domingo, 9 de dezembro de 2012

Emoção e Alma...


1111111111Avalie este Artigo:
Nosso objetivo é correlacionar as atividades na Clínica de Psicoterapia e as teorias dos filósofos Nietzsche e Spinoza, a fim de enriquecer o trabalho na Clínica de Psicoterapia. Nosso modo de compreender o processo terapêutico não exclui o corpo físico, aliás, a percepção sensorial (senso-percepção) deve ser ativada, conscientizada e “educada” no processo terapêutico. Enquanto Nietzsche enfatiza o corpo como “uma superfície de inscrição dos acontecimentos, um lugar de dissociação do "eu", marcado de história”, Espinosa considera o corpo e a “alma” (ou psique) como uma mesma essência. Incentivar a consciência corporal nos seus múltiplos atravessamentos – historicidade e alma – ajuda o paciente a conectar partes de si mesmo e de sua constituição cultural, de modo a ampliar sua rede de possibilidades psíquicas, de modo a construir novas possibilidades da subjetividade coletiva e pessoal.
A sociedade ocidental foi formada com base no pensamento platônico, segundo o qual existem dois mundos: um concreto e habitado pelo homem cotidiano e outro mundo Ideal e inatingível. Deleuze (2006), diz que Platão, em seu mundo ideal, coloca a Idéia antes da experiência direta, como se existisse um pensamento de qualidade universal. Para Platão, o Mundo das Idéias deveria nos orientar em nossas práticas e buscas no mundo sensível, pois este último era considerado imperfeito. O mundo concreto e “defeituoso”, para Platão, era desprovido de meios para nos ajudar a alcançar o Ideal.
Baruch Spinoza foi um filósofo holandês do séc. XVIII, para o qual seria impossível o homem não fazer parte da natureza. Ao estruturar sua filosofia, ele elaborou importantes questões, tais como: 1. Por que as coisas existem? 2. Como se compõe o mundo? 3. O que somos nós no esquema das coisas? 4. Somos livres? Como devemos viver?  Roger Scruton (1998), diz que na atualidade há uma relutância em enfrentarmos estas perguntas, o que explicaria nossa profunda desorientação. O citado autor acredita que nomear e descrever a atualidade como uma “condição pós moderna” é uma forma do ser humano se render e disfarçar suas ansiedades fundamentais. Segundo Scruton, Spinoza fez estas perguntas e empenhou-se em encontrar respostas para elas. Para isso, aprofundou-se em seu raciocínio e suas elaborações o levaram a perceber que a natureza seria tudo o que existiria e que o ser humano seria uma espécie de escravo desta mesma natureza.
Para Spinoza, corpo e alma têm uma relação de identidade: o corpo seria um modo finito da alma, e esta última seria uma substância infinita. Este filósofo da imanência acreditava que, se o mundo fosse visto pelo prisma da transcendência, esta negaria a própria essência humana, tornando-a impotente. Desta forma, corpo e alma devem ser vistos como imanência e não como transcendência. Spinoza acreditava que a emoção seria uma condição corporal e, ao mesmo tempo, uma ideia desta condição. Cada ideia na mente corresponderia a uma modificação corporal, portanto, a adequação das ideias, para Spinoza, seria um estado humano de potência (SCRUTON, 1998).
O filósofo acreditava ser possível alcançar a liberdade, mas para isso seria necessário aperfeiçoar as emoções, caso contrário estas instâncias poderiam dominar o sujeito. Segundo Spinoza, o esforço (conactus) do ser humano para conectar o corpo com a alma era uma necessidade e também significava conectar o corpo com as emoções e as idéias. Os diversos modos de expressão humana, seja pelo corpo, pelas idéias e pelas emoções podem ser vistos como múltiplos fluxos de uma mesma unidade. Para Spinoza, o esforço de se criar uma estreita cumplicidade entre mente e corpo seria uma afirmação da condição humana potente, o que resultaria em uma vida emocional saudável e alegre (SCRUTON, 1998).
Se por um lado Spinoza entende que o esforço seria a essência humana, por outro lado, ele compara o esforço ao desejo. Spinoza afirma a importância do desejo como o fundamento do esforço de conexão mental e corporal. Segundo ele, o desejo nos faz imaginar e agir, em unidade com o esforço, fortalecendo as “potências corporais”. Para ele, é através do esforço que forjamos nosso próprio ser e unificamos a mente com o corpo. O ser humano que não se esforça para comunicar o corpo com a alma, as emoções com as idéias encontra-se em uma condição de sedentarismo e afrouxamento das relações psíquicas; desta forma, as paixões podem solapar sua potência. Para Spinoza, cada pessoa poderia aprender um modo particular e singular de lidar consigo mesmo e de se expressar no mundo. Entretanto, o filósofo não determina de que modo este esforço deve ser feito. Spinoza renega todos os aspectos generalizantes e valoriza a experiência humana em suas múltiplas possibilidades de viver “no” e “com” o mundo (SCRUTON, 1998).
Friedrich Nietzsche
Friedrich Nietzsche nasceu na Alemanha em 1844 e inseriu na sua filosofia as idéias da época da Grécia antiga, anterior ao platonismo. O filósofo também valorizou a imanência e a potência, porém Nietzsche, concebe nossas práticas culturais e científicas fincada em bases platônicas centrada tão somente nas idéais. Para o citado filósofo, isto tende a desvalorizar o momento presente e os acontecimentos. No mundo ideal não existem as transformações que os acontecimentos propiciam, pois na idealização institui-se um valor absoluto. Para Nietzsche, a busca pela felicidade tem se relacionado com idéias redutivas e utilitaristas pautadas em um ideal unicamente racional, que reduz o homem a uma condição de máquina. Assim como Spinoza, Nietzsche condena o fato de interpretarmos as experiências pessoais e singulares por meio de juízos universais, o que seria uma forma de negação da vida. Ele afirma que a filosofia e diversas instâncias da ciência fazem uma interpretação pobre e reduzida do corpo. Por este motivo, os corpos seriam desqualificados e desvalorizados, sendo forçados ao silêncio. Uma das grandes contribuições da filosofia de Nietzsche seria a ideia de “transvaloração”: transformar os valores e equívocos que constituíram as verdades da nossa história e de nossa cultura.
Estas “verdades” se afirmam como absolutas e imparciais, porém se mostram compartimentadas e excluem a multiplicidade da existência.
Para unificarmos o corpo e a alma, segundo Nietzsche, primeiramente estes devem ser recuperados. Esta recuperação pode ser obtida através do desenvolvimento de modos de escuta e observação do corpo sem julgamentos pré-estabelecidos. Podemos entender estas ideias de Nietzsche no viés de uma prática clínica que possibilite a abertura a múltiplos caminhos, incluindo a valorização dos aspectos de conscientização da percepção sensorial pessoal. Esta valorização inclui não reduzir ou nomear as sensações como se fossem meros sintomas. Nietzsche diz que devemos chegar a ser quem realmente somos, porém isto não significa um “auto-conhecer-se” através de técnicas dadas, pois para ele o ato de nos conhecermos traz consigo a idéia de nem suspeitarmos quem somos (NIETZSCHE, 1979).
Nietzsche discorda da idéia de “renúncia pulsional” de Sigmund Freud, médico neurologista e fundador da psicanálise. A “renúncia pulsional” freudiana seria o homem ter escolhido estar sob a proteção de regras coletivas que o protejam contra sua natureza instintiva e pulsional. Para Nietzsche, a necessidade de que existam regras que possam proteger o homem contra esta natureza seria a própria origem do mal, tendo esta idéia se tornado inerente a toda nossa civilização. Para ele a “renúncia pulsional” seria também uma forma de negação do corpo, por isso, Nietzsche defende uma maneira de se viver a tensão dos instintos que escape de uma concepção binária de simples oposições.
Deveríamos, portanto, “viver o Eros”. Para os gregos Eros era um demônio, e para a psicanálise, ele pode se traduzir como instinto de vida e Id. Tanto os gregos como a psicanálise viam Eros como um ser construtivo ou destrutivo, e, também, ambas as coisas. O aspecto demoníaco de Eros pode ser o sexo, a ira, a raiva e a ambição de poder, por exemplo... Porém para Nietzsche viver o Eros seria também ter regras que se constituem na estética, pois Eros em sua vertente criativa cria suas próprias regras ao realizar sua expressão, que se pauta na estética. Portanto, o desejar de Eros produz normas e regulamentos próprios, pois necessita deles para se expressar no mundo (FEITOSA & BARRENECHEA, 2003).
Podemos considerar que, para Nietzsche e Spinoza, o desejo é a mola mestra da vida do homem no mundo. Para ambos existiria uma “estética do desejo, a qual instituiria uma ética”. Por meio do desejo é que surgiria a vontade, e esta se produziria pela singularidade pessoal. Produzir algo requer esforço, porém o esforço guiado pelo desejo produz a potência humana. O desejo estético de criar produz regras pessoais e coletivas não-repressoras. São regras necessárias e constitutivas da expressão estética e erótica no mundo. Portanto, o “desejo” é um desejo de expressão estética, sendo auto-organizador e auto-regulador. O resultado disso para nosso tipo de clínica é inserir o desejo, a consciência corporal e imaginativa no processo terapêutico. Fazer clínica é criar caminhos de interligação de instâncias que incluam o desejo, ou que se façam pelo desejo, pelo Eros.
Na Clínica de Psicoterapia buscamos valorizar vários modos de inter-relacionar com diversas instâncias que atravessam a nossa existência, para que estas possam nos fazer potente. Deleuze (2006, pag. 154) afirma que poucos pensadores “não incidem sobre as pretensões como atos de transcendência (...)”. Nietzsche e Espinoza fazem parte deste grupo de raros filósofos que não valorizam modos de ação com pretensões, mas defendem modos de ação de potência. Para Deleuze (2006, pag. 155) “A potência é modesta, contrariamente à pretensão”. Em nossa clínica buscamos filósofos que pautem nossa prática, para que possamos questionar nossas idéias e criar situações de imanência (em oposição à transcendência), para potencializar a condição humana e valorizar aspectos que incluem as vivências corporais.

Carl Gustav Jung
Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, surgida em 1913, e também conhecida como Psicologia Junguiana ou Psicologia Complexa, estabelece idéias que se afinam com o pensamento de Nietzsche e de Espinoza. Para C. G. Jung, o homem existe dentro da psique e tudo é psique; para Spinoza tudo é natureza. Olhando por este aspecto, interior e exterior ambos são psíquicos e se interpenetram (SILVEIRA, 1968).
A psique também se constitui no desejo da criação humana, a cultura, a política, a economia, os ciclos da natureza, a biologia, etc., podem ser vistos como psique e manifestação psíquica, assim como manifestação de desejos. Somos atravessados pela psique coletiva e também produtores dela. Nietzsche considera o corpo como um lugar de dissociação do "eu", ainda que marcado de história. Provavelmente ele vê na ação de atenção ao próprio corpo, a sinalética corporal, um lugar que nos diferencia do ego fabricado por ideologias, práticas sócias e culturais. No corpo/alma está guardado o desconhecido, e este não aparece como em uma revelação, pois corpo e alma são movimentos, consciência, imaginação e pluralidade. Quem somos, no processo terapêutico, pode ser visto como um cultivo de "vir a ser um todo" mais consciente.
Há diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, que chamamos de corpo/psique.  Portanto a abordagem corporal, não deve ter a intenção de mobilizar um determinado aspecto, mas promover uma vivência que ative espontaneamente o que for mais adequado para estimular e “equilibrar” criativamente do cliente naquele momento. A clínica deve propiciar ao sujeito o desenvolvimento de processos imaginativos e das vivências corporais. Isto mobiliza a capacidade de auto-regulação da psique, também conhecida como "sabedoria corporal". Incluir o corpo no contexto do atendimento psicoterápico é não reduzido-lo a meros rótulos, mas sim, que se abra a experimentações. A Arteterapia pode ser um coadjuvante neste processo de exercício e conscientização da unidade corpo-psique. Esta forma de terapia trabalha com elementos que mobilizam o corpo físico, o corpo emocional, imaginativo e ficcional.
O processo terapêutico deve conectar o corpo com a alma, com as emoções e com a natureza, de modo a expandir a consciência pela experimentação de perceber por novos prismas. Se Spinoza chamaria isso de fazer um encontro potente, Nietzsche, diz que isto seria encontrar nossa potencia pela valorização do acontecimento – feito de tensão entre o instinto e as múltiplas instâncias dos diversos mundos que nos atravessam. Nesta clínica marcada pelos pensamentos de Spinoza, Nietzsche e Jung, as sensações corporais e os múltiplos signos, imagens e imaginações que povoam a psique individual e coletiva ganham destaque e ênfase na experimentação corporal ao invés de termos como recurso apenas conjecturas intelectuais. Este modo de sensibilização corporal pode criar uma certa tensão, porém isso possibilita ativar atitudes criativas e de produção de si mesmo. Deve-se, portanto, esquecer familiaridades e certezas; construir outras identidades e outras formas de lidar com o mundo e com outras pessoas em que a senso-percepção corporal esteja incluída. Pois, quando as experiências corporais não são conscientizadas como parte do processo individual e coletivo, a sociedade tende ao engessamento e à esterilização da vida.


Fonte: http://artigos.psicologado.com/atuacao/psicologia-clinica/nietzsche-spinoza-e-jung-reflexoes-sobre-a-clinica-de-psicoterapia#ixzz2EbmYMT65
Psicologado - Artigos de Psicologia
Siga-nos: @Psicologado no Twitter | Psicologado no Facebook

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Diálogos entre duas tradições...

Felipe: Não me importo com a idéia de Gautama realizando algum trabalho de preparação aqui na terra, presdispondo para a Tua Boa Nova, Mestre. Não  me sinto à vontade com a idéia de que ele possa ser considerado em outra tradição no mesmo nível do senhor, de que o Silêncio dele tenha o mesmo alcance que Tua Palavra.

Jesus: Tu colocarias limites ao amor do Pai? Gostarias que Ele se recusasse a incontáveis gerações e raças de homens, que o tem buscado com tanta sinceridade? Sem dúvida, é verdade que trago a ti e a todos os homens a Sua Palavra onipotente, mas tu me reconheces somente agora, Felipe? Há tanto tempo estou contigo, e ainda não me reconheces, exceto por essa forma tão restrita?

Felipe: Queres dizer, Mestre, que quando ouvimos Gautama devemos ser capazes de te reconhecer?

Jesus: Felipe, ouve a voz do Espírito, pois é ela que abre a mente, liberta o coração, junta o que está separado e perdido, mantém inabalável fidelidade, instila a paz, renova a confiança, conforta e tolera. Feliz de ti se ouvires essa voz!

Felipe: Ultimamente, falas com muita frequência em Gautama, a Luz da Ásia, Rabi. O que esse estrangeiro tem a ver conosco?

Jesus: Felipe, justamente pelo que dizes mostras o quanto estás precisando daquilo que ele tem para oferecer. Pergunta a ti mesmo o que ti impede de ouvir Gautama. Algum tipo de presunção ou a certeza que ele não tem qualquer verdade a oferecer que já não tenhas ouvido de meus lábios? Será o medo de que ele te leve para longe de mim, ou dê provas de que estou errado? Sentes a mesma hostilidade por Moisés ou Elias? Entretanto, tu e Simão já me viram conversando com eles.

Simão: Espera aí Senhor, Moisés e Elias fazem parte da nossa tradição. O Felipe está com razão! Eles são os pais da nossa tradição, ver-te conversando com eles foi a confirmação sagrada do que  nossos corações nos haviam segredado sobre ti. Foi como um alegre casamento entre o antigo e o novo.

Jesus: Estás vendo? Vossos corações, muito antes de vossas mentes,foram capazes de sentir a ligação entre minhas palavras, minhas ações e tudo o que fostes ensinados a crer. Confia no coração! Não estou querendo dizer para ignorar as perguntas da mente, mas apenas que deveis abrir os corações para uma experiência... Dai voz às vossas dúvidas e hesitações dialogando com eles. Se verdadeiramente os ouvirdes, e eles vos ouvirem, como poderá falhar o vosso crescimento na luz?
O Espírito que vos está sendo dado não é da espécie que pretende confinar-vos dentro de um pequeno mundo sectário.
É um Espírito que transpõe barreiras existentes entre os mundos, não mediante a destruição do que os caracteriza, mas através da comunhão entre eles. Nessa comunhão, Simão, abre-se o Caminho que fica além de todos os caminhos.

Simão: Poderão diálogos como este ser uma nova forma de oração, Rabi?

Jesus: Não apenas uma nova forma, mas aforma mais alta dessa mesma ida e volta. As preces são descritas como diálogos com Deus. Mas como poderemos conversar com algo que está além da linguagem? Mediante a linguagem, o diálogo pode levar a libertação da mente e do coração, que é a Palavra de Deus segredada a nós no silêncio. Nossa resposta muda é essa excitação que nos arrebata, o salto de alegria, o reconhecimento,  a expansão da nossa vida.

Simão: Falas, Rabi, numa palavra muda e de uma resposta não articulada. É assim, também, o segredo de Gautama?

Jesus: O sentido do silêncio de Gautama tem muitos aspectos. Gautama conta uma história a respeito de um homem que foi ferido por uma seta envenenada. Antes de permitir que a retirassem, ele quis saber que tipo de seta fora usada e de que espécie de veneno estava ela impregnada. Claro que esse homem morreu antes que essas perguntas fossem respondidas. Da mesma forma, Gautama nos ensina que, se insistirmos em compreender Deus e a alma humana, estaremos mortos por causa dos nossos muitos males, bem antes que a nossa mente atinja o conhecimento necessário.

Felipe: E concordas com ele nesse ponto, Mestre?

Jesus: Não vês que aquilo contra o qual ele nos alerta é o erro fatal dos fariseus? Mais uma vez eu já os avisei de que morrerão em pecado por se recusarem a reconhecer João Batista ou a mim. Eu disse "se recusam a reconhecer", pois os casos de cura e as obras de salvação estão aí, para que todos vejam, como o sinal certo pelo qual o Espírito Santo é reconhecido. Tivessem eles o coração sincronizado com espírito, como poderiam deixar de reconhecer-me? É por esse método que reconhecereis se Gautama está comigo ou contra mim. Mas,  porque não concordo com as idéias deles a respeito de Deus ou do Messias, eles não podem me aceitar. A obstinação de suas mentes torna estúpidos seus corações. Seus corações estão atrofiados. É contra esse perigo que Gautama nos alerta, e esse é o perigo que ele almeja eliminar com seu silêncio.

Simão: Tu também acreditas no silêncio, Rabi, do mesmo modo que Gautama, e Gautama também comunica uma palavra, do mesmo modo que tu?

Jesus: Lembra-te da história  que contei sobre o semeador e a semente?  Era preciso que a terra fosse boa - uma terra sem cardos, pedras ou urzes, uma terra que tivesse sido revolvida e arejada - e era preciso que a semente fosse boa. Gautama dá ênfase à preparação do solo, enquanto eu valorizo a dádiva da semente.Entretanto, a terra não daria frutos sem a semente, e ambas dependem do sol, da chuva e da estação do plantio, do calor do coração e da dádiva do espírito.

Simão: Então há a necessidade de ambos, do silêncio e da palavra para que o espírito cresça de algum modo. Tu nos falastes dos perigos da palavra sem o silêncio, Rabi. Há também perigo num silêncio sem palavras?

Jesus: Os perigos podem ser maiores ainda, pois são bem mais sutís. Um solo bom e rico pode ser confundido com um fim em si mesmo; mas o fazendeiro sabe que é um desperdício deixar um bom solo sem cultivo. Por isso Simão, o mesmo acontece com o silêncio e a palavra: como pode existir uma palavra silenciosa ou um silêncio loguaz? Quero que saibas, que existe um silêncio que prepara o caminho da palavra, um silêncio que é a mais alta elocução dessa palavra. Foi por isso que eu disse que o silêncio de Gautama é complexo. Quem melhor do que ele conhece a arte de aplainar, derrubar montanhas e encher vales, preparando o caminho no mundo para a minha vinda? Mas o seu silêncio ultrapassa os limites da boa vontade. Ele também conhece o silêncio da palavra que transborda, o silêncio prenhe do que está além do enunciado, o inefável gemido do Espírito.

domingo, 18 de novembro de 2012

E ai, como é que fica?...

Santayana: Julgamento da AP 470 corre o risco de ser um dos erros judiciários mais pesados da História

publicado em 16 de novembro de 2012 às 15:32
por Mauro Santayana, em seu blog
O julgamento da Ação 470, que chega ao seu fim com sentenças pesadas contra quase todos os réus, corre o risco de ser considerado como um dos erros judiciários mais pesados da História. Se, contra alguns réus, houve provas suficientes dos delitos, contra outros os juízes que os condenaram agiram por dedução. Guiaram-se pelos silogismos abengalados, para incriminar alguns dos réus.
O relator do processo não atuou como juiz imparcial: fez-se substituto da polícia e passou a engenhosas deduções, para concluir que o grande responsável fora o então Ministro da Casa Civil, José Dirceu. Podemos até admitir, para conduzir o raciocínio, que Dirceu fosse o mentor dos atos tidos como delituosos, mas faltaram provas, e sem provas, não há como se condenar ninguém.
O julgamento, por mais argumentos possam ser reunidos pelos membros do STF, foi político. Os julgamentos políticos, desde a Revolução Francesa, passaram a ser feitos na instância apropriada, que é o parlamento. Assim foi conduzido o processo contra Luis XVI. Nele, de pouco adiantaram os brilhantes argumentos de seus notáveis advogados, Guillaume Malesherbes, François Tronchet e Deseze, que se valiam da legislação penal comum.
O julgamento era político, e feito por uma instituição política, a Convenção Nacional, que representava a Nação; ali, os ritos processuais cediam lugar à vontade dos delegados da França em processo revolucionário. A tese do poder absoluto dos parlamentares para fazer justiça partira de um dos mais jovens revolucionários, Saint-Just. Ela fora aceita, entre outros, por Danton e por Robespierre, que se encarregou de expô-la de forma dura e clara, e com a sobriedade própria dos julgadores – segundo os cronistas do episódio — aos que pediam clemência e aos que exigiam o respeito ao Código Penal, já revogado juntamente com a monarquia.
– Não há um processo a fazer. Luis não é um acusado. Vocês não são juízes, vocês são homens de Estado. Vocês não têm sentenças a emitir em favor ou contra um homem, mas uma medida de segurança pública a tomar, um ato de providência nacional a exercer. Luis foi rei e a República foi fundada.
E Robespierre, implacável, explica que, em um processo normal, o Rei poderia ser considerado inocente, desde que a presunção de sua inocência permaneceria até o julgamento. E arremete:
– Mas, se Luis é absolvido, o que ocorre com a Revolução? Se Luis é inocente, todos os defensores da liberdade passam a ser caluniadores.
Os fatos posteriores são conhecidos.
O STF agiu, sob aparente ira revolucionária de alguns de seus membros, como se fosse a Convenção Nacional. Como uma Convenção Nacional tardia, mais atenta às razões da direita – da Reação Thermidoriana, que executou Robespierre, Saint Just e Danton, entre outros – do que a dos montagnards de 1789. Foi um tribunal político, mas sob o mandato de quem? Quem os elegeu? E qual deles pôde assumir, com essa grandeza, a responsabilidade do julgamento político, que assumiu o Incorruptível? E qual dos mais exacerbados poderia dizer aos outros que deviam julgar como homens de Estado, e não como juízes?
Como o Tartufo, de Molière, que via a sua razão onde a encontrasse, foram em busca da teoria do domínio do fato, doutrina que, sem essa denominação, serviu para orientar os juizes de Nurenberg, e foi atualizada mais tarde pelo jurista alemão Claus Roxin.
Só que o domínio do fato, em nome do qual incriminaram Dirceu, necessita, de acordo com o formulador da teoria, de provas concretas. Provas concretas encontradas contra os condenados de Nurenberg, e provas concretas contra o general Rafael Videla e o tiranete peruano Alberto Fujimori.
E provas concretas que haveria contra Hitler, se ele mesmo não tivesse sido seu próprio juiz, ao matar-se no bunker, depois de assassinar a mulher Eva Braun e sua mais fiel amiga, a cadela Blondi. Não havendo prova concreta que, no caso, seria uma ordem explícita do Ministro a alguém que lhe fosse subordinado (Delúbio não era, Genoíno, menos ainda), não se caracteriza o domínio do fato. Falta provar, devidamente, que ele cometeu os delitos de que é acusado, se o julgamento é jurídico. Se o julgamento é político, falta aos juízes provar a sua condição de eleitos pelo povo.
Dessa condição, dispunham os membros da Convenção Nacional Francesa e os parlamentares brasileiros que decidiram pelo impeachment do Presidente Collor. As provas contra Collor não o condenariam (como não condenaram) em um processo normal. Ali se tratou de um julgamento político, que não se pretendeu técnico, nem juridicamente perfeito, ainda que fosse presidido pelo então presidente do STF.
A nação, pelos seus representantes, foi o tribunal. O STF é o cimo do poder judiciário. Sua sentença não pode ser constitucionalmente contestada, mesmo porque ele é, também, o tribunal que decide se isso ou aquilo é constitucional, ou não. A História, mais cedo do que tarde, fará a revisão desse processo, para infirmá-lo, por não atender às exigências do due process of law, nem a legitimidade para realizar um julgamento político.
O julgamento político de Dirceu, justo ou não, já foi feito pela Câmara dos Deputados, que lhe cassou o mandato.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Seria Jesus um romântico?

Vale a pena!
SERIA JESUS UM ROMÂNTICO? 

Há quem julgue o ensino de Jesus muito romântico e sem senso de realidade. Afinal, o que Ele manda fazer e ser é completamente contrário àquilo que o fluxo deste mundo chama de realidade e objetividade.

Quem ganha guerras amando o inimigo? Quem vai a qualquer lugar se perdoa sempre? Quem lucrará de modo capitalista se fizer aos outros antes aquilo mesmo que deseja que os outros façam a ele? Em que sociedade o maior deve ser o menor, e o último o primeiro? Em que filosofia o caminho do ser é o de se fazer como uma criança? Quem prosperará se não se inquietar com o dia de amanhã? Quem sobrevive sendo verdadeiro sempre? Quem vai a qualquer lugar se não aliar-se aos poderes vigentes? Quem se satisfaz sendo tão discreto que a mão direita não pode nem se gabar do que fez a esquerda? Quem consegue ser tão livre, que simplesmente não reconheça fronteiras, e que se sinta bem-vindo em qualquer lugar onde for bem-vindo, pois, não conhece o preconceito? Quem não se amargurará também ao não ser recebido pelos seus próprios? Quem tendo todo o poder decide não usa-lo? Quem podendo se impor apenas deixa “chegar a hora”? Quem podendo esmagar se deixa antes executar? Quem podendo dar um show que agilize o caminho, preferirá ao invés andar nos desertos, e associar-se a gente pequena, e dedicar a sua vida à cura dos doentes de corpo e alma? Quem podendo curar, curando proíbe os curados de falarem que foi dele que veio o benefício? Quem sacrificaria um jantar com amigos ricos para oferecer uma ceia para mendigos e desconhecidos probretões? Quem faz do amor um caminho de transgressão ante os olhos dos juizes da moral, e, ainda assim, jamais não negocia o que sabe ser verdade e bom? Quem confia ao Pai a própria vida, e aceita todo e qualquer absurdo, e, ainda assim, sabe morrer entregando ao Pai o espírito?

Sim, para muitos, senão para todos, o Evangelho é insuportável, e, por isto, mesmo quando todos dizem que ele está certo, ainda assim ninguém se aventura a leva-lo à sério.

Jesus, todavia, não era romântico. Se Ele come carne é porque animais morrem. Se bebe vinho é porque sabe que vides precisam ser plantadas. Se fala de casas que não sucumbem ao tempo é porque sabe que casas precisam ser construídas. Se transforma água em vinho é porque sabe que a frustração pode acabar a alegria de uma casamento. Se multiplica alimentos é porque sabe que o homem não vive somente da Palavra que sai da boca de Deus, mas também de pão. Se entra em barcos é porque reconhece a gravidade da Lei da Gravidade. Se dorme é porque sabe que sem descanso não se vive. Se chora a morte de um amigo é porque reconhece que não existe vida sem emoção.

Entretanto, Jesus estabelece limites. Ele deixa claro que a cobiça, os excessos, as luxurias, e todas as ambições tornariam a vida impossível na Terra.

Hoje, quem se atreve a dizer que nosso senso de realidade e de objetividade são de fato reais e objetivos?

Sim, diante de tudo o que nossa realidade e nossa objetividade produziram como morte em proporções globais, quem se atreve a dizer que o romântico é Jesus?

Não amigos! Digamos que não suportamos, que não agüentamos viver diferente, que nosso egoísmo e nosso imediatismo nos governam, qualquer coisa... mas não digamos que Jesus é romântico.

Românticos e idiotas somos nós, os insaciáveis, os implacavelmente cobiçosos, os senhores e sujeitos de seus próprios medíocres destinos, os poderosos que não têm nem mesmo os senso de realidade que assume que nós próprios, quais idiotas incuráveis, somos aqueles que por ambição, omissão, ou mero comodismo, estamos tratando real e objetivamente de nos auto-destruirmos.

Sim, digamos antes que o Evangelho é insuportável, mas não digamos que ele é romântico, pois, nada há mais verdadeiro, nem tampouco mais real e chocantemente profilático quanto a indicar o caminho da vida, e não da morte, quanto o Evangelho de Jesus.

Mas Ele perguntou: “Quando vier o Filho do Homem, porventura achará fé na Terra?”


Caio


Há quem julgue o ensino de Jesus muito romântico e sem senso de realidade. Afinal, o que Ele manda fazer e ser é completamente contr
ário àquilo que o fluxo deste mundo chama de realidade e objetividade.

Quem ganha guerras amando o inimigo? Quem vai a qualquer lugar se perdoa sempre? Quem lucrará de modo capitalista se fizer aos outros antes aquilo mesmo que deseja que os outros façam a ele? Em que sociedade o maior deve ser o menor, e o último o primeiro? Em que filosofia o caminho do ser é o de se fazer como uma criança? Quem prosperará se não se inquietar com o dia de amanhã? Quem sobrevive sendo verdadeiro sempre? Quem vai a qualquer lugar se não aliar-se aos poderes vigentes? Quem se satisfaz sendo tão discreto que a mão direita não pode nem se gabar do que fez a esquerda? Quem consegue ser tão livre, que simplesmente não reconheça fronteiras, e que se sinta bem-vindo em qualquer lugar onde for bem-vindo, pois, não conhece o preconceito? Quem não se amargurará também ao não ser recebido pelos seus próprios? Quem tendo todo o poder decide não usa-lo? Quem podendo se impor apenas deixa “chegar a hora”? Quem podendo esmagar se deixa antes executar? Quem podendo dar um show que agilize o caminho, preferirá ao invés andar nos desertos, e associar-se a gente pequena, e dedicar a sua vida à cura dos doentes de corpo e alma? Quem podendo curar, curando proíbe os curados de falarem que foi dele que veio o benefício? Quem sacrificaria um jantar com amigos ricos para oferecer uma ceia para mendigos e desconhecidos probretões? Quem faz do amor um caminho de transgressão ante os olhos dos juizes da moral, e, ainda assim, jamais não negocia o que sabe ser verdade e bom? Quem confia ao Pai a própria vida, e aceita todo e qualquer absurdo, e, ainda assim, sabe morrer entregando ao Pai o espírito?

Sim, para muitos, senão para todos, o Evangelho é insuportável, e, por isto, mesmo quando todos dizem que ele está certo, ainda assim ninguém se aventura a leva-lo à sério.

Jesus, todavia, não era romântico. Se Ele come carne é porque animais morrem. Se bebe vinho é porque sabe que vides precisam ser plantadas. Se fala de casas que não sucumbem ao tempo é porque sabe que casas precisam ser construídas. Se transforma água em vinho é porque sabe que a frustração pode acabar a alegria de uma casamento. Se multiplica alimentos é porque sabe que o homem não vive somente da Palavra que sai da boca de Deus, mas também de pão. Se entra em barcos é porque reconhece a gravidade da Lei da Gravidade. Se dorme é porque sabe que sem descanso não se vive. Se chora a morte de um amigo é porque reconhece que não existe vida sem emoção.

Entretanto, Jesus estabelece limites. Ele deixa claro que a cobiça, os excessos, as luxurias, e todas as ambições tornariam a vida impossível na Terra.

Hoje, quem se atreve a dizer que nosso senso de realidade e de objetividade são de fato reais e objetivos?

Sim, diante de tudo o que nossa realidade e nossa objetividade produziram como morte em proporções globais, quem se atreve a dizer que o romântico é Jesus?

Não amigos! Digamos que não suportamos, que não agüentamos viver diferente, que nosso egoísmo e nosso imediatismo nos governam, qualquer coisa... mas não digamos que Jesus é romântico.

Românticos e idiotas somos nós, os insaciáveis, os implacavelmente cobiçosos, os senhores e sujeitos de seus próprios medíocres destinos, os poderosos que não têm nem mesmo os senso de realidade que assume que nós próprios, quais idiotas incuráveis, somos aqueles que por ambição, omissão, ou mero comodismo, estamos tratando real e objetivamente de nos auto-destruirmos.

Sim, digamos antes que o Evangelho é insuportável, mas não digamos que ele é romântico, pois, nada há mais verdadeiro, nem tampouco mais real e chocantemente profilático quanto a indicar o caminho da vida, e não da morte, quanto o Evangelho de Jesus.

Mas Ele perguntou: “Quando vier o Filho do Homem, porventura achará fé na Terra?”


Caio
Curtir ·  ·  · 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Temporada de caça ao petróleo brasileiro




BY
ADMIN

 – 2 DE NOVEMBRO DE 2012POSTED IN: GERAL

Pistas para compreender o estranho linguajar da mídia no debate sobre o futuro do Pré-Sal

Por Paulo Metri, no Democracia & Política

“Nos dias atuais, proliferam veículos, na mídia brasileira, que utilizam a desinformação. Como

exemplo, surgem artigos, editoriais, notícias e entrevistas dizendo que ‘as rodadas de leilão

de áreas para produzir petróleo devem ser realizadas’, ’a Petrobras não tem capacidade

para explorar sozinha o Pré-Sal devido a suas limitações financeira, gerencial e tecnológica’

e, para ‘ajudar o Brasil’ a vencer essa dificuldade, ‘as empresas petrolíferas estrangeiras

precisam ser convidadas’.

Nessas mensagens [afirmam que], para atraí-las, é necessário que as concessões do Pré-

Sal sejam firmadas sob as regras da [dadivosa para estrangeiros] lei nº 9.478 [de FHC/

PSDB/DEM], o que significa revogar no Congresso a lei 12.351 [de 2010], recém-aprovada,

devolvendo o Pré-Sal à antiga lei 9.478 [de FHC].

Trata-se de arrogância sem igual, típica de quem se acha imbatível. Para tentar convencer

os leitores ou espectadores, supondo todos desatentos, lançou-se mão de inverdades,

acreditando que ninguém vai contestar um grande jornal, revista semanal, rádio ou televisão.

Arquitetaram, com grande esmero, o que pode ser chamado de a “temporada de caça ao

petróleo brasileiro”. Felizmente, existem alguns sites, blogs e veículos digitais que estão

dispostos a conscientizar a população e publicam novos dados e análises.

Contudo, a mídia do capital, aquela que não prioriza a sociedade [nacional], às vezes comete

erros, por partir do princípio de que o povo tem um baixo nível de compreensão política.

Durante dez anos seguidos (de 1999 a 2008), existiram rodadas de leilões de áreas para

exploração de petróleo. Nunca trouxeram para seus veículos uma voz que advogasse a

não realização dessas rodadas. Em compensação, disseminaram matérias contando as

supostas ’maravilhas das rodadas’. Os leitores ou espectadores atentos devem pensar: “Que

estranho insistirem tanto em um mesmo ponto!”

Neste instante, eles querem ter acesso a algo, não necessariamente divergente, mas com

diferente ângulo de visão, e não encontram, porque essas matérias só existem na imprensa

alternativa. Mais cedo ou mais tarde, eles conhecerão os veículos livres, comprometidos

com as causas sociais, e entenderão que a grande mídia é um braço camuflado do capital,

principalmente o internacional.

Na atual temporada de caça ao nosso petróleo, inúmeras matérias de comunicação satisfazem,

sem serem explícitas, aos interesses estrangeiros sobre nosso petróleo. Se fosse rebater cada

material divulgado, este artigo iria ficar longo e cansativo; então, comento a seguir as principais

acusações dos detratores.

Começo pela que diz que, “depois da descoberta do Pré-Sal, o Brasil, em vez de começar

a exportar petróleo, está se distanciando da autossuficiência”. Para explicar o que ocorre, é

preciso desenvolver um raciocínio preliminar.

A velocidade que o governo brasileiro impôs à exploração no setor de petróleo, com uma

rodada de leilões por ano, de 1999 até 2008, foi do interesse único das empresas estrangeiras,

que não têm petróleo em seus países de origem, e dos países desenvolvidos, que precisam

do petróleo para mover suas economias. Se não forçassem a Petrobras a ter que participar de

tantos leilões, mais recursos sobrariam para o desenvolvimento de campos e a autossuficiência

estaria garantida há mais tempo. Por outro lado, em cada leilão que a Petrobras não participa

e não ganha, há uma perda enorme para o país. Além disso, é preciso saber que, entre

a declaração de comercialidade de um campo marítimo e o início da sua produção, são

necessários, em média, cinco anos.

Entretanto, estamos hoje bem próximos da autossuficiência, o que não ocorreria, com absoluta

certeza, se em 1953 [com Getúlio Vargas] o projeto de interesse das petrolíferas estrangeiras

tivesse sido aprovado. No nosso país, hoje, não existiria a Petrobras e a produção nacional

seria mínima. As empresas estrangeiras não iriam para a plataforma continental quando a

Petrobras foi, em 1974, pois a lógica do capital as levaria para a Arábia Saudita, o Iraque, o

Cazaquistão e outros lugares promissores para o petróleo, como de fato ocorreu. Também,

certamente ninguém saberia, hoje, da existência do Pré-Sal.

É interessante que não se conta, para garantir a autossuficiência, com o petróleo produzido

no país pelas empresas estrangeiras. De forma pouco soberana, raciocina-se que esse

petróleo é delas e elas não têm a obrigação de abastecer o Brasil. Essa falta de lógica

social é resguardada pela [antinacional] lei 9.478 de 1997 [de FHC/PSDB/DEM] e é parte

do pensamento subserviente da década de 1990, que imaginava o Brasil como economia

complementar à dos desenvolvidos, mero exportador de minerais e produtos agrícolas.

Como boas críticas neoliberais, as matérias lembram sempre “os prejuízos da Petrobras no

segundo trimestre de 2012″. Ela teve prejuízo porque o governo determinou que segurasse

o preço dos derivados, uma vez que os aumentos desses preços repercutem muito no

índice de inflação. Não se pode beneficiar o cidadão brasileiro em detrimento dos dividendos

maravilhosos que seriam dados aos acionistas? Não se pode fazer isso eternamente, mas, de

vez em quando, se pode. Além disso, os acionistas [muitos estrangeiros] não vão ficar sem

dividendos. Só não vão ter aqueles maravilhosos.

Acusam gratuitamente as mudanças do setor porque “modificaram o sistema de royalties”, fato

catastrófico, porque desencadeou no Congresso disputa entre os parlamentares dos diferentes

estados sobre a distribuição dos mesmos. É verdade que discutir o sistema de royalties foi

catastrófico, mas o que os autores não percebem é que, mesmo que a lei 9.478 [de FHC] fosse

utilizada para o Pré-Sal, os parlamentares iriam querer modificar seus artigos que estabelecem

a distribuição dos royalties arrecadados. O que atraiu esses parlamentares a buscarem mudar

essa distribuição foi a perspectiva de arrecadações milionárias desse tributo, quando o Pré-Sal

entrasse em operação.

Criticam a lei 12.351 [de 2010] por atribuir à Petrobras participação obrigatória de 30% em

cada consórcio e por essa empresa ser a operadora única dos novos contratos do Pré-Sal,

determinações essas que “seriam desnecessárias”, além de outros adjetivos pesados. Assim,

transmitem a visão que nos desejam impingir, a qual favorece as empresas estrangeiras.

A Petrobras ser a operadora dos consórcios é primordial, pois quem compra bens e serviços

para as fases de exploração, desenvolvimento e produção é a operadora. E, dentre as

empresas que atuam no Brasil, só a Petrobras compra aqui. As empresas estrangeiras

ganharam áreas para explorar petróleo desde 1999 e, até hoje, 14 anos depois, nenhuma

delas comprou uma plataforma no Brasil. Os 30% são explicados porque nenhuma empresa

consegue ser a operadora com menos de 30% de participação no consórcio.

Criar nova empresa estatal para gerir o programa, que também é motivo de crítica, é na

verdade muito importante para, dentre outros objetivos, fiscalizar as contas de todos os

consórcios.

Finalizando, os autores invariavelmente criticam o governo por procurar “viabilizar uma

exploração do Pré-Sal que visa satisfazer a sociedade”. Neste momento, dizem que “o governo

tenta ressuscitar a ideologia nacionalista de outros tempos”.

Buscam impor o conceito de que “nacionalismo é ruim”. E trazem, como única crítica ao

nacionalismo, o fato de ser “de outros tempos”. Além de ser um preconceito contra o velho,

chega a ser engraçado, porque princípios liberais estão nos [antigos] textos de Adam Smith

(1723-1790).

Aliás, seria bom reconhecermos que, graças ao nacionalismo, o Pré-Sal é nosso. Em

primeiro lugar, porque o nacionalismo o descobriu. Em segundo lugar, porque foram visões

nacionalistas de órgãos do governo brasileiro que lutaram para o estabelecimento da “Zona

Econômica Exclusiva de 200 milhas”, onde se encontra mais de 90% do nosso Pré-Sal. E a

conquistaram junto às Nações Unidas.”

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Caminho de volta...



Posted: 31 Oct 2012 06:31 PM PDT
O ser humano pode viver de duas maneiras: a natural e a não-natural. A não-natural exerce grande atração, pois é nova, não-familiar e aventureira. Daí, toda criança deve deixar sua natureza e penetrar na não-natureza.

Nenhuma criança pode resistir a esta tentação; resistir a ela é impossível. O paraíso deve ser perdido, e a sua perda está embutida; ela não pode ser evitada, ela é inevitável

E, é claro, somente o ser humano pode perdê-la. Este é o êxtase e a agonia do ser humano, o seu privilégio, a sua liberdade — e a sua queda. 

Jean-Paul Sartre está certo quando diz: "O ser humano está condenado a ser livre". Por que "condenado"? Porque, com a liberdade, surge a escolha — a escolha de ser natural ou não.

Quando não há liberdade, não há escolha. Os animais ainda existem no paraíso; eles nunca o perderam, mas, devido a isso nunca ter acontecido, eles não podem estar conscientes dele e não podem saber onde estão.

Para saber onde se está, primeiro deve-se perder o lugar. É assim que o saber se torna possível — ao se perder. 

Conhece-se uma coisa somente quando ela é perdida. Se ela nunca foi perdida, se ela sempre esteve presente, naturalmente ela é tomada como garantida; ela se torna tão óbvia que a pessoa se esquece dela.

As árvores, as montanhas e as estrelas ainda estão no paraíso, mas elas não sabem onde estão; somente o ser humano pode saber.. Uma árvore não pode se tornar um Buda — não que haja alguma diferença entre a natureza interior de um Buda e a de uma árvore, mas uma árvore não pode se tornar um Buda. A árvore já é um Buda! Para se tornar um Buda, a árvore primeiro deve perder a sua natureza, deve se afastar dela.

Você pode ver as coisas somente de uma certa perspectiva. Se você estiver muito próximo delas, você não pode vê-las. Aquilo que Buda viu nenhuma árvore jamais viu... está disponível às árvores e aos animais, mas somente Buda fica consciente dele — o paraíso é recuperado. 

O paraíso existe somente quando ele é recuperado. As belezas e os mistérios da natureza são revelados somente quando você retorna ao lar. Quando você vai contra sua natureza, quando você se distancia de você mesmo, somente então um dia a jornada de volta principia.

Quando você fica sedento pela natureza, quando você começa a morrer sem ela, você começa a retornar

Esta é a queda original. A consciência do ser humano é a sua queda original, seu pecado original. Mas sem o pecado original não há possibilidade de um Buda ou de um Cristo. 

Osho, em "Vá Com Calma: Discursos Sobre o Zen-Budismo"

Deus É, só passa a existir quando o conscientizamos!...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Gênese Yorubá - Caminho de Individuação e Integralidade


                                                                                                                                                  
   Obàtálà & Odùdúwà na Gênese Yorubá
    
Prefácio       


Joana Elbein dos Santos, no livro Os Nàgó e a Morte, em sua tese de Doutorado em Etnologia na Universidade de Sorbonne em Paris, traduzida pela Universidade Federal da Bahia, forneceu-me os dados necessários sobre os dois princípios responsáveis pela Gênese do Universo, - Obàtálà e Odùdúwà, que disputam o título de Òrìsà da Criação, revelando-me que houve um embate pela supremacia entre estes dois princípios; sendo assim, um fator constante em todos os mitos e textos litúrgicos Nàgó. Segundo ela, em alguns mitos, Odùdúwà, também chamado Odùa, é a representação deificada das Iyá-mi, a representação coletiva das mães ancestrais e princípio feminino onde tudo se origina. Assim, Odù corresponde a Obàtálà ou Òrìsàlá, que é o princípio criativo masculino.

Desejo, através deste trabalho, mostrar o significado dos Òrìsà-funfun na Gênese do Universo, no seu Cosmo-Gênese, como também, o seu significado psicológico e humano, através do Ìtàn Ìgbà-ndá àié, revelado pelo Odù-Ifá Òtúrúpòn-Òwónrín; assim como, demonstrar que os mitos cosmogônicos não descrevem o início absoluto do mundo, mas, o surgimento da consciência como segunda criação. “Observem que ninguém percebe que sem uma mente reflexiva não há mundo, e que, por conseguinte, a consciência é um segundo criador do mundo”. Carl G. Jung.

O fato de ter feito analogias com textos bíblicos cristãos, taoístas, budistas, teosóficos, esotéricos, exotéricos e psicológicos para decodificar a mensagem mítica deste Ìtán teve por finalidade esclarecer aos leitores, com os seus acervos culturais, psicológicos e religiosos, que “todos os vasos são de ouro puro”, como dizem os mestres budistas. Ou seja, a Verdade é Una, chegou para todos de forma diferenciada, apenas na sua forma, - conforme a sua cultura.

Observei que a cosmo visão religiosa do Candomblé é fortemente influenciada pela concepção de mundo na tradição Yorubá, e que essa tradição possui uma grande complexidade devido à falta de uniformidade, permitindo assim um grande número de conceitos e interpretações por não ter nenhuma instância que sirva de referência e medida para o todo. Em compensação, há uma visão unitária básica da existência que é compartilhada pelos “filhos de santo”. A concepção Yorubá de mundo existe em dois níveis denominados “doublê”, Àiyé e Orún, que não são locais separados existencialmente, mas, formas e possibilidades diferenciadas entre si, que não se opõe uma a outra, existindo de forma paralela apenas. Logo, o Àiyé não é um nível de existência fora do Orún, mas, um útero que o fecunda e manifesta toda a sua criatividade ilimitada, gerando um equilíbrio. Um não subsiste sem o outro, e desta harmonia depende todo universo e suas formas de vida. A  manutenção deste equilíbrio harmônico na natureza e no ser é o objetivo do Candomblé através de suas atividades religiosas. A Gênese Nàgó Yorubá retrata através do mito Igbà-Odù a luta travada entre os princípios responsáveis pela Criação, Obàtálà e Odùdúwà para o restabelecimento dessa harmonia à partir do conflito gerado por suas polaridades complementares. Obàtálà é o elemento criativo idealizador, Odùdúwà, o elemento gestor de toda a existência material, física e humana. A mensagem deste belíssimo Itán tem a finalidade de nos mostrar que só através da individuação e integralidade dos opostos é possível gerarmos algo criativo com sucesso e harmonia. 

Algumas pessoas no decorrer deste trabalho, não discerniram com facilidade o termo individuação criado por Carl Gustav Jung, por isso, tentarei esclarecê-lo para uma melhor compreensão.

Há uma enorme diferença entre individuação e individualismo, pois, a individuação respeita as normas coletivas de uma sociedade e, o individualismo as combate. A individuação é um processo no qual o ego visa tornar-se diferenciado da coletividade com tendências inconscientes, apesar de nela viver e ainda assim, ampliar as suas relações sociais. Já o individualismo, cede à tendências egocêntricas e narcisistas, identificando-se com papéis coletivos inconscientes. A individuação integra o ser levando-o à realização espiritual e ao Self ou Eu superior, ao invés da satisfação egótica. Este processo porém, só é alcançado através de uma grande resistência e defesa do ego, que gera assim, um grande conflito. Muitas vezes, sonhamos com figuras que tendem a demonstrar a necessidade de uma integralidade com a polarização oposta à nossa consciência. Precisamos a partir daí saber de forma consciente o recado que o nosso inconsciente nos dá, integralizando-nos, acabando assim com o conflito que bloqueia o crescimento espiritual exigido. Como exemplo, darei o sonho Bíblico de Jacó, em Gênesis 28:10  onde o mesmo, depois de uma cansativa viagem pelo deserto, deita-se e recosta sua cabeça sobre uma pedra para dormir. Depara-se em sonho com a imagem de uma grande escada que se apóia na terra e chega aos céus. Os anjos do Senhor sobem e descem os seus degraus! Eis que Iahweh estava de pé diante dele e lhe disse: “Eu sou o Deus de Abraão. A terra sobre a qual dormiste, eu a dou à ti e a tua descendência. Eu estou contigo e te guardarei em todo o lugar onde fores, e te reconduzirei a esta terra, porque não te abandonarei enquanto não tiver realizado o que prometi”. 

 Este sonho arquetípico nos revela a ajuda que o Self nos dá através de imagens oníricas que intermediam essa jornada de crescimento e integralidade, vencendo em primeira instância as contendas do inconsciente pessoal para depois ir para o coletivo, sua nova etapa, aquela que Deus escolhera para ele. Observe, que Jacó ao acordar deduz  assustado: “Na verdade o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!” Teve medo e disse: “Este lugar é terrível!” O local deste encontro Bíblico é sombrio e terrível, como relata Jacó, porém, só aí é a casa de Deus, - o inconsciente, uma casa de Deus, onde o sonho é a porta dos céus! 


“Portanto, sede vós perfeitos como é perfeito o vosso Pai Celeste”. Esta é a proposta de Jesus em Matheus 5:48, uma meta que deve ser aspirada por todos os seres para a sua evolução espiritual, trocando o conceito de bem e mal por algo que lhe convém ou não para a sua evolução. Essa perfeição, é fruto de um consenso espiritual entre os seres humanos à partir da Graça.

                                                                                                                          
                
                                                                                    
Introdução


Há sempre a oportunidade de fazermos uma “oferenda” para a qualidade momento que estamos vivenciando.

“O mito Nàgó Yorubá, Igbà-Odù, é uma Gênese que retrata esse sábio conselho, necessário ao nosso desenvolvimento pessoal e uma antevisão do caminho a ser percorrido”. Juana Elbein dos Santos.

“A religião Nagô Yorubá é rica em contos míticos, fazendo-se necessário lembrar que o mito é uma entidade viva que existe dentro de nós, como um arquétipo ancestral coletivo do nosso inconsciente. Se o imaginarmos como um espiral, girando de baixo para cima, como principio dinâmico de evolução no nosso interior, seremos nós capazes de captar a sua verdadeira forma e sentir como ele está vivo dentro de nós”. Juana Elbein dos Santos.

“Quando apresentamos um mito como este, existe para a pessoa que o vivencia, um efeito curativo; devido à sua participação é enquadrado nela um arquétipo de comportamento e, desse modo pode chegar pessoalmente à integralidade. Se esses arquétipos, fatos pré-existentes e pré-formadores da nossa psique forem considerados como simples instintos, como demônios ou deuses, em nada altera o fato de sua presença atuante em nós. Mas fará certamente uma grande diferença, se nós os desvalorizarmos com simples instintos, os reprimindo como demônios, ou os supervalorizarmos como deuses”. Carl G. Jung.

Espero que esse conto mítico produza insights compreensíveis ao meio, - o “povo do santo” do Candomblé, como também a todos que buscam uma integração com o grupo como caminho de individuação e crescimento espiritual.

 Os mitos, assim como toda cultura Yorubá religiosa, não foram criados por um indivíduo, são experiências e produtos da imaginação de um povo em todas as suas gerações. À medida que são contados, recontados e vividos, vão agregando novas experiências e aperfeiçoando-se de forma lapidar. Dessa forma, expressam as imagens do inconsciente coletivo de toda uma cultura e descrevem níveis de realidade que exprimem o mundo, sua manifestação exterior, racional e consciente, assim como, os mundos interiores, inconscientes, pouco compreensíveis por nós.  Quero crer que sentimentos fortes irão aflorar quando alcançarmos o insight  psicológico que os mitos nos trazem. Por serem imagens arcaicas e distanciadas da nossa realidade, à primeira vista, não nos são compreensíveis, porém, irão aflorando à consciência e serão discernidos prazerosamente, ajudando assim a nos integrarmos.

 Existem segundo recentes pesquisas, diferentes enfoques e versões sobre a Criação do Mundo no conceito Yorubá. As mais conhecidas são as de Juana Elbein dos Santos, esposa de Mestre Didi; o belíssimo trabalho do Fatumbi, - Pierre Verger, com alguns renomados nomes, como seguidores; o de Ney Lopes, profundo conhecedor e pesquisador da cultura negra e africana; o esclarecedor trabalho de Adilson de Òsàlá, apresentando-o de forma acessível para os menos esclarecidos; o do dedicado e profundo conhecedor, - o pesquisador José Beniste, a quem hoje o Candomblé deve a sua divulgação e profunda pesquisa, e, o mais atual, o de Gisele Omíndarewá Crossard, – AWÔ.

Mãe Gisele, relatou-me que em suas viagens constantes ao continente africano, em suas pesquisas de campo com babalaôs africanos, que Obàtálà criou o mundo com a ajuda de Yeyemowo, sua esposa, e, que o primeiro ser criado por ele chamava-se Lamurudu, fundador da cidade de Ifé. Que, não se dando bem por lá, foi badalar pelo mundo. Nas suas andanças, teve um filho a quem deu o nome de Odùdúwà.  Antes de morrer, Lamurudu aconselhou seu filho Odùdúwà a ir até Ìfé, o que ele fez prontamente. Odùdúwà, em Ifé teve um filho chamado Okambi e esse teve sete filhos, que a partir deles criaram outros reinos no país Yorubá. Disse-me ela, que na Nigéria, as escolas ensinam para as crianças nos livros, que Odùdúwà é o fundador de Ifé e é considerado um ancestral divinizado.

Continuando o seu relato, conta-me ela, que encontrou em Cotonu, cidade africana, uma mocinha feita para Odùdúwà. Disse-me também que ao se aprofundar nos fundamentos Yorubás, mais perplexa ficou evitando por isso construir uma tese como esta,  sobre a dualidade masculino-feminina de Obàtálà,  na Gênese da Criação, e o Caminho de Volta...

Agradeço a ela o incentivo dado ao ler em primeira mão, via e-mail, este trabalho aqui apresentado, como também, a sua elegância e humildade em considerá-lo.  Por que então escolhi a pesquisa de campo de Joana Elbein dos Santos como referência? Para mim, em se tratando de uma Gênese, suponho que nada antes existia de forma manifesta e material, logo, não devo confundir o dedo que aponta para a luz, com a própria luz.  
    

                                                                            J. Alfredo Bião
                                                                                                   



Definições


Os mitos foram à primeira expressão da eterna busca de compreensão do homem acerca do mundo e de si mesmo. Diferentes da ciência, que busca o “como”, os mitos explicam “porque as coisas são assim”. É, por isso, a forma mais concreta da verdade.
    Alan Watts (escritor e conferencista).


O mito encarna a abordagem mais próxima da verdade absoluta que pode ser expressa em palavras.
  Ananda Coomacaswamy (1877-1947) Filósofo indiano.
                                     
                                                                                                                       
O mito é o estágio intermediário natural e indispensável entre a cognição inconsciente e a consciente. Compreendi subitamente o que significa viver com um mito e o que significa viver sem ele. Portanto, o homem que pensa que pode viver sem o mito, ou fora dele, é uma exceção. É como uma pessoa desenraizada, sem um verdadeiro vínculo com o passado, com a vida ancestral dentro dela, ou com a vida contemporânea.
     Carl Gustav Jung (Psicanalista).


Criar um mito, isto é, aventurar-se por traz da realidade dos sentidos com o intuito de encontrar uma realidade superior, é o sinal mais manifesto da grandeza da alma humana e a prova de sua capacidade de infinito crescimento e desenvolvimento.
Louis Auguste Sabatier (1839 – 1901) Teólogo  protestante francês. 




O Mito


        Esta história-mítica (Ìtàn), sobre a criação do mundo encontra-se revelada no livro Os Nàgó e a Morte, de Juana Elbein dos Santos e, faz parte do conjunto de textos oraculares de Ifá, segundo ela. Representando um dos duzentos e cinqüenta e seis signos, denominados Odù. Segundo Juana, este Ìtan pertence ao odù-Ifá Òtúrúpòn-Òwónrín, sendo apenas uma versão resumida devido ao tamanho do seu texto e a riqueza de dados.

            Tento aqui apenas ilustrar ao leitor a origem, assim como mostrar a beleza dos seus fundamentos que me serviram de base para uma viagem arquetípica com os seus personagens míticos.

Ìtàn ìgbà-ndá àiyé: “Quando Olórun decidiu criar a terra, chamou Obàtálà e entregou-lhe o “saco da existência”, àpò-iwà, e deu-lhe a instrução necessária para a realização da magna tarefa. Obàtálà reuniu todos os òrìsà e preparou-se sem perda de tempo. De saída, encontrou-se com Odùa que lhe disse que só o acompanharia após realizar suas obrigações rituais. Já no òna-òrun, - caminho, Obàtálà passou diante por Èsù, este, grande controlador e transportador de sacrifícios, que domina os caminhos, perguntou-lhe se ele já tinha feito as oferendas propiciatórias. Sem se deter, Obàtálà respondeu-lhe que não tinha feito nada e seguiu o seu caminho sem dar mais importância à questão.  E foi assim que Èsù sentenciou que nada do que ele se propunha  empreender seria realizado”.

Com efeito, enquanto Obàtálà seguia seu caminho, começou a ter sede passou perto de um rio, mas não parou. Passou por uma aldeia onde lhe ofereceram leite, mas ele não aceitou. Continuou andando. Sua sede aumentava e era insuportável. De repente, viu diante de sí uma palmeira Igí-òpe e, sem se poder conter, plantou no tronco da arvore o seu cajado ritual, o òpá-sóró, e bebeu a seiva (vinho de palmeira). Bebeu insaciavelmente até que suas forças o abandonaram, até perder os sentidos e ficou estendido no meio do caminho. Nesse meio tempo, Odùa, que foi consultar Ifá, fazia suas oferendas a Èsù. Seguindo os conselhos dos babaláwo, ela trouxera cinco galinhas, das que tem cinco dedos em cada pata, cinco pombos, um camaleão, dois mil elos de cadeia e todos os outros elementos que acompanham o sacrifício.  Èsù apanhou estes últimos e uma pena da cabeça de cada ave e devolveu a Odùa a cadeia,  as aves e o camaleão vivos. Odùa consultou outra vez os babaláwo que lhe indicaram ser necessário, agora, efetuar um ebo, isto é, um sacrifício, aos pés de Olórun, de duzentos ìgbin, - os caracóis que contém “sangue branco”, “a água que apazigua”, - omi-èrò.

Quando Odùa levou o cesto com os ìgbin, Òlórun aborreceu-se vendo que Odùa ainda não tinha partido com os outros. Odùa não perdeu a sua calma e explicou que estava obedecendo à ordem de Ifá.

Foi assim que Òlórun decidiu aceitar a oferenda, e ao abrir o seu Àpére-odù - espécie de grande almofada onde geralmente Ele está sentado,  para colocar a água dos ìgbin, viu, com surpresa, que não havia colocado no àpò-Ìwà - bolsa da existência - entregue a Obàtálà, um pequeno saco contendo a terra. Ele entregou a terra nas mãos de Odùa, para que ela por sua vez a remetesse a Obàtálà.

 Odùa partiu para alcançar Obàtálà. Ela o encontrou inanimado ao pé da palmeira, contornado por todos os Òrìsà que não sabiam  que fazer. Depois de tentar em vão acordá-lo, ela apanhou o àpò-Ìwà que estava no chão e voltou para entregá-lo a Olórun. Este decidiu, então, encarregar Odùa da criação da Terra.

 Na volta de Odùa, Obàtálà ainda dormia; ela reuniu todos Orìsà e, explicou-lhes o que fora delegado por Olórun e eles, dirigiram-se todos juntos para o Òrun Àkàsò por onde deviam passar para assim alcançar o lugar determinado por Òlórun para a criação da terra.  Èsù, Ògún, Òsóòsi e Ìja conheciam o caminho que leva às águas onde iam caçar e pescar. Ògún ofereceu-se para mostrar o caminho e converteu-se no Asiwajú e no Olúlànà – aquele que está na vanguarda e aquele que desbrava os caminhos. Chegando diante do Òpó-Òrun-oún-Àiyé, o pilar que une o òrun ao mundo, eles colocaram a cadeia ao longo da qual Odùa deslizou até o lugar indicado por cima das águas. Ela lançou a terra e enviou Eyelé, a pomba, para esparramá-la. Eyelé trabalhou muito tempo. Para apressar a tarefa, Odùa enviou as cinco galinhas de cinco dedos em cada pata. Estas removeram e espalharam a terra imediatamente em todas as direções, à direita, à esquerda e ao centro, a perder de vista. Elas continuaram durante algum tempo. Odùa quis saber se a terra estava firme. Enviou o camaleão que, com muita precaução, colocou primeiro a pata, tateando, apoiando-se sobre esta pata, colocou a outra e assim sucessivamente até que sentiu a terra firme sob suas as patas.
                        Ole?                                Kole?        
                  Ela esta firme?           Ela não está firme?

Quando o camaleão pisou por todos os lados, Odùa tentou por sua vez. Odùa foi a primeira entidade a pisar na terra, marcando-a com sua primeira pegada. Essa marca é chamada esè ntaiyé Odùdúwà.

Atrás de Odùa, vieram todos os outros Òrìsà colocando-se sob sua autoridade. Começaram a instalar-se. Todos os dias Òrúnmìlà – patrão do oráculo consultava Ifá para Odùa.  Nesse meio tempo Obàtálà acordou e vendo-se só sem o àpó-ìwà, retornou a Òlórun, lamentando-se de ter sido despojado do àpò.

Òlórun tentou apaziguá-lo e em compensação transmitiu-lhe o saber profundo e o poder que lhe permitia criar todos os tipos de seres que iriam povoar a terra.

A narração diz textualmente:

“Isé àjùlo yé nni ìseda, ti ó fi móo seda àwon ènìyàn àti orísirísi ohun gbogbo tí ó ó móó òde àiyé òun àti igi gbogbo, ìtàkùn, koriko, eranko, eie, eja, ati àwon ènìyàn”.

 “Os trabalhos transcendentais de criação permitir-lhe-iam criar todos os seres humanos e as múltiplas variedades de espécies que povoariam os espaços do mundo: todas as árvores, plantas, ervas, animais, aves, pássaros, peixes, e todos os tipos de humanos”.

Foi assim que Obàtálà aprendeu e foi delegado para executar esses importantes trabalhos. Então, ele se preparou para chegar a terra. Reuniu os Òrìsà que esperavam por ele, Olúfón, Eteko, Olúorogbo, Olúwofin, Ògìyán e o resto dos Òrìsà-funfun.

No dia em que estavam para chegar, Òrúnmìlà, que estava consultando Ifá para Odùa, anunciou-lhe o acontecimento. Obàtálà, ele mesmo, e seu séquito vinham dos espaços do Òrún. Òrúnmìlà, fez com que Odùa soubesse que se ela quizesse que a terra fosse firmemente estabelecida e que a existência se desenvolvesse e crescesse como ela havia projetado, ela devia receber Obàtálà com reverência e todos deveriam considerá-lo como seu pai.

No dia de sua chegada, Òrìsànlá, foi recebido e saudado com grande respeito:

1. Oba-áláá o kú àbòò!
2. Oba nlá mò wá déé oo!
3. O kú ìrìn!
4. Erú wáá dájì.
5. Erú wáá dájì
6. Olówó àiyé wònyé òò.

1. Oba-áláá, seja bem-vindo!
2. Oba nlá (o grande rei) acaba de chegar!
3. Saudações por ocasião da viagem que acaba de fazer!
4. Os escravos vieram servir seu mestre.
5. Os escravos vieram servir seu mestre.
6. Oh! Senhor dos habitantes do mundo!

Odùa e Obàtálà ficaram sentados face a face, até o momento em que Obàtálà decidiu que iria instalar-se com sua gente e ocupariam um lugar chamado Ìdítàa. Construíram uma cidade e rodearam-na de vigias. Segue-se um longo texto, segundo o qual os dois grupos se interrogavam a fim de saber quem realmente devia reinar. Se Obàtálà é poderoso, Odùdúwà chegou primeiro e criou a terra sobre as águas, onde todos moram. Mas também foi Obàtálà quem criou as espécies e todos os seres. Os grupos não chegavam a um acordo e as divergências e atritos se fizeram cada vez mais sérios até terminar em escaramuças.

As opiniões não eram constantes e os partidários de um ou de outro tanto aumentavam ou diminuíam de acordo com o que parecia ser mais poderoso, até que explodiu uma verdadeira guerra, colocando em perigo toda a criação. Òrúnmìlà interveio e um novo Odù, Ìwoòrì-Ògbèrè, trouxe a solução. Esse signo apareceu no dia em que Òrúnmìlà consultou Ifá a fim de que solucionasse a luta entre Òrìsànlá e Odùa. Òrúnmìlà usou de toda sua sabedoria para fazer Odùa e Obàtálà virem a Oropo, onde conseguiu sentá-los face a face, assinalando a importância da tarefa de cada um deles; reconfortou Obàtálà, dizendo que ele era o mais velho, que Odùa havia criado a terra em seu lugar e que ele tinha vindo para ajudar e para  consolidar a criação e não era justo que ele botasse tudo a perder. Depois, convenceu Odùa a ser amável com Obàtálà: não tinha sido ela quem havia criado a terra? Por acaso Obàtálà não tinha vindo do Òrún para que convivessem juntos? Por acaso, todas as criaturas, árvores, animais e seres humanos não sabiam que a terra lhe pertencia?

Inú Odùaà ó ro,
Inú Orixalá naa a si rôo.
Odùa apazigou-se, Obàtálà também se apazigou.

 Foi assim que ele fez Odùa sentar-se à sua esquerda e Obàtálà à sua direita e colocando-se no centro, realizou os sacrifícios prescritos para selar o acordo.  É a partir desse acontecimento, que celebram anualmente os sacrifícios e o festival com repasto (ododún sise), que reúne os dois grupos que cultuam Odùdúwà e Obàtálà, revivendo e ritualizando a relação harmoniosa entre o poder feminino e o poder masculino, entre o àiyé e o Òrún, o que permitirá a sobrevivência do universo e a continuação da existência nos dois níveis.

“O feminino e o masculino complementando-se para poder conter os elementos-signo que permitem a procriação e a continuidade da existência”.
                                                
         Juana Elbein dos Santos 



 Este Ìtan será apresentado em capítulos semanais, faz parte de um trabalho com cinco capítulos.                   




                                                                          
Primeiro Capítulo

A Criação


Nosso Ìtàn àtowódówó, -  “conto dos tempos imemoriais”, começa como todos os outros:  Era uma vez um reino...  E, como sempre, existe um reino que é o início de tudo.

Em termos práticos, esse reino significa a nossa vida interior, pois nesse Ìtán se expressa um conhecimento imediato da nossa alma, por assim dizer, um conhecimento “que ela trouxe consigo”, pois é o mais velho do mundo, simbólico, uma parábola para o caminho do ser humano no reino interior, que não é desse mundo...

Como sempre, nesse reino há um rei, aqui chamado Olódùmaré, conhecido como Àjàlórún e Òlórun, “Senhor ou Rei do Òrún, o Aláàbálàxe -” Senhor que tem o poder de sugerir e realizar; “a Força Vital e o Universo; ou seja, é um Obá arinún-róòde, -” Senhor que concentra em si mesmo tudo o que é interior e exterior, tudo o que é oculto e o que é manifesto”. Assim, Òlórun criou Obàtálà, Odùdúwà, Ifá e Làtópà; criando assim, o principio masculino – criativo e o principio feminino – receptivo, o conhecimento e sabedoria  e, o princípio dinâmico - catalisador.

 Vivia Ele na companhia de muitos filhos, estes, por um lado, expressavam as suas manifestações, os seus atributos e obedeciam a uma hierarquia de funções. Dividiam-se, a princípio, em dois grupos principais: Òrìsà  e Èbora. 
  O filho que ocupa a mais alta função hierárquica neste panteão é Adjàgunalé ou Òrúnmìlà, como é mais conhecido; outro funfun, que é originário da fusão de duas energias femininas, Toró e Gegé, - o Sacerdote do Reino, o Gbáiyé-gbórun, aquele que vive tanto no Céu como na Terra, aquele que representa a sabedoria expressa do pai Olòdùmaré, é o princípio do conhecimento expresso; é o Elérùípín - testemunha do destino, ou Alàtùúnxe Àiyé, - aquele que coloca o mundo em ordem. Seu nome significa:  “o Céu conhece a salvação”.

 É quem estabelece os desígnios através do oráculo, chamado Ifá, depositário do princípio de conhecimento e sabedoria de Òlórun, sistema que nos deixou como legado através dos tempos.

O princípio no qual se baseia o sistema Ifá, com o seu opèlé, ou o èrindilogum,  chamado “jogo de búzios”, que se encontra aparentemente em profunda contradição com a concepção do mundo ocidental, científica e tecnológica; apesar de ser arcaico tem um sistema binário, onde seus 16 Omo-Odù consultam-se com os 16 Odù principais, totalizando assim, 256 combinações; igual ao conceito do computador de hoje. Em outras palavras, arrisco dizer, proibido, uma vez que é incompreensível e, foge ao nosso juízo racional.

 O sistema Ifá não se baseia no princípio da causalidade, e sim, num princípio que Carl Gustav Jung denominou de “princípio de sincronicidade”; pois existem manifestações paralelas e comuns entre si que não se relacionam absolutamente de modo causal. Tal conexão baseia-se essencialmente na simultaneidade de eventos. Ou seja, tudo o que acontece no Àiyé simultaneamente ocorre no Òrún, pois é lá a matriz espiritual do que se manifesta aqui. Longe de ser uma abstração, o tempo apresenta-se como continuidade concreta, contendo qualidades e condições básicas que se manifestam em locais diferentes com simultaneidade, num paralelismo que não se explica de forma causal. Sendo assim apresentado no conceito Yorubá de “doblê”, - o “assim na terra como no céu”, ocidental e cristão.


Se considerarmos a existência dos diagnósticos do oráculo Ifá corretos, estes sem dúvida, não se baseiam nas influências dos Odù, mas, nas hipotéticas qualidades-momento do tempo, que os representa. Ou seja, “o que nasce ou é criado num dado momento,  adquire as qualidades deste momento”. Jung. Esta é a fórmula básica do oráculo Ifá, através de Òrúnmìlá, ou, o èríndilogum, onde o patrono é Èsù.

 Èsù leva como mensageiro para Òrúnmìlá o problema, e, Òsun revela-o, através do quadro de Odù a solução, ao manifestá-lo na “caída” dos búzios.  Sabe-se que o conhecimento do Odù é o que reproduz a qualidade do momento e, que é obtido através da manipulação puramente causal do opelé ou dos búzios. Os búzios caem conforme se apresenta à “qualidade-momento doblé”. A qualidade oculta do momento é expressa e revelada através do signo símbolo do Odù Ifá, tornando-se então legível através do seu Ìtán, - estória arquetípica, que nos mostra o caminho e a solução, através da sua mensagem metafórica e, do ritual propiciatório, -  ebo.

O nascimento de uma situação corresponde à configuração dos búzios caídos, o signo-símbolo-odù e, a qualidade-momento ao ìtàn, - conto mítico que o apresenta como um caminho indicado pelo Odù Ifá. Esse legado oracular que hoje em dia é usado pelas tradicionais casas, é denominado “Sistema Bámgbósé”.

 Todavia, essa sabedoria fica imobilizada sem o “princípio dinâmico” - Èsù, o filho mais irreverente e poderoso do panteão africano, pois nada pode existir sem a sua participação e colaboração, o que é óbvio. Além disso, para nós ocidentais, tão racionalistas, é necessário ter fé para aceitar os desígnios de um oráculo, ou de um sonho com uma mensagem arquetípica.

 Para elucidar melhor o conceito de sincronicidade acima descrito, darei como exemplo a estória que Shree Braghavan Rascheneesh – Osho, nos relata em um dos seus livros.

 “Havia um rabino chamado Eisik filho do rabino Yekel, da cidade de Cracóvia”.

  Assim começa o relato:


 O rabino Eisik era um homem muito pobre e, há três dias, estava tendo um sonho que relatava para ele haver na cidade de Praga, um tesouro enterrado embaixo de uma ponte que liga a cidade ao castelo do rei. Eisik resolveu então viajar durante três dias e três noites até a referida capital. Lá chegando, descobriu que a ponte que dava acesso ao castelo era bem guardada pelos guardas do rei. Dia e noite, estava ele rondando a ponte para ver a possibilidade de descer até as suas bases e cavar. Seis dias se passaram, no sétimo, foi repentinamente abordado pelo capitão da guarda local, que já o observava há dias. O capitão, dirigindo-se a ele gentilmente, perguntou-lhe se esperava alguém ou se procurava alguma coisa ali, naquele lugar.

Eisik contou-lhe o sonho que tivera há seis dias. O capitão riu-se dele, dizendo: amigo, você ainda acredita em sonhos, a ponto de gastar os seus sapatos e ter que viajar uma distância tão longa, só para ver se o seu sonho é verdadeiro?   Imagine, pois eu tive a mesma experiência que você, há seis dias. Sonhei que havia um tesouro enterrado em baixo de um fogão na casa de um rabino chamado Eisik, filho de Yekel da cidade de Cracóvia. Agora, observe bem, disse sorrindo, se eu acreditasse em sonhos, teria que ir até Cracóvia, onde a metade dos judeus chama-se Eisik e a outra metade Yekel.
O rabino Eisik ao ouvir o capitão da guarda, agradeceu fazendo uma reverência, saindo de volta à sua casa na cidade de Cracóvia.

Três dias depois, cansado da viagem, cavou em baixo do seu fogão e achou então o seu tesouro enterrado. Construiu então uma bela casa de orações com o nome: “O Shul do rabino Eisik”.

Ambos tiveram o mesmo sonho arquetípico, porém um só acreditou e partiu para a sua realização. O presságio foi o mesmo, a diferença quem fez foi à fé. O mesmo se dá quando um quadro de Odù se configura numa caída e um ebo é estabelecido; precisamos agir sem demora, doravante.

Bem, voltando ao nosso Ìtán:  Diz o mito Yorubá, que Òlórun não estava satisfeito com tanta perfeição à sua volta, tudo era eterno no seu mundo inconsciente e, com isso, a ociosidade era reinante. Algo precisava ser feito urgentemente para reverter esse quadro. Foi quando teve uma grande idéia, que seria sem dúvida alguma, o fim daquela situação. Cogitou então, criar um mundo diferente do seu, mas, que fosse também uma extensão deste. Seria habitado por seres mortais, passíveis de erros e com níveis de discernimento diferentes. Iria criar um mundo consciente, manifesto e cíclico, -  algo bem dinâmico!

 Convoca Òlórun, para esclarecer detalhes e estabelecer critérios, os Òrìsà e Èbora no seu projeto, pois, cada um deles possuía uma característica sua, assim como, um atributo e um princípio seu.

 Segundo o conto mítico, Òlórun  escolheu então Obàtálà, seu filho mais velho, que significa: “o rei da pureza ética”, que reunia seu princípio ativo-masculino e criativo, assim como, o princípio passivo-feminino Odùdúwà, sua contraparte e “irmão”. Possuía, ele, Obàtálà, uma natureza andrógina por excelência, pois continha essa “fusão” do estado primordial. Reservou-lhe então Òlórun, por suas qualidades intrínsecas, a grande missão de criar um mundo manifesto e consciente, assim como, comandar todos os outros Òrìsà  nesta importante empreitada.

Observem que doravante nem sempre tudo caminhará às mil maravilhas, é compreensível; especialmente, se nós considerarmos a ancestralidade dos responsáveis por essa missão e, que os problemas que fundamentaram essa Criação já estavam nos planos de Òlórun:  a idéia de “livre arbítrio” e “estágios de evolução espiritual”.

Os Òrìsà possuem uma hierarquia maior que os Èbora, por serem princípios comuns a toda existência, o princípio criativo-masculino e, o princípio receptivo-feminino que, em maior ou menor grau, estão presentes em toda manifestação. São denominados “Òrìsà funfum”, por serem ligados ao branco e, nossos “pais celestiais”, pois personificam o estado original: masculino e feminino, no âmbito celeste, ou seja, no mundo das idéias e sentimentos; são, pois, a expressão de dois princípios primordiais, que se tornam unos quando justapostos.

Devo esclarecer que aqui, a justaposição, tem a ver com integralidade e totalidade, não com perfeição conceitual. Já os Èbora são os atributos presentes em toda manifestação, envolvendo assim, a qualidade da energia, a personalidade e o tipo físico. São os nossos “pais terrenos”. Ficando entendido, serem ambos considerados os nossos “genitores míticos”e terrenos.

Obàtálà, o mais velho, reunia em si todos os princípios necessários à missão de criar um mundo dinâmico chamado Aiyé e habitá-lo. Tinha ele a capacidade de “tornar visível” o conteúdo do mundo interior, dando-lhe forma, plasmando-o. Além de possuir os princípios masculino-criativo e feminino-receptivo, possuía também o Iwà, princípio de existência genérica, o Àse, princípio de realização, e o Àbá, princípio que induz um sentido, um objetivo e uma direção. Ele, Obàtálà, é a qualidade da configuração energética que antecede o contexto dinâmico de cada situação. O contexto dinâmico provém de Èsù, e sua configuração e  manifestação, de Odùdúwà. Um, idealiza, o outro germina e, o outro cria.

 Faltava a ele, entretanto, para concretizar a sua importante missão, considerar o princípio mais importante para que a Criação pudesse se tornar possível: Èsù Latopá, - o elemento catalisador,  que mobiliza, desenvolve, transforma, comunica, faz crescer e coloca todos os outros princípios manifestos em ação; sendo gerador de Èsù Sigidi, Èsù Baràbó e Èsù Yangi - protomatéria do Universo, responsável por todos os outros Èsù provenientes do “Big-Bang”. Por estar correlacionados, virem de uma mesma origem, e, a partir da explosão, separados; continuam co-relacionados entre si nas “nove moradas,” - como princípio dinâmico do Universo.

Òlórun, seu pai, reúne-os, e passa para ele Obàtálà, o àpò-Ìwà, “saco da existência”, que continha o material mítico e simbólico, necessário para a criação do Àiyé, a Terra e, dos Àra-aiyé; ou seja: de seus habitantes.

Nas suas precisas instruções, observou ao seu filho Obàtálà, serem necessários certos preceitos para a realização da grande missão; sendo o primeiro deles, a proibição de beber da seiva da palmeira do dendezeiro Iguí-òpe, chamado “vinho de palma”, que é o elemento-atributo e genitor da própria constituição de Obàtálà, que representa o “sangue branco” vegetal.

Veremos mais tarde, o porquê dessa proibição e suas conseqüências, quando não observada com a devida consideração. A segunda instrução é Obàtálà buscar os fundamentos necessários à Criação com Òrúnmìlá, o sacerdote, que detém o princípio do conhecimento, pois ele representa a “Vontade do Pai”, revelada através do sistema Ìfá.

 Logo após as recomendações do seu Pai, Obàtálà foi à procura de Òrúnmìlà Bàbá Ifá para saber os desígnios da sua missão, mas, ao passar por Odùdúwà, seu “irmão”, não lhe deu a menor atenção, ignorando-o. Ele sentindo a sua indiferença, avisou a Obàtalà que só o acompanharia após ele realizar suas obrigações rituais a Èsù, conforme o que o oráculo Ifá estabelecesse.

Aqui, Obàtálà ao tomar consciência de sua importância e da sua importante missão, torna-se soberbo e vaidoso. Sua avaliação agora é apenas intelectual, desconsiderando a sua contraparte feminina,  sentimental e emocional em Odùdúwà.

Precisamos saber que, em Obàtálà, sua contraparte, - sua alma, precisa de um momento de consideração, reconhecimento, recolhimento e avaliação interna, isto é, contatando-se internamente, verificando os seus verdadeiros desejos, e sentimentos. Ou seja, Obàtálà precisava naquele momento considerar e resgatar a sua polaridade feminina, tão importante para que a sua missão desse certo. Assim, perderia a angústia de estar separado de si mesmo, tornando-se assim, silencioso, meditativo, consciente do seu rico interior e aberto à vida.

Obàtálà é inteiramente Criativo, enquanto o rumo do destino natural se encaminha para sua meia-noite, as suas forças ativas e criativas insistem em permanecer despertas, entretanto. A luta com Odùdúwà  representa o destino de mutações inevitáveis, e, o consciente do ego de Obàtálà tende a permanecer “vivo e definido” apesar das circunstâncias...

              Depois de muito tempo destinado aos preparativos da consulta ao oráculo Ifá, Òrúnmìlá abre a “mesa de jogo” com o signo Odù-Ifá responsável pela qualidade-momento daquela missão, - Éjì Ogbè, o Odù da vida, que simboliza o princípio masculino, rege o sol, o dia e a abóbada celeste. Foi aquele que recebeu a incumbência de administrar uma parte do Universo, o Oriente. É responsável pelo movimento de rotação da Terra. Ele controla os rios, as chuvas e os mares, a cabeça humana e as dos animais, o pássaro Iekèleké  consagrado a Òsàlá, o elefante, o cão, a árvore Irôko e as montanhas. A Terra e o Mar pertencem a este signo; assim como todas as coisas brancas pertencem a ele. Rege o sistema respiratório e tem também, sob suas ordens, a coluna vertebral, todos os vasos sangüineos, apezar do sangue pertencer a Osá Mejì.

Para que tudo desse certo, segundo o oráculo Ifá, Obàtálà deveria fazer um sacrifício-oferenda a Èsù Elègbára, o  princípio dinâmico que faltava e que era necessário à missão da Gênese.

Tudo parecia favorável, caso o consulente Obàtálà tivesse considerado a recomendação do sacerdote, fazendo a oferenda recomendada a Èsù Elègbára, “Senhor do Poder do Corpo”, filho de Òrúnmìlà e Yebìru e, companheiro inseparável de Ògún.

Ao ouvir a recomendação do seu sacerdote, Obàtálà ficou indignado! Ter que fazer oferendas sagradas para Èsù era para ele uma humilhação. Não via a menor necessidade de fazer os sacrifícios propiciatórios recomendados para que a sua missão tivesse êxito. Era como se tivesse que renunciar aos seus poderes e direitos, e agora, tivesse de reconhecer os dele.
 Ora, Èsù é o princípio da existência diferenciada, em conseqüência de sua função de elemento dinâmico e catalisador, que o leva a propulsionar, desenvolver, mobilizar, crescer, transformar e comunicar; tudo o que era necessário à Criação de um mundo manifesto e cíclico,  segundo a “Vontade de Òlórun”.

De acordo com o mito, Òrúnmìlà ou Adjàgunalé, seu conselheiro,  o  advertiu dizendo que o oráculo não se equivocava e, que cabia agora a ele, Obàtálà, cumprir o veredicto, ou manter a postura precipitada que tinha tomado, arcando naturalmente com as conseqüências...

 Ora, sabemos que o ritual é nosso instrumento para fazer uma síntese das polaridades da realidade humana. É a arte que consegue unir nossas duas metades. O espiritual precisa ser unido à nossa natureza terrena mítica e ancestral. O espírito masculino que está tão abstraído na teoria precisa ser ancorado na feminina alma terrena, para poder se manifestar e tornar sagrado o que é sagrado.

Quem poderia imaginar que Obàtálà fosse ficar “inflado” e “cheio de si”, a ponto de não considerar a sua alma mítica, contraparte Odùduwà, e, ao não querer fazer as oferendas propiciatórias e sagradas a Èsù?

 Sabemos agora, de antemão, que Obàtálà criou dois problemas antes de partir: primeiro o de não ter levado em consideração a sua alma feminina, sua contraparte, a participar da sua missão numa posição de destaque, considerando-a sagrada e especial, para fazer germinar o seu poder criativo masculino. Como conseqüência, foi seduzido pela carência dela, pois ficou mal-humorado, sentindo-se desprestigiado ao ter que considerar Èsù. Em segundo lugar, isolou o ego em relação ao inconsciente ao não considerá-lo, pois, em cada ser, masculino ou feminino, este princípio dinâmico está presente, e sua função é de atuar como um “psicopompo”, - aquele que guia o ego ao mundo interior, e que serve de mensageiro e mediador entre o inconsciente e o ego.

Esse isolamento do inconsciente é sinônimo do isolamento da sua alma “irmã” Odùdúwà, da vida do espírito. Deveria saber, que qualquer elemento seu interior, deve ser reconhecido, honrado e vivenciado em um nível apropriado. Sentia-se supervalorizado com a escolha feita por seu Pai entre os demais, o que já é uma “possessão” psicológica perigosa.

 Quando agimos com um único lado da nossa polaridade, enveredamos pelo caminho errado. Para gerarmos um ato criativo psicologicamente saudável e produtivo temos que solicitar a aprovação dos opostos. A cabeça precisa do consentimento do coração, o ego do Self, o espiritual do físico, a anima do animus. Atos desequilibrados trazem sempre desastre em seu rastro, como conseqüência.

Temos sempre que enfrentar problemas como este, focalizando a nossa energia psicológica através de um ritual, um trabalho interior ritualizado. Como não conhecemos o problema, ainda conscientemente, precisamos personificá-lo no símbolo materialmente, trazendo à mente as imagens e conversando com elas com seriedade.

Personificar o problema é, através do ritual da consulta ao oráculo, procurar no Odù com o seu signo, o ìtan, e, o seu caminho - esè, que vai representá-lo no símbolo; procurando saber quem são, e o que querem, deixando fluir os sentimentos ao conversar com essas personalidades interiores. Depois, faça o ritual de oferenda: Ofereça um sacrifício à causa do problema, à pretensão, à depressão, ou a qualquer ideal.  Isso, ritualmente, é o que Obàtálà deveria ter feito: “Despachar Èsù”.  Isto é, dar atendimento prioritário e consciente ao ideal imaginado e desejado, através de um ritual físico e propiciatório, representado fisicamente no símbolo.

Em Josué 6, um texto bíblico do Antigo Testamento, esta experiência está explicita, quando Jhavé orienta ao fiel Josué a fazer um ritual sistemático, durante sete dias, para que as muralhas de Jericó viessem a ruir e, ela ser tomada de assalto. Só, que dentro dessa muralha havia uma prostituta de nome Raabe que não poderia ser morta, pois ajudara aos mensageiros de Josué.

 Como podemos ver, Deus nos recomenda dar voltas em torno do problema, consultar nossas personalidades interiores pedindo sua ajuda, sem preconceitos morais, até aparecer uma solução, ao invés de ficarmos dando voltas em torno de Deus porque temos um problema...


 Obàtálà é “o hermafrodita dos tempos imemoriais”. Podemos assim definir esse ser a partir da criação dos seres. Como um símbolo da energia psíquico-primitiva e indiferenciada, tão logo essa energia assume uma identidade egótica e começa a criar o seu próprio mundo.

O ego vem do seu “background” psíquico anterior mais amplo, sua alma, manifesta em  Odùdúwà, princípio feminino, mas, logo se volta contra o seu “irmão” e, arrogantemente, declara a sua independência em relação ao mistério inconsciente do qual ele surgiu.  É agora um “ego alienado”, definido pelo seu próprio sentido de identidade. Essa entidade psíquica afasta-se da sabedoria de Odùdúwà, que representa a sua alma feminina contida no inconsciente, e, se declara criador e regente por direito, de forma unilateral. Ele é o seu pólo oposto, um princípio receptivo, é a disposição de se deixar conduzir, de esperar o momento certo, a forma adequada para poder reagir ao impulso do seu “irmão” Obàtálà. Com ele, as coisas possuem uma forma e um espaço para acontecerem.

 Ele é a voz interior de Obàtálà que dá a forma digna de confiança: quando, onde, e como ele deve agir. Ele não separa nem avalia, que nem seu “irmão” Obàtálà, porém sabe que só com a união dos dois, resulta no todo, que é a “Vontade do Pai” revelada.

 Sabemos, entretanto, que Obàtálà não teve a menor consideração com esse importantíssimo detalhe...

 Um psicólogo junguiano chamado Edward Edinger descreve assim esse fenômeno: “Todo tipo de motivação, de poder, é sintoma de inflação. Sempre que alguém age movido pelo poder, a onipotência está implícita; mas a onipotência é um atributo apenas de Deus”. A rigidez intelectual que tenta equacionar sua própria verdade ou opinião com a verdade universal, também é inflação. É a presunção de onisciência... “Todo desejo que dê à sua própria satisfação, um valor central que transcende os limites da realidade do ego e, em conseqüência, assume os atributos dos poderes transpessoais”.

 Obàtálà não desejava partilhar com ninguém esse direito e essa escolha, reduzindo-se ao não se integrar à sua contraparte Odùdúwá, através de Èsù. Com isso, perde a sua unidade original encontrando em si só unilateralidade, em vez de clareza.  Sem saber, mata a sua última oportunidade de realização; pois ao lutar contra Èsù, que aqui representa o seu instinto de preservação e mobilização acaba transportando uma quantidade maior dessa energia para si próprio, como ego.

Deveria saber que esse ego tem que estar a serviço do seu Pai, seu Eu Superior -  Olódùmaré, e que não devia reprimir Èsù, pois, assim ele se tornará agressivo e descontrolado, passando agora a ser sua “sombra”, - por ser o lado negado e negligenciado.

 Ao desconsiderar sua alma Odùdúwà, Obàtálà usou apenas o intelecto, pois, pensou sobre a importância que passara a ter, fez uma apreciação intelectual a respeito, não considerando a falta de um sentido de julgamento, não sendo então conferido por ele Obàtálà, um valor real.  Com isso, não houve um envolvimento total em si.  

Sabe-se, que o ato de pensar é bem diferente do de sentir, que é dar valor a um sentimento. Não soube manter um relacionamento satisfatório com sua alma, Odùdúwà, com os seus sentimentos; tanto que, segundo o conto mítico, Odùdúwà queixa-se com o seu pai Olódùmaré por não ter dado a ele uma participação honrosa na presente missão.  Acredito que tenha sido proposital.

Caso Obàtálà tivesse feito a oferenda a Èsù, teria usado esse poder masculino para abrir caminho no mundo adulto, tornando-se vitorioso, fazendo-o forte o suficiente para não  ser vencido pela ira e pela arrogância. Agora, tudo o que Obàtálà deixou acontecer interiormente, acontecerá  exteriormente, em contrapartida a essa sua atitude de carência e arrogância.

O que o mito nos mostra é que, tanto a genialidade quanto a criatividade, são manifestações da sua alma, Odùdúwà, que lhe dá a capacidade de “dar a luz”. A sua masculinidade permitir-lhe-á propiciar apenas a forma ao que faz nascer de si, no mundo exterior e manifesto.
Obstinado, Obàtálà resolveu assim mesmo, preparar a comitiva de Òrìsà-funfum para essa jornada; como se fosse um jovem que descobre e impõe a sua masculinidade a qualquer preço.

 Orùnmílà já sabia o que iria acontecer, pois conhecia o poder do seu filho Èsù Elégbàra, assim como, sabia que não podia intervir naquilo que Olódùmàré, seu pai, chamava de “livre arbítrio” e “estágios de evolução”.
Segundo o nosso ìtàn, Obàtálà “salvou o jogo”, isto é: retribuiu com um pagamento o que recebera como aviso e presságio para a realização da sua missão, sem dar consideração alguma às recomendações recebidas, saindo imediatamente para preparar e reunir a sua comitiva, pois tinha ele muitas tarefas para cuidar...

 O caminho, Òna-Òrún, era longo, árido e desconhecido dele, como não podia deixar de ser, o sol era inclemente...  O Odù Éjì Ogbè tem o sol como regente principal,  logo, sabe-se o que se podia esperar...

Os Òrìsà não estão acostumados ao sol e ao calor, e tinham no seu comando, o teimoso Obàtálà, que os liderava com todo o afã. Todos, já não aguentavam com tanto sol, calor e sede e, já pensavam em desistir em virtude de tanto sofrimento e desconforto.

Èsù, enquanto isso, já tramava uma retaliação, pois o momento se apresentava o mais propício possível para pôr em prática o plano que bolara com Odùdúwà.

 Pegou o seu cajado chamado ogo,  que tinha o poder de bi-locação, e colocou-o a girar acima da sua cabeça, com a finalidade de colocar-se à frente da comitiva de Obàtálà. Isso foi logo realizado, para que no passo seguinte, fôsse criar uma frondosa palmeira chamada Igí-òpe,  uma qualidade de dendezeiro bem frondoso e bonito.

 A estratégia de Èsù era chamar a atenção de Obàtálà de que havia um oásis, e, como consequência natural, a água estaria presente para matar a sede dos Òrìsà-fumfum.

 Dito e feito, logo Obàtálà o avistou e, tratou de correr com o grupo naquela direção. Só que ao chegar ao local, percebeu que estava enganado, pois não havia o menor indício de água naquele lugar, tudo não passara de uma projeção sua, uma “miragem”, já que estava obstinado e desesperado de sede.

 Irado e frustrado, não pensou duas vezes, cravou o seu cajado, opàòsùn, com toda a sua força no tronco da palmeira, quando aí percebeu que logo correu um líquido incolor pelo furo que fizera. Pegou a sua cabaça, e começou a aparar o precioso e oportuno líquido, tratando de beber até aplacar a sua sede. Acabara de cometer o segundo desatino, que tanto seu Pai recomendara evitar.

 Sabe-se que esse líquido tem grande poder alcoólico e efeito imediato. É uma bebida chamada emù, um vinho de palma muito forte, que fora proibido por seu Pai de ser ingerido como recomendação, antes de iniciar a jornada, pois representa um atributo da sua própria constituição, ou seja, estava proibido de “beber de si”, ficar “ensimesmado”, ou cheio de si.

 Obàtálà estava agora “embriagado” completamente e, impossibilitado de prosseguir viagem, inviabilizando assim, a sua missão.

Tentou, mas foi logo vencido por aquela “embriaguês”, deitando-se em total abandono e sono profundo.  Todos, no começo, tentaram em vão acordá-lo, mas a “carraspana” foi daquelas...

Logo, os seus seguidores começaram a regressar, deixando-o só e caído. Ao seu lado, o precioso “saco da existência” jazia caído e abandonado.

Odùdúwà vendo àquela cena ridícula que ele e Èsù provocaram, aproveitou para pegar o “saco da existência” e retornar ao Òrún. Estavam agora vingados da desconsideração infligida por Obàtálà.

 Note-se, que há muito que se aprender com o Igí-òpe, “árvore do conhecimento”, símbolo da Gênese Nagô Yorubá:

 Na busca de realização e, vivenciando uma experiência nova, Obátálà prova algo da sua natureza ingênua no seu íntimo, sendo seu processo de conscientização e, caminho de encontro consigo mesmo, depois da sua “queda”. Ao ser, no entanto impossibilitado por ele, cai embriagado; como conseqüência, - conscientizou-se.

 Quebrou a unidade primordial da sua inconsciência original. Como Adão, no Jardim do Éden, aprendeu a se ver como unidade distinta dos demais, e do mundo à sua volta.

 Agora, aprenderá a dividir o mundo em categorias e a classificá-lo. Dessa forma, chegou a um sentido de si próprio como indivíduo desgarrado do rebanho.

 Mas, ao ter provado do emù, saciado a sua sede e provado o seu sabor, jamais esquecerá essa experiência, que mais tarde será a sua redenção; mas, que a princípio causou-lhe um impedimento e uma humilhação. O primeiro lampejo ao acordar, será uma tomada de consciência sob forma de “queda” e de perda. Mas, se assim não fosse, como conseguiria ter consciência? 

A viagem desse nosso herói é o padrão arquetípico de um proceder, que foi tecido e engendrado com essas imagens primordiais e, que foi herdado por nós.
 Interessante é notar que Obàtálà não começa como um ser dotado de toda a sabedoria, porém, ele amadurecerá e tomará na sua volta uma postura simples e modesta, entretanto sábia. É o processo de crescimento e conscientização.

 A princípio é um tolo ingênuo, que tenta o novo sem considerações, pois tem como objetivo a alegria de viver, de juntar experiências... Com isso corre o risco de agregar mal entendidos por sua insensatez...
Obàtálà terá agora que vivenciar um processo, -  a evolução da inconsciência pura e ingênua, à total consciência de si mesmo, - o “cair em si”.

 Potencialmente tudo isso foi necessário, segundo a “Vontade do Pai” Olódùmaré, para o desenvolvimento dos três estágios psicológicos do homem que Obàtálà iria criar: agora, tinha de passar da perfeição inconsciente que antes se encontrava,  de “ovelha arrebanhada”, inocente e pura, para a imperfeição consciente que agora se encontra.

 Mais tarde, Obàtálà irá atingir a perfeição consciente, indo ao encontro do seu Pai para servi-lo, resgatando assim a sua unidade. “Eu e o Pai somos Um”!... Caminhou da plenitude da pureza do mundo interior e exterior, ainda unidos, para um estágio em que se dá a separação desses dois mundos, denotando aí a dualidade da vida; para depois, encontrar-se e atingir a iluminação, que nada mais é, que uma síntese harmoniosa do exterior com o interior. É o que os meus ilustres amigos cristãos chamam de “caminho da consciência Crística” e, é o que os meus amados mestres taoístas chamam de “caminho do Tao”.

Infelizmente a sociedade ocidental não entendeu a mensagem de Jesus, pois  alcançamos um ponto no qual tentamos prosseguir sem o menor reconhecimento da vida interior, a nossa alma. Há um exemplo Bíblico em que Pedro, juntamente com os outros discípulos, após a ceia, reuniu-se com Jesus, pois o mestre pretendia orientá-los sobre a forma como deveriam dar a “boa nova”. Dizia ele, que ao falarem aos outros, em seu nome, deveriam ser “o menor de todos”, ou seja, - humildes! Pedro, de pronto concordou com ele; porém, o mestre que conhecia a Pedro, apanhou uma vasilha, colocou água e foi lavar os seus pés. Pedro ao ver aquela atitude de Jesus, afastou com rapidez o pé para que o seu rabi não se humilhasse diante dele. Jesus chamou  sua atenção a respeito do que acabara de orientá-lo, pois, apesar de concordar intelectualmente com o seu mestre, não tinha na sua alma a mesma concordância. Tornara-se apenas conceitual a sua apreciação...

Agimos como Obàtálà no início da sua jornada, como se não houvesse o reino da alma, a sua “anima”, na “morada do Pai”, o inconsciente. Como se pudéssemos viver vidas completas, fixando-nos totalmente no mundo exterior, conceitual, material, intelectual e doutrinário apenas. Deveríamos discernir melhor quando Ele nos diz: “meu reino não é desse mundo”. Acabaremos por descobrir que o mundo interior é uma realidade e que teremos de enfrentá-lo, apesar de tardiamente, no “final dos tempos”, ou quem sabe,  quando Ele voltar... Se é que prá alguns, já voltou!...

Não sabemos ainda o suficiente. O isolamento do inconsciente é sinônimo do  isolamento da alma e morada do espírito. 

 A perda da nossa verdadeira vida religiosa é resultado dessa separação. Com isso, o mundo, que aí está é o testemunho visível das neuroses e dos conflitos interiores que não pode ser harmonizado apenas com o intelecto.
Aqui estamos testemunhando através da mitologia Yorubá, o primeiro desenvolvimento desse estágio, o primeiro passo do ser ao sair do “Éden espiritual” e entrar no mundo da dualidade.

 Obàtálà, aqui começa a ser agora alguém por si próprio ao ter que assumir essa conscientização, terá agora que superar a sua queda, sofrimento e alienação. Observe que aqui, antes da fundação do mundo, houve um sacrifício, e que Obàtálà foi a “oferenda de sacrifício” para que o processo da Criação pudesse vir a se estabelecer.

 O processo aqui não se completou, está longe de ser completado; seu relacionamento com o grupo, agora está destruído e ele ainda não se tornou um indivíduo para que possa relacionar-se bem com a vida. Sente-se só, culpado e alienado a princípio,  e é essa alienação que exprime bem essa situação. Ele não considerou as advertências do oráculo Ifá, através de Òrúnmìlà, sacerdote de Olòdùmaré.  Obàtálà usou sua contra parte, Odùduwà, sua “Anima”, na forma de “maus humores,” queixosa, vaidosa e orgulhosa. Enfrentou também Èsù, de forma sombria, agressiva e arrogante, que para ser dominado, precisa primeiro ser reconhecido e considerado e, aí sim, controlado. Foi derrotado por Èsù, psicologicamente no seu interior.

 Agora, ao acordar com o seu ego prostrado, descobrirá que foi vencido por Èsù e Odùdúwà para a sua surpresa... Não devia tê-los reprimido e desconsiderado. Já que o “leite foi derramado”, agora não adianta queixar-se; terá agora que tornar o seu ego forte o bastante para não ser vencido pela ira, arrogância e mau humor.

 Os mestres taoístas chineses recomendam-nos que, ao invés de tentar matar essa virtude energética, deveríamos acrescentá-la ao ego de forma criativa, para a realização dos nossos objetivos. Interessante é que a religião Yorubá também adota, de forma simbólica, esse mesmo princípio, ao “despachar Èsù”, em primeiro lugar, dando adimù aos nossos ideais.  
                                                                                                                                       
 Com o “saco da existência” às costas, Odùdúwà sabe que parte da sua trama com Èsù tinha se concretizado; afinal, algo precisava ser feito para equilibrar o “inflado” ego de Obàtálà.

 Tinha como desculpa, a negligência e a desconsideração às determinações dadas por Òrúnmìlà, através do sistema Ifá.  A lei precisava se cumprir e ele Odùdúwà,  dela fazia parte.

Olódùmaré, então parte para a segunda fase da sua idéia: chama Odùdúwà, para que dê prosseguimento à missão que dera a Obàtálà, e, manda reunir o seu grupo, que era composto de Èbora, o mais rápido possível.

Odùdúwà pede permissão para consultar Ifá antes de partir com o grupo, pois ele precisava saber qual a égide do Odù-Ifá, responsável pela sua missão.

Òrúnmìlà, - Elérìí ìpìn – testemunha dos destinos, fez os orôs de abertura e joga o opelê sobre a esteira, – Oyèku Méjì!  Odù-Ìfá ligado à Morte, à noite, e ao ponto cardeal oeste, o poente. É a contraparte complementar do primeiro signo Odù-Ifá, Éjì-Ogbè. É o ocidente, a morte, o fim de um ciclo, o esgotamento de todas as possibilidades.

Já que as trevas existiam antes que fosse criada a luz, é considerado mais velho que Éjì-Ogbè, perdendo, porém o lugar para este, passando então a ser sua complementação. Oyèku Méjì introduziu a morte, dependendo dele o chamamento das almas. É quem comanda e participa dos rituais fúnebres. É quem comanda a abóbada celeste durante a noite e o crepúsculo. Tem uma influência direta sobre a agricultura e a terra em oposição a Éjì-Ogbè, que comanda o céu.

 Òrúnmìlà joga ainda duas vezes mais e alegremente revela a Odùdúwà que o caminho que o Odù o conduz, é o mesmo de Ikù,  o Òrìsà da Morte, ou seja, ele iria criar um mundo material, perecível e cíclico. Aonde, tudo o que vier a existir terá corpos materiais, com maior ou menor densidade, porém feitos da mesma essência. A Ìkù caberá o rito de passagem, de devolver a terra os corpos antes animados pelo Espírito do Pai, o Ipòrí.

Recomendou ainda, que ele vestisse roupas negras, em consideração a Ìkù e ao Àiyé, o mundo manifesto que ele iria criar.  Deu conhecimento a Odùdúwà para que sua missão chegasse a um bom termo, deveria ele dar uma oferenda a Èsù Elégbára.

 Depois de prescrito o ébò, Odùdúwà saudou o sacerdote Òrúnmìlà, e “salvou” a previsão do oráculo com 16 bùzios, como pagamento.

Quero aqui esclarecer, que Odùdúwà ao ouvir as considerações do oráculo Ifá, não acredita literalmente nos textos, porém, sente o verdadeiro sentido por traz de tudo o que é dito.  Em outro livro famoso a história se repete:  

Assim como Maria, mãe de Jesus, que ao avisar ao filho que o vinho acabara, ouve o seu amado filho dizer: “Mulher, que tenho eu contigo? 


Ainda não chegou minha hora”. Sua mãe, porém diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Ela é a fonte da inspiração profunda, que brota mais viva, quando decresce a consciência cheia de critérios, por isso, não considera e nem dá ouvidos ao seu conceito racionalista naquele momento. Quem sabe como ela no íntimo, - “faz a hora...”


 O que se seguiu, nós já sabemos... O primeiro milagre realizou-se. Ele, não interferiu, cumprindo assim o seu destino, escolhido por seu Pai, realizado de início com a ajuda de sua mãe. Assim, concluo que não é possível libertar-se do destino através das energias do destino.

Sob as bênçãos de Òlórun, Odùdúwà chama Èsù para partilhar de tudo,  juntamente com Ógun, conhecedor dos caminhos, o grande Asiwajù e Olùlonà  “aquele que está na vanguarda e aquele que desbrava o caminho”. Sabia ela, que sem eles nada se consegue levar a cabo...

Segundo o mito, os Òrìsà e os Èbora ficaram escandalizados quando viram Odùdúwà vestido de preto, com vestes masculinas, chegar ao pátio para conduzi-los nessa grande missão.
 Quanta simbologia interessante a ser observada! A Criação começa no símbolo do renascimento, pois houve sacrifícios de “morte” antes...
 Os primeiros passos no caminho de crescimento, porém evocam fortes resistências do ego tirânico.

O desenvolvimento espiritual nunca ocorre sem uma luta gerada pela arrogância e desejo de poder do ego. Assim, quando Èsù, enviado por Odùduwà, esconde-se primeiro em Obàtalà, finalmente se separa dele e torna-se exterior, em forma de uma palmeira,  que o representa. É agora sua projeção egótica. Odùduwà, como uma “punção interior”, permanece como  instrutora e inspiração em Obàtálà...

 Uma analogia psicológica aparece na importância do valor da alma,  não apenas, enquanto reconhecida dentro da psiquê masculina de Obàtálà, mas também, quando projetada e aparecendo sobreposta em algo material, como a árvore Ìguí-òpe.  Ela não é física, é um ser etéreo e, ainda assim, suas pegadas poderão ser vistas, tanto na “queda” de Obàtálà, quanto na concepção do mundo manifesto, o Àiyé.  Ela tem substância, é o poder que dá ao mundo sagrado à matéria do símbolo. Ela tira o sagrado do nível da teoria, do abstrato e da figura de retórica. Ela o torna acessível no aqui-e-agora para ser tocado, sentido e vivenciado.

 O mundo de Obàtálà só se fará instantâneo e palpável através da experiência simbólica e sagrada, que antes ele rejeitara.

Algo é feito sagrado, não apenas porque o é em si mesmo, mas, também pela nossa atitude com relação a ele. Ao reconhecê-lo e tratá-lo como tal, incorporamos seu poder genitor e criativo.

 Esse Ìtàn maravilhoso nos mostra que a evolução do cosmo é feita de parceria entre Obàtálà e Odùdúwà, entre Deus e a humanidade, entre o espírito e a alma; o sagrado sempre está presente, o mais próximo possível, mas ele só tem o poder de dar significado e valor a nossa vida, quando nos inclinamos humildemente com reverência e respeito.

O mistério revelado é a nossa consciência, o nosso ato de reconhecimento; pois, ele tem o poder de fazer com que as coisas sejam o que são e, de tornar sagrado o que é sagrado.

 A maioria das pessoas no mundo ocidental moderno aprendeu desde criança que nada é sagrado, nada merece ser reverenciado, que tudo pode ser reduzido à posse física, sexual, intelectualizada e conceitual. Resta-me perguntar à essas pessoas: Como é possível construir a imortalidade da alma através das referências de um corpo mortal?

Os pensamentos de Obàtálà foram considerados “pecados” pelo pai Òlórun, porque ele foi posto frente a frente com o que é espiritual, sagrado, transpessoal, e, tentou tratá-lo como se fosse algo conceitual, racional, físico e pessoal. Tentou reduzir Odùdúwà e Èsù a um acessório para o mundo do seu ego “inflado”. Agora ele irá gastar tempo e energia aprendendo a vivenciar suas “personalidades interiores”, que se manifestam por rituais simbólicos, como realidades interiores dele mesmo.
 Vejamos agora, Obàtálà com o seu lado masculino e criativo, perde a oportunidade de começar o processo da Criação, cedendo o lugar ao princípio feminino e irmão, Odùdúwà.

 O signo Odù-Ifà, Éjì-Ogbè, símbolo da vida,  dá lugar a Oyèkù-Méjì, símbolo da morte, para que a Criação possa ter início.  É a transformação do ego, que ao penetrar no reino do inconsciente, encontra-se com a alma e se integra a ela, desistindo do seu minúsculo domínio, para viver na vastidão de um império muito maior. E a “morte” do ego.

 Observe, que desde os tempos primordiais, a morte foi concebida como um “visto de saída” da dimensão limitada do tempo e espaço, para um universo ilimitado e imensurável do espírito na eternidade. Esta “liberação” do físico é para o inconsciente um símbolo mais sutil: a liberação do ego dos limites do seu mundo pequeno e dos seus pontos de vista mesquinhos, para um universo interior livre e ilimitado.

 Sem as visões restritas do ego, que a associa com o fim, a morte é um símbolo de transformações.

 A Morte aqui simboliza um limiar. Ela representa mudança profunda, graças ao fato da consciência não mais ser dominada por um ego carente e sedento de poder.
O eu agora se torna humilde e entrega a direção a uma instância superior, “o Si mesmo” – Olódùmaré.

A única e verdadeira solução quem dá é Olódùmaré, com uma mudança de consciência e valores, - com a “morte do ego”, ou seja, com o sacrifício de Obàtálà, do seu velho ponto de vista, e, suas velhas atitudes enraizadas. Para nos libertar das energias kármicas da prisão do destino, não podemos ter uma consciência apoiada nas energias das polaridades, pois, todas essas referências são apoiadas sobre o corpo mortal e impermanente.

 Naturalmente o verdadeiro potencial criativo está na profundidade, no reino interior; naquele que Obàtálà não olhou antes e nem considerou. O que se encontra na superfície já foi assimilado pelo ego, agora, somente os conhecimentos intuitivos do reino inconsciente, evitado até o momento, romperão as estruturas existentes e possibilitarão novas perspectivas, novas esperanças e novos horizontes. Dentro da filosofia mística chinesa Taoísta: “O Tudo é Um, e o Zero é a mãe do Um. O grande desafio é transformar o Um em Zero; para isso, é necessário que se mergulhe no imenso mar do Absoluto, quando o Um deixará  de ser ele próprio e passará a ser o Zero que abraça o Um.”

“O Zero é o Absoluto; o Vazio é a mãe da Onipotência. Antes de tudo, o Zero já estava presente; depois de tudo, o Zero continuará presente.”

“O Um é a Onipotência, o pai de todas as coisas. Na existência humana, muitos buscam o encontro com esse pai do poder. Durante a existência de todas as coisas, o Zero e o Um coexistem não se chocando, mas se completando”. Que analogia interessante! Observe que semelhança entre Obàtálà e Odùdúwà, onde o elemento masculino e criativo precisa mergulhar no elemento feminino e receptivo para poder gerar a transformação síntese exigida, - o elemento procriado, - o Àiyé e os ara-àiyé.

 Por fim, Odùdúwà, Òrìsà funfum do branco, e, princípio feminino, tem que se vestir de homem e de preto para poder chefiar os Èbora, que passam agora à frente dos Òrìsà no processo da Criação.

O princípio feminino e receptivo Odùdúwà traz o sublime sucesso, propiciado através da perseverança devocional. Se ele empreender algo e tentar dirigir, se desviará; porém, se ele seguir o criativo Obàtálà, encontrará orientação.

 O branco agora está oculto no interior, representando o espírito imortal e genitor espiritual, o preto, representando a natureza manifesta no exterior, mortal e cíclica. A roupa masculina representa exteriormente Odùdúwà, o ser masculino manifesto, o agente imprescindível à Criação.

 A viagem do autoconhecimento não foi interrompida, apenas tomou uma direção diferente, o aprendizado agora será feito através das experiências vivenciadas no mundo manifesto.  Interessante essa mudança, pois, agora o caminho para a “Iluminação” não é mais pelas “nuvens”, pelas idéias ou ideais. Agora, terá que estar expresso na realidade simbólica da “encarnação”, através da consciência. E, essa “encarnação” nos fala do paradoxo de duas naturezas: divina e terrena.

Outro símbolo de renascimento aparece, quando Obàtálà fura a árvore Ìgí-òpe com o seu cajado, o òpáòsùn,  uma vara lisa, com apenas uns sininhos na sua extremidade, que representa os mundos ainda unidos, e que se transforma agora em outro símbolo mais complexo,  o òpà-sóró - cajado que é a representação simbólica de diferenciação entre o Òrún e o Àiyé  e, que estabelece os diferentes níveis de evolução entre estes dois mundos de existência.

 A sua extremidade agora é representada por um pombo branco, -  Obàtálà, elemento Criador, símbolo da manifestação do Espírito, que possui agora mais “três pratos” metálicos abaixo, espaçados entre si, que representam outros mundos habitados, com graus de densidade material e de evolução diferentes, “a casa do Pai tem muitas moradas...”. Representa também, morte e renascimento real, ritualístico e simbólico. A Terra, onde o cajado se apóia, é o quinto “prato”, tendo ainda, mais quatro abaixo dela, -  Òrún ìnsalè mérèèrin, com níveis ínferos de espiritualidade, onde habitam as Ìyá-mì e os Aparáokà. Totalizam-se assim nove Òrún,  Òrún méèèsán, ou seja, nove “moradas”.


Para nós ocidentais, o grande símbolo dessas duas naturezas em integração, é Jesus, o Cristo, pois nela é dito que Deus veio habitar o mundo físico e o redimiu, tornando-se humano.

Simbolicamente, representam que este mundo físico, este corpo físico e esta vida mundana que levamos na terra, também são sagrados. Significa que os demais seres humanos têm o seu próprio valor intrínseco: eles não estão aqui meramente para que possamos perceber refletida neles a nossa fantasia de um mundo mais perfeito, transportando assim as nossas projeções de alma.  

 Os mundos físicos, mundanos e comuns têm sua própria beleza, sua validade própria e suas leis para serem observadas. É o “daí a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus”.

 Acho uma “inflação” descomunal do ego humano, julgar a criação material de Deus, como sendo algo “caído” que possa ser “melhorado” a partir de nós mesmos.

 Agora, que a alma de Obàtálà está oportunamente reconsiderada, significa a personificação do seu mundo interior, portanto, tenho certeza que ela nos levará a uma jornada por esse mundo, pois é ela que expressa o reino mítico e terreno.

 Observem que os animais sacrificados a Obàtálà são sempre do sexo feminino,  e que a galinha d’angola é a representação síntese de Obàtálà e Odùdúwà, pois possui o branco e o preto em suas penas e, participou efetivamente da criação do Àiyé.

Os elementos signos-símbolo de oferenda estabelecida pelo oráculo a Èsù foram: cinco galinhas d’angola, com cinco dedos em cada pata, cinco pombos, um camaleão e uma corrente de 2.000 elos para Èsù, além de 200 caracóis igbim, que contêm “sangue branco”, a “água que apazigua” - omì-èrò, que seriam sacrificados aos pés de Olódùmaré.

Segundo o relato mítico, Odùdúwà fez as oferendas a Èsù, que então lhe devolveu uma galinha, uma pomba e o camaleão, retirando apenas um elo da corrente para usá-la como adorno. Recomendou então Èsù, que Odùdúwà soltasse os bichos na metade do caminho e, a levar consigo a corrente, pois todos seriam muito úteis na missão.

 Odùdúwà toma um banho de amací, ervas frescas, e vai ao encontro do seu pai Òlórun, levando os 200 caracóis igbin para serem sacrificados por determinação do Sistema Ifá, -  oráculo de Òrúnmìlà.

Feita a recomendação, seu pai Òlórun lhe devolve um igbin, abrindo o Àpére-odù, almofada na qual se sentava e coloca o restante dentro. Neste exato momento, descobre que havia uma pequena cabaça que continha o elemento terra, que estava faltando no “saco da existência”, - o àpò-Ìwà; entregando-o então a Odùdúwà, para que ele pudesse agora concretizar o  projeto de seu Pai.

Interessante notar que, no relato acima, Èsù, ao receber uma oferenda, restitui de tudo o que “comeu” para restabelecer a harmonia fecundante, fator de expansão, crescimento e transmissão do agbára -, força que se propaga de forma inesgotável, tendo como signo-símbolo o àdó-ìran, uma cabaça de pescoço bem longo. Este poder foi delegado a Èsù Elégbàra por seu pai Olódùmaré.

Essa é uma etapa importante, porque ajuda a integrar a experiência de Òlórun no inconsciente, na vida consciente e desperta de Obàtálá, através da sua alma “irmã” Odùdúwà. Foi chegada a hora de fazer alguma coisa física, – um ritual que traga para a realidade do cotidiano de forma poderosa, o significado da “Vontade do Pai”, que vive no inconsciente.

 O ritual é uma representação física do princípio dinâmico - Èsù, da mudança de atitude interior, que o inconsciente está solicitando. Este é o nível de mudança que está sendo requisitado por Olódùmarè. Èsù aconselha também Odùdúwà a não falar a ninguém sobre o desejo de seu pai Òlórun, e, sobre o ritual prescrito, ou seja, não é uma boa idéia revelarmos o nosso inconsciente e o ritual, pois o falar tende a pôr toda experiência por “água abaixo”, em um nível abstrato.

 Você acaba estragando tudo, pelo desejo de se apresentar sob melhor ângulo, em vez de uma experiência vivida e íntima, termina-se em um bate-papo amorfo e coletivo. Toda versão com intensão foge à verdade...

O ritual tira o entendimento do nível puramente abstrato do inconsciente e lhe confere uma realidade imediata e concreta, é uma forma de colocar o inconsciente e seus conteúdos, no aqui e agora da vida física, - no símbolo. 

São atos simbólicos que estabelecem uma conexão entre o consciente e o inconsciente e, ele nos fornecerá um meio de tirar os princípios do inconsciente e os imprimir à luz, na mente consciente. O princípio dinâmico Èsù é o veículo e mensageiro entre esses dois níveis.


Deveríamos sobrepujar os preconceitos culturais para melhor nos aproximarmos do inconsciente - Olódùmarè e respeitarmos os rituais, nos desligando de certos preconceitos arraigados e racionalistas.

 Acreditam algumas pessoas que os rituais nada mais são que remanescentes de um passado supersticioso, ou de crenças religiosas “profanas” ou fora de moda. Com isso, ficamos empobrecidos ao abandonarmos aquilo que nossos ancestrais tinham como parte natural de sua vida espiritual cotidiana.

O psicólogo junguiano Robert A. Johnson assim diz: “Nossa ânsia instintiva para o ritual expressivo permanece nos dias de hoje, mesmo tendo perdido o senso do seu papel psicológico e espiritual em nossa vida”.

Odùdúwà, então reuniu o grupo de Èbora liderados por Èsù, Ògún e Òsóòsì, que já conheciam o caminho para o Òrún Àkàsò, lugar onde Òlórum determinara para a criação do Àiyé, mundo manifesto. Juntamente com todos os outros Èbora: Òsáyìn, Omolu, Òsumàrè, Nana, Ìrókò, Òsun, Yèmájà, Yánsàn, Sàngó, Oba, Iyewa, Lógun Ède, Ibéji e Èegun Elébajò, dirigiu-se para o lugar onde havia um pilar de ligação, chamado Òpó-Òrúm-oún-Àiyè.

 Odùdúwà parou e viu que era exatamente ali o local indicado, onde, por Obra e Graça do seu Pai, tudo começaria...

Enquanto tudo isso ia tomando forma, Èsù e Òrúnmìlà conversavam sobre os grandes fundamentos que estavam por trás de todo aquele trabalho, que ora se realizava através de Odùdúwà.

 Òrúnmìlà fazia chegar ao conhecimento de Èsù, a qualidade dos dois signos-símbolo odús, que se apresentaram à mesa do oráculo, quando Odùdúwà foi se consultar. Dizia ele para Èsù, que logo após Oyèku Méjì ter apresentado os seus desígnios, jogara mais duas vezes, sendo que, o primeiro Odù a se apresentar fora Òdí Méjì, que corresponde à posição Norte dos pontos cardeais, representa o aprisionamento do espírito à matéria para que a vida possa se tornar manifesta e surgir no mundo o que estava sendo criado.

 Com isso, os Òrìsà teriam também que abdicar de viverem para sempre no Òrún. Agora, nesta primeira fase, viveriam de forma espiritual como ainda se encontram, mas que, após a conclusão dela, iriam também possuir um corpo material, denominado Arà, desta mesma matéria que Odùdúwà estava usando na confecção do mundo e, sujeitando-se às suas necessidades inerentes.

Explicava Òrúnmìlà a Èsù, que uma vez presos a corpos materiais, não havia meios de regressarem ao Òrún, a não ser que o seu tempo estivesse terminado no Àiyé. Explicou também, que os Òrìsà, por representarem uma força universal, seriam os genitores divinos, e, os Èbora, matéria de origem dos seres humanos, quando Iyá-nlá, a Terra acabasse de ser criada.  
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
Sobre o segundo Odù que se apresentou à mesa do jogo, - Ìwòrì Méjì:  representa o ponto cardeal Sul, fala dos caminhos do espírito, e é quem determina sua liberação do jugo da matéria, podendo o espírito agora voltar ao Òrún, desligando-se assim dos corpos que irão compor esses seres, chamados humanos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
Esses corpos, segundo o ìtàn, são quatro: físico, emocional, mental e espiritual, que é o Ìpònrí -, partícula divina e imortal que pertence ao pai Òlórun. E, que os outros corpos: Arà (corpo físico), Ojíjì (emocional), e por fim Émì (mental), criados em co-participação com a terra, através da lama, eerúpe - matéria prima que Ìku, o Òrìsà da Morte retirou para a confecção do ser humano, entregando-a a Olódùmarè, para que Òrìsàlà, Olúgama e Babá Ajálà, o modelem segundo: “à Nossa Imagem, conforme a Nossa Semelhança...” Depois então, sopraria o Seu “hálito divino”, o emì, sopro de Olódùmarè, -  o ar da vida.
Explicou ainda, o sábio sacerdote a Èsù: que todos terão um corpo que se chamará arà e, o  que daria vida a esse corpo seria o emì;  que a individualidade seria dada por orì, a cabeça, que a qualidade-momento do nascimento determinaria o odù.  Quando o ser humano morresse, eles retornariam à sua origem, - axexé. O corpo voltaria para Ìyá-nlá, donde foi tirado juntamente com o emocional, o ar, voltaria para a atmosfera, - sàmmó e, que Orì retornaria ao Oké ìpòrí, lugar de origem do seu asé individual, seu genitor divino, Òrìsà.  Orúnmìlà, conta também a Èsù, que esses primeiros seres, já anciãos, - àgbà, ao morrerem, seus espíritos passariam a ser Okú-Òrun, ancestrais, ou Irúnmalè-ancestre. Os seus descendentes-filhos, Irúnmalè-Omo ancestre, seriam chamados Éegun, explicando assim, o conceito de Àtúnwa, de muitas reencarnações, que retrata na verdade, a continuidade da vida através dos seus descendentes, ancestres familiares. Alguns desses Irúnmalè Omo-ancestres, égúns, depois de muitas vidas por diferentes corpos, se revoltariam e criariam uma “confraria” denominada Egbé Òrún Abiku, pois não estariam dispostos a passar provações espirituais aqui na terra, provocando assim a sua própria morte prematuramente. Èsù estava interessadíssimo com o relato feito pelo seu sacerdote, quando todos interromperam a conversa deles.
Acho importante, mais a frente, explicar melhor o conceito yorubá, atúnwà, pois existe uma grande confusão a respeito. Muito diferente de transmigração budista e reencarnação espírita Kardecista, ainda assim, é considerada semelhante, - o que é um grande engano.

                                                                                       J. Alfredo Bião