quarta-feira, 18 de abril de 2012

Dois proveitos não cabem em um saco...

Os Trabalhadores na Vinha
Mc 4:1-20

Se as parábolas de Jesus girassem sempre no plano material, todas elas teriam um simbolizado injusto. Só que as injustiças pairam sempre sobre os símbolos materiais da parábola e, não sobre o seu simbolizado espiritual.

Por isso, encontramos cristãos preocupados com as imagens de barro ou madeira que de certa forma não dignas de reverência sagrada alguma. É a confusão dos que se preocupam com o dedo que aponta o Caminho, e não com o Caminho!

A “turma do dedo”, sempre está de plantão quanto à forma exterior que a imagem possui, se há algum ritual agregado, qual dos “dedos” que aponta o Caminho sagrado, em que mão ele se encontra, etc. Isso se compara, ao nome da Igreja, tipo de congregação, CNPJ, ideologia cristã, teologia, tradutor bíblico, se guarda o sábado, se é pentecostal ou neo-pentescostal, se é tradicional ou ortodoxa, etc.

A parábola aqui acima, não trata do plano quantitativo e horizontal do nosso ego que é aqui representado por valores de ganhos e perdas de forma quantitativa, nunca de forma qualitativa.

“O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha...”

Se alguém gasta 12 horas de trabalho tem de ganhar uma recompensa correspondente ao seu esforço e gasto. Trabalho é despesa, esforço, recompensa é receita e premiação.

Este é o nosso mundo com as suas leis. Se assim não fosse, não haveria a necessidade deste tipo de barganha...  A igualdade entre o gasto e o ganho como recompensa, fazem parte daquilo que se julga justiça no mundo material.

Aqui, o tempo de trabalho material é previamente combinado entre as partes. O tempo de trabalho é injustamente desproporcional ao pagamento das partes envolvidas, já que uns trabalham “... por um dia, com o pagamento de um denário, outros, na terceira hora, que estavam desocupados, tratados por um pagamento justo, outros ainda, na sexta e nona hora. Perto da undécima hora, saiu e encontrou outros desocupados, e perguntou-lhes: Porque estiverdes desocupados o dia todo? Responderam-lhes: Porque ninguém nos contratou. Disse-lhes: Ide vós também para vinha, e recebereis o que for justo.” O símbolo material de injustiça está bem expresso aqui. Só que segundo o seu simbolizado espiritual, e, como tal, nada tem que ver com as categorias de tempo, espaço, quantidade, ganhos, perdas e recompensas, que são próprias do mundo e, ambiente próprio do ego, pois o mesmo só se encontra em meio a paradoxos. No Reino espiritual, não há tempo, quantidade, espaço, perdas e ganhos combinados previamente; só há Eternidade, Qualidade e Graça.

Só que na visão de Jesus e, segundo as suas palavras: “Quando tiverdes feito tudo que devíeis fazer, dizei: somos servos inúteis (sem crédito e sem direito a recompensa), porque cumprimos a nossa obrigação, nenhuma recompensa merecemos por isto”.

Isso, se todos estivessem na dimensão espiritual Cristica; mas não foi o que aconteceu.

“Suportando o peso e o calor do dia”, como um da primeira hora alega, ao se ver injustiçado com o pagamento do mesmo valor que os últimos receberam. Mas o empregador pagou um denário também aos outros que trabalharam menos de doze horas, aos quais também ajustou assim: ...”e dar-vos-ei o que for justo”.

Podemos dizer então que alguns foram pagos, outros recompensados e, os últimos, agraciados, pois foram dados pelo empregador.
Diante das reclamações, como que ele justifica a sua ação? Apenas assim: “Não me é lícito fazer do que é meu o uso que eu quero? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?”

“Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros, últimos: pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos.”
Todos receberam, porém, os agraciados são os escolhidos da última hora, por serem Eus sapiens e, não egos virtuosos, que precisam ser recompensados por fazerem os seus trabalhos devidos. Aqueles que fazem questão deste tipo de recompensa, segundo Jesus: “Já receberam o seu galardão.” São seres da “carne”, não do espírito; pois os últimos crêem com fé na promessa da justiça e da graça. Não há a necessidade de se estabelecer metas e ganhos para se atingir o Caminho... O Caminho é que é a meta!

 Eu, pessoalmente comparo a esses com o pessoal das igrejas de hoje, pois, são “evangelizados” com promessas de melhorias materiais; sejam elas, no meio familiar, no trabalho e na aquisição de bens, como: casa, carro etc. 

Tanto que encontramos em vários bens perecíveis, adesivos, justificando a aquisição daquele bem como sendo uma “graça” de Jesus.
Por Moisés, nos foi dada a lei – por Jesus, o amor, a graça e a verdade. Os trabalhadores de Moisés trabalham dentro da lei da obediência, o temor a Deus, ao castigo e a recompensa.   Os de Jesus, o amor a Deus e ao próximo, a fé e a graça.

Ter merecimento neste mundo diante de Jesus é ter direito a uma recompensa, - é ser credor de um Deus devedor... É o ser que se acha justificado por “merecimento” ou por ser evangélico!  Se pessoas passam a ser boas por temerem o castigo ou almejam uma recompensa por isso, então, concluo  elas serem muito desprezíveis, manipuladas por oportunistas, que reconhecem nelas essas características e tiram proveito próprio.

Os da “última hora” são abertos e receptivos ao transbordamento e a plenitude divina.

A natureza toda recebe automaticamente desse transbordamento divino e, dessa plenitude de forma inconsciente, sem poder obstruir, julgar, nem alargar os seus canais para maior receptividade. Porém o homem, dotado de livre arbítrio, tem a possibilidade de se julgar uma obra inacabada, imperfeita, que tem a possibilidade através dos seus próprios méritos e qualidades espirituais e religiosas, alargar os seus canais, e assim, ter um “merecimento” racional e consciente, baseado nestas premissas.
Observem o que Ele diz: “Não tenho eu o direito de fazer dos meus bens o uso que eu quero?”

Se somos servos do Senhor, não estamos aqui como auto justificados para sermos servidos por Ele, e sim, para serví-Lo, assim como ao próximo.
Observem, que o Seu apelo e chamado tem como premissa: “Nega a ti mesmo, toma a tua cruz e siga-me”. Só, que para atendermos a esse apelo, precisamos antes de tudo entender o que significa no âmago: 
“Nega a ti mesmo...”

Alfredo Bião




  

Uma Viagem ao Inconsciente...

Muralhas de Jericó
Josué 6

Encontrando-se Josué perto de Jericó, levantou os olhos e viu um homem que se achava diante dele, com uma espada desembainhada na mão. Josué aproximou-se dele e disse: “És tu dos nossos ou dos nossos inimigos?” Ele respondeu: “Não! Mas sou do exército de Iahweh e acabo de chegar.” Josué prostrou-se com o rosto em terra, adorando-o e disse-lhe: “Que tem a dizer o meu Senhor a seu servo?” O chefe do exército de Iahweh respondeu a Josué: “Descalça as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que pisas é santo.” E assim fez Josué.

6 Tomada de Jericó –Ora, Jericó estava fechada e trancada com ferrolhos (contra os filhos de Israel): ninguém podia sair nem entrar.

Iahweh disse então a Josué: “Vê! Entrego nas tuas mãos Jericó, o seu rei e os seus homens de guerra. Vós, todos os combatentes, daí volta ao redor da cidade (cercando-a uma vez; e assim fareis durante seis dias). Sete sacerdotes levarão diante da Arca sete trombetas de chifre de carneiro (assim que ouvirdes o som da trombeta), todo o povo prorromperá em forte grito de guerra, e as muralhas da cidade cairão e o povo subirá cada um no lugar à sua frente.”

Josué, filho de Num, chamou os sacerdotes e disse-lhes: “Tomai a Arca da Aliança, e sete sacerdotes tomem sete trombetas de chifre de carneiro e precedam a Arca de Iahweh.” Depois disse ao povo: “Passai e daí volta à cidade, e os guerreiros marchem diante da Arca de Iahweh.” (Foi feito como Josué havia dito ao povo.) Sete sacerdotes, levando as sete trombetas de chifre de carneiro diante de Iahweh, passaram e tocaram as trombetas; e a Arca da Aliança de Iahweh vinha atrás deles. Os guerreiros iam à frente dos sacerdotes que tocavam as trombetas, e a retaguarda seguia atrás da Arca; e, marchando, tocavam as trombetas.

Josué, porém, havia dado ao povo a seguinte ordem: “Não griteis, nem façais ouvir a vossa voz (e não saia da vossa boca palavra alguma), até o dia que eu vos disser: “Gritai! ”Então gritareis.”
Assim, a Arca de Iahweh rodeou a cidade (contornando-a uma vez), e depois voltaram ao acampamento onde passaram a noite. Josué levantou-se muito cedo, e os sacerdotes tomaram a Arca de Iahweh. Os sete sacerdotes, munidos de sete trombetas de chifre de carneiro e marchando na frente da Arca de Iahweh, tocavam a trombeta durante a marcha; os homens de guerra iam adiante deles e a retaguarda seguia a Arca de Iahweh; enquanto marchavam, as trombetas soavam continuamente.

(No segundo dia) rodearam uma vez a cidade e voltaram ao acampamento. E assim fizeram durante seis dias. No sétimo dia, levantaram-se ao romper da aurora, e (de igual maneira) rodearam a cidade sete vezes; (somente naquele dia rodearam a cidade sete vezes). Na sétima vez, os sacerdotes soaram as trombetas e Josué disse ao povo: “Gritai, pois Iahweh vos entregou a cidade!”

Jericó, consagrada como anátema – “A cidade será consagrada como anátema a Iahweh, com tudo o que nela existe. Somente Raab, a prostituta, viverá e todos aqueles que estiverem com ela na sua casa, porque ocultou os mensageiros que enviamos. Mas vós, guardái-vos do anátema, para que não tomeis alguma coisa do que é anátema, movidos pela cobiça, pois isso tornaria anátema o acampamento de Israel e traria sobre ele confusão. Toda prata, todo ouro, todos objetos de bronze e de ferro serão consagrados a Iahweh; entrarão no seu tesouro.”

O povo gritou com força e tocaram-se as trombetas. Quando o povo gritou ao ouvir os sons das trombetas e a muralha ruiu por terra, e o povo subiu à cidade, cada qual no lugar à sua frente, e se apossaram da cidade. Então consagraram como anátema tudo que havia na cidade: homens e mulheres, crianças e velhos, assim como os bois, ovelhas e jumentos, passando-os ao fio da espada.

A casa de Raab é preservada – Josué disse aos dois homens que haviam espionado a terra: “Entrai na casa da meretriz e fazei essa mulher sair de lá com tudo o que lhe pertence, conforme lhe jurastes.” Foram os jovens, os espiões, e fizeram sair Raab, seu pai, sua mãe, seus irmãos e tudo o que lhe pertencia. Fizeram sair também toda a sua parentela e os colocaram em lugar seguro, fora do acampamento de Israel.

Queimaram a cidade e tudo o que havia, exceto a prata, o ouro e os objetos de bronze e de ferro, que foram entregues ao tesouro ao tesouro da casa de Iahweh. Mas Raab, a meretriz, bem como a casa de seu pai e todos os que lhe pertenciam, Josué os salvou com vida. E ela habitou no meio de Israel até hoje, porque escondera os mensageiros que Josué enviara para espionar Jericó.

Que metáfora bíblica maravilhosa para ser examinada em seus aspectos simbólicos. Os símbolos são sempre materiais, porém, o seu simbolizado é sempre muito espiritual.
Que mensagem espiritual o seu simbolizado nos trás? Talvez, como podemos resolver nossos conflitos intransponíveis...

Nessa narrativa bíblica extraordinária, o povo se levantou contra uma barreira inexpugnável externa, uma muralha. Era uma muralha que não podia ser derrubada ou escalada por nenhuma tecnologia ao alcance daquele povo. A sorte deles, concluo, é que não eram evangélicos, pois acreditaram que Deus orientara a Josué a fazer um ritual bem simples, porém, sistemático, de marchar todos os dias em volta da muralha de Jericó, com uma numeração cabalística e, carregando uma arca material, cheia de bens de valor material que simbolizava uma “aliança” com Iahweh, como simbolizado espiritual.

Não fizeram nenhum ataque direto, pois sabiam de antemão que não seriam bem sucedidos. Finalmente, depois daquelas séries de marchas ritualísticas, dos toques das trombetas e do grande grito uníssono, alguma coisa aconteceu: as muralhas caíram por terra.

Pergunto: alguém acredita que Paulo de Tarso teria dado ouvidos a essa sandice pagã de ficar dando voltas em torno de uma muralha daquelas para que ela viesse a ruir do nada? Talvez por isso, Deus não tirava o “espinho da sua carne”. Sua Graça lhe bastava!...

Estamos continuamente lutando contra obstáculos dentro de nós mesmos, que mais parecem muralhas de Jericó, - impenetráveis!...

Nossa mente consciente se depara com cada coisa que nos parecem intransponíveis! Na verdade, só percebemos a devastação que fazem em nossa vida, no nosso sistema emocional, trazendo-nos angústia e depressão. Aparentemente são insolúveis e injustas.

Ficamos paralisados, não conseguimos encontrar um caminho para seguir em frente, uma proposta consciente que traga-nos a solução; um problema interior aparentemente tão difícil que não sabemos por onde começar... É isso que podemos chamar de uma “Jericó interior”... Uma cidadela cercada por uma muralha intransponível dentro do inconsciente, um espaço onde a mente consciente não consegue penetrar, algo que não conseguimos entender e nem lidar com ele. Mas, Deus tinha uma receita arcaica e ritualística que nos serve simbolicamente para penetrarmos nas “Jericó interiores”...

A receita é simples, se a reconhecermos com fé, já que foge ao racionalismo consciente. Temos que enfrentar o problema focalizando a nossa energia psicológica através de um ritual interior ritualizado. Como não o conhecemos e nem sabemos como resolvê-lo, temos que personificá-lo no símbolo material, representando-o, trazendo as imagens à mente e conversando com elas com seriedade.

Devemos convidá-las a saírem da cidade para descobrir quem são, e porque estão se opondo a nós.
Personificar o problema é através de sua imaginação procurar a figura, a imagem que vai representá-lo no símbolo material. Depois, fale com ela, procure saber de onde vem, deixe fluir os sentimentos e a emoção ao conversar com suas personalidades interiores desconhecidas. Peça uma orientação ao problema, ao sacrifício, à pretensão, à falta de sentido em sua vida, ou a qualquer ideal não realizado.

Você faz como Josué na narrativa bíblica: “cerca as muralhas, investe no seu problema a sua energia consciente, ritualizando-a.

De repente, aflora uma idéia, um “insight” que parece luminoso, em termos do que é essa “Jericó.” O princípio agora é de energia cumulativa, é o tal ficar “dando voltas em torno da muralha”, ou seja, do problema; ficar investindo energia, transferindo da consciência para o símbolo, que agora representa o seu problema interior, até que finalmente ele se rompe e aflora, torna-se acessível à consciência através de um sonho arquetípico, que trás através da sua simbologia material a solução necessária que a “qualidade momentum” requer.

Ao caminharmos pela cidadela antes cercada, descobrimos quem nos declarou guerra e por que. Qual a qualidade desse nosso adversário.

É o que chamamos de ritual propiciatório, pois, antes não tínhamos a menor possibilidade de saber racionalmente como resolver aquela situação inusitada.

A solução para os que não consideram essas “coisas arcaicas e tribais” são no mínimo quinze anos de custosas análises com um bom terapeuta, que servirá de símbolo de transferência para esses...
Por isso, concluo que Deus com a sua infinita bondade e justiça, privilegia os “pobres de espírito” e, não aos doutos.
Na metáfora bíblica, Deus instrui Josué a marchar em volta da muralha por sete dias, sendo que no último, sete vezes, tempo necessário para uma completa evolução receptiva da consciência diante do problema intransponível que o aflige. Tempo representado no símbolo material por uma vela de sete dias...

Uma coisa é certa, e Deus garante: se você começar a fazer o cerco, a marchar ao redor da muralha da “sua Jericó,” você encontrará exatamente no final do ciclo a solução. Para isso, faça como Josué, recrute os elementos pouco expressivos para estabelecerem vínculos de afinidade com as suas personalidades interiores desconhecidas e pouco consideradas pelo seu racionalismo consciente. Depois, comece a estabelecer contato com elas, como fez Josué com Raabe... Observe que Raabe era uma meretriz, fora dos “padrões morais vigentes” da consciência religiosa e moralista da época.
Não importa quão cartesiano você seja, quão racionalista seja a sua formação ortodoxa religiosa, ou quão estúpida possa te parecer considerar fazer um ritual desses... O certo é que você caminha, caminha e, as muralhas caem para a sua surpresa conceitual.

Geralmente Deus nos dá essa receita, como fez com Moisés antes de entrar na “terra prometida.” Nem sempre estamos receptivos à forma, por nos parecer sem nexo... Aí perdemos o direito de desfrutar os resultados... Observe que alguns problemas ficam conosco durante muito tempo e, que são necessários para o nosso desenvolvimento e crescimento espiritual. Quem os vê de fora, como os “amigos de Jó”, não sabem que a fidelidade e a fé são os propósitos de Deus para a salvação e resgate... É o “cair prá cima”, como disse o meu amigo de sempre, Caio Fábio, ao se deparar com essa “qualidade-momentum”. 

Acredite, se você personificar o problema, a coisa que o mais aflige na sua vida, e fizer dela “sua Jericó” na imaginação, você irá transformar o problema em uma fonte de crescimento. Vai juntar o que estava separado, integralizando-se. Vai saber que algumas “Raabes interiores” dessa muralha precisam ser consideradas em um nível apropriado e, que os obstáculos serão transformados em íntimos amigos, os mais verdadeiros, apesar das considerações duvidosas. Robert A. Johnson

Apenas precisamos estabelecer o contato através do símbolo que irá representá-lo.
Observem que dentro das muralhas de Jericó havia alguém que à luz da Consciência Divina, com a Sua Justiça vertical possuía um valor inestimável, pois não podia ser morta, assim como os seus familiares.  Só através dela os espiões estavam justificados de penetrar as muralhas, pois a sua condição de prostituta estabelecia essa possibilidade sem desconfianças... Ela por isso tinha a qualidade necessária para agregar os conteúdos de informações necessários à qualidade-momento, pois, acolheu os espiões e informantes sem que fossem importunados, com o intuito de ser o elo entre o inconsciente (o interior da muralha), com as suas condições reinantes, e Josué (o consciente), carente das informações necessárias ao amadurecimento da questão. Por ser ela uma pessoa com uma posição social fora dos padrões conscientes, muitas vezes transforma-se em “sombra”, sendo esquecida e desconsiderada. Porém, Josué sabia que como qualquer elemento interior nosso, ela faz parte de nós, era uma ancestral familiar da linhagem de Davi, uma personalidade interior familiar desde os primórdios; que sempre esteve pronta a “ajudar” quem precisa, e, que só é desconsiderada externamente por seus valores coletivos e sociais. Só, que ela possuía afinidades espirituais no âmago, que poderiam ser úteis nas situações externas mais aflitivas para a nossa consciência discriminadora. Por isso, deve ser contatada, reconhecida, honrada e vivenciada em um nível construtivo, como fez Josué e Jesus com Madalena.

Observo neste texto, que é preciso ser um Josué nos dia de hoje, nas igrejas cristãs para ter a coragem de reconhecer esta experiência como sendo com Deus...

Jesus sempre nos ensinou dessa forma, através de parábolas com os seus símbolos materiais controversos, porém, com um simbolizado espiritual para poucos; seja, através de rituais, onde o batismo nas águas fazia parte, na purificação física e comprometimento espiritual, preservando a justiça da Lei, seja na “lavagem dos pés”, atestando que servir em seu nome não é impor uma condição pré-justificada de superioridade espiritual, onde Pedro é advertido por achar que tinha entendido o recado de ser humilde diante do próximo na tarefa de resgate, onde sempre há o ceticismo e desinteresse pelas coisas espirituais por falta de fé, seja na transformação das águas de abluções ritualísticas, de limpeza espiritual em vinho da melhor espécie, mostrando-nos através deste ritual simbólico que não precisamos estar pré-justificados para sermos transformados e escolhidos, e na última ceia, no ritual do pão e do vinho, em sua memória, antes de dar-se em sacrifício por nós. O ritual sempre esteve presente, pois esta é a linguagem reconhecida por nossa psique, na nossa alma ancestral, mítica e terrena, que carregamos como Raabe, desde Davi.

 As prostitutas, os bebedores de vinho, os cobradores de impostos, assim como o ladrão na cruz, também faziam parte do seu reino.

O que sintetizo através dessa história bíblica para o meio cristão dos dias de hoje?

Acredito que o conto nos passa esta mensagem como premissa: ao invés de ficarmos dando voltas em torno de Deus porque temos um problema aparentemente intransponível, deveríamos ficar dando voltas em torno do problema porque temos um Deus!
Nele, que nunca foi...

Alfredo Biào

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Só Jesus!...

A Parábola do Mordomo Infiel

Lucas 16: 1-9

“Disse Jesus aos seus discípulos: havia um homem rico cujo administrador foi acusado de dissipar seus bens. Então, chamando-o disse: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua administração, porque já não poderás ser meu administrador. O administrador disse consigo: Agora que farei? O meu senhor me tira o emprego. Cavar, não posso, e, de mendigar tenho vergonha. Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for demitido da administração, me recebam em suas casas. Chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deve ao meu senhor? Ele respondeu: Cem batos de azeite. Disse-lhe: toma a tua obrigação, e assentando-te depressa, escreve cinqüenta”.
Disse depois ao outro: E tu quanto deves? Cem cores de trigo. Disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta. Louvou aquele senhor o injusto administrador por haver procedido prudentemente. Pois os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. Eu vos digo: “Granjeai amigos com as riquezas da iniqüidade e injustiça, para que quando estas vos faltarem, vos recebam nos tabernáculos eternos".

Esta parábola é a cruz de muitos intérpretes: teólogos, pastores, dirigentes espirituais e padres. Não falta quem duvide que seja ela de autoria de Jesus.
Talvez o erro de interpretação tenha seu fundamento na compreensão do simbolizado espiritual da parábola, por meio do seu símbolo material.

Aliás, confundir o dedo que aponta a luz com a própria luz é a coisa mais comum nos meios cristãos. Uma análise racionalista, puramente intelectual, jamais atinge o verdadeiro sentido das palavras proferidas por um ser iluminado espiritualmente. O sentido de justiça da verticalidade espiritual não é compreendido pela moralidade conceitual na horizontalidade intelectual. Literalmente, parece que a parábola de Jesus nos recomenda a fraude e, o ardil, como meio para granjearmos amigos no mundo espiritual. Assim sendo, o fim sendo bom, justifica os meios amorais. Aliás, esta é uma premissa nos meios que se dizem cristãos. Ouvi um pastor dizer-me que mesmo cometendo deslizes espirituais, considerava justificado o autor pela obra de evangelizar o rebanho. Em face disso, compreendo que não se sintam seguros com esta mensagem; pois, parece revelá-los com a projeção de alma que fazem.

Observe, que toda e qualquer parábola contém um símbolo material e um simbolizado espiritual. Nesta, por exemplo, o símbolo material é o procedimento desleal do administrador, e o simbolizado espiritual é a recomendação de usarmos de tal modo os bens materiais, que estes, nos sirvam de meios para alcançarmos as graças espirituais. Meios e condições materiais podem nos fazer alcançar graças. Quando materialmente ajudamos alguém a não passar fome, a ter acesso a um medicamento necessário à saúde, a ter paz espiritual através de um bom livro, de um atendimento fraterno a um necessitado. Quando abrimos um espaço material para uma evangelização, ou doamos alimentos e remédios aos necessitados, promovemos ações materiais que tem um simbolizado espiritual. Mas, será pela fraude que alcançaremos os bens espirituais? Claro que não! O que Jesus nos diz é: “pelas riquezas da injustiça ou iniqüidade”; não, “pelas injustiças e iniqüidades das riquezas”.

As mesmas riquezas que levam a outros cometerem injustiças e iniqüidades, como o mordomo infiel, podem nos servir para a prática do bem e obras espirituais. Não existem riquezas injustas ou iníquas. 

O termo de comparação que Jesus faz na parábola, não é a iniqüidade cometida pelo administrador, mas sim o tino com que agiu, com a prudência usada, que não inclui a desonestidade que ele usou. Também revela, que no trato com os seus semelhantes o ser profano é geralmente mais atilado e previdente que os filhos da luz; pois estes, outrora viviam a neurose da culpa do pecado; porém, ao tomarem conhecimento do Caminho e da Palavra, tornam-se arrogantes e se acomodam, achando-se salvos compulsoriamente, passando a “psicóticos de carterinha”.

 Jesus informa que o ser profano sabe melhor servir-se dos bens materiais para a prática de iniqüidades e injustiças, do que os bons para a prática do bem.

 Jesus, então recomenda aos seus discípulos que lancem mãos dos mesmos bens materiais de que os maus se servem, para a prática do bem.

Logo a seguir, diz Ele: “Sede inteligentes como as serpentes, mas simples como as pombas”. 

Na outra parábola, - a dos Talentos, nos instrui que o homem fosse previdente na administração de um bem material a fim de “entrar no gozo do seu senhor”, mediante essa administração. 

Ao final, explica muito bem esta parábola, ao dizer: "Quem é fiel nas coisas mínimas - materiais, é fiel no muito - espiritual; e, quem é infiel no mínimo também o é no muito". Ou seja: Se não administrares fielmente as riquezas vãs, - de injustiça e iniqüidade, quem vos confiará os bens verdadeiros? E, se não administras fielmente os bens alheios, quem vos entregará o que é vosso? “Nenhum servo pode servir a Deus e as riquezas”. Pois, quem serve ao dinheiro é escravo da matéria, mas aquele que põe o dinheiro a serviço de Deus, - em nome do seu amado filho Jesus, é livre e soberano pelo espírito. Só devemos servir a quem nos é superior; do contrário nos degradamos. 
Podemos assim servi-Lo tanto em Si mesmo, como também no próximo – “imagem e semelhança”.

Alfredo


domingo, 1 de abril de 2012

A Verdade Absoluta...

Uma Parábola de Chuang Tzu

Segundo a tradição taoísta não existe uma verdade absoluta que possa transformar alguém de forma compulsória, pois, tudo depende da qualidade de quem a recebe. Ou seja: “Se o sujeito errado usar o método certo, ainda assim o método certo dará errado.”

Nos mosteiros taoístas chineses os monges residentes recebem todas as noites monges peregrinos que não possuem uma morada fixa, nem a garantia de uma cabaça com alimento antes de adormecerem. Entretanto, para que possam usufruir destes benefícios terão que vencer um debate sobre o Caminho do Tao com os donos dos mosteiros. Caso consigam vencê-los terão direito ao pernoite e a uma cabaça com alimentos, porém, dia seguinte terão que continuar o seu caminho. O motivo dessa norma, é que o vencedor pode ser um ser dotado de um poder de articular bem as palavras, exprimir suas idéias com desenvoltura e, assim vencer na argumentação por ter o dom da retórica. Porém, não é o detentor da verdade! Essa verdade pode estar mais próxima do monge vencido, por não ter ele a facilidade de se expressar por sua modéstia. Sendo assim, não justifica a permanência do vencedor no mosteiro, dia seguinte.

Certa vez num mosteiro taoísta, no período de Chou (722-481 a.c), dois irmãos, donos do mosteiro estavam se preparando para receberem a visita do monge peregrino Hui-Shi, simpático ancião, conhecido por sua grande sabedoria e conhecedor profundo do Caminho para um debate que provavelmente seria ele vencedor.

O monge mais velho do mosteiro era o não menos sábio Shang Yang, conhecido e famoso por não perder nenhum debate filosófico e místico-espiritual com os monges peregrinos que buscavam abrigo e alimento em seu mosteiro. Tinha como caçula, um irmão chamado T’ang. Esse, entretanto, era conhecido por sua arrogância, presunção e falsa modéstia. Acreditava-se que era assim, porque na sua infância fora ferido por um espinho de roseira em uma das vistas e, por isso, tornara-se caolho. A sua deficiência não podia ser escondida, estava “na cara”, literalmente. Sua vaidade fora invadida e o destino se impôs.

Shang Yang, ao contrário, estava sempre de bom humor, não havia criticas em suas palavras. Sabia ouvir sem ficar construindo internamente respostas que por certo abalariam os conceitos dos seus interlocutores. Era um homem gentil e sábio. Ao saber da visita do ilustre colega, pensou logo em fazer uma cortezia ao sábio monge que fora seu mestre no passado. Evitaria debater com ele, não era cortêz, sabia. Desejava ter a oportunidade de conversar com ele sobre os “velhos tempos”, quando ele era apenas um jovem interessado e sonhador.

Hoje, pensara, quem haveria de atender à porta do mosteiro seria o seu irmão mais novo, T’ang. Passaria prá ele essa respnsabilidade, sabendo que ele de antemão ficaria eufórico com essa oportunidade de mostrar-se para o visitante. Ele, era um esforçado estudioso, conhecia o dharma budista, assim como, o Hua Hu Ching, últimos ensinamentos de Lao Tzü; estudava o Caminho da Natureza – o Tao, através de Chuang Tzü, um pensador de vanguarda, representante da corrente taoísta do pensamento chinês, que era pródigo em divulgar as suas idéias através de parábolas, alegorias e paradoxos; sentia-se por isso, seguro e capaz através da sua erudição de efrentar qualquer um, apezar de saber intimamente que a sua pretenciosa iluminação era como uma rã escorregadia, em suas mãos. Isso, o incomodava muito e contribuia de forma negativa em suas atitudes.

Seu irmão Shang Yang sabia que o mano não possuia as qualidade inerentes aos iluminados para debater com Hui Shi, porém, era a única saída que tinha para receber o ilustre sábio sem ter que enfrentá-lo.
Pensou longamente à respeito do tema que passaria para T’ang; era necessário evitar que o seu irmão cometesse através do debate alguma crítica leviana, destituida de mérito, que fosse indelicado ao questionar o saber do seu mestre Hui-Shi, porém, não podia dizê-lo. Sabia que o irmão não receberia bem a uma orientação baseada nessas premissas.

Depois de meditar a respeito, concluiu que o tema poderia ser expresso através de imagens, - uma metáfora de sinais, pensou! Tratou logo de procurar o seu irmão e passar o tema com as suas característcas. Teria que debater com o peregrino visitante com as mãos, através de gestos e vencê-lo, se possível.

T’ang, após ser notificado por seu irmão mais velho, ficou eufórico, sorriu com a certeza que seria vitorioso, antecipadamente. A partir desse momento, uma “multidão” passou a fazer companhia dos pensamentos de T’ang, sua inquietação era grande, não havia mais espaço na sua mente para o “novo”. Numa visão analítica junguiana, o ser está “tomado pela anima”, perdeu o “feeling”, estava agora inquieto com a demora do peregrino.

Ao cair da tarde, bate à porta do mosteiro o velho monge Hui Shih, com um sorriso que revelava paz e sabedoria, sendo prontamente recebido por T’ang que foi logo dizendo: - Olha hoje o debate é comigo, meu irmão não se sente em condições de enfrentá-lo. - O nosso tema para o debate tem que ser desenvolvido através de gestos, com as nossas mãos, estamos de acordo?

O velho monge curvou-se com as mãos postas, em sinal de reverência, consideração e respeito pelo jovem monge.

- Pode começar, avisou T’ang!

 Mestre Hui Shih fitou-o demoradamente, o suficiente para deixar T’ang incomodado com essa atitude, depois, levantou a sua mão direita e mostrou o dedo indicador prá ele. T’ang inquietou-se ainda mais, porém, depois de uma breve pausa, mostrou os seus dois dedos da sua mão para o velho monge. Mestre Hui Shih, com um sorriso discreto, levantou novamente a sua mão direita e mostrou os seus tres dedos prá T’ang.

Essa nova atitude do velho monge foi tomada por T’ang com surpresa e certa irritação, pois, de imediato e de forma agressiva levantou e mostrou para o sábio monge o seu punho fechado em riste. Hui Shih olhou admirado para o jovem monge e, inclinando-se com suas mãos postas, reverenciou mais uma vez o jovem monge, saindo em direção aos jardins do mosteiro, onde se encontrava o seu antigo discípulo Shang Yang, que ao vê-lo saindo, não se conteve em interpelá-lo: - Não consigo entender o que possa ter acontecido com o meu mestre para que esteja indo embora do nosso mosteiro? - O senhor foi molestado pelo meu irmão? – Não, de maneira alguma, Shang!  - Seu irmão é um jovem muito sábio, não consegui derrotá-lo através do debate com as mãos.

- Como? Arguiu Shang pro seu mestre. – Vou te contar como foi belo esse enfrentamento filosófico mistico-espiritual, ainda mais, por ter ele usado uma técnica apurada de interpretação metafórica de imagens e sinais. Isso requer uma qualidade espiritual muito sutil, fora do comum, é a abordagem mais próxima da verdade absoluta. Lembra-te quando eu te instruia a respeito do Caminho Perfeito, que sempre estamos processando nossas experiências de acordo com os nossos pontos de vista, que voce sempre se transforma na inerpretação quando a internaliza, logo amigo, somos feitos da mesma essência dos nossos pensamentos, assim, não devemos julgar de forma crítica e severa as imagens externas. – Por isso, quando apontei o dedo indicador quis dizer que só havia um Buda, o que seu irmão sabiamente devolveu, mostrando-me dois dedos da sua mão, - Buda e o seu Dharma; alegrei-me por saber que era um ser que manifestava o Tao com muita sabedoria; tive então que acrescentar mais um dedo, mostrando os tres dedos da minha mão direita para concluir que além de Buda e o seu Dharma, faltavam os seus discípulos, pois sem eles, de nada adiantariam os dois. Aí, para surpresa minha, seu irmão fecha o seu punho e mostra-me sua mão fechada à minha frente, vibrando com o entusiasmo dos jovens dotados de luz. Confesso, não tive mais argumentos para retrucar o que ele acabara de me mostrar. Aquela imagem dizia o que todos precisam saber: - Todos tres argumentos são na verdade, uma só coisa! Que gesto poderia eu apresentar para dar continuidade ao debate? Ele acabara de sintetizar o tema, não havia mais o que se discutir.

-Parabéns! Você tem um jovem irmão que é uma grande promessa para as gerações vindouras, aquelas que buscam o despertar búdico do ser espiritual.

Shang Yang, não acreditava no que ouvia do velho mestre, pois, para ele, seu irmão ainda engatinhava em sabedoria, apezar de deter uma vasta cultura sobre a filosofia mistico-espiritual oriental, daquele “poço” não se podia beber água límpida, pois, de tão revolto e inquieto suas águas estavam cheias da lama do fundo; era um ser que discriminava quem vinha “beber” da sua água, precisava saber antes se era nobre e sábio ou ignorante e pobre. Sua vaidade pessoal cristalizava seus conhecimentos, tirando de si a sutileza e a modéstia inerentes. Como então poderia ter derrotado o seu mestre?  “Não procures onde tem Buda e onde não tem”. Lembrou-se do conselho do seu mestre e aquietou-se. “O Trilhar, é mais importante no caminho da iluminação, pois não possui uma chegada como meta, à única permanência é a mutação.”

Essa dinâmica do Caminho diz que não são necessários os “12 passos” para se alcançar a iluminação, assim, quem sabe se ela não se deu ao ter como seu interlocutor o sábio monge a sua frente? Como o Caminho é o Seguir, não olhou mais para traz, o momento presente era único.

Shang Yang dirigiu-se então para uma ala do mosteiro com a finalidade de meditar, já tinha cuidado do jardim e aprendido algo significativo com o seu antigo mestre; interiorizar era necessáro para integralizar o seu ser.
Passados algumas horas, apareceu seu irmão T’ang batendo fortes os seus pés no chão do velho mosteiro, interrompendo a meditação de Shang com uma indagação: - Onde está aquele velho idiota que voce considera mestre e iluminado? Shang olhou indagativo para seu irmão e perguntou: - Por quê? - Ele já se foi. - Soube que você o venceu, parabéns!

- Aquele velho é muito estúpido e indelicado! - Passei as informações que você  me deu para o nosso debate, e ele as usou para me afrontar. – Não foi essa a impressão que voce causou para ele, em contra partida, - disse Shang Yang.

- Ele o considerou sábio! – Que nada! – Ele saiu daqui foi com medo de apanhar, pois, se fica mais tempo era o que ia acontecer. – Porque essa agressividade toda com um ancião respeitoso como ele?

- Bom, disse T’ang, se voce não acredita, sou obrigado a contar para voce o que aconteceu, pois, só assim voce me dará razão. – O debate começou com ele, depois de passar longo tempo me olhando, mostrou-me um dedo bem na minha cara, dizendo que eu apenas possuia um olho, ou seja, que eu era caolho! –Apesar da indelicadeza inicial, tentei reverter aquele quadro, mostrando dois dedos, para ele saber que apesar da minha deficiência física ainda jovem, ele, um ancião, ainda possuia os dois olhos intactos! – Tentei ser cortez, apesar da atitude dele comigo. – Qual não foi a minha surpresa, quando ele demonstrou desconsiderar a minha polidez sorrindo na minha cara, mostrou-me os tres dedos dele, para que eu tomasse conhecimento da sua opinião: Ele possuia dois, e, eu um, totalizando assim, tres. – Não agüentei com tanta falta de respeito! –Mostrei o meu punho fechado, bem no meio da sua cara, ameaçando agredi-lo por este motivo. – Ele, Shang, percebeu que eu não estava brincando e levantou-se apressadamente, saindo por aí. – Com essas atitudes, não sei quem poderá dar um pernoite e alimentos para um velho como esse! – O que você acha disso, Shang?

Shang Yang, ao ouvir aquelas críticas do seu irmão, emudeceu, preferindo o eloqüente silêncio. Certos argumentos não merecem resposta alguma, nem reparos argumentativos. É melhor calar-se e jamais responder, pois não há a menor possibilidade de se passar informações esclarecedoras para quem não possui um espírito receptivo para a beleza milenar das mensagens deixadas há tanto tempo pelos mestres iluminados.
Quem tem a dificuldade de entender o contexto, critica o texto, como pretexto...

       Se você não abre o seu coração para as belas mensagens dos mestres espirituais, algum dia um cardiologista o fará para retirar o lixo que o bloqueia!

A Mulher - Espírito Bisão Branco

Uma Visão Junguiana...

Gostaria de mostrar como somos na realidade, como um espelho que reflete nossas atitudes, nosso comportamento, e mostrar as forças psicológicas que agem em nós de forma autônoma nos deixando num dilema muitas vezes. Ela nos fala daquilo que é, mas, não nos diz como devemos agir. Assim, um mito ou um sonho nos permitem ver como somos na realidade e, frequentemente nos dão uma solução para o dilema.

Há um belíssimo conto mítico da nação Oglala dos Sioux, recontado pelo seu grande feiticeiro Alce Negro – a história da Mulher – Espírito Bisão Branco. Este é o relato de como uma mulher divina trouxe o primeiro cachimbo sagrado para os indios Oglalas da nação Sioux.

Há muito tempo, dizem, dois batedores indios saíram à caça de bisões; ao chegarem no topo de uma colina, olharam para  norte e viram algo surgindo de muito longe, e quando chegou mais perto exclamaram: “É uma mulher!” E era.
Então, um dos batedores, por ser jovem e parvo, teve maus pensamentos e os expressou em voz alta; mas, o outro que era sábio replicou: “É uma mulher sagrada; livre-se de todos os maus pensamentos.”

Quando ela chegou ainda mais perto, puderam notar que usava uma bela roupa de camurça branca, que os seus cabelos eram muito longos e que era jovem e muito bonita. Ela lia seus pensamentos, e disse numa voz que mais parecia um canto:

“Voce não me conhece, mas se quer fazer o que está pensando, pode vir. E o jovem parvo foi, mas assim que parou diante dela, uma nuvem branca os envolveu. A bela jovem saiu da nuvem branca e, quando ela se dissipou, tudo o que havia restado do jovem parvo era um esqueleto coberto de vermes. Então a mulher disse ao que não era parvo: “Volte para casa  e avise ao seu povo que estou chegando, e por isso devem construir uma grande tenda para mim no centro da sua nação.” E o indio, apavorado, correu e avisou aos demais, que fizeram imediatamente o que ela mandara; e esperaram a mulher em volta da tenda.

Depois de um certo tempo, ela veio, muito bonita, cantando os seguintes versos, enquanto entrava na tenda:

Com hálito visível estou caminhando.
Envio minha voz enquanto caminho.
De forma sagrada estou caminhando.
Minhas pegadas são visíveis quando estou caminhando.
De forma sagrada caminho.

E enquanto cantava, de sua boca saía uma nuvem branca que exalava um suave perfume. Em seguida ela deu ao chefe da tribo um cachimbo entalhado em um dos lados com a figura de um filhote de bisão – para simbolizar  a nova terra que nos sustenta e nos dá alimentos – e, pendendo do cabo, doze penas de águia branca, amarradas com uma fibra que jamais se rompe, para simbolizar o céu e as doze luas.  Disse ela: “ouçam, com isto vocês se multiplicarão e serão uma nação justa, e sempre terão coisas boas. Somente as mãos dos bons devem cuidar dele, e os maus sequer podem por-lhes os olhos.” Ela cantou novamente e deixou a tenda e, enquanto o povo a via partir, sua figura transformou-se num bisão branco que se afastou a galope, resfolegando, e logo desapareceu.

É isso o que contam, e se aconteceu, não sei; mas, pensando bem, pode-se ver que é verdade.

               Neihardt, John G.Black Elk Speaks. New York: William Morrow, 1932; New York: Simon & Schuster, 1972.

Aqui temos a essência do que tento dizer na Gênese Yorubá, através do Ìtàn igbà-ndá àiyé, em linguagem mítica. Na diferença de atitudes entre os dois batedores, o parvo e o sábio, vemos as duas abordagens do homem com relação à sua alma, - anima, e os resultados decorrentes de cada uma delas. Já que não podemos evitá-la, pois ela vem ao nosso encontro em meio às nossas atividade normais, mudando o rumo de nossa vida comum, quando menos esperamos por um “visitante do outro mundo”. Mas, a forma como a tratamos é que vai determinar a diferença entre a bem-aventurança e a des-graça (destituição da graça), que é de graça! Aí, a destruição se segue como consequência.

Por que isso? Porque a anima é uma mulher sagrada, e a nossa disposição em tratá-la, ou não, como um ser sagrado é que faz toda a diferença. No ser masculino, a sua alma traz através da sua psique uma característica feminina que Carl Gustav Jung denominou anima.
Este ser sagrado feminino e interior que projetamos é a “Mulher-Espírito”, como na “Mulher-Bisão Branco, um ser do outro mundo, pois pertence ao nosso inconsciente. Se formos como o batedor sábio, diremos: “É uma mulher sagrada; livre-se de todos os maus pensamentos.” Quando a tratamos como um ser sagrado, ela nos traz um cachimbo sagrado, traz o céu e as doze luas e, nos ajuda a conhecer o outro mundo em nós. Porém, se a tratarmos como fez o batedor parvo, tentando transformá-la num ser físico, projetando-a num ser exterior, perdemos o que ela tem de sagrado, com o agravante de perdermos o que ela tem prá nos dar.

O grande problema, é o livre arbítrio que ela nos dá, permitindo encará-la como quisermos – como parvos ou como sábios.

Ela diz: “Voce não me conhece, mas se quiser fazer o que está pensando, pode vir.” Se pensares errado, pagarás um alto preço; o preço por deixar de tratá-la como um ser sagrado, como uma entidade do seu mundo interior. Perderás  o outro mundo, mas também a vida humana, enquanto a estamos vivendo. O que se vê, é um ser que inflacionou durante um tempo valores externos e pessoas como se fossem sagrados; a medida que não correspondem mais as expectativas que nos faziam felizes, deixam-nos um rastro de depressão e descaso por nós mesmos e pela vida e  os seus valores conquistados.

É a crise de sentido que a vida nos tira derrepente, gerando a famosa depressão. É o significado do esqueleto do batedor parvo comido pelos vermes, jogado aos seus pés.

Uns, “jogam a toalha”, outros, lutam da forma equivocada, transferindo para outra pessoa ou outro bem a ser conquistado; tem alguns, que por não ficarem com o “orgulho ferido” e não ficarem arrogantes, descobrem que “o leite derramou” e, que só resta limpar e tomar o cuidado doravante para não “trocar alhos por bugalhos”.  Estes, irão amadurecer com esta “queda”.

Passamos parte de nossa vida sentindo falta de algo, procurando não sabemos o quê. Tantas das nossas “pretensas metas”, tantas das coisas que pensamos querer, acabam tempos após revelando-nos máscaras, atrás das quais ocultamos nossos verdadeiros e singelos desejos; elas são símbolos para os verdadeiros valores e qualidades que almejamos. Só que reduzimos esses valores a coisas físicas e materiais. Nem mesmo a uma pessoa, se são qualidades psicológicas: amor, verdade, zelo, honestidade, lealdade, utilidade,- algo que podemos sentir que é nobre em nós, precioso e que merece o nosso zelo e atenção. Tentamos reduzir tudo isso ao plano físico – casa, carro, um emprego melhor, um cargo mais valoroso, ou um outro ser humano – mas não dá certo. Sem saber estamos em busca do sagrado, só que ele não é redutível a nada. Ele é sentimento, um sentimento que vai direto ao âmago da vida, que dá significado verdadeiro a vida mesquinha e rotineira que levamos, para colocarmos uma nova perspectiva nas nossas batalhas pessoais. É o sentimento de reverência que precisamos resgatar e considerar doravante. O que chamamos de sagrado é, em última instância, um universo de paradigmas que usamos para avaliar nossos progressos, esforços pessoais, nossa vida, nosso trabalho, prá ver se neles também existe significado.

Segundo Jung, a psique masculina, a descoberta do sagrado, essa comunhão, dá-se por meio do feminino, como no caso de Obàtálà com Odùdúwá, seu interior e contra-parte. É a Mulher-Bisão Branco deste conto, que traz o sagrado à vida, a visão do céu e as doze luas.

Parece que nunca saímos direta ou conscientemente à procura do lado sagrado da vida. Estamos carentes ainda em sermos servidos pelo sagrado e, não sabemos ainda como servir ao sagrado com a reverência  necessária.  Como os dois batedores índios, vagamos por nossos velhos territórios de caça, a cata apenas do rotineiro e do conhecido. De repente, nos deparamos com uma parte desconhecida de nós mesmos: “ela vem chegando, usando roupas de carmurça branca; e quando fala, sua voz assemelha-se a um canto.” A princípio ficamos confusos: sua imagem é de mulher e queremos crer que é possível nos aproximarmos dela como se fosse uma mulher. É difícil  acreditar que não seja uma mulher de carne e osso, mas sim uma força metafísica tão poderosa que não ousamos tocá-la fisicamente.

Essa é a realidade que o sagrado nos apresenta, é assim que o sagrado se torna uma “pessoa” e nos fala com voz singular. Isto é a anima. Este lado de nós mesmos se manifesta em sonhos de aventuras intensamente desejadas, em tiunfos que quase podemos saborear, em seres cheios de luz que encontramos pelos corredores de nossa mente e seu reino fabuloso. Sem a interferência do raciocínio lógico e do pensamento, nossos sentimentos nos empurram para o outro lado desconhecido de nós mesmos, onde cada imagem vibra com a promessa de uma extraordinária experiência transcendental, rica de significado e plenitude.

Tudo isso se converge para um ser interior e nele se concentra; a Mulher-Bisão Branco chega aos dois batedores índios como uma visitante de um mundo maior, fora do campo da visão do ego, de suas abalizadas opiniões, de suas noções de “realidade.” A realidade aqui é tão maior, tão repleta de significados e de potencial para ampliar a nossa vida e dar-lhe significado, tirando-nos da mesmice, que o inconsciente nos diz: “Isto é sagrado; isto é o que deve ser tratado como sagrado.”
A Mulher-Bisão Branco canta: “Com hálito visível estou caminhando. Envio minha voz enquanto caminho.”

Hálito, sopro, vento, são símbolos muito antigos da vida e do espírito. Para os povos antigos, o sopro – a respiração, o hálito – era uma substância de Deus; o sopro dado pelo Criador Òlorun, denominado èmì, está presente na mitologia Yorubá e representa o momento em que a vida penetra no ser récem-formado por Obátálà. É a centelha da energa divina emprestada à carne, durante o período de tempo na terra: sopro da vida.
Quando a Mulher-Bisão Branco caminha com hálito “visível”, ela materializa o lado da vida a que chamamos de “espiritual”. Ela manifesta o invisível em visível, - transformando-o.

Quando tratamos a Mulher-Bisão Branco como sendo a nossa alma, manifesta em nossa psique, ela tem o poder de transformar o “sagrado” num conhecimento instantâneo, direto e consciente. Isso, nos propicia corrigir, criar e estabelecer caminhos criativos para o nosso cotidiano rotineiro. Ela diz: “ Minhas pegadas são visíveis quando estou caminhando.” Ela, apezar de não ser física, pois ela é Psiquê, Pneuma, um ser etéreo, e, ainda assim, suas pegadas podem ser vistas; tanto na destruição como na solução de nossas vidas. O mundo do espírito se faz instantâneo e palpável através desta experiênca simbólica.

Assim, ela tem o poder de nos dar a fé psicológca:
...a fé originada da psique, que se apresenta como fé na realidade da alma, que vive no inconsciente.

Como a psique é fundamentalmente imagem, e imagem é sempre psique, essa fé se manifesta pela crença em imagens... Observe que os antigos estavam absolutamente certos!

A fé psicológica começa no amor e na reverência pelas imagens, e flui principalmente por meio das formas humanas em sonhos, fantasias, imaginação e reflexões. Sua crescente vivificação nos dá à princípio uma convicção de ter – e depois, de ser – uma realidade interior de profundo significado que não mais se identifica com posses físicas, transcendendo a vida pessoal. Nos primitivos, a fé psicológica dava crédito às imagens e, a elas recorria em sua cegueira. Assim podemos ver que a fé psicológica e a fé espiritual cruzam-se num nível mais profundo. Nos primórdios do Cristianismo Primitivo, os cristãos sabiam que “a fé é a substância das coisas que tanto esperamos, a evidência das coisas não visíveis”. Encontramos assim a fé nos símbolos numinosos, divinos, fluindo da alma, através da psique para o consciente, sendo então possível perceber a substância daquilo que esperamos, daquilo que sonhamos, daquilo que vive dentro de nós, além dos limites da esfera física.

É a anima – a Mulher-Bisão Branco – que traz à consciência as provas da realidade não visível ao mundo físico. Buscamos o reino do espírito no amor romântico, no sexo, na posse física das coisas, nos seres humanos e nas drogas, mas esse reino não está lá. Ele só é encontrado por meio da alma.

O cachimbo sagrado é o poder que possibilita o contato com o “outro mundo”, pois consideramos sua imagem sagrada, e com ele nos relacionamos com a reverência que o poder do seu significado sagrado manifesta. Este poder consiste no uso consciente do simbolismo, pois é pela experiência simbólica que inalamos a fumaça sagrada do cachimbo, com seus deuses sagrados do mundo arquetípico da alma.

Pelas doze penas de águia, representando o céu e as doze luas, nos é dado o poder de conhecer a totalidade da vida infinita e finita, do espírito e da matéria, do sagrado e do prosáico.  O doze sempre está representado pelo tres do ordenado, finito e cíclico, a experiência prática do dia-a-dia. O quatro simboliza o mundo infinito da alma, onde vislumbramos a visão arquetípica e sem limites, a totalidade cósmica. Ele combina estes dois lados da natureza humana numa síntese: céu e terra, material e espiritual, o mundo comum e o “outro mundo”. Este é o simbolismo dos doze apóstolos que rodeam Cristo em Jesus, num círculo perfeito da mandala cristã, das doze luas do ano solar e, dos doze sígnos do zodíaco.

De um lado do cachimbo sagrado está entalhado um filhote de bisão, lembrando-nos que a terra e a vida humana doravante renascem incluídas nesta síntese com o sagrado, quando nos aproximamos da Senhora Mulher-Bisão Branco com sabedoria.
Observe que o ser Cristico encarna no humano Jesus, totalizando numa síntese as duas naturezas sagradas doravante.

Talvez a lição mais importante que o batedor sábio nos ensina, é que a condição de sagrado consiste não apenas no que existe no mundo interior de nossa alma, mas também na atitude que adotamos em relação a ele. Algo é feito sagrado não apenas porque o é em si mesmo, mas pela nossa atitude com relação a ele.  Ao tratá-lo como tal, incorporamos o seu poder.

O grande poder da Mulher-Bisão Branco é manifestado para todos da tribo, somente porque o batedor sábio reconhece que ela é sagrada e lhe confere o devido respeito.

Para que a anima nos confira seus dons, ela depende de alguém, do ego de um indivíduo que abra os olhos para reconhecer os elementos sagrados que ela carrega.

Se o batedor sábio tivesse seguido o caminho do parvo, certamente haveria mais de um esqueleto cheio de vermes aos seus pés. O “outro mundo” não teria desvelado à nação, nenhuma grande tenda teria sido erguida no meio do povo, não haveria o cachimbo sagrado para conclamar a Nação do Trovão e obter a sua ajuda.

Psicologicamente, a característica do sagrado consiste num duplo fluxo de energia: parte é o desvelamento do mundo interior para o ego, parte é a reverênca do ego em relação ao mundo interior dos arquétipos.

Quando nosso ego é capaz de reverenciar e quando respeito e admiração fluem de dentro de nós, somente neste instante é que alguma coisa pode ser “sagrada” para nós.
A maioria das pessoas comporta-se mais como batedor parvo, pois a nossa civilização irreverente em sua maioria, nos ensina desde a infância que nada é sagrado, que tudo que vale a pena possuir é de ordem física ou conceitual. Já o batedor sábio sabe que está diante de algo muito além  de sua experiência, algo que não pode se lidar com as costumeiras artimanhas do ego. Ele sente o sagrado naquela mulher, age então com reverência e adverte o batedor parvo: “É uma mulher sagrada; livre-se de todos os maus pensamentos.”

O que o sábio quer dizer quando afirma: “Livre-se de todos os maus pensamentos?” O que faz com que sejam “maus”? Não é por serem ligados a sexo. Os índios norte-americanos – diferentemente de nós – não tinham a tradição cristã do puritanismo, não denegriam o que se relacionava ao físico e ao sexo. O problema é bem mais sutil. O batedor parvo está tentando encontrar no lado sexual da vida algo que não pode estar lá; está tentando transformar a Mulher-Espírito Bisão Branco em algo físico, tentando apreendê-la por meio de um contato físico. Em termos psicológicos, ele está tentando torná-la física, projetando-a numa mulher física e exterior. Os resultados são sempre desastrosos quando fazemos essa projeção: ao invés da benevolente e auspiciosa Mulher-Bisão Branco, ele se defronta com Kali, a Deusa da Morte, que o reduz a um monte de ossos descarnados e cheios de vermes no chão.

Se existe algo que possa ser considerado uma blasfêmia psicológica, é a tentativa de converter o sagrado em alguma outra coisa; é tentar tranformar o sagrado em “brasa” para a “sardinha” do ego. Sexo, “imoralidade”, não é isso  que constitui um pecado psicológico, mas sim, dizer que uma coisa é o que realmente não é, tratando-a como se fosse diferente do que é, fazendo de conta que se faz uma coisa, quando se está fazendo outra. Tentar reduzir algo sagrado a um acessório para o mundo do ego.

A Mulher Espírito-Bisão Branco nos dá uma intrução: “Volte prá tribo e avise seu povo que estou chegando, e por isso devem construir uma grande tenda para mim no meio da nação.”

Construir para ela uma tenda no meio da nação significa abrir um espaço para a anima e um lugar para o sagrado, bem no meio de nossa vida. Significa dedicar tempo e energia para vivenciar a psique, explorar nossa consciência, descobrir quem somos e o que somos quando não somos só este ego. Para um ser ocidental conteporâneo, a primeira coisa necessária é reconhecer que o mundo sagrado existe. Ele precisa considerar que por traz da sua fantasia sobre a mulher “perfeita”, o modo de vida “perfeito”, o relacionamento “perfeito” e o trabalho “perfeito”, que ele está em busca de algo fora desse mundo dos fenômenos, ele está em busca do “seu sagrado”, que habita através da sua psique em sua alma, no seu inconsciente, - logo, não é material e nem física. Ele precisa gastar tempo e energia aprendendo a vivenciar essas energias que se manifestam por símbolos, sonhos ou fantasias – como realidades interiores dele mesmo. É exatamente isso que significa aceitar a Mulher-Bisão Branco tal como ela é, como Mulher-Espírito, e preparar para ela um lugar no centro da nação.

Ela vem caminhando com hálito visível, com pegadas visíveis, caminhando de forma sagrada. Ela virá a nós, se prepararmos para ela uma morada sacra, se abrirmos nossos olhos e a virmos tal qual ela é. Observe porém, que sua verdadeira morada é feita da matéria de nossas atitudes para com ela, do nosso sentimento de reverência.
O local que preparamos é dentro de nós; se ela realmente vai morar conosco, precisa ser lá.

Robert A. Johnson

Obs: coloco alguns grifos ao fazer uma analogia com a Gênese Yorubá que escreví em 2002 dando o seguinte título: Obàtálà & Odùdúwà – A Gênese Yorubá – Caminho de Individuação e Integralidade.

Este material encontra-se no http://www.scribd.com