terça-feira, 15 de agosto de 2017

A discreta emergência dos Bancos de Tempo



– ON 11/08/2017
 
   
 
   
 
   
   
   
   
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Em meio a um capitalismo que produz cada vez mais desigualdade e dominação, surge um sistema, não mercantil e igualitário, para trocar serviços e desalienar parcialmente o trabalho
Por Valerie Vande Panne | Tradução: Inês Castilho | Imagem:Vanessa Van Gasselt
Vivemos numa sociedade capitalista. Os bancos estão por toda parte, e frequentemente parece que não pode haver vida sem dinheiro e crédito. O abismo entre os que têm e os que não têm aumenta. E a desigualdade econômica explode em toda parte.
Mas surgem, aos poucos, alternativas. Em muitos lugares, as pessoas estão usando um sistema de trocas que requer algo que todos, de alguma maneira, têm igualmente, e sempre: o Tempo.
Como oferecer ou trocar tempo? Por meio de um banco de tempo. A essência é: você gasta uma hora fazendo algo para alguém no banco de tempo de sua comunidade, e recebe um crédito de uma hora para gastar em alguma coisa que precisa. Por exemplo, se levou uma hora limpando o quintal do vizinho, tem uma hora para gastar, por exemplo, com alguém que cuidará de suas crianças ou consertará seu carro. É uma hora por uma hora. A ideia é simples, e está se espalhando.
Veja, por exemplo, o Banco de Tempo Rushey Green, localizado na região sudeste de Londres. É um grupo de 535 pessoas, com projetos que incluem uma comunidade de jardinagem, compostas por mais 400 pessoas, e um projeto de refeições comunitárias, com mais 100. [Veja, também, os primeiros Bancos de Tempo brasileiros].
O Banco Rushey Green Time era muito pequeno quando começou, há quase 20 anos,  explica seu diretor, Philippe Granger. Um médico quis oferecer algo mais, além de prescrever medicamentos – em especial para os pacientes  que sofriam com isolamento, situações de perda ou desemprego. “Normalmente, um médico prescreve comprimidos” nesses casos, diz Granger. “Mas ele achou que seria melhor integrar os pacientes na comunidade.” O banco começou em um centro de saúde, numa parte da cidade bem mais cinza que verde. É uma área de alto desemprego, mães solteiras e aposentados.
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“Nos últimos seis ou sete anos tivemos um aumento dos casos de doença mental. Penso que, se elas avançam no mundo todo porque, é porque a vida está se tornando muito estressante”, diz Granger. Segundo ele, as pessoas com 30 a 40 anos dizem com frequência que estão com depressão, mas isso é usado como “palavra guarda-chuva”.
“Não somos curadores; não somos médicos”, diz ele: “Não prometemos que podemos consertar seu corpo se ele está rompido. Mas podemos ajudar a administrar sua condição física. Você tem uma comunidade em torno de si e recebe apoio. Se quebrou uma perna e está sozinho, fica difícil. Mas se está num grupo, pode ter suporte. Nesse sentido, os efeitos da doença são reduzidos”. Ele acrescenta: “Adoro ver pessoas caídas se levantando”.
No caso de uma perna quebrada, a comunidade do banco de tempo pode ajudar com coisas como fazer entregas, passear cachorros ou limar a casa. O convalescente, em troca, pode fazer telefonemas para uma organização local ou ensinar alguém a ler.
Mashi Blech, diretor do Banco de Tempo ArchCare, em Nova York, concorda. O banco é parte da Arquidiocese de Nova Iorque, patrocinado pelo setor de saúde da igreja — o ArchCare. Mashi trabalha nisso há 30 anos, e o o banco de tempo tem agora mais de 1.500 membros individuais e mais de 80 organizações, que falam 40 idiomas.
“Aqui em Nova Iorque a vida pode ser bem estressante”, diz Mashi. “As pessoas podem sentir-se muito isoladas e solitárias. Isolamento social é um indicador de morte precoce maior do que ser fumante”, diz Kim Hodge, fundador da Aliança de Bancos de Tempo de Michigan e do Banco de Tempo Pontiac.  As pessoas precisam sentir-se necessárias, diz ela, e o banco de tempo permite que deem e recebam de modo saudável.
A Arquidioce de Nova York lançou seu banco de tempo ao perceber que, embora muitos usuários do ArchCare recebessem bons cuidados médicos, estavam deprimidos e perdiam o sentido de pertencimento a uma comunidade — em geral devido ao fato de estar envelhecendo. Mashi conta que, de acordo com suas próprias avaliações, as pessoas na faixa dos 70 a 90 anos que usam o banco de tempo relatam melhoras na saúde física e mental. “Isso é muito bom”, diz ela, pois conseguir melhoras nessa idade é excepcional.
Philippe Granger lembra que o banco de tempo é visto de formas diferentes, em diversas partes do mundo. Na Grécia, por exemplo, as pessoas criaram bancos de tempo e redes de troca em função da necessidade. Há um banco de tempo com 2.500 membros na Rússia, que “não é político, mas de cuidado com idosos”. Na Espanha, bancos de tempo são grupos menores de pessoas trabalhando para ser mais resilientes. E na Finlândia, o Banco de Tempo de Helsinki cobra de seus participantes um pequeno imposto em créditos de tempo — que são transferidos para um “ator econômico ético” –  uma cooperativa de alimentos, por exemplo. Já nos EUA, ela diz, há bancos de tempo “mais artísticos” e “cheios de pessoas que desejam virar o sistema de cabeça pra baixo”. Philippe analisa: “Você faz o trabalho de acordo com o contexto. Rodos válidos, não se trata apenas de pobreza financeira. É mais pobreza emocional, social.”
No Banco de Tempo Rushey Green não se trocam créditos de tempo por bens. Ao contrário, insiste-se na troca de tempo e no contato com pessoas. “Trata-se de resiliência comunitária. Ajudar-se mutuamente não tem equivalência financeira. Não é somente uma questão de sobrevivência. Falar em sobrevivência é de certa forma negativo, significa que a vida é sem esperanças. Os bancos de tempo trazem vida e felicidade e divertimento. Não é sobrevivência, mas vida”, pensa Philippe.
“Estamos todos tentando encontrar saídas ao sistema capitalista. O banco de tempo é outra maneira de fazer as coisas”, acrescenta ele. Mas conseguir que uma empresa de energia, por exemplo, aceitasse créditos de banco de tempo já seria uma revolução. Até lá, Philippe recomenda que as pessoas administrem os dois sistemas. Você pode viver em vários sistemas, diz, “sem ser um riquinho detestável”.
Ele é cauteloso ao falar sobe o banco de tempo como solução para todos os males do capitalismo. Ressalta também que muitos dos membros idosos do Rushey Green “não dão a mínima para o sistema. Eles têm poucos anos à frente. Querem apenas se divertir.”
O Banco de Tempo Rushey Green também está envolvido em oferecer cartões de desconto para a vizinhança. Cerca de 3.000 membros da iniciativa e outras pessoas recebem cartões que lhes permitem receber descontos em 160 lojas locais. Isso encoraja as pessoas a comprar no comércio do bairro e resulta em apoio à comunidade. “Estamos tentando revigorar os pequenos negócios e ajudá-los a se manter.”
Há problemas, também. Segundo Kim Hodge, da Aliança de Michigan, 75% dos bancos de tempo iniciados deixam de existir depois de alguns anos: o trabalho é muito cansativo para os organizadores, quando são voluntários. “É preciso um tipo de organizador experiente para conseguir recursos”, contratar e pagar uma equipe e manter as coisas funcionando. “É algo que não acontece por si só”, diz ela.
Kim sustenta que os bancos de tempo são parte de uma grande mudança global. “São um pedaço do rico mosaico dos diferentes modos de viver e promover ajuda mútua. Alcançam um certo número de pessoas e desempenham um papel na transformação do nosso mundo — algo certamente necessário.”

Pelo direito a não ter carreira alguma






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Um dos aspectos mais aprisionantes do trabalho assalariado é a tendência a vincular a vida a uma única profissão. Que, em vez de carreira, tenhamos trajetória, aventura, travessia
  

  
  Crônica de Maria Bitarello
“Carreiras são uma invenção do século 20, e eu não quero uma”. Quando li essa frase, conclui no ato: nem eu! Um dos primeiros pânicos que tive, ainda bem nova, ao me projetar adulta era justamente esse: como é que eu vou conseguir trabalhar a vida toda fazendo a mesma coisa? Tinha calafrios noturnos com a ideia. Isso muito antes de ler a frase acima no livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Muito antes de saber que não era preciso fazer todo dia a mesma coisa pra ser um adulto. Se soubesse então que carreiras são uma invenção recente, teria me concentrado em sofrer apenas com os outros dois desse trio de terrores do reino assombrado da “maturidade”: 1) acordar cedo todo dia; 2) e ter que virar esposa e mãe. Me sentia completamente inapta pra todos eles.
E pra despistar o carreirismo e evitar que a profecia se concretizasse, tive que dar uma voltinha por aí. Nos Estados Unidos, me agradava observar o valor que conferem às conquistas atléticas. Fulano é bancário, mas na verdade quando chega em casa e tira o disfarce de Clark Kent ele vira um ultra-maratonista, treina todos os dias e disputa até cinco provas anuais, incluindo o triathlon. Trabalho; qualquer um pode fazer. Mas os feitos atléticos dependem de disciplina e perseverança individuais, o que é uma prova de caráter na terra do self-made man. Aí na França era parecido, porém diferente – todo poder ao cérebro. Beltrano é carteiro, mas está escrevendo um ensaio definitivo sobre a obra completa de Marcel Proust. Sicrano é funcionário administrativo da prefeitura, mas todos os anos viaja pro Norte da África pra fotografar mulheres da cultura tuaregue.
Foi um alívio perceber que a carreira não precisava ser a luz no fim do túnel, o fim que justificaria todos os meios, nem o topo da cadeia alimentar. Poderia ser maratonista e escritora, ciclista e jardineira, yogi e cozinheira, professora e mochileira. Foi gloriosa e alforriante a descoberta. Ia de encontro a tudo que eu sentia. Era possível, sim, ter um trabalho que não me definisse enquanto espécie e não fazer desse trabalho uma trilha monocórdica. A ausência de uma carreira no sentido de um curriculum vitae não equivale a carência de ofício. De jeito nenhum. E o trabalho não dignifica o homem (e a mulher) coisa nenhuma.
Diante de tais descobertas, a ideia de voltar ao Brasil e, consequentemente, precisar encontrar uma profissão definitiva me mantinha firme e forte lá do outro lado do Atlântico – onde, parecia, estaria a salvo desse fardo e das expectativas, minhas e de outrem, acerca de quem eu deveria ser aqui na terrinha. No além-mar, em terras estrangeiras, não esperavam muito de mim. Um sentimento libertador, a princípio, mas por fim infantilizador. E com o tempo foi tornando-se desestimulante sustentar o status café-com-leite do visto de estudante. Era hora de voltar. Hora de peitar o utilitarismo profissionalizante de frente.
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E eis o que constatei. Carreira não pode ser algo que você busca, como passar de fase no videogame, ou passar de júnior pra sênior na firma. Uma carreira dotada de sentido só pode ser algo que te acontece, como a vida. Movida pelo tesão, pelo amor, pela alegria. Ela vai sendo trilhada ao longo da sua jornada terrena, como um passo dado depois do outro, como os capítulos de um épico russo ou o avanço da escola de samba na avenida. Haverá caminho, percurso, trajeto. Dos trabalhos que você amou aos que detestou, dos amantes às amadas, das dores de garganta às de cotovelo, passando pelas unhas encravadas e os vãos desesperos. É a história de cada um. Natural e inevitável. A humana aventura. Travessia.

Parlamentarismo e “Distritão”: o projeto Temer-Cunha ataca a soberania



Nesta fase do golpe, o objetivo é impedir que um novo Congresso eleito ouça a voz das ruas e remova as ‘reformas’ do governo ilegítimo

O projeto Temer-Cunha abrirá as portas do Legislativo para as corporações políticas e econômicas
Uma vez mais, e jamais suficientemente, é preciso pôr à luz do sol o caráter do golpe em curso, como forma de antever seus próximos passos, e a eles nos anteciparmos. Jamais será excessivo destacar seu caráter oligárquico, antinacional e antipopular, autoritário e desconstrutor da ordem republicana. Mas agora é preciso, também, denunciar as maquinações contra a política e a democracia representativa que, após o hiato dos 21 anos imposto pela última ditadura, nosso povo vem, aos trancos e barrancos, tentando reconstruir.
Quando é mais grave a fragilidade dos partidos políticos, mais aguda a crise de representação das casas legislativas (segundo pesquisa Ipsos, 65% dos brasileiros não confiam no Congresso), quando fica exposta a dissonância entre a vontade popular e o papel de seus governantes, a atual e mercenária maioria parlamentar, sob a regência de Michel Temer, anuncia novos ataques à soberania popular, mediante as propostas de Parlamentarismo (ou “Presidencialismo mitigado”, como parece preferir o antigo operador do Porto de Santos) e o tal do ‘Distritão’.
As duas propostas são complementares, imbricadas, e visam tão simplesmente a afastar ainda mais o povo do processo político, promovendo a exclusão das forças populares. Legislando ostensivamente em causa própria, a maioria parlamentar – empresários, ruralistas, seitas neopentecostais, o ‘Centrão’, os grileiros, os sonegadores de impostos e seus despachantes, a ‘bancada da bala’, a burguesia rentista, os assaltantes do erário – objetiva impedir a renovação que a consciência nacional exige.
‘Distritão’ e Parlamentarismo enfeixam as novas regras eleitorais cozinhadas na Câmara dos Deputados com o objetivo de reduzir ao mínimo a autonomia da soberania popular.
O ‘Distritão’, mostrengo político e constitucional  sob qualquer análise, é projeto velho das velhas raposas e foi proposto, de início, pelo então deputado Michel Temer. O cúmulo de estapafurdice se deu numa reunião do Conselho Político da Presidência da República, ainda no governo Lula.
Sua única ‘contribuição’ (de Temer) em  todas as reuniões do Conselho foi essa, rechaçada pelos demais presidentes de partidos. A unanimidade contra traduzia uma razão gritantemente lógica: o ‘Distritão’ significa a desmontagem do regime de partidos. A quem pode interessar tal projeto em uma democracia representativa, por definição dependente de um sólido arrimo partidário?
Poucos anos à frente, o mesmo deputado Temer (o menos votado na bancada paulista) é eleito vice-presidente da República com os votos de Dilma, e, imediatamente esquece o tema, que voltaria à tona em 2015, porém, desta feita, mediante projeto de lei de seu comparsa e então presidente da Câmara dos Deputados, o hoje presidiário Eduardo Cunha. O projeto, apesar de Cunha, foi rejeitado. Ainda apesar de Cunha, foi derrotada, naquele mesmo 2015, a proposta de ‘sistema distrital misto’, retomada agora pelo tucanato, sempre tardio.
Por que voltam agora, um e outro?  Porque não basta depor Dilma Rousseff  e não basta impedir a candidatura de Lula (embora isso seja fundamental para os desígnios futuros da Casa Grande), e mesmo não basta a desnacionalização de nossa economia, a recessão, a desindustrialização e a reprimarização do setor produtivo, o arrocho salarial e desemprego (preço que os assalariados pagamos para financiar a farra dos juros da dívida).
Não basta mesmo a destruição dos direitos dos trabalhadores, nem mesmo a reintrodução do trabalho escravo no campo, projeto apresentado por deputado do PSDB que, em pleno terceiro milênio, permite que o empregado rural possa receber, pelo seu trabalho,  “remuneração de qualquer espécie”, ou seja, ao invés de salário, um naco de rapadura com farinha, uma choça para morar, um par de sandálias de rabicho ou aquela calça velha que o fazendeiro não quer mais vestir.
O essencial, nesta fase do golpe, é impedir que um novo Congresso (novo segundo o caráter de sua composição), ouvindo a voz das ruas, remova, como entulho, as ‘reformas’ do governo ilegítimo levadas a cabo por um  Congresso à míngua de representatividade.
Por isso, e por óbvio, as eleições de 2018, para ocorrerem, precisam ser ‘seguras’. Daí o ‘Distritão’, que destrói a fidelidade partidária e os partidos, e, ele sim, inviabiliza a governabilidade, pois ao invés de 20 ou 30 partidos, o governo terá de negociar, na Câmara, com 513 ‘partidos’.
Transformando a eleição proporcional numa cara eleição majoritária, sem a mediação dos partidos, o projeto Temer-Cunha escancarará as portas dos Legislativos – e é isso o que pretende a maioria de hoje – para os representantes das corporações políticas e econômicas (as FIESPs, CNIs e quejandas), os milionários, os rentistas dos dinheiros públicos, os titulares de cargos eletivos, os doleiros, os ‘bispos’ de seitas religiosas conhecidas pelo seu reacionarismo, as celebridades midiáticas e os meliantes de carteirinha, à procura, a qualquer preço, de imunidade parlamentar (Informa André Barrocal, Carta Capital de 16 de agosto que 300 a 400 dos atuais congressistas são investigados pelo STF e 55 são réus em 100 ações penais). Todos estarão bem representados, menos o povo.
O golpe midiático-parlamentar-judicial-rentista, operado pela aliança do agronegócio com o capital financeiro, nacional e internacional, se instala com a deposição de Dilma e, a partir daí, passa a desenvolver-se em etapas, e a primeira e a mais grave delas é a destruição do projeto de Estado em construção desde a revolução de 1930.
A operação está em curso, e assim permanecerá, enquanto não for possível remover o governo de fato que aí está. A destruição da Previdência Social é apenas uma das metas imediatas do golpe, passado o desmonte da legislação trabalhista. Outras virão.
Como ignora quanto tempo permanecerá dormindo no Jaburu e recebendo visitas noturnas nada republicanas, o presidente denunciado como corrupto, e sua grei, correm com as ‘reformas’. Entrementes, há a ameaça de eleições gerais em 2018, pleito que a correlação de forças reinante não conseguiu, até aqui,  reunir condições de evitar, embora o ‘mercado’, revelando a alma do golpe, diga (Valor, 21.6.2017) que “as eleições de 2018 representam risco real à agenda de reformas necessárias para o país voltar a crescer”.
Daí o apelo ao ‘Distritão’ (que assegurará o controle dos legislativos pelo poder econômico) e o Parlamentarismo, que anulará a eventual eleição de um presidente ‘fora do controle’. Essa ameaça, hoje, tem nome e sobrenome: Luiz Inácio Lula da Silva, alternativa popular que a Casa Grande não admite.
Jamais admitiu.
Em 1955, sem forças para derrotar a candidatura de Juscelino Kubitscheck, a direita civil-militar intentou impedir sua posse. Em 1961, sem forças para evitar a posse de Jango (pela qual gritavam as ruas em esplêndida unanimidade), negociou o Parlamentarismo, que, no Brasil, não é um sistema de governo, mas um instrumento de golpe de Estado.
Como é sabido, convocado a falar em Plebiscito (1963), o povo impingiu ao Parlamentarismo uma derrota esmagadora. Na Constituinte, derrotado no Plenário, o PSDB conseguiu a convocação de novo Plebiscito (1993) para decidir qual sistema de governo o povo preferia, optando entre Presidencialismo, Parlamentarismo e Monarquia. Outra rejeição ao parlamentarismo, outra consagração do Presidencialismo.
História monótona: em 1989, a Rede Globo interfere no processo eleitoral manipulando a cobertura do último debate entre os candidatos; o presidente da FIESP (sempre ela!) anuncia que milhares de empresários brasileiros estavam se preparando para abandonar o país “se o metalúrgico for eleito”. A liderança de Lula nas pesquisas de intenção de votos, em 1994, justificou uma emenda constitucional reduzindo de cinco para quatro anos o mandato presidencial. Inesperadamente eleito FHC, o Congresso aprova nova emenda, desta feita permitir a reeleição.
Hoje,  a ameaça é, uma vez mais, a eventual eleição do sapo barbudo. Daí os processos que se acumulam contra o ex-presidente, com o único e claro objetivo de tirá-lo da disputa. Sem o metalúrgico no páreo, a Casa Grande conta ganhar as eleições.
Mas o seguro morreu de velho. Como precaução, tenta implantar o rejeitado Parlamentarismo, no qual o Presidente da República manda tanto quanto a Rainha Elizabeth. Nesse caso, tanto faz Lula ou Bolsonaro, pois o controle ficará sempre com o Congresso, que, na próxima legislatura, mercê das regras eleitorais em discussão, será, certamente, mais corrupto e mais ilegítimo.
No Parlamentarismo, a classe dominante, a mesma gente que vem mandando e desmandando desde a Colônia, não corre risco, pois, se em eleição direta jamais emplacará em 2018 um filho seu na Presidência, em eleição indireta jamais será eleito um Lula.
Esse é o preço que nos cobra a versão trágica da História recorrente.
STF
O grave não é nem a ‘disenteria verbal’, nem a ‘decrepitude moral’ (palavras de Janot) do ainda ministro Gilmar Mendes, mas a omissão cúmplice do STF e do CNJ ante seu comportamento, seu falar e seu agir.
Roberto Amara

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O Exercício do Poder depende da excelência intelectual?


Nem tanto, já que é possível seduzir, induzir pensando mal, pensando errado, e atrair apoio; mais do que isso, para se conseguir o apoio da maioria é quase que necessário se pensar de forma errada. Por que? Porque a verdade e o certo na sua completitude, integralidade e complexidade é inacessível a um maior número de pessoas.

...é por isso que eu uso esse tampão. Se dá bem, é quem convence o maior número. Quem se dá bem é quem toma a palavra e com a palavra consegue a adesão do maior número a uma tese que lhe seja favorável. Então é claro que você rapidamente se dá conta de que havia uma competência imprescindível para triunfar nesse esquema. Que é a capacidade de persuadir, com a palavra.

Continuando: se a boa argumentação, era a argumentação que tinha como consequência a adesão do maior número, o que é que tinha de ser dito pelos oradores? Aquilo que despertasse a adesão do maior número. Isso significa o que? Isso significa que os argumentos, eles não eram bons ou ruins, em função deles mesmos, ou eventualmente como consequência de algum atributo de veracidade, não! Os argumentos somente eram bons se e somente se conseguissem a adesão do maior número. Perceba a qualidade do argumento, o valor do argumento, não está na sua lógica interna; a qualidade e o valor do argumento está na consequência, que esse argumento produz, quando em contato com um certo auditório. Em outras palavras, se você trocar o auditório, é muito provável, que você tenha que trocar o argumento. Porque o argumento vale, na medida da eficácia para aquele auditório específico. Isso significa o que? Que talvez você tenha que dizer coisas diferentes; quiça contraditórias entre si, dependendo de quem estiver ouvindo. Isso significa o que? Que pouca importa se você está dizendo a verdade, se o que você está dizendo é logicamente sustentável, se o que você está dizendo é filosoficamente confiável, o que importa é que se aquelas palavras produzirão o efeito desejado de aplauso, condição da vitória na Ágora, do exercício do poder e do triunfo de um desejo em detrimento de outros desejos. Quem eram os grandes nomes da Ágora? Os monstros sagrados da Ágora? Eles eram os comumente denominados de sofistas e havia entre eles alguns melhores do que outros.

 Verdadeiros demônios da Ágora! Certamente os maiores oradores da história da humanidade.Como parecem ter sido Górgias e Protágoras. Então quem eram esses caras? Do que eles viviam? Como é que eles enriqueceram?

Primeiro eles defendiam pontos de vista que lhes fossem favoráveis. Depois eles alugavam a sua verve -calor de imaginação que anima o artista- para quem quisesse ter os interesses defendidos por eles. Então eles eram ao mesmo tempo legisladores e lobistas. Vamos imaginar que você seja gago. O indivíduo gago, na Ágora ateniense, não teria a menor chance de vitória. Então o que faz o gago. O gago é burro? Não ele é gago. Gago é mentiroso?Não ele é gago. o problema é que a gagueira era um obstáculo invencível naquele sistema de jogo. Então o que fazia o gago? Ele contratava Górgias. Ele dizia:
 Olha, você precisa ir lá defender isso aqui. Beleza! Eu cobro tanto. Então está aqui o dinheiro. E lá ia Górgias para a vitória! Em nome do interesse do gago.

 Se fosse um mudo, e o interesse fosse o contrário do interesse do gago, Górgias ganharia para o mudo. E provavelmente diria o contrário do que disse em favor do gago. Porque o que importa não é a eventual verdade do argumento. Mas a sua eficácia persuasiva. Muito bem, e aí? Aí que Platão não gostava do esquema! E porque que Platão não gostava do esquema? Platão não gostava do esquema porque ele não teria nesse esquema, nenhuma chance. É claro que isso você não vai ler na república! Isso é o que está por trás. Isso é a genealogia. Isso é o interesse. Nesse esquema de decisão, Platão seria massacrado. Por quem? Pelos sofistas. Então o que faz Platão?

 Platão através da Filosofia, cria outras condições de diálogo. Outras condições de debate, que não as da Ágora. E ele coloca para debater, não ele, que ficaria óbvio demais. Mas ele escreve os diálogos e coloca para debater Sócrates, personagem que ele inventou. Mas o senhor está dizendo que Sócrates não existiu? Isso é uma pergunta sem relevância nenhuma. Sócrates é curioso isso; nunca escreveu nada, não deixou nada escrito. O Sócrates de quem estou falando é a personagem de Platão. Cujo discurso é escrito por Platão. E Sócrates dialoga contra quem? Contra os campeões da Agora!Pode pegar a lista dos diálogos de Sócrates e Platão e você verá que Sócrates debate contra os campeões da Ágora e Platão coloca o título do diálogo, o nome do campeão da Ágora, jogada de marketing! Esse cara é tão conhecido! É como se eu escrevesse um diálogo, eu e José Dirceu e colocasse o título José Dirceu ou Alckmin, ninguém me conhece mas a eles sim. 

Eu ponho o campeão da Ágora e uma personagem que eu inventei. E nessas novas condições, em que Platão escreve o discurso de Sócrates e o discurso do sofista, Sócrates ganha sempre. De lavada! E o sofista aparece como um débil mental absoluto. É certo Sócrates, você tem razão Sócrates, puxa como eu não havia percebido isso antes. Então você acha mesmo que o campeão da Ágora, o sujeito riquíssimo que mandava em Atenas, ia até esse idiota que vai debater com Sócrates que vai debater e gagueja. Nunca! Isso aí era uma reconstrução, delirante, da realidade. Diante de novas coisas. Agora é claro, fica na história das faculdades de filosofia...Platão nosso herói e os sofistas meia dúzia de imbecis.Só que na época era o contrário! Muito bem. Quem vai fazer todas essas reflexões que eu estou fazendo é Nietzsche, e você pode ler o Crepúsculo dos Ídolos e você pode ler dentro do Crepúsculo dos Ídolos, o capítulo consagrado a Sócrates; aonde Nietzsche vai refletir com eu estou fazendo. A filosofia de Platão como uma impostura. Já que eu não suporto a realidade, porque sou fraco; eu crio novas condições aonde eu me dou melhor. E essas condições são os meus textos.

Concluo que a tal democracia foi criada pelos reativos...