significado sagrado manifesta. Este poder consiste no uso consciente do simbolismo, pois é pela experiência simbólica que inalamos a fumaça sagrada do cachimbo, com seus deuses sagrados do mundo arquetípico da alma.

Pelas doze penas de águia, representando o céu e as doze luas nos é dado o poder de conhecer a totalidade da vida infinita e finita, do espírito e da matéria, do sagrado e do prosaico.  O doze sempre está representado pelo tres do ordenado, finito e cíclico, a experiência prática do dia-a-dia. Os quatro simboliza o mundo infinito da alma, onde vislumbramos a visão arquetípica e sem limites, a totalidade cósmica. Ele combina estes dois lados da natureza humana numa síntese: céu e terra, material e espiritual, o mundo comum e o “outro mundo”. Este é o simbolismo dos doze apóstolos que rodeam Cristo em Jesus, num círculo perfeito da mandala cristã, das doze luas do ano solar e, dos doze signos do zodíaco.

De um lado do cachimbo sagrado está entalhado um filhote de bisão, lembrando-nos que a terra e a vida humana doravante renascem incluídas nesta síntese com o sagrado, quando nos aproximamos da Senhora Mulher Espírito Bisão Branco com sabedoria.

Talvez a lição mais importante que o batedor sábio nos ensina, é que a condição de sagrado consiste não apenas no que existe no mundo interior de nossa alma, mas também na atitude que adotamos em relação a ele. Algo é feito sagrado não apenas porque o é em si mesmo, mas pela nossa atitude com relação a ele.  Ao tratá-lo como tal, incorporamos o seu poder.

O grande poder da Mulher-Bisão Branco é manifestado para todos da tribo, somente porque o batedor sábio reconhece que ela é sagrada e lhe confere o devido respeito.

Para que a anima nos confira seus dons, ela depende de alguém, do ego de um indivíduo que abra os olhos para reconhecer os elementos sagrados que ela carrega.

Se o batedor sábio tivesse seguido o caminho do parvo, certamente haveria mais de um esqueleto cheio de vermes aos seus pés. O “outro mundo” não teria desvelado à nação, nenhuma grande tenda teria sido erguida no meio do povo, não haveria o cachimbo sagrado para conclamar a Nação do Trovão e obter a sua ajuda.

Psicologicamente, a característica do sagrado consiste num duplo fluxo de energia: parte é o desvelamento do mundo interior para o ego, parte é a reverência do ego em relação ao mundo interior dos arquétipos.
Quando nosso ego é capaz de reverenciar e quando o respeito e admiração fluem de dentro de nós, somente neste instante é que alguma coisa pode ser “sagrada” para nós.

A maioria das pessoas comporta-se mais como batedor parvo, pois a nossa civilização irreverente em sua maioria, nos ensina desde a infância que nada é sagrado, que tudo que vale a pena possuir é de ordem física ou conceitual. Já o batedor sábio sabe que está diante de algo muito além de sua experiência, algo que não pode se lidar com as costumeiras artimanhas do ego. Ele sente o sagrado naquela mulher, age então com reverência e adverte o batedor parvo: “É uma mulher sagrada; livre-se de todos os maus pensamentos”.

O que o sábio quer dizer quando afirma: “Livre-se de todos os maus pensamentos?” O que faz com que sejam “maus”? Não é por serem ligados a sexo. Os índios norte-americanos – diferentemente de nós – não tinham a tradição cristã do puritanismo, não denegriam o que se relacionava ao físico e ao sexo. O problema é bem mais sutil. O batedor parvo está tentando encontrar no lado sexual da vida algo que não pode estar lá; está tentando transformar a Mulher-Espírito Bisão Branco em algo físico, tentando apreendê-la por meio de um contato físico. Em termos psicológicos, ele está tentando torná-la física, projetando-a numa mulher física e exterior. Os resultados são sempre desastrosos quando fazemos essa projeção: ao invés da benevolente e auspiciosa, a Mulher Espírito Bisão Branco, ele se defronta com Kali, a Deusa da Morte, que o reduz a um monte de ossos descarnados e cheios de vermes no chão.

Se existe algo que possa ser considerado uma blasfêmia psicológica, é a tentativa de converter o sagrado em alguma outra coisa; é tentar transformar o sagrado em “brasa” para a “sardinha” do ego. Sexo, “imoralidade”, não é isso que constitui um pecado psicológico, mas sim, dizer que uma coisa é o que realmente não é tratando-a como se fosse diferente do que é, fazendo de conta que se faz uma coisa, quando se está fazendo outra. Tentar reduzir algo sagrado a um acessório para o mundo do ego.

A Mulher Espírito Bisão Branco nos dá uma instrução: “Volte pra tribo e avise seu povo que estou chegando, e por isso devem construir uma grande tenda para mim no meio da nação”.

Construir para ela uma tenda no meio da nação significa abrir um espaço para a anima e um lugar para o sagrado, bem no meio de nossa vida.

 Significa dedicar tempo e energia para vivenciar a psique, explorar nossa consciência, descobrir quem somos e o que somos quando não somos só este ego. Para um ser ocidental contemporâneo, a primeira coisa necessária é reconhecer que o mundo sagrado existe. Ele precisa considerar que por traz da sua fantasia sobre a mulher “perfeita”, o modo de vida “perfeito”, o relacionamento “perfeito” e o trabalho “perfeito”, que ele está em busca de algo fora desse mundo dos fenômenos, ele está em busca do “seu sagrado”, que habita através da sua psique em sua alma, no seu inconsciente, - logo, não é material e nem física. Ele precisa gastar tempo e energia aprendendo a vivenciar essas energias que se manifestam por símbolos, sonhos ou fantasias – como realidades interiores dele mesmo. É exatamente isso que significa aceitar a Mulher Espírito Bisão Branco tal como ela é, como Mulher-Espírito, e preparar para ela um lugar no centro da nação.

Ela vem caminhando com hálito visível, com pegadas visíveis, caminhando de forma sagrada. Ela virá a nós, se prepararmos para ela uma morada sacra, se abrirmos nossos olhos e a virmos tal qual ela é. Observe, porém, que sua verdadeira morada é feita da matéria de nossas atitudes para com ela, do nosso sentimento de reverência.

O local que preparamos é dentro de nós; se ela realmente vai morar conosco, precisa ser lá.

José Alfredo Bião Oberg




terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Não ficará pedra sobre pedra"...

3/4/2019 11:39


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O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu um processo para apurar a suspeita de fraudes em negócios feitos por uma empresa do ministro da Economia, Paulo Guedes, com fundos de pensão de estatais. O processo tem como base uma representação do Ministério Público Federal (MPF) que apura suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária na captação e aplicação de R$ 1 bilhão de sete fundos de pensão a partir de 2009.



Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a investigação do TCU foi aberta em fevereiro deste ano a partir de uma representação do MPF, que já apurava a suspeita de irregularidades na Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) e na Fundação dos Economiários Federais (Funcef), fundo de pensão dos funcionários da Caixa. Também estão sob suspeita negócios feitos com a Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Postalis (Correios).



De acordo com as investigações, os recursos teriam sido alocados por meio de participações (FIPs) da BR Educacional e Brasil de Governança Corporativa, empresa que pertencia a Guedes até o final do ano passado e que foi criada para atuar como gestora de ativos. Para o MPF, as operações resultaram em ganhos excessivos para Guedes enquanto os fundos de pensão, que arcaram com o aporte financeiro, tiverem prejuízos ou ganhos menores que o esperado.

Por meio de nota, a defesa do ministro destacou a "legalidade e a correção de todas as operações dos fundos, que, diga-se de passagem, têm sido lucrativos aos cotistas, incluindo os fundos de pensão".

terça-feira, 25 de junho de 2019

O Cristianismo ajudará a Besta


Caio Fábio

Se Jesus não tivesse dito que Seu reino não é deste mundo, então teríamos que dizer que o Cristianismo venceu.
O Cristianismo se tornou uma poderosa potestade deste mundo. A mais poderosa delas.
De fato, quando se tornou religião no quarto século, o Cristianismo entrou num mundo no qual nenhuma religião, até então, havia penetrado com tanta força.
Nesses dois mil anos de dominação cristã no Ocidente vimos “uma fé”, aliás, a fé ser diluída, corrompida, deformada, e metamorfoseada em outra coisa que nega a essência original.
Não é apenas uma questão de forma, trata-se de algo muito mais visceral ainda, e que penetra o âmago daquilo que um dia foi a fé em Jesus.
Foram dois mil anos de busca desenfreada do poder, de privilégios, de controle de reis e de príncipes, de usos e abusos da máquina pública em seu próprio favor, sempre aliando-se ao lado que haveria de vencer. O Cristianismo sempre encontra um meio de abençoar o tirano—pode até reagir no início, mas sempre se rende depois.
E foram todas as intervenções que o Cristianismo fez. Desde bênçãos, aos mais macabros projetos de “conquistas”, às mais inconcebíveis perseguições dos direitos individuais, sempre em nome de sua moral cristã, supostamente superior à do resto da humanidade.
No nível individual, o sexo foi o “demônio” eleito pelo demônio da “igreja” para sofrer as punições em lugar dos demais demônios, muito mais verdadeiros, e que se fantasiaram de cardeais, arcebispos, bispos, sacerdotes e pastores a fim de se esconderem... enquanto faziam suas próprias maldades contra o próximo. “Controle” é a palavra. Controle dos homens pelo medo, pelas punições eternas e temporais; e controle pela manipulação da devoção, transformando o medo em piedade, e os terrores eternos em suposto temor a Deus.
O maior golpe de todos foi a instituição da “Igreja” como representante dos desígnios divinos na Terra. Conseguiram essa façanha no passado e continuam a conseguir até hoje.
É impressionante, mas o povo pensa que aqueles carinhas vestidos de sacerdotes, pastores, bispos, ou de qualquer outra fantasia sacerdotal... representam Deus.
O povo crê... e isso é que é trágico e engraçado.
No Brasil atual, vemos uma das mais sofisticadas formas de expressão dessa força do Cristianismo em plena manifestação. É verdade que esse Poder Maior gerou — até pela inveja e pelo desejo de obter parte de seu poder — uma legião de filhotes da mesma natureza. Todavia, para quem gosta de ver e admitir a força dos fenômenos históricos, não há como negar que a Igreja Universal do Reino de Deus é a maior e mais sofisticada forma de adaptação do Cristianismo aos poderes deste mundo. Está vencendo a Igreja Católica. Também já deixou pra trás todos os concorrentes americanos.
É uma máquina. Máquina como nunca antes se havia criado. Máquina de comunicação, de manipulação do sagrado, de venda de favores divinos, de acorrentamento das pessoas ao poder que reside no “Lugar”, e de transformação do rebanho num “rebanho”.
Se as coisas continuarem assim...
Bem, o Cristianismo crescerá apenas nos lugares onde ele já está presente, pois seu atrelamento aos poderes políticos é tão profundo que já não lhe resta a isenção que é filha da sinceridade para com o Evangelho — e só pra com o Evangelho — a fim de compartilhar o Evangelho do Reino com as nações da Terra.
Também nesse sentido, devemos dizer que os evangélicos conseguiram o que sempre desejaram: ser mais poderosos.
Hoje pode-se dizer que os evangélicos têm poder. E aqui eu não estou preocupado em separar nada dentro desse pacote. Não há mais porque separar uma coisa da outra, dividindo o grupo em subgrupos, etc. De fato, é tudo a mesma coisa, e o que os une é a fixação pelo poder.
Sei que um monte de gente fica irritada com tais generalizações... mas não vou mais fazê-las: na hora do “vamos ver”, todos tocam e dançam a mesma música. São iguais.
Poder nos Estados Unidos e poder na Inglaterra... E muito poder no Brasil.
Hoje em dia os Estados Unidos e o Brasil são das duas máquinas políticas dentro das quais o Cristianismo tem seu maior poder.
O problema é que Jesus disse “...o meu reino não é deste mundo...”
Então, assim estamos, cheios de influências, próximos do poder, usufruindo dele, fazendo barganhas, levando vantagem, enriquecendo, assustando o mundo com a nossa falta de caráter, e nos tornando parte da Grande Babilônia.
O que acabei de dizer o fiz com responsabilidade. Quem desejar, que me julgue em alguns anos. Estou dando a cara para apanhar.
Repito: o Cristianismo é parte da Grande Babilônia, ajudará a Besta, e se unirá em voz ao Falso Profeta.
A Igreja que sobreviverá a tais tempos é a mesma que sobreviveu em todos os tempos: aquela que é salva pela terra quando a fúria do Dragão se manifesta:
“...então a terra salvou a mulher que estava para dar a luz...” diz o Apocalipse.
A verdadeira Igreja é salva porque ela não está tão disponível assim aos sentidos históricos, como fenômeno. Sabe-se dela, mas ela não sucumbiu à fixidez das forças do poder. Daí ela estar presente, porém com grande capacidade de se espalhar pela Terra.
A verdadeira Igreja é hebréia... está sempre em movimento... não se deixa prender por nenhuma estrutura. A verdadeira Igreja usa circunstancialmente essas “coisas”, mas não se deixa usar por elas. De fato, ela não as usa... ela as sobrevive.
A verdadeira Igreja sabe que quanto mais poder tiver entre os homens, menos poder terá no Espírito.
A verdadeira Igreja sabe que o poder fica perfeito na fraqueza.
A verdadeira Igreja quer se parecer com Jesus, e não sonha para si nenhum futuro de conquista da Terra e de seus poderes.
O Cristianismo venceu... É um “case” de total sucesso. Seu patrono deveria ser Maquiavel.
Quem quiser ser discípulo, siga a Jesus de Nazaré. O único problema é que com Ele a gente não aprende as maldades tão necessárias para que se possa ser um líder cristão bem-sucedido.
Quem sabe o ideal seja o nome de Jesus para enganar e Maquiavel para ser o mentor.

Um abraço,
Caio

P.S: Fique atento, pois, amanhã, Quarta-feira, você terá uma grande oportunidade de entender melhor o que é fazer parte da verdadeira igreja e ser verdadeiro discípulo de Jesus.

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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Pilger: é hora de salvar o jornalismo


Há uma guerra global pelo controle de informações. Divulgá-las provoca fissuras no sistema, como já fizeram Assange e Greenwald. O direito a saber é a batalha do século. É por isso que governos autocráticos declaram cruzada contra dissidentes


OUTRASPALAVRAS
Publicado 18/06/2019 às 21:09 - Atualizado 18/06/2019 às 21:16
John Pilger entrevistado por Dennis J Bernstein Randy Credico | Tradução: Gabriela Leite Simone Paz
O cineasta John Pilger, cujo trabalho é afiado e digno de prêmios como o Oscar e o Emmy, é reverenciado e celebrado por jornalistas e editores em todo o mundo. Quando ainda estava em seus vinte anos, Pilger se tornou o jornalista mais jovem a receber o principal prêmio britânico da categoria, o “Jornalista do Ano”, o qual também foi o primeiro a ganhá-lo duas vezes. Após se mudar para os Estados Unidos, relatou as revoltas do final dos anos 1960 e dos 1970. Pilger estava na sala no momento em que Robert Kennedy, então candidato presidencial, foi assassinado em junho de 1968.
Sua reportagem sobre o sudeste asiático e o documentário que veio depois, Ano Zero: A Morte Silenciosa do Camboja, levantou quase 50 milhões de dólares (193 mil reais) para as pessoas daquele país atingido. De maneira semelhante, seu documentário de 1994 e o relatório de despachos do Timor Leste, para onde viajou secretamente, ajudou a estimular apoio aos timorenses, cujo território estava então ocupado pela Indonésia. Na Grã-Bretanha, sua investigação de quatro anos em nome de um grupo de crianças debilitadas ao nascer pela droga Talidomida, e deixadas de fora do acordo com a farmacêutica, teve, como resultado, um acordo especial. Em 2009, foi agraciado com o prêmio de direitos humanos da Austrália, o Sydney Peace Prize. Recebeu títulos de doutorado honorários de universidades no Reino Unido e outros países. Em 2017, a Biblioteca Britânica anunciou um Arquivo John Pilger de todos os seus trabalhos em texto e filme.
Nessa entrevista com Dennis J. Bernstein e Randy Credico, Pilger fala sobre o que está acontecendo com seu amigo e colega Julian Assange, fundador e editor do WikiLeaks, e como sua perseguição pode ser o começo do fim da reportagem investigativa moderna como a conhecemos. Desde sua alardeada encarceramento em prisão de segurança máxima, jornalistas e whistleblowers [indivíduos que denunciam más condutas de governos e instituições] têm sido perseguidos, presos e seus documentos e discos rígidos apreendidos em países como os EUA, França, Grã Bretanha e Austrália.
Bernstein: É bom falar com você de novo, John. Obrigado por conversar conosco. Isso que está acontecendo — não apenas com Julian Assange — mas com o futuro do jornalismo, é perturbador. Agora, temos visto ataques a jornalistas na Austrália, França e aqui nos EUA em São Francisco, onde a polícia algemou um repórter enquanto vasculhava sua casa e apreendia seu HD. Sabemos que Julian Assange está em uma prisão de segurança máxima e Chelsea Manning também está encarcerado. São tempos terríveis para o fluxo livre de informação.
Pilger: Bem, isso agora está acontecendo em todo o mundo, inclusive em toda a parte daquele mundo que se gaba de ser “iluminado”. Estamos presenciando a represália aos whistleblowers e jornalistas que se atrevem a dizer a verdade. Há uma guerra global contra o jornalismo. Mais do que isso, há uma guerra global contra os dissidentes. A velocidade com que esses eventos acontecem está bem acentuada desde 11 de abril, quando Julian Assange foi arrastado pela polícia para fora da embaixada equatoriana em Londres. Desde então, a polícia tem se voltado contra jornalistas nos Estados Unidas, na Austrália e, de maneira mais espetacular, na América Latina. É como se tivesse sido acionado um sinal verde para eles.
Credico: Eu achava que a essa altura Assange já estaria solto. Você também não pensou que chegaria um momento em ele estaria livre da situação terrível que estava quando o vi, há dois anos atrás?
Pilger: Estou relutante em fazer futurologia. Realmente pensei que um acordo político teria sido feito. Olhando para trás, isso era extremamente ingênuo porque o extremo oposto tinha sido planejado para Julian Assange. Há um “precedente Assange” funcionando em todo o mundo. Na Austrália, houve um ataque a uma emissora pública, a Australian Broadcasting Corporation, onde a polícia federal entrou com mandados, um dos quais os dava permissão para deletar, alterar e se apropriar do material de jornalistas. Foi um dos ataques mais estrondosos à liberdade jornalística e inclusive à liberdade de expressão de que tenho lembrança. Vimos até a News Corporation de Rupert Murdoch ser atacada.
A editora de política de um dos jornais de Murdoch, o The Sunday Telegraph, viu sua casa ser saqueada e seus pertences pessoais, íntimos, pilhados. Ela havia feito uma reportagem sobre a extensão da espionagem oficial dos australianos realizada por seu governo. Algo similar aconteceu na França, onde a polícia do [presidente Emmanuel] Macron moveu uma ação contra jornalistas da revista Disclose.
Assange previu isso enquanto estava sofrendo acusações e abusos. Ele dizia que o mundo estava mudando e que as chamadas democracias liberais estavam se tornando autocracias. Uma democracia que põe sua polícia contra jornalistas e confisca suas notas e computadores, simplesmente porque revelaram algo que o governo não queria que o povo soubesse, não é uma democracia.
Credico: Sabe, John, alguns representantes da mídia empresarial aqui nos EUA e, acredito, no Reino Unido, agora que perceberam que o tiro, possivelmente, saiu pela culatra, subitamente saíram em defesa de Assange, particularmente quanto ao uso do Ato de Espionagem e ao recolhimento de informação. Não quero denunciá-los por terem esperado tanto tempo, mas porque eles esperaram tanto e que tipo de ajuda podem oferecer a essa altura? E o que eles deveriam fazer, já que também estão na mira?
Pilger: Vamos ver quem está realmente na mira. O WikiLeaks copublicou os registros das guerras do Afeganistão e do Iraque em 2010, em colaboração com várias organizações de mídia: Der Spiegel na Alemanha, The New York Times nos EUA, The Guardian no Reino Unido e Espresso na Itália. Quem mais publicou o material do Iraque foram Al Jazeera, Le Monde, o Bureau of Investigative Journalism de Londres, o programa Dispatches do Channel 4 em Londres, o projeto britânico Iraq Body Count, o RUF (Islândia), o SVT (Suécia) e por aí vai.
Existe uma lista de jornalistas que relataram esses fatos e trabalharam com Assange. Isso fez seu trabalho ecoar; eram colaboradores no sentido literal. Estou com uma lista agora mesmo: no The New York Times tem Mark Mazzetti, Jane Perlez, Eric Schmitt, Andrew W. Lehren, C. J. Chivers, Carlotta Gall, Jacob Harris, Alan McLean. Do The Guardian são Nick Davies, David Leigh, Declan Walsh, Simon Tisdal… e a lista continua. Todos esses jornalistas estão na mira. Eu não acredito que muitos vão acabar entrando em apuros como Julian Assange porque não representam um perigo ao sistema que reagiu contra Assange e Chelsea Manning; mas eles, prima facie, cometeram os mesmos “crimes”. Em outras palavras, são tão “culpados” quanto Assange de cometer jornalismo.
Isso se aplica a centenas, se não milhares, de jornalistas ao redor do mundo. As divulgações do WikiLeaks, se não copublicadas, foram ignorados por jornais, revistas e programas investigativos de televisão em todas as partes. Isso faz com que todos os jornalistas estejam envolvidos, todos os produtores, todos os apresentadores, todos eles são cúmplices. E, é claro, a perseguição de Assange e a intimidação de alguns outros representa um escárnio à Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que diz que você tem todo o direito de publicar; você tem todo o direito de “publicar e ser amaldiçoado”. É um dos mais nobres e demonstráveis princípios da constituição norte-americana que está sendo jogado no lixo. E a ironia é que os jornalistas que olharam de forma enviesada para Assange, ainda alegando que ele não era jornalista, estão agora correndo para cobrir, não porque ele é um jornalista da mais alta grandeza, mas porque ele é um jornalista com mais consciência do que muitos deles mesmos. Ele — e os outros em sua sombra — estava fazendo um trabalho básico do jornalismo. É por isso que chamo isso de guerra global contra o jornalismo — e o precedente aberto por Julian Assange não se parece em nada com o que vimos antes.
Bernstein: John, quero pegar o ponto de onde você estava, na pergunta de Randy, e esmiuçar e aprofundar o entendimento das pessoas sobre quem exatamente é Julian Assange e, se me permite, o ritmo que ele escolheu para seu trabalho. Como você descreve esse ritmo de Julian Assange e as pessoas que escolheu para trabalhar com ele?
Pilger: Quando conheci Julian Assange, perguntei a ele: “De que se trata, afinal, o WikiLeaks, e o que você está fazendo aqui?”. Ele descreveu muito claramente o princípio da transparência. Na verdade, estava descrevendo o princípio da liberdade de expressão: que temos o direito de saber. Temos o direito de ter conhecimento sobre o que nossos governos estão fazendo em nosso nome. Ele não estava dizendo que há um direito de pôr as pessoas em perigo. Estava dizendo que no jogo normal das democracias liberais temos o direito de saber o que o governo está fazendo por nós, às vezes até conspirando contra nós e em nosso nome. Temos o direito de saber a verdade sobre o que eles dizem em privado, o que tão frequentemente é traduzido em inverdades em público. Essa transparência, ele disse, era um princípio moral. Essa é a “razão” do WikiLeaks. Ele acredita nisso fervorosamente e, claro, isso deveria tocar em todos os jornalistas autênticos, porque é isso que nós todos deveríamos acreditar.
O que o caso Assange nos mostrou é que essa guerra contra o jornalismo, essa guerra contra o dissidente, ainda tem que entrar na corrente sanguínea da política. Nenhum dos candidatos que concorre à presidência dos Estados Unidos chegou a mencionar o assunto. Nenhum dos Democratas proferiu uma palavra. Não esperamos que a gangue de Trump fale sobre princípios como esses, mas há alguns ingênuos que acreditam que talvez alguns dos democratas deva fazer. Nenhum deles fez.
Bernstein: [O que significa quando] Julian Assange e Chealsea Manning, um editor e um dos mais importantes whistleblowers militares de nosso tempo, estão na prisão e encarcerados?
Julian Assange
Pilger: Eles querem pôr suas mãos em Julian Assange porque ele protegeu sua fonte e eles querem pôr as mãos em Chelsea Manning porque ela, sendo a fonte, se recusou a mentir sobre Julian Assange. Ela recusou-se a implicá-lo. Recusou-se a dizer que há uma conspiração entre eles. Esses dois exemplificam o que é a mais pura alegação da verdade na era moderna. Fomos desprovidos de duas pessoas como Assange e Chelsea Manning.
Sim, houve excelentes reportagens investigativas e revelações, mas temos que voltar ao nível de Daniel Ellsberg [militar que, em 1971, forneceu ao The New York Times o Pentagon Papers] para apreciar o que Chelsea e Julian, essas duas figuras heroicas, o que elas nos deram, e por que estão sendo perseguidas.
Se permitimos essas perseguições, tudo está perdido… A intimidação e a supressão vão agir em toda nossa vida. Na mídia que outrora abusou de Assange, eu vejo medo. Você lê alguns desses editoriais escritos por aqueles que uma vez atacaram Julian Assange e acusaram-no, tais como o The Guardian, e você os percebe temendo ser os próximos. Você lê colunistas famosos como Katie Benner, no The New York Times, que atacou Assange e agora vê uma ameaça de seus algozes a todos os jornalistas. O mesmo é verdade para David Corn [da Mother Jones], que agora vê a ameaça para todo o jornalismo. E eles têm razão em estarem assustados.
Credico: Qual era o medo que se tinha de Assange? Que ele continuaria a trabalhar em novos métodos de exposição? Por que estão tão assustados com Assange?
A Polícia Federal australiana em sua incursão ao escritório da ABC, em Sidney
Pilger: Bem, acredito que estavam preocupados — estão preocupados — que entre os dois milhões de pessoas nos EUA que têm uma autorização de segurança nacional estejam entre aqueles que Assange chamou de “objetores conscienciosos”. Uma vez pedi a ele para descrever as pessoas que estavam usando o WikiLeaks para liberar informações importantes. Ele os comparou aos objetores conscienciosos nos tempos de guerra, pessoas de princípios e de paz, e eu acho que é uma descrição bem apropriada. As autoridades estão preocupadas com a possibilidade de que haja algumas outras Chelseas por aí. Talvez não tão corajosas ou ousadas como Chelsea, mas que podem começar a soltar informações que enfraqueçam todo o sistema da máquina de guerra.
Credico: Sim, falei com Julian sobre isso mais ou menos um ano atrás, quando estava em Londres, sobre tentar fazer uma comparação com o sul norte-americano na guerra de secessão e jornalistas como Elijah Lovejoy e David Walker, que foram assassinados por expôr a brutalidade e o destino da escravidão. Eu disse: “Sabe, nós precisamos começar a te mostrar desse ponto de vista”, ao que ele respondeu: “há uma grande diferença, Randy”. Ele disse isso: “veja, aqueles homens só tiveram que lidar com um dos lados, e foi isso; as pessoas no sul e algumas de suas colaboradoras em Nova York, que foram parte dos negócios de transporte de algodão. Mas o resto do norte estavam praticamente todo do lado dos abolicionistas. Eu expus crimes de guerra e isso fez com que os conservadores se irritassem. E então expus o mal comportamento e a prevaricação no Partido Democrata. Então, todos eram meu alvo, eu não poupo ninguém, então isso não se aplica a mim”.
E foi isso que aconteceu aqui. Você enxerga isso pelo reduzido número de protestos em seu nome. Eu fui a uma manifestação outro dia, um pequeno protesto por Assange em frente à embaixada britânica, e apenas meia dúzia de pessoas estavam lá, um pouco mais do que na semana anterior. Ele não está gerando esse tipo de interesse até agora. E você via pessoas que passavam por lá e diziam “Assange é um traidor”. Quer dizer, estão tão desinformadas, e agora tenho que usar a citação que você usou, de Vandana Shiva, em seu livro Freedom Next Time, que trata da “insurreição do conhecimento subjugado”. Você pode falar sobre isso?
Vandana Shiva
Pilger: Vandana Shiva é uma grande ambientalista e ativista política indiana, cujos livros sobre a ameaça da monocultura são referência, especialmente a ameaça de empresas multinacionais de agroenergia que se impõe em sociedades vulneráveis e rurais como a Índia. Ela descreve uma “insurreição do conhecimento subjugado”. É um ótimo truísmo. Eu por muito tempo acreditei que a verdade reside em um mundo metaforicamente subterrâneo e sobre isso está todo o ruído: o ruído dos políticos credenciados, o ruído da mídia credenciada, aqueles que parecem estar falando por quem está abaixo deles. De vez em quando, contadores de verdade emergem de baixo. Pegue, por exemplo, o correspondente de guerra australiano, Wilfred Burchett, que foi o primeiro a ir a Hiroshima depois do bombardeio atômico. Seus relatos foram capa de seu jornal The Daily Express, em Londres, nos quais dizia “eu escrevo isso como um alerta ao mundo”. Estava alertando sobre armas nucleares. Tudo foi jogado contra Burchett para acusá-lo e desacreditá-lo. O correspondente do New York Times liderava esse movimento: a mesma pessoa que negou que as pessoas estavam sofrendo efeitos da radioatividade: que pessoas tinham morrido apenas na explosão. Depois, descobriu-se que ele estava mancomunado com autoridades norte-americanas. Wilfred Burchett sofreu acusações ao longo de toda sua carreira. Todos os whistleblowers passam por isso — aqueles que são afrontados pela indecência de algo que descobrem, talvez em uma empresa para a qual trabalham ou dentro de um governo — eles acreditam que o público tem o direito de saber a verdade.

O Guardian, que atacou Julian Assange com tanta crueldade, tendo sido um dos parceiros de mídia do WikiLeaks, nos anos 1980 publicou documentos de um oficial do Ministério das Relações Exteriores que relatava planos dos EUA de instalarem mísseis de cruzeiro de médio alcance ao longo da Europa. O Guardian publicou isso e foi devidamente elogiado em um documento de divulgação e princípio. Mas quando o governo foi à justiça e um juiz exigiu que o jornal entregasse os documentos que revelariam quem era o denunciante — ao invés do editor fazer o que editores devem fazer, defender os princípios e dizer “não, não vou revelar minha fonte” — o jornal traiu sua fonte. Seu nome é Sarah Tisdall e ela acabou presa. Então, whistleblowers tem que ser pessoas extraordinariamente corajosas e heroicas. 

Quando você olha para tipos como Julian Assange e Chelsea Manning é como se toda a força da segurança de Estado nacional norte-americana, apoiada por seus chamados aliados, tenha sido imposta a eles. Julian representa um exemplo de que eles têm que fazê-lo, porque se não transformá-lo em um exemplo, jornalistas podem ser encorajados a fazer seu trabalho, e esse trabalho significa contar ao público o que ele tem direito de saber.

Credico: Muito bem dito. No prefácio ou introdução de seu livro, Freedom Next Time, você também cita Harold Pinter e seu discurso vencedor do Prêmio Nobel, no qual ele fala sobre a vasta tapeçaria de mentiras que alimentamos, e ele segue adiante e diz que os crimes norte-americanos foram superficialmente registrados, que dirá documentados, que dirá conhecidos. Julian Assange quebrou essa conduta pra valer, expôs crimes de guerra cometidos pelos EUA e todo tipo de travessuras que o Departamento de Estado tenha perpetrado. Você fala de Harold Pinter, da grande influência que ele foi.

Pilger: Sim, eu recomendo aos seus ouvintes o discurso de recebimento do Prêmio Nobel de Harold Pinter. Acredito que foi em 2015. Foi um testamento eloquente e magnífico sobre como e porque a verdade precisa ser contada e também por quê não deveríamos mais tolerar a hipocrisia dos políticos de duas caras.

Harold Pinter fez um paralelo entre nossa visão sobre a União Soviética e os crimes de Stalin, comparada com a dos crimes dos Estados Unidos; ele disse que a maior diferença é que nós temos ciência da magnitude dos crimes de Stálin, mas que sabemos muito pouco sobre os crimes de Washington. Ele comentava que o ensurdecedor silêncio que envolve nossos crimes — quando digo “nossos”, me refiro àqueles dos Estados Unidos — significam, como ele disse memoravelmente: “estes crimes nunca ocorreram, não aconteceram nem quando estavam ocorrendo, eles não são de interesse público e não têm a menor importância”.

Nos livramos desse duplo padrão, com certeza. Acabamos de ter uma celebração escorregadia do 6 de junho, o Dia-D. Essa foi uma invasão extraordinária na qual muitos soldados tomaram parte e deram suas vidas, mas isso não fez com que a guerra fosse vencida. A União Soviética na verdade ganhou a guerra, mas os russos não eram nem representados, não eram nem convidados a falar sobre isso. Isso não aconteceu, como Pinter costumava dizer. Isso não importou. Mas Donald Trump estava lá, palestrando ao mundo sobre guerra e paz. É uma sátira horrível. Esse silêncio, essas omissões, correm em todos os nossos jornais, como se fosse mesmo uma aparência de verdade, e não é.

Bernstein: Quero voltar ao ponto de Wilfred Burchett e a enorme responsabilidade que esses grandes jornalistas têm de permitir que coisas terríveis continuem acontecendo sem serem noticiadas, baseados em questões de patriotismo e alegações de segurança nacional. Estou pensando, tiveram que calar Wilfred Burchett porque aquilo poderia ter aberto a porta toda de como são perigosas as armas nucleares e o poder nuclear, detonando o mito da paz atômica.

Pilger: Isso é totalmente verdade, Dennis, e isso também mina os planos morais da “Guerra Boa”, a Segunda Guerra Mundial que acabou com esses dois grandes crimes: o bombardeio atômico de Hiroshima e de Nagasaki em um momento em que o Japão não representava nenhuma ameaça. Historiadores confiáveis agora não nos contam os contos de fadas de que essas bombas atômicas eram necessárias no fim da guerra. Então, isso destruiu em muitos aspectos a grande missão moral da guerra.

Não apenas fez isso, como declarou no bombardeio atômico que uma nova guerra estava começando, uma “Guerra Fria”, apesar da possibilidade de se tornar rapidamente uma “guerra quente” com a União Soviética. E com isso estava dizendo que “nós” — ou seja, os Estados Unidos e aliados como os britânicos — temos armas nucleares e estamos prontos para usá-las. Essa é a chave: estamos preparados para usá-las. E os Estados Unidos foram os únicos que já chegaram a usá-las contra outro país.

Claro que, depois, isto foi testado nos Territórios de Confiança da ONU. Era para ser mantido em confiança pela ONU nas Ilhas Marshall e acabou dando início a várias Hiroshimas ao longo de 12 anos. Naquele tempo, nós não sabíamos nada disso. Mas e quanto sabemos sobre as ogivas nucleares (tipo de míssil) que o Presidente Obama solicitou e que comprometeram cerca de um trilhão de dólares? — às quais, certamente, o presidente Trump deu continuidade.

E aqueles tratados que ofereciam uma defesa precária contra um holocausto nuclear, tratados com a União Soviética, como o de armas de médio alcance, que foi rasgado por esta administração? Uma coisa leva à outra. Isto é contar a verdade.

Bernstein: quero voltar e lembrar as pessoas que tipo de estrutura Julian Assange criou com o WikiLeaks para proteger whistleblowers. Esse é um ponto crucial porque temos visto agora outros jornalistas sendo mais cuidadosos e vemos fontes sendo rastreadas, presas, e enfrentando grandes tempos de cadeia. E acredito que foi assim que Julian Assange honrou os whistleblowers, protegê-los é uma parte crucial de quem ele é e o que ele fez.

Pilger: Ele inventou um sistema através do qual é impossível dizer quem foi a fonte e isso permitiu pessoas usarem algo como um buraco de caixa de correio para vazar materiais sem terem sua identidade divulgada. É provavelmente isso que enraiveceu aqueles que estão perseguindo Assange. Significa que pessoas de consciência dentro dos governos, dentro de sistemas, que ficam incomodadas como Chelsea Manning, que ficou profundamente perturbada com o que viu, tenham a oportunidade de contar ao mundo, sem temer que tenham sua identidade exposta. Infelizmente, Chelsea revelou sua identidade a alguém que a traiu. É um meio sem precedentes de descobrir a verdade.

Bernstein: John, conte-nos sobre sua visita recente a Assange no presídio de segurança máxima de Belmarch, na Grã-Bretanha. Como ele está?

Pilger: Eu gostaria de dizer uma coisa sobre Julian, pessoalmente. Eu vi Julian na prisão de Belmarsh e eu tive uma sensação vívida do que ele tem que suportar. Eu vi a resiliência e coragem que conheço há tantos anos, mas agora ele está indisposto. A pressão sobre ele é inimaginável, a maior parte de nós teria se curvado diante disso. Mas há uma questão aqui de justiça por esse homem e o que ele teve que enfrentar; não apenas as mentiras que foram contadas sobre ele na embaixada e as grandes farsas que buscavam assassinar sua reputação. A chamada mídia respeitável, do New York Times ao The Guardian, todos caíram na lama e a jogaram nele; e hoje ele está muito vulnerável e eu vou dizer isso aos ouvintes: ele precisa de nosso apoio e solidariedade. Mais importante, ele merece.

Bernstein: Fale um pouco mais sobre as condições do lugar e por que é tão significativo que o deixem por um ano numa prisão como essa.

Pilger: Bom, eu suponho que por causa da ameaça que ele significa. Mesmo com Julian preso, o WikiLeaks segue. Essa é uma prisão de segurança máxima. Qualquer um preso por infração de fiança, antes de mais nada, não teria sido condenado a 50 semanas, como ele foi. Poderiam receber uma multa ou um mês, no pior dos casos. Mas é claro que isto, agora, significou uma extradição, um caso com todos esses encargos ridículos vindos de uma acusação na Virgínia. Mas Julian, como indivíduo, o que sempre me chocou, é que ele é exatamente o oposto da imagem que seus detratores relatam. Ele tem um intelecto aguçado, então é muito inteligente, evidentemente.

Ele é muito engraçado e divertido. Sempre dou risadas com ele. Nós, inclusive, conseguimos rir da última vez em que o vi na embaixada, quando tinha um monte de câmeras na sala, e trocamos anotações em que tínhamos que cobrir o que aquilo que estávamos escrevendo.
Ele deu um jeito de rir disso. Então ali você tem um tipo de humor seco, quase humor negro, ao mesmo tempo em que ele é uma pessoa muito apaixonada; mas sua resiliência é o que sempre me deslumbrou. Já tentei me imaginar no lugar dele, e não consegui. Quando o vi na cadeia, e tivemos que nos sentar na frente um do outro, eu estava com mais um casal. Um de nós deu a volta ao redor da mesa, só para ficar mais perto dele, quando foi impedido pelos seguranças. Esse tipo de situação é o que uma pessoa que não cometeu nenhum crime — sim, ele cometeu o crime do jornalismo — tem que aturar.