Pular para o conteúdo principal

Assim aqui como lá...

DESPEDIDAS

No adeus a Mandela, discurso e gestos de Obama chamam a atenção

Presidente dos EUA aperta a mão de Raúl Castro, cumprimento inédito entre mandatários dos dois países desde a Revolução Cubana de 1959
por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 10/12/2013 11:59
© EFE/KIM LUDBROOK
Obama_Raul_EFE_KimLudbrook.jpg
Barack Obama cumprimenta Raúl Castro, de Cuba, na chegada para a despedida oficial a Mandela
Para quem assistiu a primeira transmissão intercontinental, ao vivo, pela televisão, a dos funerais de Winston Churchill, em 1964, de Londres para os Estados Unidos, assistir a transmissão de alcance mundial dos funerais de Nelson Mandela – insistentemente chamado por seu apelido de Madiba – traz uma emoção de dimensões espaciais e temporais de alcance inusitado.
Primeiro, pela rotação de eixos, do hemisfério norte para o do sul. Segundo, também por uma rotação de eixos: o chamado “Norte” do mundo vem ao “Sul” em busca de um “norte” para si.
Assim li o discurso-estrela do funeral, em Soccer City, nas lindes de Soweto, na periferia de Jo’burg, como os sul-africanos chamam a sua cidade-maior, o discurso do presidente Obama. Obama está em cerrada campanha para recuperar sua imagem em nível mundial, corroída pelos desmandos da National Security Agency, de acordo com as denúncias mais que pertinentes de Edward Snowden.
Deve-se reconhecer que ele conseguiu marcar pontos. Além de ser o mais aplaudido dentre os presentes, Obama fez um discurso emocional e emocionado, de grande capacidade retórica (no bom sentido), reunindo em suas palavras o Mandela das ideias com o Mandela das ações, em nome de valores como resistência e capacidade de negociação, de manutenção de equilíbrio pessoal, durante 27 anos de encarceramento brutal, com ousadia política no momento de jogar a (re)construção de um novo país entre as ruínas – mas com forças de algemas – do apartheid.
Também marcou pontos ao se apresentar com um toque de humildade diante das lições de Mandela, incluindo-se entre os que devem se perguntar – resumindo – se estão fazendo tudo o que podem para combater a desigualdade, a discriminação, o preconceito e a injustiça.
Decididamente, Obama foi o “herói vivo” do dia – em todos os sentidos – este dia dedicado a prantear e fazer a celebração de um herói morto.
Nossa presidenta saiu-se bem, embora com o relativo azar de fazer um discurso corretamente protocolar (não lhe cabia fazer outra coisa na ocasião) logo depois do discurso carregado de magnetismo de Obama.
Um aspecto interessante de seu discurso foi que ela falou não apenas em nome do povo brasileiro, mas também se colocando como representante dos sentimentos de condolência dos “sul-americanos”.  Havia uma razão igualmente protocolar: ela foi a única autoridade sul-americana presente a fazer uso da palavra. Mas ao bom leitor meia-palavra não só basta, como sugere: a presidenta Dilma estava fazendo recurso a uma condição que mais e mais vem sendo reconhecida mundialmente. O Brasil, em que pese o rezingar da sua direita, vem ocupando esta posição de representatividade ao lado de uma condição de liderança diplomática que lhe é atribuída mundialmente, em relação aos países emergentes daquele “Sul” do mundo.

Pela paz?

No momento da chegada de Barack Obama em meio aos líderes convidados a falar, dois gestos de sua parte chamaram a atenção e mereceram comentários da mídia internacional presente. Na sequência, o  primeiro foi o aperto de mão com Raul Castro, o presidente de Cuba (que depois fez também um discurso de alta voltagem emocional, lembrando o papel de Cuba nas lutas de libertação da África, que, entre suas consequências, apressou o fim do apartheid na África do Sul).
Foi o primeiro gesto desta natureza desde a Revolução Cubana de 1959. A seguir, o segundo gesto que chamou a atenção foi seu beijo na bochecha de Dilma Rousseff, que pode ser interpretado como um  convite para “fumar o cachimbo da paz” depois dos desmandos de espionagem norte-americana em relação à presidenta.
Para finalizar, um reparo. Obama disse em seu discurso que com Mandela desaparecia o último “libertador” do século XX. Isto, para um latino-americano, passa por cima de Fidel Castro. Mas estender este elogio ao líder cubano seria demais para um presidente dos EUA. Contentemo-nos com o aperto de mão com Raul Castro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Herbie Hancock Quartet München 1991

O mito da caverna de Platão se aplica à hipnose midiática atual e a sua influência manipuladora nas massas carentes de uma temática própria.

O mito da caverna, de Platão O mito da caverna conta que alguns prisioneiros vivem, desde o nascimento, acorrentados numa caverna, passando todo o tempo a olhar para a parede do fundo da caverna, que é iluminada pela luz duma fogueira. Nesta parede aparecem as sombras de estátuas de pessoas, de animais, de plantas e de objetos, mostrando cenas e situações do dia-a-dia. Os prisioneiros dão nomes a essas sombras e ficam analisando e julgando as situações. Se um desses prisioneiros se desvencilhasse das correntes para explorar a caverna por dentro e o mundo por fora, conheceria a realidade e perceberia que passou a vida analisando e julgando apenas sombras, imagens projetadas por estátuas. Quando saísse da caverna e entrasse em contato com o mundo real, se encantaria com os seres de verdade, com a natureza real. Ao voltar para a caverna, ansioso pra passar o seu conhecimento adquirido fora da caverna para os outros prisioneiros, seria ridicularizado. Os prisioneiros que não conh...

Conferência aponta propostas para a elaboração do Plano Municipal de Saúde

Capacitação dos profissionais da Saúde, incentivar a participação social no Conselho Municipal e nas conferências, fomentar o diálogo entre os diversos setores do poder público, aproximar a relação com os usuários, ampliar as UBS (Unidade Básica de Saúde) a Estratégia de Saúde da Família, além de fortalecer a atenção básica. Essas foram algumas das propostas levantadas pelos grupos de trabalho durante a VI Conferência Municipal de Saúde de Casimiro de Abreu que aconteceu no dia 30, na Biblioteca Carlos Drummond de Andrade, em Barra de São João. No total, foram pontuadas quase 135 propostas que geraram um relatório. Este documento vai traçar as diretrizes para a elaboração do Plano Municipal de Saúde. Os participantes também elegeram os novos membros do Conselho Municipal de Saúde, que vão aturar pelos próximos quatro anos. Seguindo a campanha nacional, a VI Conferência Municipal de Saúde de Casimiro de Abreu teve como tema central a “Mobilização Nacional em Defesa do SUS e F...