quinta-feira, 30 de março de 2017

Petrobras: é hora de rever o desmonte



– 20 DE MARÇO DE 2017
presal
Crescem as ações da sociedade civil contra entrega do petróleo brasileiro. Justiça já aceita algumas. E futuro governo terá de dizer se acata ou reverter atos de Temer
Por Paulo Metri*, em seu blog
A Petrobras foi criada, em 1953, em atendimento a grande mobilização popular, ocorrida nos seis anos anteriores, reivindicando que a riqueza do petróleo, se descoberto — pois era desconhecido à época — deveria ser usufruída por brasileiros. Ou seja, visionários foram às ruas, dizendo na verdade que “o petróleo seria nosso”!

Atualmente, existem inúmeras evidências sugerindo que lideranças políticas e a grande mídia abraçam a campanha “O petróleo não precisa ser nosso”, tal o grau de entrega que fazem no setor e, hoje, diferentemente do passado, sabe-se que existe muito petróleo no país. Ele, se bem aproveitado, irá resultar em invejável índice de desenvolvimento humano para a sociedade brasileira. Somando as descobertas recentes declaradas pela Petrobras, porem ainda não certificadas, chega-se a uma cifra entre 30 e 40 bilhões de barris. No entanto, se interesses políticos não a proibirem de concorrer para arrematar novos blocos, ela passará a ter mais de 100 bilhões de barris.

Mas, a mídia e políticos conservadores argumentam que melhor, para o país, do que uma estatal é ter a exploração e produção de petróleo concentrada em empresas privadas, reguladas por uma agência que imporia os interesses do Estado. Assim, os  investimentos estariam disponíveis e uma melhor eficiência seria alcançada. Ocorre que o setor privado não é necessariamente mais eficiente que o setor estatal. Além disso, só se pensa em eficiência financeira e, não, em eficiência social — muito mais importante, e que uma estatal atende melhor.

A escolha dos investimentos no setor deve considerar os impactos sociais a ser obtidos, como acarretar o máximo de compras locais, empregar o máximo de brasileiros, desenvolver o máximo de tecnologia no país. Neste sentido, a retirada da Petrobras da condição de operadora única do Pré-Sal foi uma decisão contrária aos interesses da sociedade brasileira. Afirmou-se à época que havia pressa para a exploração do Pré-Sal, quando os investimentos lá aplicados devem seguir a velocidade que traz o máximo usufruto social.

A atuação planejada da Petrobras no Pré-Sal pode induzir um novo ciclo de desenvolvimento para o país. Muitas agências reguladoras estão “capturadas” pelos entes a ser regulados. Por isso, aqueles que desejam ver uma sociedade mais justa no Brasil devem buscar outro modelo para o setor do petróleo, lembrando que o país precisa ser soberano para poder garantir impactos sociais relevantes, e sabendo que a Doutrina Monroe, com suas atualizações, nunca foi abandonada.

Uma discussão escondida da população é em quais atividades o Estado satisfaz melhor os interesses da sociedade. Além das típicas do Estado, devem ficar com ele também os empreendimentos de infraestrutura com grande prazo de maturação e baixa rentabilidade; as atividades que requerem alto grau de segurança; as que resultam no aumento da soberania nacional e as que geram lucros estratosféricos. O setor de petróleo enquadra-se em mais de uma destas categorias. No entanto, a cartilha neoliberal prende-se a um único objetivo, a maximização do lucro, supostamente atingido pelas petrolíferas privadas e de que, aliás, a sociedade pouco usufrui.

Hoje, infelizmente, a nossa sociedade, acreditando nas informações destorcidas pela mídia, pensa que a Petrobras deve muito acima da sua capacidade de pagamento. Assim, a tese que a Petrobras precisa vender ativos para pagar sua dívida é aceita pela população. Contudo, ela não é verdadeira, como pode ser observado em “A construção da ignorância sobre a Petrobras” de Felipe Coutinho, presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET).

É importante conhecer as atuações passadas, em outros países, das petrolíferas estrangeiras, pois pela intenção de Michel Temer e do atual presidente da Petrobrás, Pedro Parente, elas atuarão em novos empreendimentos no Brasil. Encontra-se na literatura que barreiras éticas não foram respeitadas por estas empresas nas ações para atingir seus objetivos. Foram protagonistas de tomadas de poder, financiamentos de guerras, assassinatos, corrupções e outras tramas. Mesmo sabendo que as posições no mundo mudam, será difícil confiar nas medições delas da produção de petróleo, das quais dependem os valores dos tributos. Como confiar nos gastos declarados em segurança das operações e em proteção ao meio ambiente? Uma estatal, não visando exacerbadamente o lucro, tende a não fazer estes absurdos.

A atual atuação das petrolíferas estrangeiras é escamoteada, pois inclui a compra de políticos para a aprovação de uma legislação que dissimula a maximização do lucro, e a divulgação, através da mídia cooptada, de inverdades ou a não divulgação de assunto relevante. Assim, conclui-se que as petrolíferas estrangeiras, diferentemente da estatal, não objetivam grande contribuição social.

Ocorre no Brasil, hoje, uma investida das petrolíferas e outras empresas estrangeiras ao patrimônio da Petrobras. Existe também a investida dos “espertos” acionistas da Petrobras no exterior. Eles aproveitam o momento vulnerável da empresa, a falta de apoio do governo e a colaboração inexplicável de nossas autoridades para apresentar reivindicações possivelmente injustas. Parente aplicou o “impairment” de necessidade duvidosa para cálculo do valor de vários patrimônios da empresa, acarretando preços vis. Parente buscou acabar com a empresa integrada que possui todas as áreas que maximizam o retorno da produção de petróleo, aquelas com alta agregação de valor.

No entanto, a Petrobras reage a estes descalabros aumentando a produção do Pré-Sal, o que compensa a diminuição da produção da bacia de Campos e diminuindo a necessidade de importação de petróleo. Tudo isto dificulta Parente de providenciar uma privatização maior.

Ele buscou definir como objetivo da Petrobras a descoberta e produção de petróleo, o que ela faz muito bem. No entanto, vender petróleo in natura, com pouco valor agregado, para petrolíferas estrangeiras, que são integradas, significa transferir lucro para os competidores. Temer e Parente praticam hoje um desrespeito para com todas as gerações de administradores e funcionários da empresa, presidentes e ministros da República, e políticos diversos que, durante 63 anos, sustentaram o desenvolvimento desta empresa e a tornaram um orgulho nacional. Ou seja, ela é a prova que os brasileiros não são atavicamente subdesenvolvidos. É por esta razão que se conclui que eles estão tentando destruir não a empresa, mas o orgulho nacional.

Para o término das obras da Comperj e outros empreendimentos, Parente pretendeu chamar só empresas estrangeiras. Ele buscou transferir uma parcela do campo de Carcará para a Statoil e outros campos para a Total, todos a preços vis. A Noruega e a França aceitaram de bom grado o neocolonialismo. Ele se opôs à exigência de conteúdo local, junto com as petrolíferas estrangeiras. Ele tentou vender a Liquigás, distribuidora de GLP, e uma participação na BR Distribuidora, com a possibilidade de compartilhamento do controle da companhia. Ele buscou transferir a propriedade de 90% da Nova Transportadora do Sudeste, responsável pelo transporte de gás natural nesta região, para a empresa Brookfield Incorporações S/A. Ele foi a favor das parcerias, em que a Petrobras nada ganha, só perde.

Assim, todas as empresas que firmaram contratos leoninos com o Estado brasileiro, são co-partícipes de um crime. Parente está atropelando a lei na sua ânsia pelo desmonte. É bom que ele aja assim, porque está criando um passivo judicial, que pode resultar na revisão das decisões. Inclusive, descrevi, neste texto, as suas atitudes como sendo pretensões, porque para mim tudo feito é passível de ser revertido na Justiça.

O engenheiro Ricardo Maranhão, conselheiro da AEPET, apresentou ao TCU uma lista de irregularidades e ilegalidades no plano de desinvestimentos da Petrobras. Desta forma, não existe um “ato jurídico perfeito”, não só pelo atropelamento da lei, como também pela fragilidade política do presidente atual. Fernando Henrique, que também representou o pensamento neoliberal no poder, não ousou fazer o que Temer, através de Parente, tenta fazer. Inclusive, depois de 2018, um novo governante virá e ele pode querer desfazer o que foi feito, quando ocorrerão embates jurídicos.

Por tudo isto é louvável que muitos Sindicatos e Federações de Petroleiros têm entrado na Justiça contra a selvageria desmedida que Parente busca impor à Petrobras e ao petróleo brasileiro. São alvissareiras as notícias dos deferimentos dos juízes às ações impostas. Entidades da sociedade civil, como Clube de Engenharia, OAB, CNBB e outras deveriam também entrar com ações na Justiça, pois o teatro de guerra é imenso e há espaço para todos.

E se o preço do barril de petróleo subir substancialmente e a destruição de Parente for permanente, quão prejudicada será a sociedade brasileira?
*Conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ


quarta-feira, 29 de março de 2017

Em discurso, Janot responde a Gilmar Mendes: “Decrepitude moral” e “ambição sem freios”

Mesmo sem citar nome, procurador-geral da República chama de “mentira” acusação feita pelo ministro de que a PGR vazou informações sigilosas de investigações da Lava Jato. “Acusam-nos de condutas que lhes são próprias”



Janot: “Procuramos nos distanciar dos banquetes palacianos. Fugimos dos círculos de comensais que cortejam desavergonhadamente o poder político"

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, reagiu com discurso duro, nesta quarta-feira (22), às acusações feitas ontem pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em sessão no Supremo, Gilmar acusou a PGR de se julgar “acima da lei” e de “vazar” para a imprensa nomes de políticos que serão investigados na Operação Lava Jato.
Em evento da Escola Superior do Ministério Público da União, em comemoração aos três anos da Lava Jato, Janot classificou como mentira que beira a irresponsabilidade a informação reproduzida por Gilmar de que a PGR tenha feito “coletiva em off” para repassar nomes da lista da Odebrecht para jornalistas, conforme declarou o ministro.
Embora não tenha citado o nome de Gilmar, Janot mandou recado direto ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o procurador-geral, a ideia só pode vir de “mentes ociosas e dadas a devaneios” e ao “servilismo”. “Procuramos nos distanciar dos banquetes palacianos. Fugimos dos círculos de comensais que cortejam desavergonhadamente o poder político. E repudiamos a relação promíscua com a imprensa”, declarou.
“Ainda assim, meus amigos, em projeção mental, alguns tentam nivelar a todos à sua decrepitude  moral, e para isso  acusam-nos  de condutas que lhes são próprias, socorrendo-se não raras vezes da aparente intangibilidade proporcionada pela posição que ocupam no Estado”, acrescentou.
Na semana passada, Gilmar Mendes se reuniu diversas vezes com o presidente Michel Temer e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), para tratar, segundo eles, da reforma política. Um dos encontros se deu em jantar promovido pelo ministro em sua residência em homenagem ao senador José Serra (PSDB-SP), que fazia aniversário naquele dia.
“Infelizmente, precisamos reconhecer que sempre houve, na história da humanidade, homens dispostos a sacrificar seus compromissos éticos no altar da vaidade desmedida e da ambição sem freios”, discursou.
“Esses não hesitam em violar o dever de imparcialidade ou em macular o decoro do cargo  que exercem; na sofreguidão por reconhecimento e afago dos poderosos de plantão, perdem o referencial de decência e de retidão”, emendou.
Janot destacou a diferença moral entre os integrantes do Ministério Público, para os quais discursava, e quem acusa a PGR de cometer crimes, a exemplo de Gilmar. “Não se impressionem com a importância que parecem transitoriamente ostentar. No fundo, são apenas difamadores e para eles, ouvidos moucos é o que cabe e, no limite, a lei. Não somos um deles, e isso já nos basta.”
Fantoche
Em seminário sobre a reforma política ontem, Gilmar não só acusou a PGR de estar por trás dos vazamentos de nomes da “lista de Janot”, em alusão a texto publicado pela ombudsman da Folha de S.Paulo no último domingo (19), como sugeriu que esses processos poderiam ser anulados, pois correm em segredo de Justiça até o momento.
“Não há nenhuma dúvida de que aqui está narrado um crime. A Procuradoria não está acima da lei. E é grande a nossa responsabilidade, sob pena de transformarmos este tribunal num fantoche. Um fantoche da Procuradoria da República”, disse o ministro.
“É preciso tratar o Supremo com mais respeito”, acrescentou, dirigindo-se à subprocuradora-geral da República, Ela Wiecko, representante da PGR na sessão. Ele criticou o uso de “offs coletivos” – informações passadas a um grupo de jornalistas na condição do anonimato – e afirmou que “a divulgação de informações sob segredo de Justiça parece ser a regra e não exceção”.
Veja a íntegra do discurso de Janot em resposta a Gilmar Mendes:
“Colegas,
A Lava Jato completou neste mês de março três anos de profícuos trabalhos. Do que se revelou no curso das investigações, é possível concluir que existem basicamente duas formas de corrupção no país: a econômica e a política. Elas não se excluem e, em certa medida, tocam-se e interagem.
A primeira, sempre combatida e bem conhecida do Ministério Público, tem fundamentalmente uma finalidade financeira: o corrupto busca o enriquecimento com a venda de facilidades. Normalmente, esse tipo de corrupção encontra-se em profusão nas camadas inferiores da estrutura burocrática do Estado.
A segunda, até então mais intuída do que propriamente conhecida, é ambiciosa e mais lesiva. O proveito econômico não está na sua alçada principal, mas antes o poder. Enriquecer pela corrupção política é mais uma consequência do que propriamente um objetivo. Busca-se o poder, porque o dinheiro e suas facilidades chegam de arrasto.
O mérito da Lava Jato foi haver encontrado o veio principal da corrupção política. Esse tipo de corrupção, como disse, é de altíssima lesividade social porque frauda a democracia representativa, movimenta bilhões de reais na clandestinidade e debilita o senso de solidariedade e de coesão, essenciais a uma sociedade saudável.
Escolhas para altos postos na estrutura do Estado, nas suas autarquias e empresas passam a não considerar a competência técnica do candidato, mas sua disposição para trabalhar na engrenagem arrecadadora de recursos espúrios destinados à máquina partidária que o apadrinhou.
Desde    o    mensalão, essa realidade  já começava a revelar seus contornos com  mais nitidez. No entanto, foi nesses últimos três anos que a dura e inocultável verdade se mostrou por completo: nosso sistema político-partidário foi conspurcado e precisa urgentemente de reformas. É necessário abrir espaço para a renovação o quanto antes, pois a política não pode continuar a ser uma custosa atividade de risco propícia para aventureiros sem escrúpulos.
Certamente, essa crise política há  de encontrar o devido equacionamento no âmbito do próprio sistema democrático. Serão as forças políticas da sociedade, dentro da institucionalidade, que, após debate e reflexão, devem apontar caminhos para que levem à quebra do círculo  vicioso em que o país se encontra.
A nós do Ministério Público cabe um papel modesto nesse processo, mas de grande relevância social. Devemos dar combate, sem tréguas, ao crime, à corrupção e às tentativas de fraudar-se a lisura do processo eleitoral.
É nesse contexto que o papel dos senhores, Procuradores Regionais Eleitorais, avulta em importância institucional. Muitos dos desvios do poder político podem e devem ser prevenidos e reprimidos, quando for o caso, já no processo eleitoral.
Precisamos intensificar, assim, a fiscalização do financiamento das campanhas, combater firmemente o caixa 2 e promover obstinadamente a responsabilização de quem não respeita o fairplay do jogo democrático e abusa do poder econômico e político para vencer ilegitimamente eleições.
O filtro do processo eleitoral, do qual o Ministério   Público   é   importante   componente,  é fundamental  para  melhorar  a  qualidade de nossa política.
Não é fácil a nossa missão, bem o sei. Para mim, já se vão 32 anos de árdua labuta nesta Casa. Tenho afirmado reiteradamente que o Ministério Público não engana a ninguém e não costuma  vender ilusões ou fantasias. Quem busca atalhos e facilidades, de fato, não terá aqui o melhor lugar  para encontrá-los.
Digo isso porque, mesmo quando exercemos nossas funções dentro da mais absoluta legalidade, estamos sujeitos a severas e, muitas vezes, injustas críticas de quem teve interesses contrariados por nossas ações. A maledicência e a má-fé são verdugos constantes e insolentes.
Não quero deter-me no fato específico, mas não posso deixar de repudiar com toda veemência a aleivosia que tem sido disseminada para o     públic nos últimos dias: é uma mentira, que beira a irresponsabilidade, afirmar que realizamos, na Procuradoria-Geral da República, coletiva de imprensa para “vazar” nomes da Odebrecht.
Só posso atribuir tal ideia a mentes ociosas dadas a devaneios, mas, infelizmente, com meios para distorcer fatos e desvirtuar instrumentos legítimos de comunicação institucional. Refutei pessoalmente o fato para os próprios representantes do veículo de comunicação que publicou a matéria inverídica.
Procuramos nos distanciar dos banquetes palacianos. Fugimos dos círculos de comensais que cortejam desavergonhadamente o poder político. E repudiamos a relação promíscua com a imprensa.
Ainda assim, meus amigos, em projeção mental, alguns tentam nivelar a todos à sua decrepitude moral,   e  para   isso  acusam-nos  de condutas que lhes são próprias, socorrendo-se não raras vezes da aparente intangibilidade proporcionada pela posição que ocupam no Estado.
Infelizmente, precisamos reconhecer que sempre houve, na história da humanidade, homens dispostos a sacrificar seus compromissos éticos no altar da vaidade desmedida e da ambição sem freios.
Esses não hesitam em violar o dever de imparcialidade ou em macular o decoro do cargo  que exercem; na sofreguidão por reconhecimento e afago dos poderosos de plantão, perdem o referencial de decência e de retidão.
Não se impressionem com a importância que parecem transitoriamente ostentar. No fundo, são apenas difamadores e para eles, ouvidos moucos é  o que cabe e, no limite, a lei. Não somos um deles, e isso já nos basta.
Para encerrar, compartilho com os senhores a advertência do mestre Montesquieu que sempre tive presente comigo: o homem público deve buscar sempre a aprovação, mas nunca o aplauso. E, se o busca, espera-se, ao menos, que seja pelo cumprimento do seu dever para com as leis; jamais por servilismo ou compadrio.”

Os “Intelectuais” Homologados

Apresento a turma que chamo de "Personal Training" midiáticos; historiadores e filósofos especializados intelectualmente em pensar por nós, dizendo qual o ponto de vista à ser considerado. Observem que os tais sempre estão previamente de acordo com a fonte oficial, mantenedora do sistema vigente. Vão "tocando o berrante" e a boiada absorta, viajando... 

JJJPor
 J. Alfredo Bião
 
 
 
 
 
 
O "historiador" Marco Antonio Villa: suas falas podem ser confundidas com apresentações de stand-up comedy. Os intelectuais homologados sabem animar auditórios como poucos. São o produto mais recente da indústria culturale esteja
O “historiador” Marco Antonio Villa: suas falas podem ser confundidas com apresentações de stand-up comedy. Os intelectuais homologados são o produto mais recente da indústria cultural
POR  
FRAN ALAVINA
 23/03/2017CATEGORIAS: BRASILCULTURADESTAQUESPOLÍTICAS

Villas, Pondés e afins são produtos de uma época sombria. Nunca criticam estruturas. Diluem, em favor da rapidez e do simplismo, o tempo e esforço exigidos pelo trabalho do pensamento
Por Fran Alavina
Não é de hoje que os intelectuais passaram a exercer uma função midiática para além das antigas aparições públicas, nas quais a fala do acadêmico se apresentava como um diferenciador no âmbito do debate público. Entre a tagarelice das opiniões de pouca solidez, porém repetidas como se certezas fossem, a figura do conhecedor, do estudioso, ou mesmo do especialista surgia como um tipo de freio às vulgarizações e distorções do cotidiano. Não que isso representasse uma alta consideração e respeito da mídia hegemônica em relação ao conhecimento acadêmico, uma vez que a fala do intelectual ao se inserir em um debate cujas regras lhes são alheias facilitava a distorção de suas falas, todavia mantinha-se a diferença explícita entre o conhecimento e a simples informação.
Ademais, a identificação dos intelectuais com certas causas os afastavam do centro do poder e de seus bajuladores: os donos da mídia. Tal representava um entreve por princípio. Era melhor não chamá-los a ocupar um espaço voltado para um público amplo. Entre uma fala e outra surgiria a criticidade que a mídia hegemônica procurava “amansar”. Quando era inevitável ceder-lhes espaço, suas falas nunca poderiam ser identificadas com a informação, nem apresentada na forma da informação. Isto era o signo divisor, como que dizendo: “não liguem muito, é coisa de intelectual (…)”. Nos últimos anos, contudo, essa diferença (entre conhecimento e informação, entre o papel do intelectual e a função midiática) não apenas se esgarçou, como se tornou quase nula. Por isso, hoje estamos diante de um novo tipo de intelectual: o intelectual homologado.
Este tipo de intelectual surge nos espaços da mídia hegemônica como uma espécie de adendo à informação, um plus, pois o saber, representado pela sua presença, que supostamente emprestaria prestigio às notícias é dado sempre na forma da informação, portanto descaracterizando os elementos que constituem qualquer tipo de conhecimento. Ou seja, sobre critérios que fazem do saber um não saber. Dilui-se na torrente informacional midiática o tempo demandado e o esforço necessário exigidos pelo trabalho do pensamento, em favor da rapidez e do simplismo. Porém, tais aspectos, embora importantes, não configuram o fator determinante da homologação.
Estes intelectuais são homologados na medida em que suas falas públicas têm aparente criticidade e profundidade. Em verdade, nunca dizem algo que seja contra os interesses dos meios midiáticos que lhes dão guarida, nunca fazem um crítica profunda que mexa com as estruturas mais acomodadas do seu público, pois este já não é mais uma plateia que dá ouvidos às palavras do homem de saber, mas um grande fã-clube que ele não pode jamais desapontar. A formação deste fã-clube impede a autonomia que caracteriza o sujeito de saber. Desse modo, não se estabelece, de fato, uma relação que enseja conhecimento, mas uma relação de poder, na qual o liame é a dependência entre os ditos e gestos e a obediência na forma do consentimento Tanto é assim que nos raros momentos em que o fã-clube do intelectual homologado se volta contra ele, o objeto da “revolta” não é de cunho teórico, ou seja, não é um debate sobre suas obras ou suas ideias, porém diz respeito a um fato de sua vida privada. Seus fãs exercem uma vigilância policialesca, como os fãs de qualquer astro pop, pois a relação se, por um lado, exige o consentimento, por outro lado, faculta a vigilância aos que consentem. A figura do intelectual homologado traz consigo uma legião de homologados intelectuais. Ora, não foi isto que ocorreu nos últimos dias, com a pantomima em torno de uma foto postada nas redes sociais pelo nosso mais bem acabado exemplo de intelectual homologado?
TEXTO-MEIO
Como a celebridade pop que depois de flagrada fazendo algo que desagradou aos seus fãs, foi obrigado a redigir um pedido de desculpas. Na “prestação de contas” ao seu fã-clube deixou-se escapar toda a vaidade e o exibicionismo. Ele dividiu o mundo entre aqueles que o amam e aqueles que o odeiam. Crença típica das celebridades midiáticas, segundo a qual uma vez alcançado o posto de famoso, as pessoas ou o invejam, ou lhes prestam deferência. Qualquer coisa fora desse script é visto como algo sem sentido. Em alguns casos são críticos das religiões, mas agem como os pastores que criticam, formando um rebanho não pequeno. O que atesta que se trata de uma relação de poder, e de um poder sedutor, pois travestido de saber.
O grande fã-clube reforça a secular vaidade dos intelectuais, que hoje já não medem mais o êxito de suas carreiras pela qualidade de suas publicações, ou por terem se tornado referência em suas áreas, ou mesmo pelo número de citações de seus trabalhos em outros estudos. O produtivismo do currículo lattes não lhe sacia mais. O êxito e a qualidade são confundidos com o sucesso de público, a qualidade mede-se pela quantidade de curtidas que suas páginas virtuais possuem, pelos vídeos postados que se tornam virais e pelo maior número de palestras pagas que podem amealhar. Embora, na maioria dos casos, suas formações e carreiras sejam devidas ao sistema público e gratuito de ensino superior, ao venderem palestras e workshops pagos e fora das universidades públicas, além de distorcerem a função social do saber, tornam-se um tipo de mercadoria. Por conseguinte, expressam a ideologia neoliberal segundo a qual todo indivíduo é um empreendedor de si mesmo. Como empreendedores, eles se vendem para um público determinado, cujo nicho de mercado descortinaram. Tal é o caráter mercadológico que perpassa a atividade do intelectual homologado.
Em alguns casos, seus discursos públicos e “intervenções” parecem ter uma singular acidez crítica. Porém, se trata de uma semelhança aparente, o intelectual homologado tem um efeito placebo sobre o grande público, sua crítica nunca visa a raiz das coisas, mas alguns aspectos modísticos, oportunistas. Aceitando a homologação, seu papel é entreter, desviando a atenção do público com base no conhecimento e na posição que lograram.
Dessa maneira, suas falas podem ser confundidas com apresentações de stand-up comedy. Sabem animar auditórios como poucos. O intelectual homologado, com efeito, é o produto mais recente da indústria cultural. Tal figura, típica do farsesco debate público contemporâneo, contudo não surgiu do nada. Embora seja uma figura recente, o intelectual homologado é precedido por uma história própria da intelectualidade e suas determinações de classe. Ainda que, muitas vezes, ele queira se apresentar como alguém que fala de fora e acima do corpo social, assim observa sem sujar as mãos, supondo uma posição privilegiada e imparcial, quase sempre tende a repetir, sob o manto do discurso abalizado, a visão parcial de sua classe social.
O intelectual homologado é precedido pela figura do intelectual orgânico que outrora se comprometia com um projeto nacional-popular; este, um pouco depois, deu lugar ao intelectual engajado. Já nos anos 1990, verificou-se o silêncio dos intelectuais após o fim das utopias e a derrota histórica das formas alternativas de organização social até então constituídas. Esta derrota histórica e este silêncio, que apareciam como um gesto de mea culpa, formaram um interdito que reduziu os objetos do discurso público do intelectual, objetos que à medida que diminuíam de dimensão propiciaram a identificação do intelectual com o especialista. Tal se configurou, primordialmente, na figura do economista. Todavia, depois da crise mais recente do capital, a fala pública do economista perdeu crédito, surgindo em seu lugar o intelectual homologado que na maioria dos casos são homens saídos das ciências humanas, mais particularmente da filosofia, da história e da educação. Por enquanto, os geógrafos, antropólogos, e parte dos cientistas sociais, parecem resistir à homologação, ainda que ela seja extremamente sedutora.
Pasolini, em seus textos corsários e luteranos, que tinham como objeto a Itália dos anos 1970, já diagnosticava a figura do intelectual homologado como um produto que perduraria por longo tempo no espaço público, pois sua vitalidade se alimenta justamente de um crescente anti-intelectualismo. Enquanto a postura do intelectual requer algo contrário do que aí se apresenta, aceita-se o simulacro como se fosse a própria coisa. A tagarelice do intelectual homologado, que discursa sobre tudo por medo de ser esquecido, não é o fim do silêncio dos intelectuais, mas sua confirmação. Quanto mais falam, mais se mostra sobre o que silenciam.
Entre nós, não faltam casos ilustrativos. Como vivem da imagem midiática que construíram, os intelectuais homologados apresentam-se com certo aspecto caricatural, como o personagem que se identifica pelo bordão. O historiador da UFSCar, por exemplo, quase sempre se apresenta em tom elevado, dedo em riste, e no auge de suas “intervenções” mais acaloradas não fica com um fio de cabelo fora do lugar. Bate-boca e indisposição com políticos de esquerda, como se isto fosse sinal do bom debate, é o diferencial de seu produto. Já o filósofo do politicamente incorreto ressuscitou o cachimbo como secular excentricidade do intelectual. Perfazendo uma imagem que beira o kitsch, com frequência posta vídeos em que aparece fumando (talvez seja este o signo do politicamente incorreto?!) e cercado de livros que lhe emprestam a áurea de sabichão.
Seria apenas cômico, se não configurassem a expressão trágica do pensamento fácil. O intelectual homologado é o último estágio da miséria dos intelectuais. Indica a perda de dignidade do pensamento crítico, na verdadeira acepção do termo, e, talvez, o vislumbre de sua derrota.
Redação Outras Palavras
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