terça-feira, 29 de julho de 2014

Reflexão sobre a parábola "Trabalhadores na Vinha"

Os Trabalhadores na Vinha

Mc 4:1-20

Se as parábolas de Jesus girassem sempre no plano material, todas elas teriam um simbolizado injusto. Só que as injustiças pairam sempre sobre os símbolos materiais da parábola e, não sobre o seu simbolizado espiritual.

Por isso, encontramos cristãos preocupados com as imagens de barro ou madeira que de certa forma não dignas de reverência sagrada alguma. É a confusão dos que se preocupam com o dedo que aponta o Caminho, e não com o Caminho!

A “turma do dedo”, sempre está de plantão quanto à forma exterior que a imagem possui, se há algum ritual agregado, qual dos “dedos” que aponta o Caminho sagrado, em que mão ele se encontra, etc. Isso se compara, ao nome da Igreja, tipo de congregação, CNPJ, ideologia cristã, teologia, tradutor bíblico, se guarda o sábado, se é pentecostal ou neo-pentecostal, se é tradicional ou ortodoxa, etc.

A parábola aqui acima, não trata do plano quantitativo e horizontal do nosso ego que é aqui representado por valores de ganhos e perdas de forma quantitativa, nunca de forma qualitativa.

“O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha...”

Se alguém gasta 12 horas de trabalho tem de ganhar uma recompensa correspondente ao seu esforço e gasto. Trabalho é despesa, esforço, recompensa é receita e premiação.

Este é o nosso mundo com as suas leis. Se assim não fosse, não haveria a necessidade deste tipo de barganha...  A igualdade entre o gasto e o ganho como recompensa, fazem parte daquilo que se julga justiça no mundo material.

Aqui, o tempo de trabalho material é previamente combinado entre as partes. O tempo de trabalho é injustamente desproporcional ao pagamento das partes envolvidas, já que uns trabalham “... por um dia, com o pagamento de um denário, outros, na terceira hora, que estavam desocupados, tratados por um pagamento justo, outros ainda, na sexta e nona hora. Perto da undécima hora, saiu e encontrou outros desocupados, e perguntou-lhes: Porque estiverdes desocupados o dia todo? Responderam-lhes: Porque ninguém nos contratou. Disse-lhes: Ide vós também para vinha, e recebereis o que for justo.” O símbolo material de injustiça está bem expresso aqui. Só que segundo o seu simbolizado espiritual, e, como tal, nada tem que ver com as categorias de tempo, espaço, quantidade, ganhos, perdas e recompensas, que são próprias do mundo e, ambiente próprio do ego, pois o mesmo só se encontra em meio a paradoxos. No Reino espiritual, não há tempo, quantidade, espaço, perdas e ganhos combinados previamente; só há Eternidade, Qualidade e Graça.

Só que na visão de Jesus e, segundo as suas palavras: “Quando tiverdes feito tudo que devíeis fazer, dizei: somos servos inúteis (sem crédito e sem direito a recompensa), porque cumprimos a nossa obrigação, nenhuma recompensa merecemos por isto”.

Isso, se todos estivessem na dimensão espiritual Crística; mas não foi o que aconteceu.

“Suportando o peso e o calor do dia”, como um da primeira hora alega, ao se ver injustiçado com o pagamento do mesmo valor que os últimos receberam. Mas o empregador pagou um denário também aos outros que trabalharam menos de doze horas, aos quais também ajustou assim: ...”e dar-vos-ei o que for justo”.

Podemos dizer então que alguns foram pagos, outros recompensados e, os últimos, agraciados, pois foram dados pelo empregador.

Diante das reclamações, como que ele justifica a sua ação? Apenas assim: “Não me é lícito fazer do que é meu o uso que eu quero? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?”

“Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros, últimos: pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos.”

Todos receberam, porém, os agraciados são os escolhidos da última hora, por serem Eus sapiens e, não egos virtuosos, que precisam ser recompensados por fazerem os seus trabalhos devidos. Aqueles que fazem questão deste tipo de recompensa, segundo Jesus: “Já receberam o seu galardão.” São seres da “carne”, não do espírito; pois os últimos creem com fé na promessa da justiça e da graça. Não há a necessidade de se estabelecer metas e ganhos para se atingir o Caminho... O Caminho é que é a meta!

 Eu, pessoalmente comparo a esses com o pessoal das igrejas de hoje, pois, são “evangelizados” com promessas de melhorias materiais; sejam elas, no meio familiar, no trabalho e na aquisição de bens, como: casa, carro etc. Tanto que encontramos em vários bens perecíveis, adesivos, justificando a aquisição daquele bem como sendo uma “graça” de Jesus.

Por Moisés, nos foi dada a lei – por Jesus, o amor, a graça e a verdade. Os trabalhadores de Moisés trabalham dentro da lei da obediência, o temor a Deus, ao castigo e a recompensa.   Os de Jesus, o amor a Deus e ao próximo, a fé e a graça.

Ter merecimento neste mundo diante de Jesus é ter direito a uma recompensa, - é ser credor de um Deus devedor... É o ser que se acha justificado por “merecimento” ou por ser evangélico!  Se pessoas passam a ser boas por temerem o castigo ou almejam uma recompensa por isso, então, concluo  elas serem muito desprezíveis, manipuladas por oportunistas, que reconhecem nelas essas características e tiram proveito próprio.

Os da “última hora” são abertos e receptivos ao transbordamento e a plenitude divina.

A natureza toda recebe automaticamente desse transbordamento divino e, dessa plenitude de forma inconsciente, sem poder obstruir, julgar, nem alargar os seus canais para maior receptividade. Porém o homem, dotado de livre arbítrio, tem a possibilidade de se julgar uma obra inacabada, imperfeita, que tem a possibilidade através dos seus próprios méritos e qualidades espirituais e religiosas, alargar os seus canais, e assim, ter um “merecimento” racional e consciente, baseado nestas premissas.

Observem o que Ele diz: “Não tenho eu o direito de fazer dos meus bens o uso que eu quero?”

Se somos servos do Senhor, não estamos aqui como auto- justificados para sermos servidos por Ele, e sim, para servi-Lo, assim como ao próximo.

Observem, que o Seu apelo e chamado tem como premissa: “Nega a ti mesmo, toma a tua cruz e siga-me”. Só, que para atendermos a esse apelo, precisamos antes de tudo entender o que significa no âmago: “Nega a ti mesmo...”

J.Alfredo B. Oberg




segunda-feira, 28 de julho de 2014

Reflexão sobre a "Verdade Absoluta"



Segundo a tradição taoista não existe uma verdade absoluta que possa transformar alguém de forma compulsória, pois, tudo depende da qualidade de quem a recebe. Ou seja: “Se o sujeito errado usar o método certo, ainda assim o método certo dará errado”.

Nos mosteiros taoistas chineses os monges residentes recebem todas as noites monges peregrinos que não possuem uma morada fixa, nem a garantia de uma cabaça com alimento antes de adormecerem. Entretanto, para que possam usufruir destes benefícios terão que vencer um debate sobre o Caminho do Tao com os donos dos mosteiros. Caso consigam vencê-los terão direito ao pernoite e a uma cabaça com alimentos, porém, dia seguinte terão que continuar o seu caminho. O motivo dessa norma, é que o vencedor pode ser um ser dotado de um poder de articular bem as palavras, exprimir suas idéias com desenvoltura e, assim vencer na argumentação por ter o dom da retórica. Porém, não é o detentor da verdade! Essa verdade pode estar mais próxima do monge vencido, por não ter ele a facilidade de se expressar por sua modéstia. Sendo assim, não justifica a permanência do vencedor no mosteiro, dia seguinte.

Certa vez num mosteiro taoista, no período de Chou (722-481 a.c), dois irmãos, donos do mosteiro estavam se preparando para receberem a visita do monge peregrino Hui-Shi, simpático ancião, conhecido por sua grande sabedoria e conhecedor profundo do Caminho para um debate que provavelmente seria ele vencedor.

O monge mais velho do mosteiro era o não menos sábio Shang Yang, conhecido e famoso por não perder nenhum debate filosófico e místico-espiritual com os monges peregrinos que buscavam abrigo e alimento em seu mosteiro. Tinha como caçula, um irmão chamado T’ang. Esse, entretanto, era conhecido por sua arrogância, presunção e falsa modéstia. Acreditava-se que era assim, porque na sua infância fora ferido por um espinho de roseira em uma das vistas e, por isso, tornara-se caolho. A sua deficiência não podia ser escondida, estava “na cara”, literalmente. Sua vaidade fora invadida e o destino se impôs.
Shang Yang, ao contrário, estava sempre de bom humor, não havia criticas em suas palavras. Sabia ouvir sem ficar construindo internamente respostas que por certo abalariam os conceitos dos seus interlocutores. Era um homem gentil e sábio. Ao saber da visita do ilustre colega, pensou logo em fazer uma cortesia ao sábio monge que fora seu mestre no passado. Evitaria debater com ele, não era cortês, sabia. Desejava ter a oportunidade de conversar com ele sobre os “velhos tempos”, quando ele era apenas um jovem interessado e sonhador.

Hoje, pensara quem haveria de atender à porta do mosteiro seria o seu irmão mais novo, T’ang. Passaria pra ele essa responsabilidade, sabendo que ele de antemão ficaria eufórico com essa oportunidade de mostrar-se para o visitante. Ele, era um esforçado estudioso, conhecia o dharma budista, assim como, o Hua Hu Ching, últimos ensinamentos de Lao Tzü; estudava o Caminho da Natureza – o Tao, através de Chuang Tzü, um pensador de vanguarda, representante da corrente taoísta do pensamento chinês, que era pródigo em divulgar as suas idéias através de parábolas, alegorias e paradoxos; sentia-se por isso, seguro e capaz através da sua erudição de enfrentar qualquer um, apesar de saber intimamente que a sua pretenciosa iluminação era como uma rã escorregadia, em suas mãos. Isso, o incomodava muito e contribuía de forma negativa em suas atitudes.

Seu irmão Shang Yang sabia que o mano não possuía as qualidades inerentes aos iluminados para debater com Hui Shi, porém, era a única saída que tinha para receber o ilustre sábio sem ter que enfrentá-lo.

Pensou longamente a respeito do tema que passaria para T’ang; era necessário evitar que o seu irmão cometesse através do debate alguma crítica leviana, destituída de mérito, que fosse indelicado ao questionar o saber do seu mestre Hui-Shi, porém, não podia dizê-lo. Sabia que o irmão não receberia bem a uma orientação baseada nessas premissas.

Depois de meditar a respeito, concluiu que o tema poderia ser expresso através de imagens, - uma metáfora de sinais, pensou! Tratou logo de procurar o seu irmão e passar o tema com as suas características. Teria que debater com o peregrino visitante com as mãos, através de gestos e vencê-lo, se possível.
T’ang, após ser notificado por seu irmão mais velho, ficou eufórico, sorriu com a certeza que seria vitorioso, antecipadamente. A partir desse momento, uma “multidão” passou a fazer companhia dos pensamentos de T’ang, sua inquietação era grande, não havia mais espaço na sua mente para o “novo”. Numa visão analítica junguiana, o ser está “tomado pela anima”, perdeu o “feeling”, estava agora inquieto com a demora do peregrino.

Ao cair da tarde, bate à porta do mosteiro o velho monge Hui Shih, com um sorriso que revelava paz e sabedoria, sendo prontamente recebido por T’ang que foi logo dizendo: - Olha hoje o debate é comigo, meu irmão não se sente em condições de enfrentá-lo. - O nosso tema para o debate tem que ser desenvolvido através de gestos, com as nossas mãos, estamos de acordo?

O velho monge curvou-se com as mãos postas, em sinal de reverência, consideração e respeito pelo jovem monge.

- Pode começar, avisou T’ang!

 Mestre Hui Shih fitou-o demoradamente, o suficiente para deixar T’ang incomodado com essa atitude, depois, levantou a sua mão direita e mostrou o dedo indicador prá ele. T’ang inquietou-se ainda mais, porém, depois de uma breve pausa, mostrou os seus dois dedos da sua mão para o velho monge. Mestre Hui Shih, com um sorriso discreto, levantou novamente a sua mão direita e mostrou os seus três dedos prá T’ang.

Essa nova atitude do velho monge foi tomada por T’ang com surpresa e certa irritação, pois, de imediato e de forma agressiva levantou e mostrou para o sábio monge o seu punho fechado em riste. Hui Shih olhou admirado para o jovem monge e, inclinando-se com suas mãos postas, reverenciou mais uma vez o jovem monge, saindo em direção aos jardins do mosteiro, onde se encontrava o seu antigo discípulo Shang Yang, que ao vê-lo saindo, não se conteve em interpelá-lo: - Não consigo entender o que possa ter acontecido com o meu mestre para que esteja indo embora do nosso mosteiro? - O senhor foi molestado pelo meu irmão? – Não, de maneira alguma, Shang!  - Seu irmão é um jovem muito sábio, não consegui derrotá-lo através do debate com as mãos.

- Como? Arguiu Shang pro seu mestre. – Vou te contar como foi belo esse enfrentamento filosófico místico-espiritual, ainda mais, por ter ele usado uma técnica apurada de interpretação metafórica de imagens e sinais. - Isso requer uma qualidade espiritual muito sutil, fora do comum, é a abordagem mais próxima da verdade absoluta. - Lembra-te quando eu te instruía a respeito do Caminho Perfeito, que sempre estamos processando nossas experiências de acordo com os nossos pontos de vista, que você sempre se transforma na interpretação quando a internaliza, logo amigo, somos feitos da mesma essência dos nossos pensamentos, assim, não devemos julgar de forma crítica e severa as imagens externas. – Por isso, quando apontei o dedo indicador quis dizer que só havia um Buda, o que seu irmão sabiamente devolveu, mostrando-me dois dedos da sua mão, - Buda e o seu Dharma; alegrei-me por saber que era um ser que manifestava o Tao com muita sabedoria; tive então que acrescentar mais um dedo, mostrando os três dedos da minha mão direita para concluir que além de Buda e o seu Dharma, faltavam os seus discípulos, pois sem eles, de nada adiantariam os dois. Aí, para surpresa minha, seu irmão fecha o seu punho e mostra-me sua mão fechada à minha frente, vibrando com o entusiasmo dos jovens dotados de luz. Confesso, não tive mais argumentos para retrucar o que ele acabara de me mostrar. Aquela imagem dizia o que todos precisam saber: - Todos três argumentos são na verdade, uma só coisa! Que gesto poderia eu apresentar para dar continuidade ao debate? Ele acabara de sintetizar o tema, não havia mais o que se discutir.

-Parabéns! Você tem um jovem irmão que é uma grande promessa para as gerações vindouras, aquelas que buscam o despertar búdico do ser espiritual.

Shang Yang, não acreditava no que ouvia do velho mestre, pois, para ele, seu irmão ainda engatinhava em sabedoria, apesar de deter uma vasta cultura sobre a filosofia místico-espiritual oriental, daquele “poço” não se podia beber água límpida, pois, de tão revolto e inquieto suas águas estavam cheias da lama do fundo; era um ser que discriminava quem vinha “beber” da sua água, precisava saber antes se era nobre e sábio ou ignorante e pobre. Sua vaidade pessoal cristalizava seus conhecimentos, tirando de si a sutileza e a modéstia inerentes. Como então poderia ter derrotado o seu mestre?  “Não procures onde tem Buda e onde não tem”. Lembrou-se do conselho do seu mestre e aquietou-se. “O Trilhar, é mais importante no caminho da iluminação, pois não possui uma chegada como meta, à única permanência é a mutação.”

Essa dinâmica do Caminho diz que não são necessários os “12 passos” para se alcançar a iluminação, assim, quem sabe se ela não se deu ao ter como seu interlocutor o sábio monge a sua frente? Como o Caminho é o Seguir, não olhou mais para traz, o momento presente era único.

Shang Yang dirigiu-se então para uma ala do mosteiro com a finalidade de meditar, já tinha cuidado do jardim e aprendido algo significativo com o seu antigo mestre; interiorizar era necessário para integralizar o seu ser.

Passados algumas horas, apareceu seu irmão T’ang batendo fortes os seus pés no chão do velho mosteiro, interrompendo a meditação de Shang com uma indagação: - Onde está aquele velho idiota que você considera mestre e iluminado? Shang olhou indagativo para seu irmão e perguntou: - Por quê? - Ele já se foi. - Soube que você o venceu, parabéns!

- Aquele velho é muito estúpido e indelicado! - Passei as informações que você me deu para o nosso debate, e ele as usou para me afrontar. – Não foi essa a impressão que você causou para ele, em contra partida, - disse Shang Yang.
- Ele o considerou sábio! – Que nada! – Ele saiu daqui foi com medo de apanhar, pois, se fica mais tempo era o que ia acontecer. – Porque essa agressividade toda com um ancião respeitoso como ele?

- Bom, disse T’ang, se você não acredita, sou obrigado a contar para você o que aconteceu, pois, só assim você me dará razão. – O debate começou com ele, depois de passar longo tempo me olhando, mostrou-me um dedo bem na minha cara, dizendo que eu apenas possuía um olho, ou seja, que eu era caolho! –Apesar da indelicadeza inicial, tentei reverter aquele quadro, mostrando dois dedos, para ele saber que apesar da minha deficiência física ainda jovem, ele, um ancião, ainda possuía os dois olhos intactos! – Tentei ser cortês, apesar da atitude dele comigo. – Qual não foi a minha surpresa, quando ele demonstrou desconsiderar a minha polidez sorrindo na minha cara, mostrou-me os três dedos dele, para que eu tomasse conhecimento da sua opinião: Ele possuía dois, e, eu um, totalizando assim, três. – Não aguentei com tanta falta de respeito! –Mostrei o meu punho fechado, bem no meio da sua cara, ameaçando agredi-lo por este motivo. – Ele, Shang, percebeu que eu não estava brincando e levantou-se apressadamente, saindo por aí. – Com essas atitudes, não sei quem poderá dar um pernoite e alimentos para um velho como esse! – O que você acha disso, Shang?

Shang Yang, ao ouvir aquelas críticas do seu irmão, emudeceu, preferindo o eloquente silêncio. Certos argumentos não merecem resposta alguma, nem reparos argumentativos. É melhor calar-se e jamais responder, pois não há a menor possibilidade de se passar informações esclarecedoras para quem não possui um espírito receptivo para a beleza milenar das mensagens deixadas há tanto tempo pelos mestres iluminados.

Quem tem a dificuldade de entender o contexto, critica o texto, como pretexto... Pode ser também a paranoia da critica e perseguição...
Observe o estrago que uma versão com intenção faz quando esse alguém “planta banana esperando colher laranja”...

José Alfredo B. Oberg










Reflexão sobre o "Discurso de Marco Antônio nos funerais de Cezar"

Revertendo expectativas...


de: William Shakespeare
Acredito nessa possibilidade quando relembro a obra prima de Shakespeare, que é o discurso de Marco Antonio nos funerais de Cezar. Uma parábola, para os dias de hoje...

Talvez, o leitor com alguma acuidade faça uma analogia do que se pode esperar de um bom plano estratégico para reverter expectativas eleitorais oposicionistas e oportunistas...

A cena é a seguinte:  
                                                                                         
Cezar está morto, e Brutus, o assassino, é chamado para dizer à população romana, junto ao cadáver, porque motivo matou Cezar.

Imaginem uma multidão ululante, pouco favorável a Cezar, que já acreditava que Brutus tivera um gesto nobre, matando-o.

Brutus sobe a tribuna e faz um breve e pragmático relato das razões que o levaram a suprimir Cezar. Conhecido e querido por se identificar com os anseios populares não viram nenhum motivo para preocupar-se com o clamor das ruas, pois essas eram as mais favoráveis possíveis. Convencido que havia dito aquilo que era esperado, sentou-se sob aplausos. A sua atitude refletia aquele que julga que a sua palavra vai ser aceita sem discussão; era uma atitude altiva, de quem está acostumado com as vozes das ruas e o clamor popular.

Como era de se esperar, Marco Antonio teria que subir à tribuna, sabendo que a multidão é contra ele, por ser amigo do arrogante e reativo Cezar.

Num tom de voz humilde, baixo, porém firme, Marco Antonio começou a falar:

Povo de Roma,

Venho vos falar em nome de Brutus!

Alguém mais cético na multidão pergunta o que era esperado: O que dirá ele sobre Brutus?

Alguém ao lado, responde: Diz ele, que é em nome de Brutus que se encontra aqui para falar. Acho melhor que não venha falar mal de Brutus aqui.

Um cidadão comum, diz: Esse Cezar era um tirano, distante do povo.

Ao lado, um cidadão: Certamente. É uma felicidade o ocorrido, Roma assim se verá livre dele.

Alguém na multidão grita: Silêncio! Ouçamos o que Marco Antonio vai nos dizer...

Obs.: Vamos observar agora como se neutraliza as mentes daqueles que estão arrebanhados por um inconsciente coletivo apaixonado...

Marco Antonio: Amáveis romanos!

Todos: Silêncio! Ouçamo-lo!

Marco Antonio: Amigos, concidadãos, romanos, prestai-me atenção: aqui estou para enterrar Cezar, não para louvá-lo.

Obs.: Acabara de aliar-se ao estado de espírito dos ouvintes.

O mal que os homens praticam lhes sobrevive; o bem, porém, é sempre enterrado com seus ossos... O mesmo acontece com Cezar. O nobre Brutus vos afirmou aqui nessa tribuna que Cezar era um ambicioso, um reativo, perseguidor, um incapaz de ouvir o clamor das ruas. Se assim era, ele cometeu uma falta muito grave, mas já passou por ela...

Aqui, com a permissão de Brutus e de seus companheiros, - porque Brutus é um homem respeitável e assim, são todos os homens de bem, - venho falar-vos nos funerais de Cezar.

Era meu amigo; foi justo e leal comigo; Brutus, porém, disse que ele é um homem ambicioso, e Brutus é um homem respeitável. Todos vós vistes como nas Lupercais, por três vezes lhe apresentei uma coroa de rei e três vezes ele a recusou. Seria isso ambição? Entretanto Brutus disse que ele era ambicioso, e sem dúvida alguma Brutus é um homem respeitável. Falo aqui, não para desaprovar Brutus, mas para dizer o que sei...

Outrora, vós o elegestes e não sem um motivo justo. Agora, que motivos impedem de chorá-lo? Ó razão! Fugistes para as feras e os homens não raciocinam. Perdoai-me. O meu coração está na esfinge com Cezar. Devo parar até que ele volte para mim.

Obs.: Esta é uma parada obrigatória e estratégica, para dar tempo aos ouvintes de discernir às pressas, entre si, as suas afirmativas claras.

O objetivo aqui era observar o efeito que suas palavras produziam, ajudado por alguns desconhecidos amigos infiltrados na multidão.

Um amigo na multidão disse: Parece-me que há muita coisa nas suas palavras que precisamos ouvir para saber...

Um ouvinte cético comentou assim: Se considerares devidamente o assunto, verás que César cometeu grandes erros.

Outro amigo retruca: Verdade, amigo? Temo que o seu substituto seja muito pior!

Outro amigo infiltrado diz: Prestastes bem atenção às palavras dele? Cezar não quis aceitar a coroa. Isso prova que ele não era ambicioso.

O primeiro amigo acrescenta: Se for assim, alguém pagará caro por essa possível substituição...

Outro amigo diz: coitado do Antonio! Chorou tanto que tem os olhos vermelhos.

O primeiro amigo diz: Não há em Roma homem mais nobre que Marco Antonio.

Alguém do povo: Atenção, ele vai começar a falar novamente.

Marco Antonio: Ontem, a palavra de Cezar podia dominar o o mundo; hoje ele jaz aqui e uma parte dos homens não o venera. Senhores! Se quisesse disputar, inflamar os vossos corações e as vossas mentes com a revolta e a cólera, acusaria Brutus, acusaria Cássio, que todos vós sabeis, são homens respeitáveis.

Obs.: Se Marco Antonio tivesse começado seu discurso com ataques, a história teria sido outra... Observem quantas vezes Marco Antonio repete o termo “respeitável”. 

Vejam com que inteligência ele sugere que Brutus e Cássio não são tão respeitáveis assim, como julga a população romana. Esta sugestão é levada a efeito nas palavras "revoltas", “cólera”, “se eu quisesse despertar” e “acusaria”...

Vai ele agora construindo sutilmente frases que gerarão um novo estado de ânimo nos ouvintes. Apelou para a curiosidade da multidão em saber que “acusações seriam essas”...
Marco Antonio: Aqui está um pergaminho com o sinete de Cezar, que encontrei no seu gabinete; é o seu testamento, aquilo que ele deixa para o povo de Roma. Se ouvísseis a leitura deste testamento, o que, - perdoai-me, não pretendo fazer aqui, tenho a certeza que todos vós beijaríeis as feridas de Cezar assassinado, molharíeis os vossos lenços no sangue sagrado, imploraríeis fios de seus cabelos como lembrança.

Obs.: Agora, resolve aguçar mais ainda a curiosidade da população, pois a natureza humana sempre deseja aquilo que é difícil de conseguir ou daquilo que vai ser privado. Observe que essas coisas uma vez obtidas perdem o seu valor... Assim, Marco Antonio despertou o interesse e a cobiça pelo Testamento de Cezar, preparando-os para o escutarem com um “espírito aberto”.

Todos gritavam: O Testamento! O Testamento! Queremos ouvir o que nos deixou Cezar.

Marco Antonio: Tende paciência, generosos amigos; não o devo ler. Não é bom que saibas agora o quanto Cezar os amou e fez por Roma. Não sois feito de pedra; sois humanos! E sendo humanos, ao ouvir poderíeis ficar furiosos. Não, não é bom saberdes nesta hora que sois herdeiros de Cezar, pois, se souberdes que poderá acontecer? É imprevisível!...

Um amigo na multidão grita: Queremos ouvir a leitura do testamento! Marco Antonio lê agora o Testamento de Cezar!

Marco Antonio: Quereis ser pacientes? Quereis esperar um pouco? Fui muito longe falando nisso... Temo ter acusado homens respeitáveis que cravaram seus punhais no coração de Cezar.

Obs.: Sugeriu aqui um assassinato, chamando-os de assassinos.

O amigo na multidão aproveita e grita acompanhado de muitos: Estes homens respeitáveis são uns traidores!

Todos: O testamento! O testamento!

O amigo na multidão volta à carga: São uns vilões, uns assassinos! O testamento!

Marco Antonio: Exigis de mim a leitura do testamento? Então formai um círculo em torno do corpo de Cezar, para que vos possa mostrar o autor do testamento. Posso descer? Permitis isso?

Obs. Nesse ponto, Brutus deveria segui o meu conselho: Pegar uma biga com uma ótima parelha de cavalos e cair fora!

Todos: Vinde!

Um cidadão: Descei!

Um desconhecido: Lugar, lugar para Antonio, o nobilíssimo Antonio.

Marco Antonio: Não fiqueis tão próximos de mim. Afastai-vos um pouco.

Obs.: Ele sabia que dando essa ordem ainda os aproximaria mais, e era justamente o que desejava.

Todos: Para trás, para trás.

Marco Antonio: Se tendes lágrimas preparai-vos para derramá-las! Todos vós conheceis este manto. Lembro-me da primeira vez que Cezar o vestiu. Foi numa noite de verão, na sua tenda, no dia em que bateu os Nérvios. Olhai: aqui penetrou o punhal de Cássio. Vede o rasgão que fez o invejoso. Foi aqui também, que o bem amado Brutus cravou o seu punhal. E, ao ser retirado este, como que o sangue de Cezar seguiu a lâmina, para se certificar de que era Brutus, quem o ferira tão impiedosamente, pois Brutus, como sabeis, era o anjo de Cezar. Chorais agora, pois percebo que vos sentis comovidos; derramai as lágrimas da compaixão. Olhai aqui; vede o próprio Cezar dilacerado pelos seus traidores.

Obs.: Observem que aqui, Marco Antonio emprega a palavra “traidores” porque sabe que as mesmas estão em harmonia com o que domina as mentes da população.

Um simples cidadão: Que triste espetáculo!

Outro cidadão>: Que dia fatal!

Um amigo oculto: Havemos de vingá-lo!

Todos: Vingança! Vingança! Vamos buscá-los! Não deixemos vivo um só traidor!

Marco Antonio: Parai concidadãos!

Um cidadão: Calma! Ouçamos o nobre Antonio!

O amigo oculto: Escutemo-lo, sigamo-lo, morramos com ele!

Obs.: Pronto!... A certeza agora era que a multidão estava com ele, Marco Antonio.

Marco Antonio: Generosos amigos! Não desejo incitá-los de maneira alguma à revolta. Os autores desse feito tinham seus motivos e eram homens respeitáveis. Que motivos os tinham para agirem assim? Acredito que diante de tal tragédia, tenham motivos justificáveis. Não vim roubar vossos corações. Não sou um orador como Brutus, mas, como sabeis um homem simples, franco; amava o meu amigo; eles sabiam disso muito bem, por isso me deram autorização para falar do meu grande amigo. Digo-vos apenas o que todos sabem: se eu fosse Brutus e Brutus fosse eu, talvez pudesse inflamar os vossos espíritos.

Todos: Estamos revoltados!

Um amigo; Incendiaremos a casa de Brutus.

Outro: Vamos! Vamos!

Marco Antonio: Então amigos não sabem ainda o que fazer... Em que Cezar vos mereceu tanta dedicação nesta hora? Esquecestes o testamento...

Todos: O testamento! O testamento!

Marco Antonio: Aqui está o testamento e com o sinete de Cezar. Para cada um de vós deixa setenta e cinco dramas.

Um cidadão romano: Nobilíssimo Cezar! Vingaremos a tua morte!

Marco Antonio: Ouvi-me com paciência.

Todos: Silêncio!

Marco Antonio: Além disso, deixou para vós todos os jardins, todo seu parque e os novos pomares que ficam deste lado do Tibre. Este era o verdadeiro Cezar! Quando surgirá outro igual?

Um cidadão: Nunca, nunca. Venham! Vamos queimar o seu corpo no lugar sagrado e com as mesmas tochas incendiaremos as casas dos traidores. Levem o corpo!

Um dos cidadãos: Vão buscar o fogo!

E foi esse o fim de Brutus. O mais forte candidato a ser o sucessor de Cezar.

Obs.: Perdeu, apenas porque lhe faltou personalidade e bom senso para sugerir com bons argumentos e seguir de acordo com a receptividade da população romana, como fez Marco Antonio. Ao se julgar uma grande personalidade; inflacionou o seu ego, ficando obcecado e orgulhoso com seu feito. Achou que a realidade dos fatos podia falar por ele, e assim bastavam para impor decisões e justificá-las...

Caso Marco Antonio tivesse subido à tribuna com a mesma empáfia e arrogância, teria dito: “Agora, povo romano, permiti que vos diga uma incontestável realidade sobre Brutus... ele é um verdadeiro assassino”!...

Decerto não teria continuado, pois a populaça o teria apupado... Hábil, usou de psicologia apresentando seu parecer e a realidade dos fatos, de tal modo, como não fosse uma ideia sua, mas da própria população de Roma. Basta observarmos como no seu discurso foi acentuado o “vós e não o “eu”.

Toda e qualquer situação pode ser revertida... Depende unicamente da forma e conteúdo da comunicação.

J. Alfredo B. Oberg


Reflexões no 3° caminho do Odù Owórín


11. Owórín 

3º. Caminho (ese): Os babàláwos contam que dois homens encontraram-se. O mais rico, dizia que só ele era capaz de conhecer a prosperidade. O outro, dizia que se alguém tem que prosperar, não haverá coisa que desfaça este destino na vida, e assim, acontecerá mais cedo ou mais tarde. O mais rico, era senhor, e o outro, escravo, de forma que o senhor resolveu comprar o outro. O escravo com muita satisfação submeteu-se a essa condição. 

E, assim lá se foram os dois, até o dia em que o escravo conseguiu juntar algum dinheiro e comprar uma galinha que posteriormente lhe deu muitos pintinhos. O senhor vendo que seu servo prosperava, um dia, matou a galinha e sua ninhada. Para surpresa e desgosto do escravo, que vinha ao final do dia da roça do senhor, foi ver aquele infortúnio. Porém, nada disse, limitando-se a louvar Olórun, conformando-se com a qualidade-momento adversa. Tempo depois, comprou uma ovelha que mais tarde deu-lhes crias. Num dado dia, o perverso senhor matou a ovelha e suas crias. Vindo da lavoura ao final do dia, deparou-se o escravo com aquela cena de perversidade e disse: Se alguém tem de prosperar, não há embate que atrapalhe esse fim. Tratou então de moquear a galinha e os pintinhos, assim como, a ovelha e suas crias. Assim, com inabalável fé, animado no seu sonho dourado em prosperar no futuro, repetiu: Se alguém tem de prosperar, não há embate que atrapalhe esse fim. Logo após, o escravo procurou um olùwó de grande renome na região, que ao consultar o oráculo Ifá, concluiu que um determinado ebó era necessário, prescrevendo: Uma ovelha e crias, uma galinha com pintinhos e qualquer objeto que tenha pertencido a um defunto. Pediu que os devessem ser moqueados e guardados no teto de sua casa, como fez com aquelas que o seu senhor matou. Passado muito tempo, o rei da localidade mandou anunciar que se alguém em suas terras tivesse uma galinha com pintos, moqueados de três anos, que levasse para ele, pois, saiu para ele esse ebó numa consulta. O escravo ao saber apressou-se em apresentar-se ao rei, levando a galinha e os pintos moqueados de três anos, sendo este gesto considerado de grande benefício pelo o rei, que imediatamente doou ao escravo um terço do seu território, para que o escravo se beneficiasse com os impostos decorrentes. Assim, ficou da noite para o dia o ex-escravo do senhor feudal daquela terra, seu senhor. Algum tempo depois, houve novo anúncio: quem tivesse ovelha assada de três anos, devia se apresentar ao rei de uma nação vizinha. O ex-escravo, previdente de novo, ofereceu ovelhas assadas e moqueadas que há muito tinha guardado. Com isso, o rei mandou fazer um ebó pela grande enfermidade que atormentava o seu povo. Fez vir à presença o felizardo cativo de outra época e ordenou que, daquela hora em diante, ele dominaria também um terço naquele reino.

Seu antigo senhor, não tendo o que comer, deu a ele a velha ossada do príncipe em troca de alimentos, pois os ossos inúteis eram tudo o que lhe restava.

Assim se conta, foi sucessivamente aparecendo outro aviso, solicitando agora a apresentação de qualquer pessoa que tivesse os ossos do príncipe que falecera na guerra havia tempo. O vitorioso e persistente servo perseguido de outros tempos foi informado e, sem demora apresentou a ossada do príncipe, em cuja compra seu ex-senhor empregara todo seu rico dinheiro, quando ele ainda era escravo. Não é necessário dizer que fizeram dele um dos maiores da terra. Não só, pelos donativos que ganhou como o poder que passou a ter sobre a nação. Assim, ficou o ex-escravo sendo um dos mais felizes senhores sobre a terra.

É de notar que esse ex-escravo não quis ser dono de seu antigo senhor, ao contrário, ficou-lhe grato, querendo muito a ele e, sempre declarava a todas as pessoas que o cercavam, que ele tinha chegado àquela posição graças às maldades do seu antigo senhor e, também a inquebrantável e constante disposição que o encorajava em todos os instantes. Portanto, ele tinha por dever considerar o seu ex-dono como um dos fatores da sua prosperidade na vida. Ficaram assim, muito amigos daquela hora em diante.

Observações:
A base assinala tantas perseguições irritantes e indesejáveis transformadas no final em benefícios exclusivos aos reais proveitos. Muitas dificuldades na vida, porém, qualquer que seja o embaraço, vencerá ao perseverar.

Interpretação:
Quem nunca ouviu falar na inabalável fé e paciência de Jó?... Quem possui a inerente qualidade desse devoto de Ifá, não considera nunca a adversidade em seus caminhos como sendo uma dívida com Olódùmarè. Faz o que é devido fazer, entrega a quem de direito aquilo que o oráculo orientou, aguardando na fé, apesar dos percalços... Onde encontramos hoje esse sujeito? Quando um caminho como esse se apresenta na nossa jornada, com a qualidade-momento aqui apresentada, qualquer um de nós considera-se um desafortunado, esquecido e injustiçado... Quem agradeceria?...

Èxù, com a sua capacidade de dinamizar e mobilizar qualquer transformação de forma inesperada está aqui presente, por outro lado, Yansán representa o transporte através dos ventos nas tempestades, carregando as sementes germinadoras e renovadoras do vir a ser para outras paragens, viabilizando assim, um renascimento em meio ao caos.

Ambos trabalham os meios e as condições que o Odù apresenta na manifestação, pois ele representa a expressão manifesta de uma configuração energética. A única causa é Olódùmarè, que representa a configuração energética que antecede o contexto dinâmico do Odù, ou seja, de onde provém a dinâmica vigente desse caminho. Ambos formam uma unidade cíclica, um fluxo condutor.

Muitas vezes consideramos “caminhos abertos” aqueles que não apresentam percalços, pessoas que bloqueiam nosso destino, aqueles que não facilitam as coisas para nós, assim por diante... Só que essas condições aparentemente desfavoráveis são verdadeiras alavancas transformadoras em nosso crescimento.


Reflexões sobre a "Parábola do Mordomo Infiel"...


Lucas 16: 1-9

“Disse Jesus aos seus discípulos: havia um homem rico cujo administrador foi acusado de dissipar seus bens. Então, chamando-o disse: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua administração, porque já não poderás ser meu administrador. O administrador disse consigo: Agora que farei? O meu senhor me tira o emprego. Cavar, não posso, e, de mendigar tenho vergonha. Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for demitido da administração, me recebam em suas casas. Chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deve ao meu senhor? Ele respondeu: Cem batos de azeite. Disse-lhe: toma a tua obrigação, e assentando-te depressa, escreve cinqüenta”.

Disse depois ao outro: E tu quanto deves? Cem cores de trigo. Disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta. Louvou aquele senhor o injusto administrador por haver procedido prudentemente. Pois os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. Eu vos digo: “Granjeai amigos com as riquezas da iniqüidade e injustiça, para que quando estas vos faltarem, vos recebam nos tabernáculos eternos.”

Esta parábola é a cruz de muitos intérpretes: teólogos, pastores, dirigentes espirituais e padres. Não falta quem duvide que seja ela de autoria de Jesus.

Talvez o erro de interpretação tenha seu fundamento na compreensão do simbolizado espiritual da parábola, por meio do seu símbolo material.

Aliás, confundir o dedo que aponta a luz com a própria luz é a coisa mais comum nos meios cristãos. Uma análise racionalista, puramente intelectual, jamais atinge o verdadeiro sentido das palavras proferidas por um ser iluminado espiritualmente.

O sentido de justiça da verticalidade espiritual não é compreendido pela moralidade conceitual na horizontalidade intelectual. Literalmente, parece que a parábola de Jesus nos recomenda a fraude e, o ardil, como meio para granjearmos amigos no mundo espiritual. Assim sendo, o fim sendo bom, justifica os meios amorais. Aliás, esta é uma premissa nos meios que se dizem cristãos.

Ouvi um pastor dizer-me que mesmo cometendo deslizes espirituais, considerava justificado o autor pela obra de evangelizar o rebanho. Em face disso, compreendo que não se sintam seguros com esta mensagem; pois, parece revelá-los com a projeção de alma que fazem.

Observe, que toda e qualquer parábola contém um símbolo material e um simbolizado espiritual. Nesta, por exemplo, o símbolo material é o procedimento desleal do administrador, e o simbolizado espiritual é a recomendação de usarmos de tal modo os bens materiais, que estes, nos sirvam de meios para alcançarmos as graças espirituais. Meios e condições materiais podem nos fazer alcançar graças. Quando materialmente ajudamos alguém a não passar fome, a ter acesso a um medicamento necessário à saúde, a ter paz espiritual através de um bom livro, de um atendimento fraterno a um necessitado. Quando abrimos um espaço material para uma evangelização, ou doamos alimentos e remédios aos necessitados, promovemos ações materiais que tem um simbolizado espiritual.

Mas, será pela fraude que alcançaremos os bens espirituais? Claro que não! O que Jesus nos diz é: “pelas riquezas da injustiça ou iniqüidade”; não, “pelas injustiças e iniqüidades das riquezas”. As mesmas riquezas que levam a outros cometerem injustiças e iniqüidades, como o mordomo infiel, podem nos servir para a prática do bem e obras espirituais. Não existem riquezas injustas ou iníquas. O termo de comparação que Jesus faz na parábola, não é a iniqüidade cometida pelo administrador, mas sim o tino com que agiu, com a prudência usada, que não inclui a desonestidade que ele usou. Também revela, que no trato com os seus semelhantes o ser profano é geralmente mais atilado e previdente que os filhos da luz; pois estes, outrora viviam a neurose da culpa do pecado; porém, ao tomarem conhecimento do Caminho e da Palavra, tornam-se arrogantes e se acomodam, achando-se salvos compulsoriamente, passando os “psicóticos de carteirinha”...

Jesus informa que o ser profano sabe melhor servir-se dos bens materiais para a prática de iniqüidades e injustiças, do que os bons para a prática do bem. Jesus, então recomenda aos seus discípulos que lancem mãos dos mesmos bens materiais de que os maus se servem, para a prática do bem. Logo a seguir, diz Ele: “Sede inteligentes e ladinos como as serpentes, mas, simples como as pombas”.

 Na outra parábola, - a dos Talentos, Ele nos instrui que o homem fosse previdente na administração de um bem material a fim de “entrar no gozo do seu senhor”, mediante essa administração. Ao final, explica muito bem esta parábola, ao dizer: Quem é fiel nas coisas mínimas - materiais, é fiel no muito - espiritual; e, quem é infiel no mínimo, também o é no muito. Ou seja: Se não administrares fielmente as riquezas vãs, - de injustiça e iniqüidade, quem vos confiará os bens verdadeiros? E, se não administras fielmente os bens alheios, quem vos entregará o que é vosso? “Nenhum servo pode servir a Deus e as riquezas”. Pois, quem serve ao dinheiro é escravo da matéria, mas aquele que põe o dinheiro a serviço de Deus, -  é livre e soberano pelo espírito.

 Só devemos servir a quem nos é superior; do contrário nos degradamos.

Podemos assim servi-Lo tanto em si mesmo, como também no próximo – “imagem e semelhança”...

J.Alfredo Bião Oberg